CONHECENDO O DEUS DA PALAVRA

O meu povo está sendo destruído porque lhe falta conhecimento”

(Oséias 4: 6a)


Os povos semíticos (particularmente os hebreus) traçavam uma clara distinção entre o conhecimento e a sabedoria. Para eles, a sabedoria envolvia não apenas o aspecto intelectual, uma espécie de compreensão puramente teórica, mas significava a “aplicação prática” daquilo que tinha sido percebido em termos puramente teóricos. Por outras palavras, o sábio era alguém capaz de agir de um modo prático, aplicando o conhecimento  adquirido intelectualmente.

Uma pessoa que fosse possuidora de um profundo conhecimento intelectual, mas que não agisse, na prática, de acordo com o que sabia, era tida como não sábia. Ser sábio, portanto, implicava moldar os actos, as atitudes e o comportamento à dimensão do conhecimento intelectual adquirido.

Por sua vez, o conceito semítico de conhecimento, embora envolvesse o aspecto intelectual (ou seja, entendimento), representava muito mais que uma simples capacidade de percepção ou de compreensão do objecto a ser conhecido. Estava incluído nesse conceito um elemento de cariz afectivo e emocional.

É exactamente esta perspectiva, que envolve os aspectos afectivo e emocional, que predomina no texto bíblico, sobretudo quando se refere ao relacionamento de Deus com o povo de Israel, ou quando se trata da relação conjugal entre um homem e uma mulher (ex. Isaías 55:5; Jeremias 9:24; Amos 3:2; Mateus 1:22; 7:23; João 17:25). Não é possível interpretar estas passagens de um modo razoável, a não ser que o conceito de “conhecimento”, nelas mencionado,  envolva aspectos afectivos (e emocionais).

O profeta Oséias, ao longo do relato do histórico, exorta e instiga o povo de Israel ao arrependimento, na tentativa de convencê-lo a voltar-se para Deus.

Enquanto este se ia afastando do seu Libertador, e por isso sofrendo as duras consequências dos seus actos e das suas escolhas, Oséias, na qualidade de porta-voz de Deus, apresenta-nos o diagnóstico divino e a causa primária do desastre sociopolítico, moral e espiritual que povo experimentava.

Para Oséias, o povo de Israel (que incluía as 10 tribos do Norte) estava a viver aquela calamidade por causa do seu afastamento de Deus. Na linguagem usada pelo profeta, esse afirma que o povo estava a ser destruído por falta de conhecimento. Aqui, conhecimento deve ser entendido como uma boa e saudável relação com Deus, isto é, uma relação afectiva que resulta do entendimento daquilo que Deus é, em Seu ser e carácter, e da Sua bondade para com o Seu povo.

Por outras palavras, o povo estava a perecer por ter rejeitado as orientações do seu Deus, que só podiam ser conhecidas através da leitura, da meditação e da obediência à Sua lei (Oséias 4:6c), visto que não é possível amar a Deus longe da esfera de acção da Sua Palavra. Não existe experiência cristã genuína e equilibrada onde a Palavra de Deus, que nos revela esse mesmo Deus, esteja ausente ou seja irrelevante (João 14: 21,23).

Podemos afirmar que a saúde e a maturidade espirituais são directamente proporcionais ao apego à Palavra inspirada, de Deus, por meio da qual somos santificados (João 17:17). Este equilíbrio é inevitável!

Oséias insiste, afirmando que o conhecimento de Deus, isto é, uma relação íntima, afectiva e reverente, é mais importante do que uma religiosidade racional, externa e formal (Oséias 6: 3,6). Por sua vez, é a Palavra de Deus, a Sua revelação especial, que nos oferece um entendimento correcto e mais profundo do ser e do carácter daquele a quem devemos conhecer por meio da fé, com amor, afecto e santa reverência.

Que o nosso apego à Palavra de Deus, guia infalível para a vida, nos aproxime, cada vez mais, ao conhecimento do grande “Eu Sou”.

Soli Deo Gloria!

                                                                                                            Samuel Quimputo
Boletim nº 119
25 de Setembro de 2011

O DEUS-HOMEM: A DOUTRINA

Depois de termos estudado a doutrina da Encarnação do Senhor Jesus e da Sua Divindade (ou eidade), é chegado o momento de estudarmos a Doutrina da Sua dupla natureza. Para tal, é preciso começarmos com a difícil (e muitas vezes mal compreendida) doutrina da Sua subordinação ao Pai.
O Novo Testamento, em várias ocasiões, afirma a subordinação do Filho ao Pai. Por isso, é de extrema importância a compreensão do significado bíblico dessa verdade, visto que na nossa cultura (ocidental e pós-moderna) a subordinação é vista como sinónimo da inferioridade. Ser submisso a alguém é considerado como assumir um estatuto de inferioridade (e de pequenez) em relação a ele.
Com base nesta perspectiva, e com algum apoio linguístico, ser subordinado a alguém é estar “debaixo” da sua autoridade. Um subordinado não está no mesmo escalão (ou patamar) daquele a quem se submete. O prefixo “sub” significa “sob”, e “super” significa “sobre” ou “acima de”.
Contudo, no plano divino e no que diz respeito a doutrina da redenção, o Filho voluntariamente assume o papel da subordinação ao Pai. É o Pai que envia o Filho ao mundo; e Este obedientemente vem à Terra para fazer a vontade do Pai. “Não há nenhum senso de obediência relutante” (R. C. Sproul) (Filipenses 2: 5 – 11).
Na Trindade, todos os membros são iguais em natureza, em honra e em glória. São eternos e possuem, todos, existência própria; partilham todos as mesmas características e todos os atributos da deidade.
Tal como o são em glória, o Pai e o Filho são um em sua vontade. “O Pai deseja a redenção tanto quanto o Filho. O Filho almeja realizar a obra da salvação, assim como o Pai almeja que Ele o faça” (R. C. Sproul) (João 2:17; 4:34).
Toda a subordinação do Filho ao Pai se realiza no processo da Sua missão como Redentor da Humanidade. É nesse contexto (e nesta condição) que assume a Sua subordinação ao Pai.
Vejamos, então, as provas bíblicas dessa verdade acerca do Senhor Jesus: 
1.      Ele disse explicitamente que o Seu Pai (o Pai) é maior do que Ele (João 14: 28);
2.      Ele é descrito como o Unigénito (o primogénito da herança do Pai” (João 3: 16; Colossenses 1: 15); é também descrito como tendo sido “gerado” pelo Pai (Sal. 2: 7; Actos 13: 33; Hebreus 1: 5; 5:5);
3.      Ele afirmou que vivia pelo (por causa do) Pai (João 6: 57); 
4.      Afirmou também que tinha sido enviado pelo Pai (João 6: 39; 8:29); 
5.  Ele recebeu o mandamento do Seu Pai acerca de tudo o que deveria fazer, na qualidade de Seu enviado (João 14: 31; 10:18); 
6.  Da mesma forma, Ele afirmou ter recebido a Sua autoridade do Pai (João 5: 26, 27); 
7.      O Filho nada podia fazer independentemente do Pai (João 5: 19). Esta verdade revela de um modo singular a dependência e a subordinação do Filho ao Pai;
8.      A mensagem que ensinava vinha do Pai (João 8: 26, 28; 14:10); 
9.      As obras que realizava eram realizadas pelo Pai, por Seu intermédio (João 14: 10; 17:4); 
10.  O Seu reino era um reino que lhe tinha sido outorgado (destinado ou confiado) pelo Pai (Lucas 22: 29); 
11.  Depois da conclusão da Sua missão, Ele entregará o reino ao Pai e Ele mesmo se sujeitará ao Pai (I Coríntios 15: 24, 28); 
12.  Paulo afirmou que o Pai é a cabeça do Filho (I Coríntios11:3); 
13.  Ele leva-nos (e traz-nos) a Deus, o Pai (Hebreus 2: 10; Jud.24).


(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul, Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd, Teologia Sistemática de Wayne Gruden)

Pastor Samuel Quimputo

AMANDO E ADORANDO O SENHOR DA GLÓRIA

“E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento”

Os nossos irmãos do passado, conhecidos como os puritanos, marcaram várias gerações da Sociedade da qual fizeram parte. Eram distinguidos pela sua devoção a Cristo, enfatizando, entre outras coisas, a santidade de vida, marca esta que os identificava e os diferenciava do resto dos seus concidadãos, e o zelo pela glória do Senhor, que condicionava o seu estilo de vida, influenciando, de um modo profundo, a forma da sua adoração.

Na sua busca por uma fé ortodoxa e bíblica, redescobriram o verdadeiro propósito da existência humana. Segundo esses dedicados cristãos, a razão pela qual o ser humano fora criado era a glória do seu Criador.

O conceito hebreu (e também semítico) de glória envolve a ideia de esplendor, de brilho, de grandiosidade, de fama e também de beleza. Esta é a razão pela qual o Senhor Deus, ao criar o mundo (kosmos), com beleza e harmonia inimitáveis, deixou marcas inconfundíveis da sua sabedoria e do seu poder, com o propósito de suscitar espanto e admiração no coração e na mente de qualquer observador atento (Salmo 19:1; Romanos 1:19-20).

A Bíblia afirma que Deus criou tudo para a sua própria glória. Este é, sem sombra de dúvida, o propósito básico e eterno que dá sentido ao significado da imagem que o Criador imprimiu no Homem, Seu representante autorizado, e principal gerente de tudo o que fora criado (Isaías 43:7, 21).

Essa glória de Deus, a ser reconhecida e exibida pelo Homem, não pode ser partilhada com nenhum outro ser (Isaías 42:8; 48:11; 60:21). Agir de modo contrário revela uma atitude de afronta ao grande “Eu Sou”. Esta é a razão por que todo aquele que conhece Deus, procura viver de um modo condizente com o carácter do seu Pai, através da prática de boas acções, cujo objectivo é levar os outros a glorificarem o Criador (Mateus 5:16).

Se o reconhecimento e a promoção da glória Deus é o propósito (ou razão de ser) da existência humana, resta saber os mecanismos pelos quais esta glória é promovida, o que suscita, desde logo, uma pergunta: Como proceder de modo que as nossas vidas sejam instrumentos da graça divina e meios reveladores da Sua glória?

É neste ponto que a questão do primeiro (e o maior) mandamento se mostra relevante. A primazia deste mandamento tem a ver com a sua importância. Ele funciona como a mola propulsora de toda a verdadeira espiritualidade.

Ao responder à pergunta do escriba, versado na lei, talvez disposto a debater os cerca de 613 mandamentos nos quais a lei mosáica era desfragmentada pelos rabinos de então, o Senhor Jesus, de um modo magistral, apontou para a essência da verdadeira espiritualidade e da autêntica adoração.

Não é possível adorar a Deus em espírito e em verdade, com sinceridade de coração, a menos que a glorificação do Seu nome sirva de motivação angular. Por sua vez, não é possível promover a glória de Deus a não ser que o coração daquele que adora esteja saturado com fé e com um amor profundo, que envolva todas as suas faculdades pessoais (mente, volição, emoção, afectos e imaginação). É por meio de um coração amoroso que Deus é glorificado. E a verdadeira adoração acontece quando Deus é, de facto, amado.

Citando o Shema de Israel (Deuteronómio 6:4,5), lido duas vezes ao dia pelos judeus, o Senhor Jesus aponta-nos o caminho para a verdadeira adoração, que consiste no amor santo e singular, direccionado Àquele que é o Único e verdadeiro Deus, revestido de glória e majestade, digno de ser amado.

Soli Deo Gloria!                                       

Pr. Samuel Quimputo
Boletim nº 118
28 Agosto de 2011

A Descoberta do Verdadeiro "Eu"

"Então Jó respondeu ao Senhor, dizendo: Eis que sou vil; que te responderia eu? A minha mão ponho à boca"

O livro de Jó, provavelmente o mais antigo registo histórico de toda a Bíblia, é uma das mais dramáticas peças de literatura inspirada, que nos conta a história de um homem, Jó, que de um modo profundamente intenso experimentou os extremos de uma vida com todos os seus paradoxos e tensões existenciais.
O nome Jó (uma transliteração do hebraico Iyyôbh) quer dizer “odiado” ou “perseguido”, o que, de certa forma, denuncia o desenrolar da história do agudo sofrimento relatada em todo o livro, que leva o seu próprio nome.
Os acontecimentos na vida de Jó, relatados no texto bíblico, sucedem-se, no espaço e no tempo, com uma frequência estonteante, envolvendo ainda aqueles que mais amava e procurava proteger, os seus filhos, por quem intercedia, com regularidade, diante de Deus (Jó 1: 5).
Convém chamar a atenção para o facto de que, enquanto este ancião experimentava as suas “agonias da alma” e era atingido pelas “setas impiedosas” da dor física e psíquica, não fazia a mínima ideia do diálogo travado entre Deus e Satanás, com desafios mútuos de ambos os lados da contenda.
Este homem, qualificado de íntegro e justo (ou recto), nutria um santo respeito e uma saudável reverência pelo seu Criador, de quem reconhecia a proveniência de tudo o que possuía.
A fé que fazia de Jó um patriarca reverente, apesar de muito rico, foi desafiada de uma forma brutal e quase insuportável. Acresce-se o facto de que, durante o duro teste, ele “provou o fel” da alma, uma das mais dolorosas e antinaturais experiências da vida humana, que consiste no facto dos pais terem de enterrar os seus próprios filhos.
Depois de uma longa, intensa e inquietante conversa (diga-se discussão) com os seus amigos, dominada por argumentos e contra-argumentos teológicos e existenciais, Deus resolve entrar em cena. Primeiro, fala com Jó, e depois, desafia a sabedoria dos seus amigos, refutando os seus argumentos falaciosos, exigindo que se retratassem diante do sofredor Jó. A intervenção de Deus revelar-se-á restauradora para Jó, e o diálogo com o Todo-poderoso levá-lo-á a uma descoberta sem precedentes.
Como resultado do desafio e dos argumentos divinos (nos capítulos 38 e 39), a auto-justiça de Jó cai por terra, levando-o a fazer uma das descobertas psicológicas (de psyché - alma) e espirituais mais importantes da vida..
A lição, clara, que aprendemos da experiência de Jó é que, só quando se conhece, de facto, a majestade, a soberania e o senhorio de Deus sobre toda a Sua criação é que começamos a entender algo sobre nós, a nossa pequenez e insignificância.
Pela primeira vez, Jó sentiu-se desarmado, sem argumentos a favor da sua justiça própria, reconhecendo que até aí não possuía um correcto conhecimento do Altíssimo (Jó 42: 5). Embora diante dos amigos tenha tentado (com firmeza e lógica) provar a sua rectidão e pureza de vida, agora, ele se prostra diante daquele que é três vezes santo e reconhece que é vil, isto é, não digno, cuja boca deve ficar em silêncio.
Com o sinal de “tapar a boca com a mão”, Jó compreende a sua humanidade, a sua limitação; aprende a conhecer-se  e reconhece o seu lugar.
Que a graça divina nos alcance, trazendo-nos um conhecimento mais profundo da pessoa e do carácter do grande “Eu Sou”. Que todos aprendamos, com o exemplo da humildade de Jó, a reconhecer a nossa fragilidade e parcialidade na compreensão dos mistérios divinos e de certas realidades que nos cercam e nos atingem. Que o Senhor nos dê a graça de descobrirmos, por meio da confrontação com a Sua Palavra inspirada, o nosso verdadeiro “eu” e quanto dependemos da Sua graça e providência.

Soli Deo Gloria!                                  
Pr. Samuel Quimputo
in Boletim 117
31 Julho 2011



Quando Deus Parece Ausente

“Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que sperais”



Todos nós, em algum momento da nossa vida, já experimentámos a sensação de termos chegado ao fim da linha: Sonhos frustrados, segurança abalada, confiança traída, notícia inesperada de uma doença grave, um despedimento sem pré-aviso, conta bancária lapidada por um burlão informático, uma profunda crise existencial, uma sensação de vazio interior e de falta de significado para a vida, etc. Várias são as situações que nos causam calafrios e que nos levam a sentir um apertado “nó” no estômago, bloqueando a nossa capacidade de raciocínio e paralisando as nossas forças.

Nesses momentos, de um modo geral, pensamos que tudo isso só nos acontece a nós, e esse raciocínio leva-nos a desenvolver um sentimento de auto-comiseração. Sentimo-nos as pessoas mais injustiçadas do mundo.

Em alguns momentos, Deus e a Sua intervenção chegam a ser postas em causa. Muitas vezes, nestas situações, a fé de alguns é abalada, fazendo com que esses crentes questionem e duvidem do poder ou da bondade de Deus para com eles.

O capítulo 29 do livro do profeta Jeremias é uma carta dirigida aos judeus exilados na Babilónia. É uma bela carta que podia ser intitulada “Uma Carta Magna ao Emigrante”. Nela, Deus orienta o Seu povo, dando-lhe algumas instruções importantíssimas sobre como viver e desfrutar dessa nova experiência de vida, embora estejam numa terra estranha.

Contudo, a grande ênfase da carta reside no facto de Deus mostrar ao Seu povo  que, apesar da aparente sensação de abandono ou de esquecimento por parte do Todo-Poderoso, Ele continua a ser o mesmo Senhor que controla o mundo e todos os acontecimentos que nele se desenrolam. Esta é, sem dúvida, a razão pela qual Deus, começa por se apresentar como “Jahweh dos exércitos, o Deus de Israel” (v.4).

Ele queria que o povo soubesse que continuava a ser dele o trono que governa o mundo e dirige o curso da História. Portanto, não havia razão para o desespero, para o desânimo. Nada estava acabado; a história de amor entre Deus e o Seu povo ainda não tinha chegado ao fim.

Para provar que o Seu coração ainda pulsava pelo bem-estar da Sua amada, Deus revela o Seu estado emocional, dizendo que os pensamentos (planos ou projectos) acerca desses homens e mulheres, no exílio, ainda continuavam a ser de “paz e não de mal”. Quer dizer que, apesar das circunstâncias de desprezo e de humilhação (pelo abandono da terra natal), a presente condição na qual viviam, fazia parte de um processo pedagógico, cujo fim culminaria com o regresso certo à sua terra natal (v.10).

Portanto, a realização do seu maior sonho, era algo que ocupava os pensamentos do bom Deus. Ele estava pronto a dar-lhes “o fim que esperavam”.

Que diante de circunstâncias adversas, de dificuldades ou de dor, as palavras desta carta, cheia de esperança, nos sirvam de bálsamo e de estímulo para que não desfaleçamos no nosso ânimo, mesmo quando tudo nos pareça sem solução e as nossas forças nos pareçam fracas demais para continuarmos a caminhar no trilho da nossa peregrinação terrena.

Que as nossas mentes sejam constantemente estimuladas pela verdade incontestável de que Deus, o Todo-poderoso, o grande “Eu Sou”, continua a dirigir as nossas vidas e a cuidar de nós, onde quer que seja e em que circunstância for, cientes de que, no fim, tudo contribuirá para o nosso bem e para a exaltação do Seu santo nome. Soli Deo Gloria!  
                                                         

Pr. Samuel Quimputo
Boletim 116
26 de Junho 2011


A DEIDADE E A HUMANIDADE DE CRISTO

No nosso estudo sobre a doutrina da encarnação, abordámos alguns pontos importantes e que esclarecem o que a encarnação é e o que não é. No seu nascimento virginal, a criança que Maria deu à luz era o próprio Filho eterno de Deus, preexistente mas que adquiriu uma segunda natureza, que é humana.

A Bíblia afirma que o Senhor Jesus, o menino nascido em Belém, é divino. A verdade acerca da Sua divindade (ou deidade) preenche as páginas das Escrituras.

Em primeiro lugar, convém enfatizar o facto de que alguns nomes divinos Lhe são atribuídos, o que subentende, claramente, a Sua deidade. Entre eles constam os seguintes títulos:

Filho de Deus – por cerca de quarenta vezes Ele é chamado de Filho de Deus, isto é, o Unigénito do Deus Pai, partilhando da mesma natureza do Pai (João 1: 18).

O Princípio e o Fim – Esses termos expressam a ideia da deidade, visto que, não existe nada antes do começo e depois do fim a não ser o próprio Deus, que tudo criou e integrou dentro do tempo (Apocalipse 1: 17). Ele é o “Santo” e o “Justo”, por excelência (Actos 3: 14).

O Senhor – centenas de vezes, no Novo Testamento, Ele é chamado de “Senhor”, termo usado, com frequência, como o equivalente de “Jeová” ou “Yahweh”, no Velho Testamento. Ele é o “Senhor da glória” (I Coríntios 2: 8 cf. Salmo 24 – Rei da glória).

Deus – o Seu nome “Emanuel” significa “Deus connosco”. Ele é o próprio Deus Filho que veio para habitar entre nós (Mateus 1:23). Tomé chamou-o “Deus” (João 20: 28). Ele é o Grande Deus e Salvador (Tito 2: 13) e Deus bendito (Romanos 9: 5).

Para além dos nomes divinos que Lhe são conferidos, há também atributos divinos que Lhe são atribuídos.

Omnipotência – Em Hebreus 1: 3 nos é dito que “Ele sustenta todas as coisas pela palavra do Seu poder”. Paulo diz-nos em I Coríntios 15: 27 que Ele domina sobre tudo.

OmnisciênciaJoão 2: 24, 25 refere-se ao facto de que o Senhor Jesus sabia tudo o que estava no interior do homem, conhecendo e desvendando os pensamentos ainda não expressos verbalmente.

Omnipresença – A presença do Senhor Jesus abrangente e preenche todo o espaço de adoração (Mateus 18: 20; 28: 20). Ele podia estar na terra enquanto se referia à Sua presença simultânea no céu (João 3: 13; Efésios 1: 23).

Eternidade – A Sua eternidade e imutabilidade são claramente confirmadas nas páginas das Escrituras Sagradas (João 1: 1; Hebreus 13:8). Ele é preexistente (João 17: 5; Filipenses 2:6; Colossonses 1: 17; 2:9).

Da mesma forma, a Bíblia atribui ao Senhor Jesus funções divinas, tais como:

CriaçãoJoão 1:3; Colossenses 1:16, 17; Hebreus 1: 3, 10;

Perdão de pecadosMarcos 2: 5;

Autoridade sobre a morteJoão 6: 39 – 44; Filipenses 3: 21;

Julgamento (juízo) – João 5: 22,23; Actos 17: 31; 2 Timóteo 4: 1;

Conceder vidaJoão 10: 28; 17:2.

Ele é honrado e adorado como o é o Pai – Mateus 28: 9; Lucas 24:52; I Cor. 1: 2; Actos 7: 59; João 5: 23; Filipenses 2: 10.

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul e Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).

Pastor Samuel Quimputo

A DOUTRINA DA ENCARNAÇÃO

A doutrina bíblica da pessoa do nosso Senhor Jesus, que estudámos recentemente, está intimamente ligada à da Sua encarnação. A compreensão clara e cuidada do ensino acerca da encarnação proporcionar-nos-á um melhor entendimento da nossa salvação e de tudo o que esteve envolvido no processo da sua concretização na história, visto que “a nossa salvação e o nosso destino eterno dependem da nossa relação com o Senhor Jesus Cristo”. Só este facto é, em si mesmo, suficiente para que nos interessemos no esclarecimento das nossas mentes quanto a esta questão fundamental da fé cristã.
Contudo, é de extrema importância estabelecer alguns pontos de apoio para uma melhor compreensão das verdades bíblicas que abordam o tema da encarnação.
1. As doutrinas da Pessoa do Senhor Jesus e a da sua encarnação revelam-nos a extrema importância da doutrina da Trindade.
Toda a posição da fé cristã assenta-se, de certo modo, na aceitação da doutrina da santíssima Trindade. Não crer nesta doutrina revela a impossibilidade de se ser cristão. Quem não crê na doutrina da Trindade (isto é, na existência de Deus em três Pessoas distintas, mas unas) não pode ser, de facto, um cristão bíblico.
2. A doutrina da encarnação não ensina que o eterno Deus triúno Se fez carne, mas afirma que a segunda Pessoa da Trindade Se fez carne.
Esta distinção é fundamental para uma melhor compreensão do papel das três Pessoas divinas envolvidas no grande plano da nossa salvação. É o Verbo que se fez carne (João 1: 14), isto é, o Deus-Filho que se fez carne e habitou entre nós. É unicamente a segunda Pessoa da Trindade que se encarnou, nascendo como um ser humano real. Afirmar, de um modo não definido, que Deus se fez homem pode conduzir ao engano.
3. A doutrina da encarnação não afirma que a segunda Pessoa da Trindade assumiu uma mera aparência ou forma humana. Foi, sim, uma genuína encarnação; o que significa que Ele realmente veio em carne (1 João 4: 2).
A razão para esta ênfase assenta-se no facto de que, desde os primeiros anos da Igreja Cristã houve pessoas que caíram nesse erro. Por exemplo, os gnósticos afirmavam que o Senhor Jesus tinha uma mera aparência humana, uma espécie de corpo fantasmagórico. O que, de facto, a Bíblia diz é que o Verbo se fez carne e habitou entre nós (como um tabernáculo ou uma tenda).
4. A doutrina da encarnação não diz, simplesmente, que a natureza divina, de alguma maneira, se uniu à natureza humana, formando, assim, uma pessoa.
Não é isso que as Escrituras ensinam. O que Elas ensinam é que foi a segunda Pessoa da Trindade, preexistente, se fez carne, adquirindo uma nova natureza, a humana. O que significa que não se formou uma nova pessoa ou uma nova personalidade. Não! Foi a eterna Pessoa da Trindade que tomou a natureza humana. A doutrina da encarnação não ensina a criação de uma nova pessoa. É o Verbo preexistente que tomou para Si mesmo a carne e apareceu neste mundo em semelhança do homem.

5. A doutrina da encarnação não ensina (nem sugere) que, de certa forma, uma mudança ocorreu na personalidade do Filho de Deus.
O estado e a forma em que Ele apareceu, foram diferentes. Contudo, não houve mudança em Sua personalidade. Ele foi e continua a ser a mesma Pessoa. Mesmo no ventre de Maria, Ele continuava a ser a mesma Pessoa, o mesmo Filho de Deus (Lucas 1:35). É esse mesmo Filho que tomou para Si a natureza humana, da semente de Abraão, por intermédio de Maria (Hebreus 2: 16).

Textos bíblicos de apoio:
(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul e Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).

Pastor Samuel Quimputo

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