Proclamando a Salvação


Uma das falácias gritantes da nossa sociedade atual (pós-moderna) é o enganoso conceito (que ainda persiste, restos da era moderna) de que toda a realidade se circunscreve a um sistema fechado, onde tudo é regido por leis naturais que não se alteram e que tudo explicam.

Segundo esse ponto de vista, nada existe fora desse sistema que abarca toda a realidade, onde o naturalismo ideológico é a resposta para tudo. Intervenções sobrenaturais, que escapam à explicação racional e científica (da relação causa-efeito), são inconcebíveis, inaceitáveis e inadmissíveis.

Por incrível que pareça, esta cosmovisão tem vindo, pouco a pouco, a reunir adeptos, até mesmo entre aqueles que professam a crença num Deus que criou o Universo.

Agora, Deus nada mais pode fazer a não ser obedecer aos ditames das “soberanas” leis, que obrigam o seu legislador não só a cumpri-las, como a nunca mais agir fora delas.

Contudo, essa não é, decerto, a cosmovisão que a Bíblia nos oferece. Ela apresenta-nos um Deus que criou e estabeleceu as leis físicas (naturais) que regem o curso da natureza, tornando-a funcional, mas que, na sua soberania, age por meio delas e para além delas, e pode atuar acima delas.

Ele pode agir sobrenaturalmente, ao ponto, por exemplo, de “gerar” uma vida no ventre de uma mulher, sem a intervenção humana masculina, direta ou indireta. É capaz de eliminar as enfermidades sem intervenção de fármacos. As leis da natureza “governam” o mundo cria- do, mas nunca o Criador do Universo e o le- gislador, por excelência, das mesmas.

As questões últimas da existência do mundo e, em particular, do homem, só podem ser respondidas por aquele que tudo criou e que não é dependente da sua criação, e não é limitado pela contingência das leis, dentro de um sistema fechado, cujo idealismo dominante é o naturalismo, igualmente contingente. 
Questões como o propósito e o sentido da vida, a vida depois da morte, a vida eterna, escapam ao domínio da ciência.

Jesus Cristo, o Sumo legislador, é a causa que explica o propósito da existência do Universo e é na relação com ele que o sentido da própria vida se explica.

No caso de Simeão, Deus resolveu intervir soberanamente, mantendo a vida do seu servo até ao momento mais alto da sua existência terrena. Ele foi conduzido até ao templo.

As palavras de Simeão revestem-se de um profundo e inigualável significado teológico. Disse esse abençoado servo do Senhor: “os meus olhos viram a tua salvação…”.

Essa palavras foram pronunciadas no exato momento em que as suas trêmulas mãos seguravam, carinhosa e reverentemente, o menino nascido em Belém. Fazia todo o sentido que ele dissesse, “os meus olhos viram o Salvador” e não “a salvação” em si mesma. Contudo, não foi isso que o velho Simeão afirmou.

Simeão não se equivocou. Diante de si estava um frágil bebé que era a encarnação da salva- ção; a “personificação” real e literal da própria salvação. Sim, Simeão sabia que Ele era o Salvador e que viera para salvar o mundo.

Como é lógico, “salvação” pressupõe a existência de um “salvador”. Não há salvação sem o salvador. E é neste ponto que as palavras de Simeão ganham maior relevância. Ele vira a chegada da salvação de Deus com a vinda do Salvador! Ele tinha nos braços o Emmanuel, a presença real do Deus que salva. Ele vira a esperança para o mundo em carne e osso.

Portanto, fazer missões não é, em primeiro lugar (como muitos nos querem fazer crer, com a sua nova perspetiva missionária), pro- mover uma ecologia sadia, que se preocupa com a harmonia entre os seres vivos e com o equilíbrio da natureza. Por mais importante que seja esse mandato cultural , ele deve ser, apenas, a consequência de uma cosmovisão redimida.

Fazer missões é proclamar que a salvação vem de Deus. Que a salvação já chegou. Que a salvação está em Cristo Jesus!

É dizer aos homens e às mulheres que há esperança de uma vida melhor: abundante, vitorio- sa e redimida pelo sangue do Cordeiro de Deus. É declarar o poder da cruz!

Fazer missões é proclamar a libertação do cativeiro de satanás. É convidar os pecadores ao convívio, na família de Deus. É dizer a todos que Cristo reina! Soli 
Deo Gloria!

Pr. Samuel Quimputo
nov 2017

Um Povo Com Identidade


Um dos aspetos que diferencia a fé    bíblica das demais realidades religiosas é, sem dúvida, o seu embasamento histórico. Todo o enquadramento histórico do relato bíblico, com o envolvimento de sucessivas civilizações, de reis e reinos, de povos e nações, ao longo de séculos, confirma o seu carácter singular, em que o sobrenatural invade e penetra o tempo e o espaço, dirigindo os acontecimentos que, sem interrupção, se vão sucedendo.

Esta abordagem histórica, que envolve tensões, relacionamentos e dramas humanos, faz com que  a fé bíblica seja uma experiência essencialmente prática, e não um mero exercício contemplativo (ou místico)  que se esgota em meditações de busca de equilíbrio interior.

Uma verdadeira experiência bíblica de fé evidencia-se nas opções feitas e em decisões tomadas nas interações do dia a dia, onde o amor a Deus e ao próximo deve constituir o parâmetro pelo qual tudo  é analisado.

A salvação, portanto, deve ser encarada como uma operação de origem (e de carácter) sobrenatural, realizada pelo próprio Deus no âmago do ser humano, mas que implica uma experiência dinâmica e real de vida, que envolve todas as dimensões da personalidade, incluindo uma nova  e renovada perspetiva a partir da qual se avaliam todos os relacionamentos interpessoais.

É neste sentido que entendemos os constantes apelos feitos pelos escritores bíblicos às igrejas às quais dirigiram os seus escritos, desafiando os seus destinatários a demonstrarem, em termos práticos, e por meio de atitudes, comportamentos, ações e escolhas, a realidade e a eficácia da mudança (radical) ocorrida no interior do seu ser.

Por outras palavras, o desafio bíblico (aqui expresso por Paulo) encontra a sua versão mais acurada nas palavras de Tiago, que considera a falta de (boas) obras na vida de alguém como uma clara evidência de uma fé vaga, inconsequente e morta, que se circunscreve a um assentimento mental teórico e infrutífero, que não passa de uma simples confissão de fé (Tiago 2:14,17-20,26, cf. Tito 2:14; 3:8).

O desafio de Paulo, no nosso texto em análise, vai no sentido de que os crentes que constituíam a igreja em Éfeso deveriam andar (agir, proceder, comportar-se) de acordo com os valores da nova fé que tinham abraçado.

Ao dizer “...que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados”, Paulo, numa abordagem de grande sensibilidade pastoral, quis estimular os efésios ( e a todos os que são eficazmente chamados pelo Espírito Santo) a desenvolver um estilo de vida coerente com a sua fé, e a evitar qualquer espécie de “esquizofrenia existencial” reveladora de uma religiosidade defeituosa, que só confunde e é prejudicial.

No seio da igreja, onde impera uma  variedade de personalidades, de pontos de vista e de preferências, a coerência de vida deve ser nutrida pelas virtudes tais como: humildade (simplicidade assumida), mansidão (modéstia que se autorregula) e longanimidade (uma elasticidade de alma).

O exercício destas virtudes provocará, no seio da igreja, uma capacidade de apoio mútuo que, sob o alicerce do amor, fará com que a paz reine entre os irmãos, e a unidade seja mais e mais mantida e consolidada.

Que o Senhor permita que esta experiência seja uma realidade na vida de cada uma de nós. Soli Deo Gloria!   

Pr. Samuel Quimputo
set 2017