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Como lidar com o sofrimento?

 

1 Pedro 4:12-19 

Há um mal indizível neste mundo e dor e sofrimento inacreditáveis. Quando vemos isto, somos levados a fazer a mesma pergunta feita várias vezes pelo povo do Antigo Testamento: Por que os ímpios prosperam e os justos sofrem? Existem poucas pessoas que, em meio ao sofrimento, conseguem dizer: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.21). Isto exige um profundo entendimento do caráter de Deus e uma profunda confiança na sua bondade e presença.

 

É provável que Pedro tenha escrito esta carta pouco antes ou depois do incêndio de Roma, e no começo dos horrores de um período de 200 anos de perseguição aos cristãos. O sofrimento cristão constitui o tema principal de 1 Pedro 4.12-19, e é tratado de várias maneiras: como um meio de testar o cristão (v. 12), como um motivo de alegria (v. 13b), como um caminho para participar do sofrimento de Cristo (v. 13a), como forma de glorificar a Deus (v. 16), como inútil se merecido por razões não-cristãs (v. 15), e como o início do juízo de Deus (v. 17), que será mais difícil para seus algozes do que para os cristãos (vv. 17b-18). Nesta passagem, portanto, Pedro apresenta-nos como devemos reagir diante dos sofrimentos:

 

1. Não estranhe o sofrimento (1 Pe 4.12). O primeiro fator que nos ajudará a atravessar as mais difíceis provações é esperar por elas. As provações e perseguições não devem ser vistas como incomuns ou “estranhas” para o cristão. Pedro diz-nos que devemos considerar o sofrimento parte normal da caminhada com Cristo. Não temos direito de esperar ser tratados com mais consideração do que nosso Salvador o foi (1Pe 2.21). Todos que desejam ter uma vida piedosa em Cristo Jesus são perseguidos (2Tm 3.12). Aqueles que identificam-se abertamente com Cristo tornam-se alvo de ataques violentos. O próprio Senhor Jesus deixou isto claro: No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo (Jo 16.33). O apóstolo João é enfático: Irmãos não vos maravilheis se o mundo vos odeia (1Jo 3.13). E Paulo igualmente quando disse que “… através de muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus (At 14.22b).

 

Embora Pedro esteja a focar a perseguição como consequência de nossa fé e identificação com Jesus Cristo, a expressão “ardente prova”, em 1 Pedro 4.12, pode referir-se a qualquer tipo de problema ou aflição. Em 1 Pedro, a ardente prova é símbolo da aflição destinada por Deus para purificar-nos. Como lemos no livro dos Salmos: “Pois tu, ó Deus, nos provaste; tu nos afinaste como se afina a prata” (Sl 66.10). O sofrimento é um meio para testar o cristão. O sofrimento revela a verdadeira fé daquela que é mera imitação.

 

Pedro não reconhece qualquer conflito entre a glória de Deus e o sofrimento que há neste mundo. Nossas provações não são sem propósito. O Deus que remiu-nos considera nossa alma mais preciosa do que ouro, e assim como o ouro é refinado pelo fogo, nós também somos refinados. Apesar de sofrermos por um momento, o objetivo de Deus é a nossa redenção, não a nossa destruição. 

 

2. Alegre-se no sofrimento (1 Pe 4.13-14). Isto lembrar-nos das palavras do Senhor Jesus nas Bem-Aventuranças: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” (Mt 5.11,12). Tiago diz que devemos ter motivo de toda a alegria o passarmos por diversas provações (Tg 1.2–4). Os apóstolos consideraram um privilégio sofrer pelo nome Cristo (At 5.40,41). Paulo diz: Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele (Fp 1.29). Esta é uma das exortações mais desafiadoras da Bíblia.

 

Pedro não está dizendo que os crentes devam ter uma atitude masoquista em relação ao sofrimento. Nenhum cristão deve alegrar-se com o comportamento diabólico, desumano e perverso dos perseguidores da igreja de Cristo. Nossa alegria não está ligada à dor ou à dificuldade em si mesma, mas no soberano propósito de Deus em nossas vidas. Não nos alegramos por ter uma dor de cabeça. Não nos alegramos por ter um cancro nos consumindo. O que nos alegra é a presença de Deus no meio de nossa dor. Deus nunca prometeu, a qualquer um de nós, que jamais iríamos para o vale da sombra e da morte. O que Ele prometeu é que iria connosco (Sl 23). Nós temos um bom pastor, sua presença e consolação. “Isto não significa que somos removidos da arena da dor, mas que somos sustentados por Deus na arena da dor” (Sproul). É nas nossas fraquezas que o poder de Cristo melhor revela-se em nós e através de nós (2 Co 2.9). A graça de Deus capacita-nos a lidar com o sofrimento, sem perdermos a alegria nem a doçura (2Co 12.10). Não estamos sozinhos. Cristo prometeu estar connosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt 28.20).

 

Se os crentes forem fiéis em aceitar o sofrimento e a perseguição como Jesus aceitou, então quando Ele voltar eles se alegrarão com uma intensidade que sobrepuja a todas as outras alegrias. O privilégio de participar dos sofrimentos de Cristo deve ser motivo de grande alegria (4.13). Não podemos ser coparticipantes dos seus sofrimentos redentores; apenas ele levou os pecados dos homens sobre si. Podemos, contudo, participar da rejeição e opróbrio que ele suportou e receber em nosso corpo os ferimentos e cicatrizes que os ímpios ainda desejam infligir em nosso Senhor. Neste sentido, nos identificamos com Cristo (Rm. 8.17; 2Co 1.5; Cl 1.24). 

 

Se um filho de Deus já é capaz de alegrar-se hoje em meio ao sofrimento, quanto maior não será seu regozijo na revelação da glória de Cristo. Aqueles que sofreram por amor a ele serão honrados com ele nesta ocasião (4.13). Como escreveu Paulo “… os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós (Rm 8.18b). Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação (2Co 4.17). Paulo ainda escreve: … se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados (Rm 8.17b). No céu, nossas lágrimas serão enxugadas, nossa dor passará. Não haverá nem luto, nem pranto, nem dor (Ap 21.4). Esta é a grande esperança cristã.

 

Há ainda mais uma razão para reagirmos com uma atitude de alegria em face da perseguição por pertencermos a Cristo: O Espírito Santo repousa sobre nós de uma forma especialmente poderosa (1 Pe 4.14). Pedro chama o Espírito Santo de “o Espírito da Glória”. No Antigo Testamento, a glória significava a presença de Deus ilustrada na sarça ardente, na intensa presença de Deus sobre o monte Sinai, na coluna de fogo que guiou os israelitas no deserto e na nuvem que encheu o tabernáculo e o templo. O crente é a habitação do Espírito Santo (Rm 8.9), mas este repousar do Espírito Santo é uma graça e presença especial. Somente Ele pode dar-nos a graça que é suficiente para atender as exigências de nosso sofrimento.

 

3. Não sofra por razões não-cristã (1 Pe 4.15). Nem todo sofrimento é segundo vontade preceptiva de Deus (4.19) e nem todo sofrimento glorifica a Deus (4.16). Há sofrimentos provocados pelo próprio homem (4.15). O texto sagrado menciona quatro males pelos quais nunca devemos sofrer. Um cristão não deve ser culpado de matar, roubar, de ser um malfeitor ou até mesmo ser alguém que intromete-se de forma injustificada em negócios alheios. As consequências destes atos não glorificam o nome de Deus, mas apenas envergonham o testemunho de Cristo. Um cristão não deve trazer sofrimento para si por ter praticado o mal (4.14). O cristão não pode ser um causador de confusão. Ele respeita a vida alheia, os bens alheios, a honra alheia e a privacidade alheia (4.15; 2Ts 3.11). É vergonhoso para um cristão ser acusado e condenado num tribunal por estes pecados e crimes.

 

4. Glorifique a Deus no seu sofrimento (1 Pe 4.16). Os cristãos devem sofrer de maneira a trazer honra a Deus em vez de descrédito. O cristão pode glorificar a Deus com este nome em todas as tribulações. Não há desonra nenhuma em sofrer como cristão. Este princípio é válido mesmo que implique “perder negócios, a reputação ou o lar; ser abandonado por pais, filhos e amigos; ser incompreendido, odiado e até perder a vida”. 

 

5. O sofrimento do cristão é pedagógico (1 Pedro 4.17, 18). O juízo de Deus começa dentro da igreja (4.17,18). Antes de tratar com o mundo, primeiro Deus trata com a igreja. No Antigo Testamento, a "casa de Deus" refere-se ao templo, mas agora o povo de Deus é o seu templo (1 Pe 2.4-10). O julgamento que começa na casa de Deus aqui não é punitivo, mas purificador e santificador. Este julgamento pode ter o propósito de purificação (Hb 12.9-11) ou de fortalecer a fé (1.6, 7). Não refere-se a condenação, mas a limpeza e correcção da igreja pelas mãos amorosas de Deus. Portanto, devemos avaliar nossas próprias perseguições dentro do grande contexto da obra de purificação e aperfeiçoamento que Deus faz em sua Igreja. Poderá haver ocasiões em que Deus, como um Pai amoroso, precise disciplinar-nos (como correção por causa do pecado ou) para que o sirvamos com mais fidelidade (Hb 12.5-13).

 

A perseverança é a evidência de que você realmente pertence a Cristo (Hb 3.12-15; 1 João 2.19). Aqueles que não permanecem com Cristo quando são testados pelo sofrimento pertencem “aos que não obedecem ao evangelho de Deus”, os quais serão julgados e condenados (1 Pd 4.3-5). 

 

O profeta Daniel descreve uma época em que um dos governantes dos últimos dias “proferirá palavras contra o Altíssimo, magoará os santos do Altíssimo” (Dn 7.25). A questão crucial para você nestes dias — e naqueles dias — é você perseverará? Tendo em vista as tentações e os perigos aos quais os cristãos estão sujeitos, só o milagre da graça divina pode preservá-los até chegarem ao reino celestial (MacDonald, W. 2011).

 

Com base em provérbios 11.31, Pedro levanta a seguinte questão: se é com dificuldade que o justo é salvo, onde vai comparecer o ímpio, sim, o pecador? Pedro conhecia a sequência do julgamento de Deus para esta época, que começa connosco e atingirá os in­crédulos numa fúria total e final (muitíssimo diferente da disciplina e depuração por que passamos). Pedro usou este contraste para dar-nos a correta perspectiva do processo global (vide 2 Ts 1.4-7). É muito melhor suportar o sofrimento enquanto o Senhor purifica e fortalece a igreja do que suportar o sofrimento eterno do incrédulo no lago de fogo.

 

6. Confie em Deus no sofrimento (1 Pe 4.19). O sofrimento é, em última análise, parte da “vontade de Deus”, e os crentes devem, portanto, “confiar suas vidas” a Ele, visto que Ele é o “Criador fiel” e “para aqueles que amam a Deus, todas as coisas contribuem para o bem” (Rm 8.28). Deus governa sobre tudo o que acontece em nossas vidas (ver 1 Pe 3.17).

 

Deus é o nosso Criador amoroso e fiel. Devemos confiar nossas vidas inteiramente a ele, assim como Jesus fez quando sofreu. “O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente” (1 Pedro 2.23). 

 

O sofrimento não deve ser usado como desculpa para pecarmos. O sofrimento é uma oportunidade para nos entregarmos a Deus e fazermos o bem aos outros, dando testemunho da nossa fé (4.19b). O cristão não deve pensar que o seu sofrimento é algo que aconteceu de modo acidental. Deus permitiu-a e designou-a para provar-nos, purificar-nos e limpar-nos.

 

Deus é fiel e totalmente digno da nossa confiança. Não podemos julgar a bondade e o poder de Deus antes de vermos os novos céus e a nova terra, onde a dor é banida, o sofrimento é aniquilado e a morte é expulsa para sempre. Deus é soberano até mesmo sobre nosso sofrimento e dá alívio em seu bom tempo (1 Pe 4.19); “depois que tiverem sofrido por um pouco de tempo, ele os restaurará, os sustentará e os fortalecerá, e os colocará sobre um firme alicerce” (1 Pedro 5.10).

 

Se acreditarmos que o nosso sofrimento é resultado do acaso, à parte da vontade de Deus, somos as pessoas mais miseráveis do mundo. Mas se confiamos que há um propósito de Deus em nossa dor, ainda que não tenhamos todas as respostas, seremos capazes de dizer com Jó: “eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25). Ou, então, como testemunhou o profeta Habacuque: “Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que dececione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; todavia eu me alegrarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha força, e fará os meus pés como os das cervas, e me fará andar sobre as minhas alturas” (Hb 3.17-19).

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Referências: Achtemeier, P.J. 1996. 1 Peter: a commentary on First Peter E. J. Epp, ed. Minneapolis, MN: Fortress Press. / Arndt, W., Danker, F.W., et al. 2000. A Greek-English lexicon of the New Testament and other early Christian literature, p.47. / Barnes, A. 1884–1885. Notes on the New Testament: James to Jude R. Frew, ed. London: Blackie & Son. / Bray, G. ed. 2000. James, 1-2 Peter, 1-3 John, Jude. Downers Grove, IL: InterVarsity Press. / Crossway Bibles, 2008. The ESV Study Bible, Wheaton, IL: Crossway Bibles. / Holmer, U. 2008. Comentário Esperança, Primeira Carta de Pedro. Curitiba: Editora Evangélica Esperança. / Kistemaker, S.J. 2006. Epístolas de Pedro e Judas. SP: Editora Cultura Cristã. / Louw, J.P. & Nida, E.A. 1996. Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains, 1, p.767. / Lopes, H.D. 2012. 1Pedro: Com os Pés no Vale e o Coração no Céu. SP: Hagnos. / MacArthur, J. 2003. O poder do sofrimento. RJ: CPAD. / MacDonald, W. 2011. Comentário Bíblico Popular: Novo Testamento. SP: Mundo Cristão. / Moo, D. J. 2018. The Letters and Revelation (Em D. A. Carson, ed. NIV Biblical Theology Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, p. 2245–2246. / Sproul, R.C., 2016. Estudos Bíblicos Expositivos em 1 e 2Pedro. SP: Cultura Cristã.

 

Pastor Leonardo Cosme de Moraes

O VALOR DA NOSSA FÉ EM CRISTO

   

             

 1 Pedro 1:3-10


Caríssimos irmãos e irmãs, agradeço a bênção de partilhar convosco a Palavra de Deus neste tão especial aniversário da nossa igreja. Que a graça, o amor e a comunhão de Deus Pai, Filho e Espírito Santo sejam com todos vós.

A todos desejo a paz e proteção de Jesus nestes tempos difíceis que vivemos: tempos de uma pandemia que teima em afligir e assombrar a nossa vida; tempos também de uma sequência de ideologias na guerra cultural que se acentua, e tende a destruir os valores fundamentais da nossa fé em Cristo, pondo em causa o cerne da verdade eterna do Evangelho. Portugal há quatro décadas era outro país, e o mundo também o era. Mudaram-se os valores, os costumes e a linguagem. Estão a mudar-se as políticas, as ideologias e a fé dos homens.

É por isso que celebrar hoje o nosso aniversário é um verdadeiro ato de fé; da fé que nos une em Cristo e nos enche de esperança no meio da tribulação.

E é neste contexto de espanto que Deus me move a falar-vos do “valor da nossa fé”, e da segurança que temos no nosso Senhor; não da segurança insegura deste mundo, mas da segurança eterna que Cristo nos dá. Leiamos, por favor, 1 Pedro 1.3-10. Diz assim:

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, pela sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, por meio da ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável e que não pode murchar-se; a herança que Deus reservou nos Céus para vós, 5 que estais guardados pelo poder de Deus mediante a fé, para a salvação que está pronta para ser revelada no último tempo. É nisto que grandemente vos alegrais, embora no presente, se necessário, sejais afligidos por várias provações durante algum tempo. Estas provações servem para pôr à prova o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, para ser considerada digna de louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo; a quem, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso, obtendo o fim da vossa fé, a salvação da vossa alma. 10 Foi esta a salvação que os profetas examinaram e procuraram compreender, profetizando sobre a graça que a vós é destinada.

Pedro começa esta carta como Paulo começou a dele aos Efésios: “Bendito seja o Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo; que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo”, diz Paulo; “que pela sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo”, diz Pedro.

1.  Deus regenerou-nos pela sua grande misericórdia (3-4)

De pecadores sem esperança, Deus fez-nos novas criaturas, livrou-nos da tirania do pecado e adotou-nos na sua família. ‘Regenerar’ é ser feito nova criatura em Cristo pelo poder de Deus (2Co 5.17), é nascer de Deus, nascer espiritualmente para integrar a família de Deus (Jo 1.13), conforme o Senhor Jesus explica a Nicodemos: “Em verdade em verdade te digo, que ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo” (3.3). E regeneração é obra exclusiva de Deus, sem mérito algum da nossa parte.

Deus regenerou-nos “pela sua grande misericórdia”, restaurou-nos a esperança perdida “por meio da ressurreição de Jesus Cristo”. Reparem irmãos, Deus regenerou-nos para nos dar três bênçãos: para uma viva esperança, para uma herança incorruptível, para a salvação. E tudo isto mediante a fé. Sigamos o texto:

Primeiro, regenerou-nos ‘para uma viva esperança’, vida que permanece, vida eterna com Deus. A nossa vida aqui é passageira, instável e insegura. Culmina na morte, que não é mais que uma passagem, um trânsito deste mundo para o Além; separação deste corpo perecível para um corpo imperecível na revelação final de Jesus Cristo, na final ressurreição dos mortos.

Segundo, regenerou-nos ‘para uma herança incorruptível’, incontaminável e que não pode murchar-se. “É o próprio Espírito Santo que testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E se nós somos seus filhos, também somos seus herdeiros. Somos herdeiros de Deus juntamente com Cristo”, partilhamos da sua glória celestial (Rm 8:16-17). E que herança meus irmãos! A herança que Deus nos reservou no Céu é eterna, incorruptível, sem mácula, sem deterioração nem perda de valor.

Terceiro, regenerou-nos ‘para a salvação’, preparada para se revelar no último tempo’; salvação tríplice: realizou-se no passado, processa-se no presente, vai cumprir-se no futuro, na plenitude da vida eterna.

A nossa salvação é-nos assegurada na regeneração mediante a fé, manifesta-se e confirma-se na santificação, cumpre-se e mostra-se com todo o esplendor na glorificação, com a libertação total e final do pecado e seus efeitos.   

2. Somos salvos mediante a fé em Cristo (5)

A fé não é mérito ou virtude nossa. É graça divina. Reparem no vs. 5: A nossa fé veicula a graça de Deus, que nos salva; na fé somos guardados até ao cumprimento final da nossa salvação em Cristo; e pela fé aprendemos a viver com lealdade e fidelidade a Cristo, regozijando-nos até nas provações que possam vir. Uma fé viva que é mais preciosa do que o ouro que perece.

A fé viva, a esperança certa, a herança prometida, resultam numa alegria tão intensa que supera as provações que possam vir. Por um lado, Deus controla todas as coisas, e só permite provas se elas forem necessárias para nos alimentar a fé e ajudar a crescer espiritualmente. Por outro lado, estas provações são transitórias e fortalecem a nossa fé. Podem doer, magoar, entristecer, mas delas saímos mais fortes, mais felizes, mais perto de Deus.

Assim como o fogo separa o ouro das impurezas para que fique mais puro, também Deus nos prova para confirmar o valor da nossa fé, e a tornar mais pura e preciosa. Mesmo purificado, o ouro continua a ser perecível; mas a fé provada permanece para sempre, é imperecível, dá os seus frutos na eternidade.

Lemos em 1.5 que somos protegidos pelo poder de Deus, mediante e fé, para a salvação. O mesmo poder que ressuscitou Cristo é o poder que alimenta a nossa fé; fé que, mais que simples crença ou confiança, é lealdade e fidelidade, é descanso e paz na nossa preparação para a glória, é entrega total aos desígnios do nosso Senhor. É bom não ignorarmos que somos peregrinos aqui a caminho do Céu, exortados a abster-nos dos desejos carnais que fazem guerra contra a alma (2.11). Fidelidade, no fundo, é fé aperfeiçoada.

3. O valor da nossa fé é provado na Terra, mas celebrado no Céu (1.6-8)

Podemos ser afligidos com várias provações, mas a nossa fidelidade a Cristo será honrada no Céu. O foco de Pedro neste texto não é o louvor, honra e glória que devemos prestar a Deus. É, sim, o louvor, glória e honra que Deus assegura aos seus fiéis na revelação de Jesus Cristo. A fé verdadeira é honrada no Céu, tal como o Senhor Jesus disse aos seus discípulos: “Bem está servo bom e fiel. No pouco foste fiel, no muito te colocarei. Entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25.21-23).

A fé que justifica e salva, a fé que em nós tem o valor da dádiva divina, as boas obras que dela derivam são sempre honradas e celebradas pelo nosso Deus. Ou não diz a Escritura em Romanos 2.28-29: “Não é judeu aquele que o mostra exteriormente, nem é circuncisão a que se recebe no corpo. O verdadeiro judeu é aquele que o é interiormente, como se fosse circuncidado no coração; isto é, a circuncisão que vem do Espírito, e não a da lei escrita. Esse tem o louvor, não tanto dos homens, mas o louvor de Deus”.

Mais claro ainda é o texto de Rm 2.6,7-10, que diz: “Ele”, o nosso Deus, “dará a cada um conforme as suas obras. Dará a vida eterna aos que praticam com perseverança as boas obras e buscam glória, honra e vida imortal [...] Haverá sofrimento e angústia para todos os que fazem o mal, primeiro para os judeus e também para os não-judeus. Mas haverá glória, honra e paz para todos os que fazem o bem [...] pois Deus não faz aceção de pessoas”. Sim, queridos irmãos, vale a pena ser crente fiel, igreja fiel, povo fiel a Cristo e sua palavra.

4. O fim último da nossa fé é a salvação eterna da nossa alma (1.9)

Na regeneração, operada pelo Espírito Santo, nós fomos salvos. Na nossa caminhada cristã, vamos demonstrando que estamos salvos. Na revelação final de Jesus Cristo, nós seremos confirmados filhos de Deus e passaremos a fruir a plenitude da nossa salvação; uma realidade passada, presente e futura, e que só no futuro se afirma ser nossa eternamente.

Como lemos em 1.8-9: amamos Jesus Cristo, apesar de o não termos visto; e cremos nele mesmo sem o ver agora. E isso dá-nos uma alegria tão grande e tão intensa que nem se consegue explicar. Porquê? Porque atingimos a finalidade última da nossa fé, que é a nossa salvação, a plenitude da nossa redenção.

Finalmente, irmãos: amamos Jesus Cristo e cremos nele, mesmo sem o ver (1.8). E são esse amor e fé que nos definem como cristãos na sua essência. A fé dá voz a esse amor agradecido, ao Cristo que por amor se deu por nós. E, do amor, uma só coisa pode resultar: “uma alegria indizível a cheia de glória”. É nele, irmãos, que atingimos a razão última da nossa fé, a nossa salvação eterna; isto é, a nossa herança, a eternidade em paz com Deus. Livres da culpa, do poder do pecado e das penas eternas a que o pecado conduz, nós hoje vivemos em Cristo, e viveremos com Cristo por toda a eternidade, pois somos dele.

Que bênção! Mas será que a salvação é graça divina em todos nós, meus irmãos e amigos? Será que a nossa vida o mostra em cada frente do nosso caminhar cristão na nossa luta espiritual de cada dia? Será que quantos hoje se dizem cristãos o são de facto, e não só de nome? O pastor Lenz, da grande Hillsong de Nova Yorque, foi afastado da sua igreja, por andar a ser infiel à sua esposa, e coabitar com outra mulher ao longo de meses a fio, enquanto se mostrava cada vez mais espiritual e exigente na sua pregação.

Conclusão

Quem se limita a seguir o discurso piedoso do cristianismo contemporâneo, acabará por não ser melhor do que o mundo. Como diz Peter Kreeft, no seu livro Como vencer a guerra cultural: um plano cristão de batalha para uma sociedade em crise[1], neste mundo tão avesso a Cristo e sua palavra, muitos dos que se dizem cristãos hoje adulteram, prostituem-se, abortam, sodomizam, fornicam, divorciam-se, cultivam a pedofilia e destroem a família, quase na mesma proporção que os claramente não crentes, contribuindo assim para o suicídio gradual da sua fé e o escândalo dos demais. Como afirma o profeta de Deus: “dizem paz, paz, paz onde não há paz”, ao mesmo tempo que são capazes de entrar em delírios de louvor num simulacro de adoração. E nessas orgias de sentimentalismo vazio, eles se vão perdendo aos poucos até ao desespero total, e levam consigo para a perdição muitos inocentes em busca da verdade.

A igreja deve ser vista como um organismo vivo em santa comunhão com Deus, e não como uma organização; como um mistério sobrenatural e não como uma empresa. Infelizmente, há hoje tantos que tratam a igreja como um negócio, e não como a noiva de Cristo! Temem o fracasso, mas não temem o pecado. No seu hedonismo vão, muitos líderes dão aos seus seguidores um Cristo sem cruz, adoram-se a si mesmos e não ao Deus que dizem servir. O mundo ocidental, e em especial a Europa, é hoje a sociedade mais politeísta da história. Adoram centenas de milhões de deuses, pois pouco mais fazem do que adorar-se e servir-se a si mesmos.

Espiritualizam praticamente tudo, até mesmo a encarnação e a ressurreição de Cristo, mas nelas não acreditam literalmente. Substituem a santidade por espiritualidade, a igreja da cruz e da ressurreição pela igreja da graça barata, pois nem sequer param para assumir que a vida cristã tem um preço; que “não pode ser para nós barato aquilo que a Deus custou tão caro”.

Estamos, de facto, irmãos, numa guerra cultural que é sobretudo espiritual. E, para a vencermos, temos de usar as mesmas armas que Cristo usou. Quais, meus irmãos, quais? Não as do poder, não as do pragmatismo, não as da persuasão pela diplomacia, não as de cedências ao adversário. Cristo podia ganhar este mundo facilmente sem essas armas, mas deixou-se crucificar às mãos de César. E, com isso, ganhou algo infinitamente melhor do que este mundo de pecado e morte. Ganhou para nós o mundo por vir, um mundo conforme o seu modelo original, e exorta-nos a buscar o seu Reino; não o reino de César, não o deste mundo que aos poucos se destrói, mas os novos Céus e a nova Terra em que habita a justiça. “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”, disse o Senhor Jesus no Sermão do Monte.

Quais são afinal as armas de Cristo? Apenas duas: amor e verdade. Irmãos, a Trindade não é um sistema político, é uma família divina; e a Igreja de Cristo não é uma ideologia, é uma criação de Deus para abençoar o mundo. Deixemos o discurso barato e a fé barata. “Evangelizemos com a vida; e, se for necessário, usemos palavras”.

Tudo o que hoje tem a ver com sexo é justificado, santificado e glorificado, mesmo que seja o homicídio. O divórcio, por exemplo, é uma forma de homicídio; sim, porque é o suicídio de uma união criada por Deus. “E os dois serão uma só carne”, diz o Senhor.

Ser cristão de verdade, é sê-lo como Elliot o definiu: “uma condição de simplicidade completa, custando nada mais que tudo”. Sim, não cuidemos de ser espirituais à maneira do mundo. Vivamos em santidade, sejamos esse tudo.

É tão fácil pecar. Tudo o que somos é feito com os nossos pensamentos. Se não, vejamos: um pensamento gera um ato, um ato gera um hábito, um hábito repetido gera um carácter, e é do carácter que se chega a um destino. Daí as palavras de Paulo: “Somos humanos, é certo, mas não lutamos segundo os padrões do mundo. Pois as armas da nossa guerra não são humanas, mas poderosas em Deus para destruir fortalezas. Deitamos abaixo as ideias erradas e toda a espécie de arrogância que se levanta contra o conhecimento de Deus, e fazemos com que o pensamento humano obedeça a Cristo” (2Co 10.3-5).

Irmão queridos, somos igreja, sejamos igreja de Deus, não por nós nem para nós, mas em Cristo, por Cristo e para a glória de Cristo. Por isso, amamos, por isso cremos, para isso Deus nos regenerou e salvou, por tudo isso Ele nos promete uma tão grande redenção final.

Não sujemos, pois, o valor da nossa fé. Vivamos à sua altura, e honremos o Deus que a fez nascer em nós, que a nós destinou uma tão grande salvação.

Feliz aniversário, igreja do Senhor; feliz aniversário para a glória de Deus; feliz aniversário com Cristo no mais íntimo do nosso coração.


                                                                                                    Pastor Manuel Alexandre Junior

[1]Peter Kreeft, How to Win the Culture War: A Christian Battle Plan for a Society in Crisis, Downers Grove, Il: InterVarsity Press, 2002. Em português: Como vencer a guerra cultural: um plano de batalha cristão para uma sociedade em crise, Campinas: Ecclesiae, 2020.