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A Mordomia do Tempo

 

Segundo a opinião, bem fundamentada, do Professor Luiz Sayão, um mestre em estudos da cultura oriental, especialmente das culturas semíticas, em geral, e da hebraica, em particular, o que distingue o mundo ocidental do oriental, no que diz respeito ao entendimento e ao significado da vida, é a ênfase que cada um coloca nos conceitos de “espaço”, e de “tempo”, respetivamente.

Na cosmovisão ocidental, profundamente influenciada pela cultura e visão helénicas (gregas), o conceito de “espaço” tem prevalência sobre o do “tempo”. A vida é interpretada e avaliada, basicamente, na ótica da “dimensão das coisas”, na grandeza das coisas e na conquista do “espaço”. O mais importante, para a visão ocidental, é o que se pode ver e medir.

Contrariamente à perspetiva ocidental, a cosmovisão oriental é marcadamente condicionada pelo conceito de “tempo”, das sequências e dos momentos que vão marcando os ritmos da vida e de tudo o que a envolve.

Para os orientais, o tempo (embora difícil de definir) é o bem mais precioso com  o qual os seres humanos, limitados pelo tempo, foram agraciados por Deus.

Em certo sentido, tudo na vida é avaliado e gira em torno da noção que se tem do tempo.

A efemeridade ou a durabilidade das coisas determinam o seu valor e a sua importância. Portanto, o agir sábio ou insensato é, em certo sentido, determinado de acordo com a forma como gerimos o tempo, aproveitamos as oportunidades e interpretamos as circunstâncias com as quais nos deparamos em cada etapa do nosso caminhar, como peregrinos que somos.

Para os orientais, viver é percorrer uma caminhada feita de “momentos” que se vão acumulando e sucedendo rumo a um desfecho incerto e inesperado.

Esta perspetiva faz com que cada momento seja aproveitado com especial cuidado. Ao ser único e irrepetível, deve ser desfrutado com intensidade, com senso de urgência e com sabedoria.
Paulo, cuja mente era dominada pela visão oriental da vida, ao escrever aos efésios, exorta-os a “remir” o tempo.
À primeira vista, a orientação de Paulo parece não fazer sentido, visto que o “tempo” não pode ser controlado nem “domesticado”. Contudo, a boa gerência que se faz dele pode ser encarada, de um modo metafórico, como uma espécie de “redenção” do mesmo.

Como cogerentes de Deus, e ainda por cima na qualidade de filhos alcançados pela graça e comissionados a “anunciar as virtudes” do grande Deus, somos instados a aproveitar as oportunidades que se nos apresentam, gerindo o “tempo”, fazendo o bem, promovendo o bem-estar comum, exercendo uma boa influência sobre aqueles com quem nos cruzamos, fazendo de cada encontro um belo momento de “remir” o precioso tempo de vida que nos é, graciosamente, outorgado por aquele que é o seu Criador.

A negligência na gerência do tempo é claramente reprovado nas Escrituras. Essa atitude é considerada uma espécie de “insensatez”, que deve ser evitada a todo o custo. 

Assim como Paulo exortou os efésios a aproveitar todas as oportunidades para, gerindo (ou remindo) o tempo, fazer o bem, todos somos instados a fazer o mesmo, a agir com sabedoria, a usar o precioso tempo, com todos os seus desafios, enquanto é dia, visto que os dias são maus e de trevas. Soli Deo Gloria!    

Pr. Samuel Quimputo
março 2018

Proclamando a Salvação


Uma das falácias gritantes da nossa sociedade atual (pós-moderna) é o enganoso conceito (que ainda persiste, restos da era moderna) de que toda a realidade se circunscreve a um sistema fechado, onde tudo é regido por leis naturais que não se alteram e que tudo explicam.

Segundo esse ponto de vista, nada existe fora desse sistema que abarca toda a realidade, onde o naturalismo ideológico é a resposta para tudo. Intervenções sobrenaturais, que escapam à explicação racional e científica (da relação causa-efeito), são inconcebíveis, inaceitáveis e inadmissíveis.

Por incrível que pareça, esta cosmovisão tem vindo, pouco a pouco, a reunir adeptos, até mesmo entre aqueles que professam a crença num Deus que criou o Universo.

Agora, Deus nada mais pode fazer a não ser obedecer aos ditames das “soberanas” leis, que obrigam o seu legislador não só a cumpri-las, como a nunca mais agir fora delas.

Contudo, essa não é, decerto, a cosmovisão que a Bíblia nos oferece. Ela apresenta-nos um Deus que criou e estabeleceu as leis físicas (naturais) que regem o curso da natureza, tornando-a funcional, mas que, na sua soberania, age por meio delas e para além delas, e pode atuar acima delas.

Ele pode agir sobrenaturalmente, ao ponto, por exemplo, de “gerar” uma vida no ventre de uma mulher, sem a intervenção humana masculina, direta ou indireta. É capaz de eliminar as enfermidades sem intervenção de fármacos. As leis da natureza “governam” o mundo cria- do, mas nunca o Criador do Universo e o le- gislador, por excelência, das mesmas.

As questões últimas da existência do mundo e, em particular, do homem, só podem ser respondidas por aquele que tudo criou e que não é dependente da sua criação, e não é limitado pela contingência das leis, dentro de um sistema fechado, cujo idealismo dominante é o naturalismo, igualmente contingente. 
Questões como o propósito e o sentido da vida, a vida depois da morte, a vida eterna, escapam ao domínio da ciência.

Jesus Cristo, o Sumo legislador, é a causa que explica o propósito da existência do Universo e é na relação com ele que o sentido da própria vida se explica.

No caso de Simeão, Deus resolveu intervir soberanamente, mantendo a vida do seu servo até ao momento mais alto da sua existência terrena. Ele foi conduzido até ao templo.

As palavras de Simeão revestem-se de um profundo e inigualável significado teológico. Disse esse abençoado servo do Senhor: “os meus olhos viram a tua salvação…”.

Essa palavras foram pronunciadas no exato momento em que as suas trêmulas mãos seguravam, carinhosa e reverentemente, o menino nascido em Belém. Fazia todo o sentido que ele dissesse, “os meus olhos viram o Salvador” e não “a salvação” em si mesma. Contudo, não foi isso que o velho Simeão afirmou.

Simeão não se equivocou. Diante de si estava um frágil bebé que era a encarnação da salva- ção; a “personificação” real e literal da própria salvação. Sim, Simeão sabia que Ele era o Salvador e que viera para salvar o mundo.

Como é lógico, “salvação” pressupõe a existência de um “salvador”. Não há salvação sem o salvador. E é neste ponto que as palavras de Simeão ganham maior relevância. Ele vira a chegada da salvação de Deus com a vinda do Salvador! Ele tinha nos braços o Emmanuel, a presença real do Deus que salva. Ele vira a esperança para o mundo em carne e osso.

Portanto, fazer missões não é, em primeiro lugar (como muitos nos querem fazer crer, com a sua nova perspetiva missionária), pro- mover uma ecologia sadia, que se preocupa com a harmonia entre os seres vivos e com o equilíbrio da natureza. Por mais importante que seja esse mandato cultural , ele deve ser, apenas, a consequência de uma cosmovisão redimida.

Fazer missões é proclamar que a salvação vem de Deus. Que a salvação já chegou. Que a salvação está em Cristo Jesus!

É dizer aos homens e às mulheres que há esperança de uma vida melhor: abundante, vitorio- sa e redimida pelo sangue do Cordeiro de Deus. É declarar o poder da cruz!

Fazer missões é proclamar a libertação do cativeiro de satanás. É convidar os pecadores ao convívio, na família de Deus. É dizer a todos que Cristo reina! Soli 
Deo Gloria!

Pr. Samuel Quimputo
nov 2017

Um Povo Com Identidade


Um dos aspetos que diferencia a fé    bíblica das demais realidades religiosas é, sem dúvida, o seu embasamento histórico. Todo o enquadramento histórico do relato bíblico, com o envolvimento de sucessivas civilizações, de reis e reinos, de povos e nações, ao longo de séculos, confirma o seu carácter singular, em que o sobrenatural invade e penetra o tempo e o espaço, dirigindo os acontecimentos que, sem interrupção, se vão sucedendo.

Esta abordagem histórica, que envolve tensões, relacionamentos e dramas humanos, faz com que  a fé bíblica seja uma experiência essencialmente prática, e não um mero exercício contemplativo (ou místico)  que se esgota em meditações de busca de equilíbrio interior.

Uma verdadeira experiência bíblica de fé evidencia-se nas opções feitas e em decisões tomadas nas interações do dia a dia, onde o amor a Deus e ao próximo deve constituir o parâmetro pelo qual tudo  é analisado.

A salvação, portanto, deve ser encarada como uma operação de origem (e de carácter) sobrenatural, realizada pelo próprio Deus no âmago do ser humano, mas que implica uma experiência dinâmica e real de vida, que envolve todas as dimensões da personalidade, incluindo uma nova  e renovada perspetiva a partir da qual se avaliam todos os relacionamentos interpessoais.

É neste sentido que entendemos os constantes apelos feitos pelos escritores bíblicos às igrejas às quais dirigiram os seus escritos, desafiando os seus destinatários a demonstrarem, em termos práticos, e por meio de atitudes, comportamentos, ações e escolhas, a realidade e a eficácia da mudança (radical) ocorrida no interior do seu ser.

Por outras palavras, o desafio bíblico (aqui expresso por Paulo) encontra a sua versão mais acurada nas palavras de Tiago, que considera a falta de (boas) obras na vida de alguém como uma clara evidência de uma fé vaga, inconsequente e morta, que se circunscreve a um assentimento mental teórico e infrutífero, que não passa de uma simples confissão de fé (Tiago 2:14,17-20,26, cf. Tito 2:14; 3:8).

O desafio de Paulo, no nosso texto em análise, vai no sentido de que os crentes que constituíam a igreja em Éfeso deveriam andar (agir, proceder, comportar-se) de acordo com os valores da nova fé que tinham abraçado.

Ao dizer “...que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados”, Paulo, numa abordagem de grande sensibilidade pastoral, quis estimular os efésios ( e a todos os que são eficazmente chamados pelo Espírito Santo) a desenvolver um estilo de vida coerente com a sua fé, e a evitar qualquer espécie de “esquizofrenia existencial” reveladora de uma religiosidade defeituosa, que só confunde e é prejudicial.

No seio da igreja, onde impera uma  variedade de personalidades, de pontos de vista e de preferências, a coerência de vida deve ser nutrida pelas virtudes tais como: humildade (simplicidade assumida), mansidão (modéstia que se autorregula) e longanimidade (uma elasticidade de alma).

O exercício destas virtudes provocará, no seio da igreja, uma capacidade de apoio mútuo que, sob o alicerce do amor, fará com que a paz reine entre os irmãos, e a unidade seja mais e mais mantida e consolidada.

Que o Senhor permita que esta experiência seja uma realidade na vida de cada uma de nós. Soli Deo Gloria!   

Pr. Samuel Quimputo
set 2017

ENVIADOS PELO SENHOR

O Deus revelado nas Sagradas Escrituras é, em termos históricos e teológicos, um Deus missionário, cujo relacionamento com a sua criação é também marcadamente missionário.

Antes da encarnação do seu Filho, muitas vezes, e de variadas formas, Ele se deu a conhecer através de sonhos e visões, de manifestações da sua presença gloriosa, falando de forma audível e comissionando muitos dos seus servos (por acharem graça aos seus olhos) a cumprirem a sua vontade, e isto, por meio de pronunciamentos proféticos.

Além dos humanos, os anjos também, com frequência, eram enviados pelo Senhor, como ministros seus, incumbidos de revelar os seus desígnios e instruir os homens nos (e acerca dos) caminhos daquele que é o Criador e condutor de todo o curso da História.
Nas suas muitas e variadas formas de se relacionar com o mundo, e em especial com os homens, a sua veia missionária sempre foi evidente. E, na plenitude do tempo, de modo sublime, singular e sem precedentes, Deus, o Pai, enviou o seu Filho, como seu grande apóstolo e legítimo representante (Hebreus 3:1), que, por meio da encarnação, assumiu a identidade daqueles que tinham sido criados à imagem do Criador.
Essa decisão do Deus triúno, tomada desde a eternidade, mas executada no tempo, sempre esteve na base da motivação, do ministério e dos atos do Senhor Jesus.
A encarnação do Filho de Deus é, portanto, a clara evidência da assunção, por parte do Pai, da sua visão missionária. É a prova cabal de que o nosso Deus é um Criador que se relaciona com a sua criação e, também, aquele que se compraz em enviar servos seus para executarem a sua vontade.
Consciente de ter sido enviado pelo Pai, ao longo de cerca de três anos, o Senhor Jesus preparou um grupo de seguidores (discípulos), de modo a, por sua vez, os enviar como seus representantes, na proclamação das boas-novas da salvação, no anúncio da chegada do Reino de Deus e na inauguração da nova era.
“Assim como o Pai me enviou”, disse Ele, “também eu vos envio a vós”.
Contudo, este envio não viria a acontecer antes que o coração dos discípulos estivesse “inundado” de paz. 
“Paz seja convosco!”, saúda-os o Senhor ressuscitado. E é esta paz, proveniente do Príncipe da Paz (Isaías 9:6) que, com a presença e capacitação do Espírito Santo, fará com que os enviados sejam qualificados para “invadir” o mundo dominado e cheio de homens escravizados pelo “príncipe deste mundo”, a saber, o Diabo.

De um modo lato e genérico, todos os crentes em Jesus são comissionados a fazer discípulos de todas as nações, por meio do anúncio do evangelho e do exercício do amor sacrificial, que caracteriza homens e mulheres alcançados pela maravilhosa graça de Deus.

Revestidos do poder do Espírito Santo e cheios da paz que vem do Príncipe da Paz e movidos por um amor capaz de dar e de se dar aos outros, assumamos a magna incumbência de sermos agentes desse Deus missionário, participando resoluta e ativamente na Sua grande missão de salvação, restauração e renovação da Sua criação que vive em agonia atroz, presa nos laços do maligno e que clama por libertação.

Que o Senhor de toda a graça nos habilite nesta desafiadora mas honrosa tarefa de sermos os seus “enviados” e anunciadores da paz de Deus, que nasce da paz com Deus. 

Soli Deo Gloria!

Pr Samuel Quimputo
julho 2017

Vidas Perfumadas

Sair das grandes cidades para os campos, em plena primavera, é experimentar uma das sensações mais extraordinárias de variedade de aromas exalados pelas flores que enchem a atmosfera campestre com o seu perfume e cheiro agradável.

Depois de apresentar um quadro pesado e triste, relacionado com a atitude menos cordial da igreja em Corinto, e de manifestar a sua inquietação e apreensão pela ausência de Tito e pelo desconhecimento do seu paradeiro, Paulo passa, de forma brusca e repentina, para uma atitude de alegria e de gratidão a Deus, apesar da realidade menos animadora da vida dos crentes daquela igreja.

O apóstolo dá graças a Deus, o Pai, que, por meio do grande comandante -Jesus Cristo-, conduz Paulo e os seus companheiros (e a todos os seus servos) a uma vida de triunfo. 

Apropriando-se da imagem de uma marcha (ou procissão) militar que ocorria quando o exército romano entrava em Roma, depois de uma conquista bélica, conduzindo, acorrentados, os inimigos derrotados e capturados vivos e cujo intenso cheiro de ervas aromáticas e de incenso se espalhava pelo recinto, exalando a sua fragrância típica, preanunciando o reconhecimento da bravura dos vencedores e, ao mesmo tempo, a morte certa dos vencidos (a não ser que o imperador demonstrasse misericórdia,  poupando-os da pena máxima), Paulo, considerando-se um conquistado por Cristo e um servo do grande general, afirma que, à medida que ele e todos os crentes, comprados pelo sangue de Jesus, vão vivendo e anunciando a mensagem do evangelho, vão também, e ao mesmo tempo, espalhando o bom cheiro de Cristo.

É mister notar o facto de que a fonte  donde todo o perfume se exala é Cristo. A vida, a experiência e o testemunho dos crentes, conquistados pelo poder redentor de Jesus, devem refletir o carácter e a beleza do Senhor, de quem receberam poder e graça suficientes, que os capacita a fazer Cristo conhecido num mundo carente de orientação e de sentido, e  que desconhece o verdadeiro propósito da sua existência.

Segundo Paulo, o cheiro de Cristo deve ser exalado “em todo o lugar”, o que significa que onde quer que estejam os crentes e quaisquer que sejam as circunstâncias em que se encontrem, é necessário que Cristo seja visto através da vida daqueles que professam conhecê-lo e partilham a  sua intimidade com Ele.
Que neste período de férias, em que muitos estarão  fora do seu “habitat natural”, as nossas vidas e o nosso testemunho demonstrem a graça e a beleza de Cristo. Que as palavras que saírem da nossa boca proporcionem um profundo alívio àqueles que nos ouvem e connosco partilham as suas inseguranças.

Que cada um de nós seja usado como um vaso de bênçãos e um depósito da fragrância de Cristo, pronto a exalar o agradável aroma da santidade e do amor que só podem ser encontrados naquele que é, por excelência, a fonte primária de todo o bem. Soli Deo Gloria!   

Pr. Samuel Quimputo
in Boletim julho 2017


Discípulos de Um Só Mestre

Mesmo que não lhe tenha sido reconhecido nenhum preparo formal aos pés de algum mestre judeu, ou que tenha frequentado alguma escola rabínica do seu tempo, o Senhor Jesus era popularmente considerado um verdadeiro “Rabi”, isto é, Mestre.

Não houve ninguém que com ele se tenha cruzado ou que o tenha ouvido  ensinar que duvidasse da sua evidente e inegável mestria. As palavras que saíam dos seus lábios eram revestidas de uma sabedoria tal, que não deixavam ninguém indiferente. Mesmo os seus mais acérrimos opositores ficavam, não poucas vezes, emudecidos diante daquele cujo discurso era caraterizado por uma autoridade singular, que ultrapassava a dos fariseus e dos escribas, embora exalasse, ao mesmo tempo e de modo paradoxal, graça, bondade e compaixão.

A consequência lógica do reconhecimento da sua mestria era o número cada vez mais alargado de seguidores que ingressavam na sua “escola”, e que se consideravam seus discípulos.

Embora nem todos os que se intitulavam  “discípulos” o fossem de facto, e por motivações corretas, contudo, aqueles que verdadeiramente criam ser ele o Messias de Deus, que havia de vir ao mundo, eram considerados irmãos, logo, discípulos do único Mestre que os havia convencido pela verdade que proclamava, com discursos penetrantes e que denunciavam os males do coração humano (Mateus 23:8,10).

É na qualidade de discípulos que os crentes que nele confiavam foram comissionados a sair da sua zona de conforto, a ultrapassar as barreiras do comodismo e da indiferença e a levar a mensagem da salvação aos demais seres humanos, que jaziam nas densas trevas espirituais e que careciam do amor sacrificial que abraça, acolhe, ilumina e liberta.

Antes de deixar este mundo, o Senhor Jesus, em ato de despedida, ordenou aos seus discípulos o “fazer discípulos” em todas as nações, querendo isso dizer que  a incumbência de proclamar o evangelho  envolvia não só o anúncio das boas-novas, mas também o acompanhamento necessário dos que aceitassem a fé, de modo que fossem ajudados a crescer na graça e no conhecimento daquele que é o “novo” Senhor das suas vidas.

Ananias, enviado para ser o agente divino da “conversão” e do batismo de Saulo, foi identificado como “discípulo” de Cristo (Atos 9:10). Após o seu batismo, Saulo permaneceu por alguns dias em Damasco, na companhia de crentes que Lucas identifica como “discípulos” (Atos 9:19).

Este aspeto enfatizado por Lucas tem como objetivo destacar o princípio de que todos os seguidores de Jesus estão debaixo da sua liderança e do seu ensino. E, embora haja entre si estágios diferentes  no crescimento espiritual, todos os crentes pertencem à mesma escola que os prepara para a tarefa de levar e fazer conhecido o nome do Senhor aos que ainda estão perdidos.

Essa nobre missão, de resultados e consequências eternas, implica, por parte dos que são escolhidos, um compromisso radical e uma predisposição em sofrer as consequências inerentes ao facto de a proclamação do evangelho de Jesus ser feita com a Bíblia na mão e a “cruz às costas”.

Saulo foi agraciado por Deus para ser um instrumento (ou vaso) útil, a fim de levar a todos o nome, diga-se autoridade, daquele que antes perseguia. Contudo, essa bênção envolvia, igualmente, a realidade do quanto iria sofrer no decorrer do cumprimento da sua missão.

Que o Senhor nos dê uma melhor compreensão da nossa missão neste mundo, e desperte em cada um de nós a consciência de que  só há um Mestre, e que todos somos meros discípulos ao serviço desse Mestre sem igual. 

Soli Deo Gloria!   

Pr. Samuel Quimputo
Boletim junho 2017


O NOSSO REDENTOR VIVE!

A saída dos israelitas do Egito foi um evento profundamente dramático, assinalado com a celebração da páscoa, uma refeição singular, precedente de um ritual que envolveu derramamento de sangue e morte.

As pragas infligidas aos egípcios, antes da páscoa propriamente dita, eram mais que simples expressão de castigo divino que caiu sobre os opressores do povo “santo”, por meio de quem o Deus de Abraão abençoaria todas as nações da terra.

Elas significam, também, a demonstração da supremacia do Senhor do Universo diante dos deuses egípcios, uma realidade que prova o facto de que a libertação dos hebreus, iniciada com a celebração da Páscoa, representava o início (ou a ratificação) de uma relação de aliança entre Yahweh e os descendentes de Abraão.

Segundo Paulo, é na pessoa de Cristo que o cumprimento cabal das promessas feitas a Abraão se concretiza (Gálatas 3:16). Ele é o verdadeiro Filho, por seu intermédio  Israel  renovaria (e cumpriria) a sua missão sacerdotal de ser luz para as nações. É por meio da sua obra redentora e do poder transformador do Espírito Santo que Israel é capacitado a levar as Boas Novas da salvação aos demais povos.

Essa obra salvadora só seria possível e realizável através da morte (necessária) do Messias de Deus, visto que tanto judeus como gentios padeciam da mesma enfermidade fatal, que os tinha afetado desde a desobediência do seu pai federal - Adão.

Na qualidade de representante e substituto da raça humana, Cristo tinha que assumir a sua culpa e arcar com as consequências da mesma. A morte é a punição devida à desobediência aos mandamentos do santo e soberano Deus (Génesis 2:17).

Assim como o sangue do cordeiro pascal, colocado nas ombreiras e nas vergas das portas serviu de sinal para a preservação da vida dos primogénitos abrigados nas respetivas casas (Êxodo 12:7,13), assim também o sangue do Cordeiro de Deus é o preço pago em favor daqueles que se abrigam à sombra da cruz do Calvário.

Para que pecadores e culpados fossem perdoados e considerados “inocentes”, era necessário que alguém sem pecado, sem culpa própria e inocente, assumisse, voluntariamente, o seu lugar.

Portanto, inevitavelmente, Cristo devia provar o amargor da morte. Contudo, a morte do Ungido de Deus não foi a última experiência da sua história terrena. A vitória da morte sobre o Justo foi de pouca dura. O fogo de artifício do reino do mal durou poucas horas. As hostes do maligno cedo viram a sua alegria a transformar-se em pranto.

Na manhã do terceiro dia, o poder da morte seria heroicamente subjugado! A feiura da morte seria vencida pelo poder do bem e da vida. Os grilhões do reino da morte seriam despedaçados e reduzidos a nada. A vida ressurreta do Filho do Homem emergiria, esmagando a cabeça da Serpente. E, finalmente, homens e mulheres escravizados pelo medo da morte podiam nutrir uma nova esperança de um futuro glorioso.

O Senhor Jesus relembra os seus discípulos do facto de que as Escrituras Sagradas (o Antigo Testamento) já traçavam o itinerário da via dolorosa, que culminaria com a saída triunfal do Cristo Vencedor da tumba. 

“Se Cristo não ressuscitou”, afirmou Paulo, “é vã a nossa pregação” e a nossa fé é sem fundamento! (1 Coríntios 15: 14, 17).

Graças a Deus, Ele ressuscitou, tragando a morte com a vitória do império da luz. (1 Coríntios 15: 20, 54).

Embora os efeitos da morte ainda afetem a nossa experiência de vida, aqui e agora, a ressurreição do Senhor Jesus garante-nos a vitória da vida sobre a morte.

Celebremos, pois, com fé, coragem e gratidão a vitória do nosso Comandante, por meio de quem “somos mais que vencedores”. 
Soli Deo Gloria! 

Pr. Samuel Quimputo
abril 2017

MORDOMOS CONFIÁVEIS

A nossa experiência de vida, como seres humanos criados à imagem de Deus e responsáveis pelo cuidado e domínio do resto da criação, encontra a sua realização no ambiente e no envolvimento social, onde cada um interage com os demais, numa relação de interdependência e de mutualismo funcional e de convivência.

A integração na “família da fé” faz com que esta realidade social seja ainda mais significativa e notória, pelo facto de que o próprio espaço de convívio cristão, pela sua natureza essencialmente comunitária, acaba por se revelar propício para o exercício do amor abnegado e da generosidade contagiante.

Na parte final da sua epístola às igrejas da Galácia, Paulo exorta os crentes a viverem,   de modo prático, a nova realidade (de vida) que lhes foi outorgada em Cristo, provando, assim, a veracidade da sua fé por meio de atitudes, de decisões tomadas no dia-a-dia e de atos concretos que provam a vitalidade e a relevância da sua fé.

Ao fazê-lo, o Apóstolo dos gentios, socorreu-se de um método pedagógico muito apreciado entre os rabinos, conhecido como a “regra” ou o “princípio da sementeira”, que estabelece a correspondência e a relação de proporcionalidade entre o ato (ou atividade) de semear e os resultados da colheita.

Entre outras recomendações feitas por Paulo aos gálatas encontra-se a de “não se cansarem de fazer o bem”. A formulação negativa da frase revela e intensifica o pensamento do Apóstolo, que procura incentivar os irmãos da Galácia a perseverarem em fazer o bem (como quem semeia) para que, diz ele, a seu tempo colham os benefícios do seu investimento.

O tempo verbal usado na afirmação (ou exortação) sugere que esta atitude deve ser contínua e constante.

Na sua vivência diária, instrui Paulo, todas as oportunidades que se lhes apresentassem deviam ser aproveitadas para a prática do bem a todos, sem, contudo, ignorar o estabelecimento das prioridades.

Nessa atitude beneficente, os irmãos na fé, ou usando os termos do próprio Paulo, “os domésticos da fé” deviam ser os primeiros a serem contemplados e favorecidos.

O ensino bíblico mostra-nos, do princípio ao fim, que o nosso papel neste mundo é o de sermos mordomos ou “vice-gerentes” de Deus, o Criador do universo. Aliás, em termos teológicos, esta função de governar a terra, sob a supervisão divina, é a que potencia a nossa qualidade de “imagem de Deus” (Génesis 1: 26-28).

Tendo como base o nosso pepel de mordomos do mundo criado (em especial, no cuidado da terra), a nossa responsabilidade consiste em tratar da melhor forma o meio ambiente do qual fazemos parte, extrair (de um modo equilibrado) os recursos necessários para a  continuidade da nossa existência e, por fim, em partilhar com os nossos semelhantes, de forma altruísta e generosamente, os resultados do nosso empreendimento, suprindo, deste modo,  as suas necessidades básicas.

Para cada um de nós, crentes em Jesus e objetos da maravilhosa graça de Deus, o desafio torna-se ainda mais relevante e pertinente, visto que o exercício do bem é um imperativo a ser materializado, tendo em conta, não apenas o bem proporcionado a outros, mas também a garantia da recompensa que aguarda aqueles que “semeiam o bem”.

Que o Senhor nos sensibilize (com incómodo, se necessário for), de modo a desempenharmos da melhor maneira a nossa função de mordomos confiáveis, responsáveis por gerir, com sabedoria, os bens que nos foram incumbidos gerir.
Que cada um de nós se empenhe, com toda a diligência, na benigna missão de praticar e promover o bem, de suprir as necessidades dos mais carenciados e de “semear” o amor ao próximo, contribuindo, assim, para o engrandecimento do nome do Senhor Jesus e para a expansão do Reino “daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. 

Soli Deo Gloria! 

Pastor Samuel Quimputo
março 2017

Instruídos e Edificados na Palavra


Segundo a narrativa inicial da Bíblia, que nos conta a história da criação do Homem, à imagem do seu Criador, a harmonia existente entre Deus e a coroa da sua engenhosa obra era completa, e abrangia todas as dimensões da personalidade humana: física, psíquica e espiritual.

Tudo era vivido numa relação de proximidade com o divino que se refletia no relacionamento entre os cônjuges do primeiro casal.

Desafortunadamente, o pecado entrou em ação, com as suas consequências nefastas, trazendo desobediência, desarmonia, vergonha e dor, e, por fim, a morte.

Um dos elementos que sempre esteve (e continua a estar) na causa da desavença entre Deus e a sua nobre criação é a centralidade da sua Palavra. A aceitação, ou não, dos pronunciamentos divinos seria o elemento avaliador do grau de relacionamento entre o Homem e o seu bondoso Criador, visto que, em certo sentido, eles são a extensão objetiva do Seu carácter e da Sua vontade.

A comunicação com a Sua criação sempre foi mediada pela palavra proclamada. E o pecado, que veio de fora, entrou e reinou no coração do Homem (primeiro de Eva e depois de Adão) precisamente quando, por astúcia e pura maldade, Satanás o persuadiu a duvidar da “palavra divina”, pondo em causa não só a validade da mesma, mas também o carácter do próprio Deus.

Ao longo da História da humanidade decaída, e gravemente afetada pelas degradáveis consequências do pecado original, Deus continuou (e continua) a falar por meio da própria criação (embora deformada em relação à sua beleza inicial), de experiências pessoais (mesmo que algumas delas sejam de difícil interpretação) e, de um modo mais seguro e objetivo, por meio da sua Palavra escrita, que estabelece a regra infalível com base na qual tudo deve ser avaliado e balizado.

A pertinente profecia de Isaías, que se inicia com o lamento divino pela infidelidade do seu povo, seguida de uma mensagem de esperança que no futuro trará alegria não só a Israel, mas também a outras nações, abre um novo capítulo na vida do povo da aliança.

Por meio de Isaías, Deus preanuncia que, no futuro, muitos desejarão subir ao monte de Sião (nome poético de Jerusalém), à casa do Deus de Jacó.
Esse ardente desejo de se achegarem ao coração da espiritualidade de Israel deve-se a duas razões:

Primeiro, os povos iriam para serem ensinados. É o desejo de instrução nos caminhos do Senhor que serviria de motivação para a peregrinação a Jerusalém. Para essas nações, Sião era o lugar de aprendizagem das diretrizes necessárias para a vida.

Em segundo lugar, e como resultado do ensino recebido, as nações sabiam que a sua conduta, isto é, o seu comportamento diário, seria profundamente moldado ao carácter e à vontade do próprio Autor da lei.

É a presença e o ensino da Palavra de Deus, contida na Arca da Aliança, que faz de Sião um lugar atraente para as multidões.

A centralidade da Palavra de Deus na vida do povo era (e é) determinante na compreensão da vontade divina e na tomada de decisões importantes que a vida nos coloca e, não menos importante, no crescimento equilibrado da experiência de fé.

Hoje, não existe a necessidade das nações afluírem a Jerusalém a fim de serem instruídas. A Palavra de Deus “saiu da Arca da Aliança” e da terra de Israel, invadindo as nações, tornando possível a sua leitura e o seu ensino nos púlpitos e, maravilhosa e graciosamente, nos recintos públicos e nas casas dos fiéis.

A Educação Teológica deve ser estimulada e apoiada. A familiaridade com a Palavra de Deus deve caracterizar a experiência de cada filho de Deus, a fim de estar preparado para responder a todo aquele que lhe pedir a razão da esperança que nele há.

Que o Deus da Palavra, que na sua graça nos outorgou o seu Livro de orientações para a vida e para o conhecimento do seu maravilhoso plano de salvação, coloque em nós o ardente desejo de buscar a Lei do Senhor, cimentando, por meio dela, as nossas convicções e os alicerces da nossa fé. 

Soli Deo Gloria! 

Pr Samuel Quimputo
Boletim de fev 2017

Um Povo Marcado Pela Graça


Mais um ano chegou ao fim e outro entrou em ação há meia dúzia de dias, numa sequência repetitiva de dias, de semanas, de meses e de estações do ano, embora este, como todos os outros, traga novos e diferentes desafios a cada um de nós. 

O que muda, garantidamente, é o facto de que, independentemente do estrato social a que pertençamos, ou do credo religioso que defendamos, todos ficamos um pouco mais velhos, o que por si só, e em condições normais, deveria tornar-nos um pouco mais maduros e responsáveis na assunção dos nossos compromissos pessoais, familiares, sociais e espirituais. 

Para nós, filhos de Deus, e constituintes da Igreja do Senhor Jesus, o novo ano que agora começa, com todas as incertezas, próprias de um futuro que não somos capazes de prever, com exactidão, muito menos de controlar com os recursos ao nosso alcance, traz consigo enormes (mas também estimulantes) desafios para o nosso ambiente eclesiástico, onde cada um é incentivado a envolver-se, com toda a diligência, na promoção do bem comum. 

Todos somos desafiados a usar, com sabedoria, os dons que o Espírito Santo colocou ao nosso dispor, a fim de contribuir para a edificação do corpo (a igreja local). Entre outras instruções dadas pelo apóstolo Paulo aos membros da Igreja em Éfeso, retiramos uma que nos parece relevante e pertinente, neste início do novo ano civil, de modo a servir-nos de ponto de partida para os embates futuros que se avizinham. 

Paulo desafia os efésios a serem “benignos” uns para com os outros, num envolvimento de prática recíproca e reiterada. 

“Benignidade” é a ternura de coração que leva alguém a agir, motivado pelo bem, de modo a “beneficiar” o outro, ou, como diz, e bem, o grande teólogo William Barclay, “a disposição mental que pensa nos interesses do próximo, como o faz com os seus próprios”. Significa que cada um de nós, com os olhos postos na edificação do corpo de Cristo, deve, com empenho e abnegação, comprometer-se a ser usado como um “vaso útil” nas mãos do bom Deus e Pai, agindo com uma predisposição mental altruísta, que vê o outro como “um potencial membro da família a ser ajudado a crescer” e a ganhar maturidade para, por meio dela, servir da melhor maneira a causa do Reino. 

Essa atitude deve ser acompanhada de condescendência em relação àqueles que apresentam fragilidades (dificuldades ou debilidades) no seu crescimento espiritual. A compaixão deve ser exercida numa atitude de “identificação auxiliadora” por parte daquele que procura ajudar o outro a continuar a sua caminhada, cujo objetivo é o de levantar o caído, segurando-o pelas mãos. 

O fundamento de todo o ensino de Paulo aos efésios (e a todos nós) encontra-se no próprio carácter de Deus. Ele é benigno e compassivo na forma como lida connosco e nos trata, apesar das nossas fragilidades e imperfeições. 

“Perdoando-vos uns aos outros” diz Paulo, para completar a sua exortação. Literalmente, o verbo usado por ele significa “agir com graça” ou “tratar graciosamente”, querendo dizer com isso que, um coração benigno e compassivo levará, necessariamente, o irmão a olhar para os outros (sobretudo os que apresentam debilidades no seu crescimento) de modo gracioso, favorecendo-os com a sua ajuda e assistência. 

Não é por acaso que, logo a seguir (no início do capítulo cinco), Paulo acrescenta que os efésios deviam ser “imitadores de Deus” no exercício do seu dom de amor. Os filhos imitam os pais. Os filhos de Deus devem imitar o carácter do seu benigno, compassivo e gracioso Pai. 

Com o desafio de Paulo aos efésios em mente, encaremos este novo ano com confiança, com entrega e com um ardente desejo de sermos “úteis” nas mãos do nosso Deus e “bênçãos” para os demais irmãos que connosco percorrem a cainhada da fé. 

Que o Senhor derrame sobre cada um de nós a sua maravilhosa graça. 

Soli Deo Gloria! 
 Pr. Samuel Quimputo
Boletim jan 2017

ORIENTADOS PELA PALAVRA

Uma cuidada leitura da passagem do texto bíblico em Êxodo 19:1-6 levar-nos-á à perceção do propósito da existência da nação de Israel e da sua missão no panorama mundial, e tudo isso, em cumprimento das promessas feitas a Abraão em Génesis 12:1-3.

Israel, como nação, foi constituída como modelo diante das outras nações, com o objetivo de apresenta-la como “uma montra” a ser contemplada pelas demais, a fim de suscitar nelas o desejo, não só de admirar a sua sabedoria, a justeza das suas leis, mas também de imitar o seu exemplo de adorar um só e único Deus, criador do céu e da terra.

Este propósito é patentemente exposto em Deuteronómio 4:4-8, onde Moisés, à guisa de despedida, exorta o povo, prestes a entrar na terra prometida, a permanecer fiel ao Senhor, que o libertara do jugo egípcio.

Para que Israel preservasse a sua identidade nacional e cumprisse a sua vocação missionária, a de ser luz para as nações, era necessário colocar a Lei de Deus, isto é, a sua Palavra, no lugar de destaque, fazendo com que ela “regulasse toda a vida nacional”, pessoal e coletivamente. Dito de outra forma, a lei que lhe fora dada por um Deus gracioso e bondoso, devia servir de “guia de orientação” constante e de instrumento de diferenciação étnica.

Todos os profetas que falaram em nome de Deus, interpretaram as calamidades que se abateram sobre Israel, incluindo a destruição do templo e o exílio, como resultantes da desobediência do povo eleito, e como  a clara evidência da indignação divina; e a causa primária apresentada por, praticamente, todos eles, era a rejeição do povo em seguir as orientações divinas.

O Deus da Bíblia é um Deus que se revela, principalmente, por meio da sua Palavra. É por meio dela que Ele manifesta a sua vontade e exterioriza os seus “sentimentos”.

Fica claro, portanto, que existe uma estreita relação entre a Palavra de Deus e o relacionamento pessoal e a “saúde” espiritual que deve caraterizar a vida do crente.

O processo de aquisição do conhecimento (diga-se, da intimidade), necessário para o alcance da maturidade espiritual, é assegurado e consolidado pela “familiaridade que se nutre” com a Palavra de Deus.

Vivemos numa época e numa sociedade em que os sentimentos assumem maior protagonismo, relativamente aos pensamentos. Os pilares do Iluminismo, com a sua ênfase na Razão, parece terem colapsado e terem sido    colocados numa gaveta de reserva.

Para muitos, o que faz um culto ser “interessante”, e mais atrativo, é o grau de  emoções que produz nos seus participantes, é o “sentir o momento”.

Para esses, não importa tanto o que se ensina, o lugar e a importância que são atribuídos à pregação e ao ensino da Palavra de Deus. O que determina a “relevância” do culto e do ambiente nele criado é a abundância e a intensidade de sentimentos que proporciona aos adoradores. Logicamente, o que define a qualidade do culto (e a própria relevância da igreja local), passa a ser o sentimentalismo (e às vezes, com entretenimento santo) e a agitação que predominam nos “encontros” e que satisfazem os seus “consumidores”.

Convém deixar bem claro que as emoções, e a legítima manifestação de sentimentos, fazem parte da estrutura da personalidade humana. Alegria, tristeza, medo e ira, para citar apenas algumas, são emoções que acompanham as celebrações do ser humano. Não é possível compreender o amor e a graça de Deus, na medida do possível, sem que essa perceção afete a nossa emoção e suscite sentimentos profundos em nós.

O que está em causa, segundo Deus, por intermédio do seu profeta Oseias, é que o povo é destruído e perde o rumo quando lhe falta o conhecimento que, obviamente, se adquire quando a fé é principalmente “nutrida” pelo ensino da palavra divina.

Sempre que o povo de Deus destaca algo mais, que não seja o próprio Senhor e a centralidade da sua Palavra, vacila e perde a orientação.

Que o bom Deus, por meio do Seu Espírito, nos impeça de negligenciarmos a centralidade da sua Palavra na nossa experiência pessoal de fé e  de vivência comunitária.

Soli Deo Gloria! 
Pr. Samuel Quimputo
Boletim 175
25 set 2016

Seguros nas Mãos do Pastor

A relação de Deus com o seu povo é constantemente ilustrada pela analogia com a vida pastoril, onde Deus se assume como o pastor enquanto que o seu povo é considerado como o rebanho.

Esta analogia é também aplicada à relação existente entre o povo e aqueles que eram chamados por Deus e incumbidos de cuidar o Seu rebanho, na qualidade de seus guias espirituais e de “facilitadores” da caminhada da fé dos demais peregrinos.

Profetas, sacerdotes, juízes e reis pertenciam à mesma categoria de pastores, cujo ministério consistia no cuidado da vida e da saúde espiritual do rebanho do Senhor.

Antes da encarnação do Senhor Jesus , os fariseus e os escribas, peritos em matéria da Lei, eram considerados os guias qualificados para orientar o povo nos “caminhos da espiritualidade”. Contudo, eles não se revelaram suficientemente capazes de desempenhar tão exigente tarefa. E a avaliar pelas contundentes críticas que lhes eram dirigidas pelo Senhor Jesus, o bom Pastor, só podemos concluir que o seu trabalho não tinha sido bem realizado.

Neste texto de João 10, Jesus assume-se como o pastor mais qualificado e capaz de cuidar do seu rebanho, proporcionando-lhe todos os recursos necessários para a manutenção do seu equilíbrio existencial e da sua saúde espiritual.

Porém, ao fazê-lo, Ele traça uma linha divisória e inconfundível, que separa as verdadeiras ovelhas dos lobos que, maldosa e dissimuladamente, se infiltram no seio do rebanho.

Nesta passagem, o bom Pastor destaca os sinais do verdadeiro discipulado , sinais esses que identificam aqueles que foram regenerados pelo Espírito Santo, eficazmente chamados pelo poder da pregação, e que foram integrados no seio do rebanho, no qual amorosamente servem uns aos outros e são edificados na fé; nele também encontram as condições ideais para o seu crescimento saudável, na graça e no conhecimento do Senhor Jesus, Autor e Consumador da sua fé (Hebreus 12:1,2; 2 Pedro 3: 17,18). 

Segundo o diagnóstico feito pelo Supremo Pastor, as suas ovelhas são aquelas que:

 1º -  ouvem a sua voz, isto é, aqueles que aceitam de bom grado as suas reivindicação e obedecem às suas recomendações, procurando seguir as suas orientações. Para Ele, o verdadeiro discipulado carateriza-se , acima de tudo, pela aceitação da liderança do Mestre, por meio do seu ensino.

 2º - seguem os passos do seu Pastor; aqueles que, por cultivarem uma relação de intimidade com o SEU Mestre, são capazes de identificar a sua voz com precisão, de modo bem nítido e familiar.

Essas ovelhas seguem o seu pastor porque o conhecem; e, por meio da cumplicidade existente entre ambas as partes, conseguem distinguir a sua voz, da voz dos estranhos (João 10:5).

O Pastor identifica cada uma das suas ovelhas sem se esquecer de uma única sequer. Ele cuida de todas, embora cada uma seja especial e única.
Depois de revelar o que carateriza e distingue as suas verdadeiras ovelhas, das falsas, o Senhor Jesus, de modo perentório e categórico, assegura a completa proteção das mesmas, tanto no presente como no futuro.

Ele declara que elas são detentoras da “vida eterna”, vida essa que procede e flui do próprio Pastor. Uma vida de qualidade singular e que garante uma experiência de amor que não terá fim.

“Nunca hão de morrer”, afirmou Ele, sem hesitação. Esta declaração prova o facto de que nenhuma força, natural ou sobrenatural, é suficientemente capaz de provocar uma separação entre o Pastor e as sua ovelhas. Quem é protegido por Ele  nunca se perderá! Quem é amparado pelo seu forte braço nunca será separado do seu amor. Louvemos a Deus pela Sua fidelidade! Soli Deo Gloria! 

Pr. Samuel Quimputo
agosto 2016

Zelo com Entendimento


O encontro de Saulo de Tarso com o Senhor Jesus, a caminho de Damasco, é uma das experiências mais dramáticas mencionadas na Bíblia, no que diz respeito à conversão de um indivíduo.

Desde o momento da sua conversão e comissionamento para o apostolado, Paulo teve a plena convicção de que tinha sido chamado para ser o “apóstolo aos gentios”, a fim de levar o evangelho da salvação e o testemunho de Cristo para além dos limites do contexto judaico.

Com base no testemunho bíblico, e com especial ênfase no livro de Atos dos Apóstolos, vemos que Paulo desempenhou, com afinco, a sua missão, atravessando vastos territórios do Império Romano, a fim de levar a cabo a incumbência   que lhe tinha sido dada. 

Embora estivesse consciente dessa missão aos gentios, a qual Paulo encarava com orgulho e dedicação, nunca ficou indiferente em relação aos seus  compatriotas judeus. Prova disso mesmo é o facto de que, em qualquer cidade onde chegava para ali começar o ministério de evangelização, o ponto de contacto inicial era, quase sempre, uma sinagoga, um ponto de referência importantíssimo na transmissão dos valores da fé e da cultura judaicas.

Ao escrever a sua epístola aos Romanos , o “apóstolo aos gentios” dedica uma parte substancial (cerca de quatro capítulos—2,9,10,11) a abordar o lugar dos judeus, como povo, no misterioso e insondável plano de salvação.

No início do capítulo 10 (v.2), Paulo faz uma afirmação que, ao mesmo tempo, expressa a sua avaliação do estado espiritual da maioria dos seus compatriotas. Segundo ele, Israel, como nação, incluindo a sua elite religiosa, sofria de uma das mais graves enfermidades (ou deficiências) espirituais que afetam o bom equilíbrio no processo de crescimento e do alcance da maturidade pessoal, a saber,  o fanatismo religioso destituído de entendimento.

Os judeus eram zeloso, exuberantes e cheios de entusiasmo por Deus e pelas coisas sagradas. Tinham “zelo por Deus”.
É interessante que Paulo não nega tal zelo, nem o considera reprovável ou negativo. Ele próprio exerceu o seu ministério com zelo e com dedicação.
O zelo é uma das características de alguém que faz as coisas movido por convicções fortes, capaz de sofrer por elas até às últimas consequências.

Não era o zelo dos judeus que preocupava Paulo. Era, sim, a conjugação do seu profundo zelo por Deus com a sua “insensatez”, isto é, a sua falta de “conhecimento sustentado” que servisse de suporte ao seu empenho religioso.
Fica claro, pelo contexto imediato, que Paulo se referia ao orgulho da justiça própria, que fez com que Israel, o povo da promessa, recusasse e desprezasse a justiça de Deus que, por meio de um único justo, decide perdoar pecadores indignos.

Ao rejeitarem a oferta de Deus, o Messias prometido, não só revelaram ingratidão, mas também falta de entendimento na compreensão do “espírito” e das exigências da justiça que há na lei.

É sempre perigoso fazermos as coisas, ou assumirmos posições sobre determinados assuntos, sem conhecimento de causa. Mais perigoso ainda é nutrirmos zelo exacerbado por algo, ou alguém, sem um suporte mental (e/ou racional) que sirva de base para justificar tal atitude.

O zelo deve ser sempre acompanhado e sustentado pelo entendimento prévio da realidade que nos move a agir. Deve ser “servo” do entendimento e nunca seu substituto.

Que Deus aumente o nosso zelo por si e pelo Seu reino, ao ponto de o servirmos de todo o nosso coração. Que Ele nos dê um sadio e claro entendimento da sua vontade e dos seus caminhos, revelados na sua bendita Palavra, a fim de crescermos na graça e no conhecimento da sua pessoa. Soli Deo Gloria! 

Pr. Samuel Quimputo
Boletim julho 2016

O Preço do Discipulado

             
Durante os cerca de três anos que o Senhor Jesus passou na terra, exercendo o seu ministério do anúncio da chegada iminente do reino de Deus, e da proclamação do evangelho da salvação, agregou junto a si um considerável número de seguidores, denominados de discípulos (isto é, aprendizes) . 

Embora as razões variassem de pessoa para pessoa, o certo é que todos os que que o seguiam podiam ouvir, tanto os seus penetrantes ensinos, assim como as suas perturbadoras denúncias, dirigidas, particularmente, contra as elites religiosa de então.

Depois de um curto, mas significativo, período de “retiro” para fora dos territórios da Judeia e da Galileia , Jesus procurou certificar-se do grau de compreensão que as multidões, incluindo os próprios discípulos, tinham acerca da sua pessoa.

Pedro, auxiliado por uma revelação sobrenatural, afirmou ser Ele “o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus 16:15,16). Com a firme resposta de Pedro, foi evidente que o grupo destes seguidores, próximos, estava preparado para encarar, com valentia, os tensos episódios que se avizinhavam e que teriam lugar em Jerusalém.

Contudo, o Senhor Jesus não deixou de informar os apóstolos sobre a dramática realidade que os aguardava na cidade santa e que culminaria com a sua própria morte.

Depois de uma áspera repreensão feita  a Pedro, o Senhor Jesus passou a desafiar  todos os presentes, mostrando-lhes o custo do verdadeiro discipulado e as exigências de uma vida de compromisso e de lealdade plena.

Ao fazer isso, Ele apresentou três atitudes radicais, que se traduzem nos requisitos necessários a todo aquele que deseja ser seu discípulo:

  1. Atitude de auto-negação -  Para o Senhor Jesus, o verdadeiro discípulo é aquele que renuncia aos seus direitos e privilégios pessoais, e passa a viver em função das orientações daquele que o alistou, vivendo para satisfazer a sua vontade.
    Auto-negação significa a renúncia de tudo o que concorre com a lealdade devida ao Senhor que nos comprou com o seu próprio sangue, sacrificando-se por nós, indignos pecadores.
  2. Prontidão para a morte - A assunção da decisão de seguir Jesus requer, por parte daquele que se prontifica a fazê-lo, uma atitude de predisposição volitiva total, capaz de o levar a correr sérios riscos, mesmo que a morte seja o preço a pagar por essa lealdade.
    A cruz é símbolo de dor, de brutalidade, de tortura; é símbolo de morte. Carregar a cruz é caminhar para a morte.
    Com estas palavras, o Senhor Jesus estabeleceu um dos princípios mais penetrantes do discipulado cristão, isto é, a vida e a morte devem ser encaradas à luz da relação e do serviço a Cristo (Filipenses 1:21).
  3. Dedicação diária - O terceiro requisito apresentado pelo Senhor é a dedicação diária que o verdadeiro discípulo deve demonstrar, revelando, deste modo, a sua determinação em aprender cada vez mais aos pés do seu Mestre.
    Embora hoje a presença física de Jesus não seja uma realidade, o requisito acima referido continua em vigor, visto que Ele ainda fala (e ensina) por meio da sua Palavra. É, portanto, possível “segui-lo” através da obediência dos seus ensinos, sob a infalível orientação do Espírito Santo.

Que a nossa dedicação ao Senhor Jesus seja sincera, real e completamente radical, fazendo da promoção do seu reino na terra, o motivo do nosso serviço, e da proclamação da sua glória, a razão da nossa vida. Soli Deo Gloria! 

Pastor Samuel Quimputo
Boletim 172
2016

Vivendo em Família


No princípio, Deus iniciou o seu relacionamento com a raça humana num ambiente e num contexto de família. E foi precisamente nesse ambiente que outorgou ao ser humano a responsabilidade de ser o seu vice-gerente, no cuidado e governo do resto da criação.
A ordem dada para a reprodução (multiplicação) e para o domínio (ou sujeição) sobre os animais, foi dada como expressão da “bênção divina” àqueles que tinham sido criados à sua imagem e semelhança.
Desde esse momento em diante, o relacionamento do Criador com os humanos tem-se fundamentado e consolidado, tendo a “linguagem do amor familiar” como suporte e matriz de convivência entre ambos. O amor familiar serve de exemplo visível e prático daquilo que caracteriza a relação de Deus com o seu povo.
O povo de Deus é composto da porção da humanidade que integra homens e mulheres de todas as gerações e de todas as classes sociais que, por meio do arrependimento e da fé, aceitaram viver debaixo do governo e da orientação divina, representando o modelo da humanidade, “idealizado” no princípio por Deus, caracterizado pelos relacionamentos saudáveis, evidentes no seio de uma família equilibrada.
A igreja local é a expressão visível da comunidade global que representa o povo de Deus. E é na igreja local que os dons e os ministérios são exercitados, e onde os membros do corpo de Cristo aprendem a servir a Deus, através do cuidado mútuo que mostram uns pelos outros.
Nesse ambiente de convívio familiar, que se traduz num espaço ideal de crescimento pessoal, as atitudes, os comportamentos e as ações devem ter como fundamento e motivação o amor verdadeiro e sacrificial.
Ao escrever a sua magna epístola aos crentes em Roma, Paulo exorta-os a exercitarem, no seio da sua comunidade (e não só), um amor “sem fingimento”, isto é, sem hipocrisia, sem dolo, querendo dizer com isso que, entre os membros da comunidade de redimidos, que partilham de um ambiente familiar, não deve haver lugar para a falsidade.
Segundo Paulo, a irmandade (gr. filadelfia) entre aqueles que se assumem como seguidores de Jesus, e que pertencem à família de fé, deve caracterizar-se  pela autenticidade da entrega e dos afetos, onde o respeito mútuo, a consideração pelo outro (irmão) e o zelo pelo bem comum, devem ser estimulados e deliberadamente promovidos. 
Um dos aspetos mais poderosos do testemunho cristão é, sem sombra de dúvida, a evidência dos laços de amor que caracterizam a vida do povo da aliança, e que tornam visível o poder regenerador do Espírito Santo e a presença real do Reino de Deus em ação no coração de homens e mulheres transformados pela graça.
Onde o amor impera, as barreiras são ultrapassadas, as “pontes” (em vez de muros) são construídas, as necessidades são supridas, as feridas são curadas, os fracos são auxiliados, os erros são corrigidos, as dúvidas são gentilmente esclarecidas, os verdadeiros milagres da transformação acontecem.
Que o Deus da nossa salvação, aquele que com a sua maravilhosa graça nos arrancou das trevas e do poder de Satanás, para o reino do seu Filho amado, nos conceda a graça de vivermos como irmãos, o que de facto somos, fazendo com que os nossos relacionamentos sejam caracterizados e “coloridos” por um amor não fingido, mas real e autêntico. 
Soli Deo Gloria!

Pr Samuel Quimputo
Boletim 171
maio 2016



O Amor sem igual


O que diferencia, na sua essência, a fé cristã de todas as outras crenças, incluindo aquelas consideradas religiões históricas e universais, é, sem dúvida, a singularidade da pessoa do Senhor Jesus. Ele é o padrão a partir do qual todas as demais experiências religiosas são avaliadas. 
Diretamente ligada ao caráter invulgar da sua pessoa, está a monumental e singular obra que realizou, ao morrer na cruz, em favor dos homens, na qualidade de seu substituto e representante legal, obra essa cujas repercussões ecoam em todas as direções, com o propósito de restaurar a criação afetada pelo pecado, e que se encontra sob a maldição divina. 
É oportuno afirmar que toda a história da humanidade, em geral, e da redenção, em particular, atinge o seu ponto mais alto no advento da encarnação do Filho de Deus - Jesus de Nazaré, cujo nascimento, para além de traçar o rumo da existência humana, significou, também, a presença do próprio Deus entre os homens (Isaías 7:14 cf. Mateus 1: 21,22). 
A encarnação do Filho de Deus representa o cumprimento das promessas feitas na Antiga Aliança, acerca do Ungido do Senhor que asseguraria, ampliaria e estenderia a linhagem real de Davi. 
Tipologicamente, a vinda do Filho de Deus, em carne, significou a determinação da vontade divina em manifestar a sua presença redentora e abençoadora entre os homens a quem viera salvar, montando a sua tenda entre eles, com o propósito de revelar a sua glória (Êxodo 25:8; 40:34,38 cf. João 1:14). 
Contudo, a vinda e a presença do Filho de Deus, como homem entre os homens, não representou um fim em si mesmo. Ele viera para realizar a maior de todas as missões, que nenhum outro ser (humano ou angélico) era capaz de realizar, isto é, morrer uma morte vicária (em favor e para benefício de outros), com o propósito de levar o homem caído a reconciliar-se com o seu Criador. 
Para que essa obra fosse plena e eficazmente realizada, era necessário que Cristo preenchesse dois requisitos. A saber, viver uma vida de perfeita obediência à Lei divina e assumir as consequências da culpa do pecado humano (sofrendo, portanto, o castigo pela sua transgressão). 
Embora nunca tenha conhecido pecado, isto é, nunca se tenha envolvido com o mal, e nunca tenha transgredido a Lei, em nenhuma circunstância, Deus, o Pai, fez dele “pecado” por nós! 
Paulo é cuidadoso no uso que faz da palavra. Cristo foi feito “pecado”, e não “pecador”, visto que pecador é aquele que “erra o alvo”, que transgride a lei moral de Deus, e Cristo nunca o fez. 
O que o apóstolo quis dizer foi que Jesus, ao substituir os culpados, carregou consigo a sua culpa, “encarnando” o mal em seu corpo. Por isso, ao olhar para o Seu Filho, na cruz, Deus viu a feiura do pecado de todos nós, e castigou-o n`Ele. 
A razão que nos é dada, é que Deus fê-lo “por nós”, ou seja, em nosso lugar e a nosso favor, a fim de que a justiça punitiva de Deus que, por um lado, caiu sobre o seu justo Filho, fosse, ao mesmo tempo, a garantia da nossa própria absolvição por meio da imputação da justiça de Cristo em nós. E desta forma fomos feitos “justiça” do mesmo Deus que pune o nosso mal no corpo do seu Filho, mas que, também, declara justo aquele que deposita fé na pessoa e obra do seu Cristo (Romanos 3: 24-26). Maior evidência da graça divina do que esta não pode haver! 
Que os nossos corações pulsem e se encham de gratidão e louvor a Deus, que nos deu o seu próprio Filho, a fim de morrer a nossa morte, outorgando-nos a vida eterna.
Soli Deo Gloria! 

Pr Samuel Quimputo
Boletim 170
março 2016

Em Busca de Maturidade


Estando no cenáculo, reunido com os seu discípulos mais chegados, momentos antes de ser preso, o Senhor Jesus fez uma oração, conhecida como “a oração sacerdotal”, a mais longa registada nas Escrituras, proveniente da sua boca.

Nela, Ele orou a favor de si (vs.1-5), a favor dos discípulos, seus contemporâneos (vs. 6-19), e a favor daqueles que viriam a crer nele, no futuro (vs. 20-26).

Logo na introdução da sua oração, o Senhor revelou (mais uma vez) a razão da sua vinda ao mundo, a saber, dar vida eterna aos que lhe tinham sido dados pelo Pai, e que estavam “mortos”, isto é, espiritualmente insensíveis em seu delitos e pecados (João 10:10; 17: 2; Efésios 2:1).

Logo a seguir, o Senhor Jesus explicou o significado da vida que viera outorgar, e que implicava “revelar o Pai” e “torna-lo conhecido” de todos quantos tinham sido convencidos pelo Espírito Santo da sua necessidade de salvação.

Com o “coração” da confissão de fé dos israelitas em sua mente, que se encontra em Deuteronómio 6:3-6, Jesus monstra que possuir a vida eterna é reconhecer Deus como o único soberano a ser adorado e amado, assim como o Seu Messias, enviado para salvar o mundo e reger as nações.

Vida e conhecimento são duas realidades similares  que apresentam algumas caraterísticas comuns. Ambas são entidades não estáticas, mas sim, dinâmicas.

A vida, embora valha pela sua natureza intrínseca, expressa-se por meio de etapas de crescimento. O conhecimento, por sua vez, passa por um processo de aprofundamento e de consolidação, que o torna mais consistente e sólido.

Portanto, é evidente que aqueles que foram agraciados pela experiência da nova vida, que o Senhor Jesus lhes veio dar, demonstram a sua vitalidade através de sinais evidentes de crescimento constante e saudável.

Ao exortar os destinatários da sua epístola a permanecerem firmes na fé, Pedro alerta-os do perigo em que incorrem os “indoutos e inconstantes” por torcerem (com manipulação) as Escrituras. Ao invés de se manterem “estéreis” na sua espiritualidade (1:8,9), o apóstolo estimula-os a crescerem, visto que onde há graça, onde há vida e onde há conhecimento, deve haver crescimento.

À medida que o tempo passa, a vida do crente deve demonstrar uma dimensão de graça cada vez maior (João 1:16) e um desejo cada vez mais profundo de conhecer ao Senhor (Oseias 6:3).

Graça e conhecimento podem ser considerados os meios pelos quais os crentes alcançam a sua maturidade, assim como a esfera dentro da qual o crescimento ocorre.

Qualquer que seja o entendimento que se tenha do papel desempenhado pela “graça” e pelo “conhecimento”, a verdade é que ambos envolvem uma atitude pró-ativa por parte daqueles que possuem a nova vida em Cristo. E segundo o contexto imediato da recomendação de Pedro, podemos concluir que a meditação das Escrituras, a submissão à ação do Espírito Santo e a prontidão para a obediência das orientações divinas, são os pré-requisitos para uma experiência de crescimento espiritual saudável.

Todos aqueles que partilham da nova vida em Cristo devem exercitar a sua fé, procurando o alimento sólido da Palavra, enriquecendo a vida por meio da oração e da comunhão com os irmãos.

Que a nossa espiritualidade seja profunda e constantemente marcada por um anseio e por uma determinação, cada vez mais intensos, de crescimento na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, pois só Ele é digno de toda a glória, para todo o sempre. 

Soli Deo Gloria! 
Pr Samuel Quimputo
Boletim 169
feveiro 2016

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