A DIFERENÇA ENTRE O JUSTO E O ÍMPIO

 

Salmos 1.1-6


Este salmo é considerado um salmo de conselhos práticos. Ele aborda os tópicos encontrados na literatura de sabedoria, como Provérbios, e torna-os objecto de cânticos. O propósito é que aqueles que cantam os salmos possuam também seus valores.


O Salmo 1 introduz todo o livro de Salmos. Esta abertura propõe-se a desafiar os leitores a comprometerem-se com o Senhor e com sua lei. O Salmo tem dois parágrafos, um sobre o justo (v. 1-3) e o outro sobre o ímpio (v. 4-6). O parágrafo sobre o justo é mais longo que o do ímpio. Os parágrafos têm uma ordem inversa. O parágrafo sobre o justo termina com uma metáfora e o do ímpio começa com uma metáfora. As metáforas mostram fortemente o contraste entre os dois.


diferenciação é o tema em torno do qual o poema está estruturado, traçando um contraste acentuado entre os Justos e os ímpios - que são os únicos tipos de pessoas do ponto de vista de Deus: (1) Os Justos, caracterizados pela retidão e obediência a Palavra de Deus. (2) Os ímpios, que representam as ideias do mundo e não permanecem na Palavra de Deus. 


A diferenciação deles é patente na maneira como vivem. O contraste também é estabelecido através da fonte de valores deles.  Esta separação e distinção entre esses dois grupos de pessoas existirá no decurso da história e continuara na Eternidade.


Tal diferenciação também foi anunciada pelo profeta Jeremias que disse: “… Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! Porque será como a tamargueira no deserto, e não verá quando vem o bem; antes morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável. Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja confiança é o Senhor. Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto” (Jeremias 17.5-8).


O CAMINHO DA BÊNÇÃO (Sl 1.1-3)

O livro do Salmos abre-se com um pronunciamento de bênção. “Bem-aventurado o homem”, diz o salmista. O substantivo hebraico usado aqui (é ashre, אַשְׁרֵי e) descreve alguém que é abençoado com a felicidade (lit. “quão feliz e abençoado é”). Seu equivalente grego - makarios - é encontrado nas bem-aventuranças de Jesus (Mt 5.3-11). Este homem piedoso é um representativo dos seguidores de Deus (homem ou mulher, jovem ou idoso).


O homem piedoso é descrito, primeiramente, em termos do que ele não faz (Sl 1.1). As três formas verbais no verso 1 referem-se ao comportamento característico dos justos. O justo é feliz naquilo que não faz: (a) Não anda segundo o conselho dos ímpios. (2º) Nem fica no caminho dos pecadores. (3º) Nem assenta-se na roda dos escarnecedores.


A pessoa justa é descrita pelo que evita. A sequência “andar-ficar-sentar” prevê uma progressão de uma associação casual com os ímpios para uma identificação completa com eles. Este é o caminho que justo evita com todo o cuidado.


O salmista descreve o caráter daqueles cuja confiança está no Senhor. Eles não olham para os ímpios como fonte de sabedoria; sua vereda não é aquela transitada por pecadores; sua companhia não é com aqueles que zombam de Deus ou que são arrogantes ao ponto de desprezar a instrução do Senhor. 


“Bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (Sl 2.12). Conforme o testemunho do profeta Jeremias, que disse: “Achando as tuas palavras, logo as comi, e a tua palavra foi para mim o gozo e alegria do meu coração; porque pelo teu nome sou chamado, ó SENHOR Deus dos Exércitos. Nunca assentei-me na assembleia dos zombadores, nem regozijei-me; por causa da tua mão assentei-me solitário; pois encheste-me de indignação” (Jr 15.16-17).


Os verdadeiros crentes podem ser conhecidos pelas coisas que praticam, pelos lugares que frequentam e pelas pessoas com as quais convivem. Ninguém pode experimentar a bênção de Deus sem evitar as coisas destrutivas. Não existe neutralidade na Vida Cristã (Mt 6.24). Muitas vezes o amor e o ódio caminham lado a lado: “Vós que amais o Senhor aborrecei o mal” (Sl 97.10). “O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegando-vos ao bem” (Rm 12.9). O mesmo João que falou-nos que o amor é a marca do verdadeiro cristão (1Jo 2.10), também diz que a marca do verdadeiro cristão é não amar o mundo (1Jo 2.15).


O salmista apresenta o estilo de vida de uma pessoa que é verdadeiramente feliz. O homem bem-aventurado é destacado porque “seu deleite está na lei do Senhor, e em sua lei medita dia e noite” (1.2). Ele tem o seu prazer na Lei do Senhor, que é a expressão da vontade de Deus. A instrução divina forma a base de sua conduta e é o tesouro de seu coração. A “Lei” aqui não significa uma lista de regras e as punições correspondentes, mas a plenitude do ensino de Deus para seus filhos. Portanto, o justo deseja o que Deus requer dele. Ele desenvolve-se por sua obediência a Palavra de Deus. Ele memoriza a lei, recita-a e medita nela. O texto lembra Josué 1.8, onde o Senhor diz a Josué: “Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme a tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido”. A pessoa feliz é caracterizada pela contemplação consistente e a interiorização da Palavra de Deus a fim de alcançar a direcção ética e a obediência. 


O resultado de tal meditação na instrução do Senhor é que o  indivíduo bem-aventurado é como uma árvore transplantada (v. 3) para as margens de um canal de irrigação. O salmista compara uma pessoa abençoada a uma árvore: forte, estável, bem nutrida, frutífera e próspera. Como diz o salmista: “O justo florescerá como a palmeira; crescerá como o cedro no Líbano. Os que estão plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice ainda darão frutos; serão viçosos e vigorosos, para anunciar que o Senhor é reto. Ele é a minha rocha e nele não há injustiça” (Sl 92.12-15). 

Em sua posição bem irrigada, a árvore produz seu fruto, e sua localização assegura que ela não secará. Dessa forma ela assemelha-se ao verdadeiro filho de Deus que persevera até o fim (Fp 1.6) e que produz frutos de justiça (Gl 5.16-26). A árvore, portanto, transmite uma imagem de resistência. Essa árvore não será levada pelo vento como a palha. 


A árvore foi plantada - literalmente transplantada, isto é, uma nova posição que a pessoa foi colocada. As árvores não plantam-se sozinhas e nem os pecadores transportam-se sozinhos para o reino de Deus. A salvação é obra da maravilhosa graça de Deus. Em contrapartida, o Senhor Jesus disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mt 15.13).


Contudo, como o próprio contexto indica, há uma responsabilidade inquestionável quanto  a  apropriar-se dos recursos de Deus, que conduz a essa produtividade.

 

O CAMINHO DA RUÍNA  (Sl 1.4-6)

Quão diferentes são aqueles cuja confiança não está no Senhor! As linhas de demarcação entre os filhos de Deus e os filhos do mundo são claramente traçadas. Os que confiam no Senhor amam sua instrução. Os ímpios, porém, odeiam, desprezam e até zombam da instrução do Senhor. 


Diferente da árvore com raízes profundas, os ímpios são como a palha ou a casca do trigo, que é levada pelo vento quando o grão é peneirado. Uma referencia ao local da debulha e ao trabalho de separação dos grãos do trigo (Mt 3.12). A vida do ímpio é como uma palha seca, morta e transitória -  que facilmente é levada pelo vento. 


O contraste é claro. Em vez de ser como uma árvore viva, os ímpios são tão instáveis quanto a palha. São sem raiz e sem fruto. Tais pessoas não serão capazes de manter sua posição diante do tribunal de Deus, e nenhum direito terão de estar entre o povo de Deus na eternidade. Eles não subsistirão no Juízo. Eles não serão aprovados no julgamento de Deus. Não ficarão de pé na congregação do povo de Deus. 


O caminho dos justos é constantemente protegido pelo Senhor, enquanto que o caminho dos ímpios não tem futuro. Destina-se a perecer completamente. A repetição da palavra caminho reforça o propósito do salmo. Ela refere-se ao curso de vida total de uma pessoa (seu estilo de vida).  Aqui, esses dois cursos de vida (do justo e do ímpio) conduzem aos caminhos de vida e de morte (Dt 30.19; Jr 21.8). Deus fará o contraste durar para sempre. Os dois modos de vida são determinados pela relação de alguém com o Senhor. 


No Novo Testamento aprendemos que Jesus cumpriu o papel que nunca poderíamos cumprir e também é o modelo que devemos imitar. Nesse sentido, o Salmo 1 remete-nos para Cristo, o homem perfeito, o abençoado e justo Filho de Deus; e chama-nos a andar como ele andou (1 Jo 2.6)


Na avaliação divina final, os que tem um relacionamento correto com Deus (justos) contrastam com os que seguiram seu próprio conselho, e consequentemente, não viveram dentro dos parâmetros da palavra de Deus.  Acerca dos tais, profetizou Isaías: “… Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Isaías 8.20). “Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” (Mt 6.23). É por isso que Jesus disse: “Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas” (Lc 11.35).


O Senhor conhece o caminho dos justos. Conhecer aqui não é apenas uma referência a omnisciência de Deus, mas sobretudo ao relacionamento íntimo e pessoal de Deus com os seus servos. O Senhor protege e zela pelo destino dos piedosos.  “O Senhor conhece os dias dos retos, e a sua herança permanecerá para sempre” (Sl 37.18). Mas a respeito dos ímpios, a Escritura diz: “… o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade". (2 Timóteo 2:19). No juízo final, Jesus dirá abertamente: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7.23).


O Senhor conhece os nossos caminhos. A Escritura diz que “Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (Eclesiastes 12.14). 


O Caminho do ímpio perecerá. Ao contrário do justo, que tem a presença do Senhor com ele, o ímpio não prevalecerá no juízo de Deus, ficará fora da congregação dos justos e perder-se-á para sempre.


Perecerá, a última palavra, faz um contraste decisivo com a inicial, bem-aventurado (também começam com a primeira e a última letra do alfabeto hebraico respectivamente, alef e tau).


Há um desenvolvimento para o pior no grupo confiante de zombadores. No princípio o seu conselho, parece uma coisa importante, no final, porém, já não consegue ficar em pé sequer na congregação dos justosDá entender que a vida do justo vai subindo, como uma árvore mas a do ímpio vai descendo e desfazendo-se como moinha ou farelo levado pelo vento.


Um dia, o caminho do ímpio - seu comportamento pecaminoso - acabará em ruína (Ler Sl 112; Ap 6.17). Todos os seus planos terminarão em desapontamento e ruína (Sl 37.13; 146.8; Pv 4.19). O caminho dos ímpios perecerá refere-se à destruição final ou à frustração de esperanças ou planos. “Os ímpios serão lançados no inferno, e todas as nações que se esquecem de Deus.” (Sl 9.17; 9.6). “O ímpio o verá, e se entristecerá; rangerá os dentes, e se consumirá; o desejo dos ímpios perecerá.” (Sl 112.10).


Esta cena final é novamente retratada na Escritura, como uma grave advertência contra os queixosos insolentes no meio do povo de Deus (Ml 3.13-4.2, NVI): “13 Vocês falaram coisas terríveis contra mim”, diz o Senhor. “Mas vocês perguntam: ‘O que falamos contra ti?’. 14 Vocês disseram: ‘De que adianta servir a Deus? Que vantagem temos em obedecer a suas ordens ou chorar por nossos pecados diante do Senhor dos Exércitos? 15 De agora em diante, chamaremos de abençoados os arrogantes. Pois os que praticam maldades enriquecem, e os que provocam a ira de Deus nenhum mal sofrem’. 16 Então aqueles que temiam o Senhor falaram uns com os outros, e o Senhor ouviu o que disseram. Na presença dele, foi escrito um livro memorial para registrar os nomes dos que o temiam e que sempre honravam seu nome. 17 Eles serão meu povo”, diz o Senhor dos Exércitos. “No dia em que eu agir, eles serão meu tesouro especial. Terei compaixão deles como o pai tem compaixão de seu filho obediente. 18 Então vocês verão outra vez a diferença entre o justo e o mau, entre o que serve a Deus e o que não serve. 4.1 Assim diz o Senhor dos Exércitos: “O dia do julgamento aproxima-se e arde como uma fornalha. Naquele dia, serão queimados como palha os arrogantes e os perversos. Serão consumidos, desde as raízes até os ramos. 4.2 Mas, para vocês que temem meu nome, o sol da justiça se levantará, trazendo cura em suas asas. E vocês sairão e saltarão de alegria, como bezerros soltos no pasto”.

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Referências Bibliográficas:

Barry, J.D., ed.; et al., 2012, 2016. Faithlife Study Bible, Bellingham, WA: Lexham Press.

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Carpenter, E., 2011. עֵדָה (In VanGemeren, W. A. ed. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, 3, p. 1129).

Calvino, J. 2009. Salmos. 1º Edição. São José dos Campos, SP: Editora Fiel.

Carpenter, E. & Grisanti, M.A., 2011. עֵצָה (In VanGemeren, W. A., ed. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, 3, p.1129).

Collins, C. J., ed. 2008. The ESV Study Bible. Wheaton, IL: Crossway Bibles.

Harman, A., 2011. Salmos: comentário bíblico cultura cristã SP: Editora Cultura Cristã.

MacArhur, J.  2010. Bíblia de Estudo MacArthur. SP: SBB, p. 679-680.

Motyer, J. A. 2009. Os Salmos. (in Carson, D., ed., et al. Comentário Bíblico Vida Nova. SP: Edições Vida Nova). 

Sproul, R.C. org., 2015. The Reformation Study Bible: ESV (2015 Edition). Orlando, FL: Reformation Trust.



Pastor Leonardo Cosme de Moraes


A justificação pela fé



Paulo apresentou o seu ensino sobre a justiça/justificação contestando os ensinamentos de um grupo de cristãos judeus que insistiam que os gentios deveriam ser circuncidados e forçados a obedecer à lei como parte de sua salvação e como a base para fazer parte da comunhão com o povo da aliança de Deus. 

O argumento paulino sobre a justificação pela fé, enunciado no contexto de Gálatas 2.15-21, assenta-se na articulação interrelacionada dos seguintes pontos:

1. Pedro e Paulo reconheceram que eram pecadores na busca de serem justificados em Cristo, e constataram que não eram melhores que os gentios. Então a distinção padrão entre judeus e gentios deve ser abandonada por aqueles que acreditam que alguém é justificado através da fé na obra fiel de Jesus Cristo. Paulo também deixou evidente que a justificação não pode ser desfrutada pelos pecadores sob um pacto cuja condição de bênção é o cumprimento de suas leis. Logo, a universalidade do pecado e a inadequação da lei (como um caminho de salvação) tornam evidentes que a causa da justificação não pode ser o esforço ou o desempenho humano no tocante a obediência a lei. Em razão disso, Paulo pôde afirmar que os verdadeiros transgressores dos propósitos de Deus são aqueles que tentam restabelecer a lei como a base para justificar e definir a comunidade cristã. A transgressão deles caracteriza-se na rejeição da suficiência da graça de Deus revelada na morte expiatória de Cristo; providenciando a justiça/justificação diante de Deus (2.16, 20, 21) que a prática da Lei não pode. 

2. A expressão πίστεως Ἰησοῦ Χριστοῦ refere-se em primeiro lugar à ‘fidelidade de Cristo’ e ao modo como essa fidelidade veio à expressão visível e concreta no evento objetivo da morte fiel e expiatória de Cristo na cruz. Paulo usa essa frase em 2.16 para indicar o fundamento do evangelho cristão: que sua base objetiva e sua causa eficiente é a obediência fiel que Jesus Cristo prestou a Deus Pai, tanto ativamente em sua vida como passivamente em sua morte; na qual a humanidade está incluída e representada. Enfim, a fidelidade de Jesus Cristo é outra maneira de referir-se à obediência de Jesus, necessária para alcançar nossa salvação. A passagem de Gálatas 2.15-21 não exclui a fé em Cristo. Antes, porém, afirma que os crentes devem colocar a sua confiança no que Cristo fez a fim de serem justificados perante Deus. Por outras palavras, é justamente porque Cristo fez tudo que ele possibilita ao pecador a fé e uma resposta salvadora a Deus. O contrário disso é buscar ser justificado pelo esforço humano através da obediência a lei. 

3. O novo status dos fiéis justificados resultam de sua real identificação com Cristo nos eventos redentores de sua morte e ressurreição. Cristo submeteu-se a maldição da lei na cruz e os cristãos morreram com ele e, assim, foram libertos da maldição, da condenação e do poder da lei. Contudo, a morte para a lei não significa liberdade para viver em pecado, mas o meio de alcançar o objetivo supremo: “viver para Deus”. Os crentes são agora um ‘novo eu’ pela habitação de Cristo. O velho ‘eu’, que eram em Adão, não vive mais. Cristo agora é o Senhor é o agente efetivo para viverem a nova vida de justiça. Outrossim, a fidelidade de Cristo e o seu amor sacrifical inspiram aqueles que foram justificados em Cristo (como Paulo) a viverem da mesma forma. Uma vez que a fidelidade de Jesus Cristo refere-se ao tipo de fidelidade ou lealdade que Jesus demonstrou, Paulo poderia também está exortando os gálatas a terem o mesmo tipo de fidelidade que Jesus teve (sendo assim, a fé/fidelidade de Cristo é tanto redentora como exemplar).  

4. A ‘justiça/justificação’ foi o termo amplo e multifacetado que Paulo usou para descrever a ação salvadora de Deus em relação ao seu povo. Em linhas gerais é possível afirmar que justificação é o ato pelo qual Deus confere um novo status como um antegosto da nova era; criando um novo povo em um novo pacto; para uma nova vida em Cristo produzida por seu Espírito. De outra forma, ser justificado significa “ser (1) declarado justo por antecipação ao julgamento escatológico de Deus; e (2) membro do povo de Deus redefinido na nova era inaugurada através da obra expiatória de Cristo”; para tornar-se (3) participante da nova vida em Cristo produzida por seu Espírito. Paulo, entretanto, afirma que nada disso resulta da realização dos crentes através dos atos de obediência exigidos pela lei, mas baseia-se inteiramente no cumprimento da promessa salvífica de Deus através da ‘fé/fidelidade de Jesus Cristo’. 

5. A resposta humana subjectiva de apropriar-se da justificação é a confiança ou fé na fidelidade de Cristo. Ou seja, a justificação é pela fé na fidelidade de Cristo: o mesmo que pela fé na pessoa e obra de Cristo. Paulo, então, distingue a πίστις (fé/fidelidade) de Cristo da crença dos crentes nele em Gálatas 2.15-21. Contudo, a ênfase fundamental de Paulo em Gálatas 2.15-21 é a obra de Deus em Cristo e não a resposta de fé dos crentes. A expressão, em “Cristo Jesus temos crido, para que pudéssemos ser justificados pela fidelidade de Cristo” (2.16c), apresenta num nível secundário, o ato de ter fé em Cristo. O significado primário ou referencial da expressão, no entanto, é a fidelidade de Cristo ao Pai necessária para consumar a salvação. Assim, Paulo estabelece as bases objetivas e subjectivas para a vida cristã. Vale ressaltar, entretanto, que a resposta de fé dos crentes é também uma obra de Deus comunicada pelo Espírito Santo através do Evangelho de Jesus Cristo (Gl 3.2; Ef 2.8, Fl 1.29; Rm 4.3-5, 14, 16; 5.2; 9.32, 10.16-17). 

Estes são os elementos centrais que Paulo apresentou para a fundamentação do seu ensino sobre a justificação pela fé em Gálatas 2.15-21. Estes pontos, outrossim, definem e expressam sinteticamente e positivamente “a verdade do evangelho” que ele anunciava (Gl 2.5; 2.14).  

Pastor Leonardo Cosme de Moraes

O PODER DO EVANGELHO DE JESUS CRISTO



O apóstolo Paulo, em seu ministério em Filipos, encontrou três tipos diferentes de pessoas e ganhou-os para Cristo (Atos 16.11-34). Stott (1994:302) observou que “é difícil imaginar um grupo mais heterogêneo do que uma comerciante, uma jovem escrava e um carcereiro. Em termos raciais, sociais e psicológicos, eram mundos totalmente diferentes. Mas todos os três haviam sido transformados pelo mesmo evangelho e recebidos na mesma igreja.” [1] 

O evangelho alcança a todos os tipos de pessoas. Deus salvou em Filipos três classes sociais: uma comerciante; uma escrava; e um funcionário público. Deus Salvou em Filipos pessoas de paradigmas religiosos diferentes: Lídia era uma gentia convertida ao judaísmo; a jovem escrava vivia na prática do ocultismo e era possessa por demónios; o carcereiro provavelmente professava a religião oficial do Império Romano. Cada uma dessas pessoas teve uma experiência distinta de salvação. Lídia foi salva enquanto estava numa reunião de oração e ouviu a Palavra de Deus (At 16.13-15). O evangelho alcançou a jovem escrava enquanto ela estava com o coração possuído por Satanás (At 16.16-18). O evangelho alcançou o carcereiro à beira do suicídio (At 16.27-34). Portanto, esta é uma passagem que demostra que a salvação alcança a todos os tipos de pessoas. É uma passagem de demonstra que as paredes que dividem as pessoas são quebradas pelo poder do Evangelho de Cristo. [2] [1]

O evangelho chega até às pessoas pela graça soberana. Foi Deus quem enviou Paulo para pregar o evangelho em Filipos (16.10). É Deus quem abre o coração de Lídia (16.13-14), é Ele quem liberta a jovem cativa (16.16-19); é Ele quem abre as portas da prisão (16.25-27) e transforma a vida do carcereiro (16.30-34).Temos aqui uma ênfase na soberania de Deus na salvação. [2] [3]

O Senhor abriu o coração de Lídia para atender às coisas que Paulo dizia (16.13-14). É a obra sobrenatural de Deus, não a sabedoria ou persuasão do pregador, que atrai as pessoas a Cristo. A salvação não é obra do homem, mas do Senhor. É o próprio Senhor quem abre o coração humano para receber a palavra do Evangelho (Lc 24.45; Mt 13.10-15). O resultado é que Lídia responde a mensagem de Paulo e aceita o Senhor como o seu Salvador. [3] [4] [5]

A iluminação e a persuasão divinas são necessárias para que o coração cego pelo pecado responda ao evangelho (At 13.48). A Bíblia diz que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus.” (2 Co 4.4). Em 1 Coríntios 2.14 lemos que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” Jesus, com absoluta clareza, disse: “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6.44) […] “ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido.” (Jo 6.65). A Escritura também diz: “Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas?” (Jr 13.23). “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.” (Rm 9.16). [5] [6]

Embora a mensagem do Evangelho possa soar como loucura para alguns, o evangelho é efetivo porque carrega em si a omnipotência de Deus. Como escreveu o apóstolo Paulo: “a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos. Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo? Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação.” (1 Co 1.18-21). Essa é a razão pela qual Paulo jamais sentiu qualquer envergonha “do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê…” (Rm 1.16, ACF).

O evangelho é o poder de Deus para a salvação (At 16.13-14). Lídia era uma mulher temente a Deus, religiosa, ela orava. Mas não era convertida. Não basta frequentar uma igreja ou ter uma religião. É necessário nascer de novo (Jo 3.3-8). Precisamos nascer de Deus (1 Jo 5.1). Precisamos da regeneração produzida pelo Espírito Santo (Jo 3.8; Tt 3.5; Tg 1.18; 1Pe 1.23). Nesse sentido, a Escritura também usa a linguagem de ressurreição espiritual em Efésios 2.1-11. Quando indivíduos são ligados a Cristo pela fé nele, tornam-se parte da nova criação (2 Co 5.17; Jo 1.12). [2]

Deus abriu o coração de Lídia e Ela ouviu e atendeu a chamada de Deus. Ela creu no Evangelho e foi salva. Sua casa acabou se tornando o local de encontro dos cristãos em Filipos (At 16.15, 40). É na casa de Lídia que surge agora a primeira igreja e centro de missões na Europa.

O evangelho é o poder de Deus para libertação dos cativos (At 16.16-19). O diabo estava escravizando aquela jovem. Ela era escrava tanto do diabo como dos homens. O diabo possuiu essa jovem, dando-lhe um espírito de adivinhação. Ela adivinhava pelo poder dos demónios. O diabo falava pela boca dela. Muita gente acreditava no poder preditivo dessa jovem. Os donos desse jovem lucravam com o seu ocultismo e com o misticismo pagão da população da cidade de Filipos (que, à luz da Bíblia, é uma prática abominável aos olhos de Deus, Dt 18.9-14; 2 Rs 17.17; Mq 3.11). [2]

As palavras da jovem eram verdadeiras no sentido formal, mas Paulo ficou indignado, pois sabia quem estava por trás daqueles gritos. Paulo não aceitou o testemunho dos demónios nem conversou com os demónios. Ele não tolera nenhuma propaganda do diabo para a causa de Jesus. Ele não queria que parecesse que ela era sua parceira na evangelização (At 16.17-18). Por isso, “Paulo voltou-se e disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela. E na mesma hora saiu” (At 16.18, ACF). “Enquanto, porém, o próprio Jesus podia proferir o simples “ordeno-te” (Mc 1.25; 5.8), o discípulo somente tem autoridade quando o faz “em nome de Jesus Cristo”, com o olhar de fé para a vitória na cruz e o poder do Cristo vivo e presente, naquele tempo e hoje”. O diabo mantém muitos no cativeiro hoje também. Mas, quando o evangelho chega, os cativos são libertos. [7]

Ademais, a atitude dos proprietários dessa escrava demonstra a crueldade desumana da instituição da escravidão. O texto informa quando Paulo exorcizou o espírito que dominava a jovem, exorcizou também a fonte de renda daqueles que a exploravam. Movidos pelo ódio antissemita, esses homens acusaram Paulo e Silas de estarem a pregar práticas religiosas ilegais, que ameaçavam ao modo de vida romano. Os quais, sem nenhum direito de defesa, foram ilegalmente acoitados e lançados numa prisão de segurança máxima (At 16.19-24).  

O evangelho é o poder de Deus para nos suster nas provas da vida (At 16.24-26). Paulo e Silas são açoitados e trancados no cárcere interior. Mas eles não murmuram, não se desesperam, não se revoltam contra Deus. Em vez de clamar vingança, eles clamam pelo nome de Deus para adorá-lo. Eles fazem um culto na prisão. Seus pés estão no tronco, mas o coração deles está em Deus. Eles cantam e oram a despeito das circunstâncias. Exaltaram a Deus não porque estavam no controle da situação, mas porque o Senhor estava. A Bíblia diz que os demais prisioneiros os escutavam (At 16.25). Quando os filhos de Deus cantam no sofrimento o nome de Deus é glorificado. [2] 

Trancafiados, ultrajados e machucados eles oram cantaram louvores a Deus antes do terremoto. Então, “de repente, houve um forte terremoto, e até os alicerces da prisão foram sacudidos. No mesmo instante, todas as portas se abriram e as correntes de todos os presos se soltaram” (At 16.26). Eles experimentam um poderoso livramento. Eles viram Deus usar essas circunstâncias para trazer a salvação para uma família inteira. Eles deixam o cárcere na condição de honrados cidadãos romanos respeitados pelas autoridades locais (16.37-40). O mesmo Jesus que liberta e salva é o Jesus sustém os seus servos. [3] [4] [2]

O evangelho também alcança o principal dos pecadores. A boa notícia é que “Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores” (1Tm 1.15). “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” (2 Co 5.19). A conversão de Lídia aconteceu num lugar favorável. Ela buscava a Deus. O carcereiro não procurava. Ela estava orando; o carcereiro estava à beira do suicídio. Mas o mesmo Deus que abriu o coração de Lídia, abriu as portas da prisão e salvou o carcereiro. Há pessoas que só se convertem depois de um abalo sísmico, alguma dificuldade, algo radical. [2] [4]  

O carcereiro reconhece (At 16.30-34): (1) Que está perdido – “Que farei para ser salvo?” – Não há esperança para você a menos que reconheça que está perdido. Sem Cristo você caminha para um abismo de trevas eternas. (2) Que é preciso crer no Senhor Jesus – “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa” – Não importa quão longe você esteja. Se você crer, será salvo. Venha a Jesus! Creia no Senhor Jesus, confia-lhe tua vida! Não há outro caminho. Somente Cristo é que pode dar a salvação (At 4.12). Ele é o único mediador entre Deus e os homens (2Tm 2.5). Jesus é a única porta de entrada para o céu (Mt 7.14; Jo 10.1, 7, 9; 14.6). (3) É preciso obediência – Crê no SENHOR Jesus – Se Jesus não é o dono da sua vida, ele ainda não é o seu salvador. Ele não nos salva no pecado, mas do pecado. Jesus é salvador daqueles dos quais ele é Senhor. (4) É preciso dar provas de transformação – Conversão implica em mudança de vida. Esse homem rude deixa de açoitar, para lavar os vergões de PauloEsse homem duro se tornou hospitaleiro e, com alegria, alimentou os missionários. Deus mudou a vida dele. Como escreveu Crisóstomo: “o carcereiro lavou […] e foi lavado. Ele lavou os vergões dos açoites e foi lavado de seus pecados.” [2]

… “serás salvo, tu e a tua casa”. O carcereiro chamou toda a sua família para ouvir a mensagem do evangelho (At 16.32). Ele e toda a sua família foram baptizados (At 16.33) e se alegraram, porque creram em Deus (At 16.34). O evangelho traz esperança para as nossas famílias. Há dez registos de baptismos no Novo Testamento, e deles seis referem-se a baptismos de casas inteiras. O plano de Deus é salvar também as nossas famílias. “Quando o homem abre seu coração para Cristo, também abre sua casa.” [4] [7] [2]

Pastor Leonardo Cosme de Moraes 
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Fontes bibliográficas:
[1] Stott, J. R. W. 1994. A mensagem de Atos: até os confins da terra.  SP:ABU Editora, 285-304.
[2] Lopes, H. D. 2012. Atos: a ação do Espírito na vida da Igreja. SP: Hagnos, p. 293-318.
[3] Kistemaker, S. 2016. Atos. 2ª ed. SP: Cultura Cristã.
[4] Wiersbe, W. W. 2006. Comentário bíblico expositivo. Vol. 1. Rio de Janeiro: Central Gospel, p. 604-608.
[5] Sproul, R.C., ed. 2015. The Reformation Study Bible: ESV (Acts of the Apostles 16). Orlando, FL: Reformation Trust.
[6] MacArthur, J. 2010. Bíblia de Estudo MacArthur. SP: Sociedade Bíblica do Brasil, p. 1463-1465.
[7] Boor, W. 2002. Comentário Esperança: Atos dos Apóstolos. Curitiba: Editora Evangélica Esperança.  

O EXEMPLO DE CRISTO



A discórdia era o perigo que ameaçava a igreja de Filipos e ainda ameaça todas as igrejas saudáveis (Filipenses 1.27). Quando os crentes vivem brigando e falando mal uns dos outros, “isso é um espetáculo lamentável e vergonhoso diante do mundo. Essa atitude desonra a Cristo e a própria igreja”. [1]

A melhor forma de Paulo encorajar os seus irmãos de Filipos a viver em humildade e, dessa forma, ter verdadeira comunhão e união, é lembrá-los do exemplo de Cristo (Filipenses 2.5-11). [2] Portanto, apóstolo corrige os problemas internos da igreja de Filipos não apenas lhes oferecendo conceitos doutrinários, mas lhes mostrando o exemplo de Cristo.

Jesus Cristo transformou o mundo com o seu exemplo, seus ensinamentos e sua obra na cruz. Cristo, sendo o Mestre e Senhor, deu-nos o exemplo e ordenou-nos a seguir os seus passos. Como diz a Escritura: “Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (1 João 2.6).

Um apelo solene à unidade da igreja 
Filipenses 2.1-4 constituem uma sentença condicional longa em grego. Paulo apresenta quatro fundamentos para justificar o seu apelo à unidade (2.1). Ele coloca esses fundamentos em forma de cláusulas condicionais, e assume em cada uma que a condição é verdadeira. [3] Esses pilares já existem, e eles precisam ser o alicerce da unidade. O apelo de Paulo à unidade está aqui fundamentado na Trindade. Os crentes estão em Cristo, experimentando a realidade do amor de Deus, pela ação do Espírito Santo (1 Co 13.14; Ef 4.4-6). [4] [15]

Encorajamento em Cristo (2.1). Todo crente tem recebido encorajamento, exortação e conforto de Cristo. Essa experiência comum ‘em Cristo’, como uma comunidade amada por Cristo, deveria unir os crentes de Filipos para trabalharem juntos e em harmonia. [5] [13]

Consolação de amor (2.1). O amor de Deus leva-nos a suportar uns aos outros, a perdoar uns aos outros. O poder do amor de Deus produz uma boa vontade invencível para aqueles que nos odeiam, e o poder de amar aos que não nos agradam. Conforme o mandamento de Jesus: “Amem uns aos outros como eu amo vocês” (João 15.12).

Comunhão do Espírito (2.1). É o Espírito Santo quem produz a nossa comunhão com Deus e a nossa comunhão com o próximo (Ef 4.4). A participação comum no Espírito deve determinar o fim de toda desavença e espírito de rivalidade na igreja. O Espírito Santo é o princípio unificador na igreja local (1Co 12.4-11). Onde há comunhão do Espírito Santo, existe amor, porque o amor é fruto do Espírito (Gl 5.22). [5]

Entranhados afetos e misericórdias (2.1). A comunhão espiritual numa igreja não se limita a ‘sentimentos’ ou ‘ações formais’. Nossas “entranhas” precisam ser movidas (com ‘sentimento profundo’), e as aflições do irmão precisam despertar em nós verdadeira compaixão [6]. Precisamos ser sensíveis para com as necessidades e os sentimentos dos outros; sentindo a dor que o outro sente com o desejo de aliviá-lo desse sofrimento. Esse é o tipo de preocupação que fortalece a unidade entre os crentes. [7] [8]

Perigos que ameaçam a unidade da igreja  
Havia tensões na igreja de Filipos. A vida comunitária estava sendo ameaçada pelo partidarismo e a vangloria. Alguns membros da igreja de Filipos “estavam criando partidos baseados em prestígio pessoal, ao mesmo tempo que desprezavam os outros”. [1]. Paulo diz que a igreja de Filipos era sua alegria e coroa (4.1; 1.4). Todavia, a medida de sua alegria ainda não estava completa enquanto o espírito de facção existir. Por isso, Paulo os exorta para que tenham unanimidade de coração, “concordando sinceramente uns com os outros, amando-se mutuamente e trabalhando juntos com a mesma forma de pensar e um só propósito” (Fl 2.2, NVT). [6] [5]

Na Igreja de Deus não devem existir disputas políticas, briga por cargos, ciúmes e invejas (Tg 4.1-2). A igreja é um corpo onde cada membro coopera com o outro, visando à edificação de todos (Rm 12.5; 1 Co 12.14-20). [1]

União por meio da humildade à luz do exemplo de Cristo
A humildade é a virtude que promove a unidade (2.3-5). [1] Quase sempre entre os escritores gregos “humildade” tem um significado negativo, tendo conotações de “servilismo”. [10] Entre o povo de Deus, no entanto, a humildade é um imperativo, pois “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4.6). A escritura também diz: “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte” (lPe 5.6). Portanto, a humildade deve ser a marca do cristão, pois seu Senhor e Mestre foi “manso e humilde de coração” (Mt 11.29). Jesus disse que maior é o que serve e que Ele mesmo veio não para ser servido, mas para servir (Mc 10.45). [15]

A humildade olha para o outro com honra (Rm 12.10). “Considerando os outros superiores” (Fl 2.3). Uma pessoa humilde olha para as virtudes e os pontos fortes dos outros, ao mesmo tempo em que atenta para as suas próprias fraquezas, falhas e limitações. A humildade busca o interesse do outro com solicitude (2.4). Não atenta apenas para os próprios interesses, mas preocupa-se também com as necessidades, dificuldades e aflições do irmão. [5] [7]

“O melhor remédio para curar os males da igreja é olhar para Jesus, seguir os Seus passos e imitar o Seu exemplo” (2.5). [1] Não podemos imitar os Seus atos redentores nem sofrer e morrer vicariamente. Contudo, com o auxílio da graça de Deus, podemos e devemos imitar o espírito que serviu de base para esses atos de Jesus. A atitude de auto-renúncia, com vistas a auxiliar outros, deveria estar presente e se expandir na vida de cada discípulo (Mt 11.29; Jo 13.12-17; 13.34; ICo 11.1; lTs 1.6; lPe 2.21-23; 1Jo 2.6). [5] [14]

O exemplo de Cristo
Filipenses 2.5 conecta as exortações (vv. 1-4) ao hino sobre Cristo (vv. 6-11). A leitura correta desse texto cristológico abala todo coração egoísta e vaidoso por meio da trajetória seguida por Jesus (isto é, sua encarnação, esvaziamento, humilhação, obediência, morte e exaltação). [1] [4]

Este “hino a Cristo” pode ser dividido em seis estrofes. As três primeiras (2.6–8) celebram a humilhação de Cristo, enquanto as três últimas (2.9-11) celebram Sua exaltação. [9]

A humilhação de Cristo (2.6-8)
O sublime mistério da humilhação de Cristo deve ser a base do nosso ensino acerca da humildade em nossos relacionamentos.

Jesus abriu mão de Seus direitos (2.6). Paulo começa dizendo que Jesus é Deus em forma essencial, interna e não apenas de “aparência externa”. [11, 12, 14]. Jesus “… não julgou como usurpação o ser igual a Deus”, ou seja, “não considerou a sua igualdade com Deus como “algo a que devesse se apegar” (Fl 2.6). Cristo não usou a Sua igualdade com Deus como desculpa para auto-afirmação, ou auto-promoção; ao contrário, ele a usou como ocasião para renunciar a todas as vantagens ou privilégios que a divindade lhe proporcionava, como oportunidade para auto-empobrecimento e auto-sacrifício sem reservas. [1, 2, 5, 7, 8]

Vale a pena contrastar a atitude de Cristo com a atitude de Adão. Adão, criado homem, à imagem de Deus, tentou arrebatar para si uma falsa e ilusória igualdade com Deus. Cristo alcançou o senhorio universal mediante a Sua renúncia, enquanto Adão perdeu o seu senhorio mediante o ‘roubo’ do fruto proibido. [9, 15]

Jesus se esvaziou (2.6,7).  A frase significa que Ele se humilhou (v. 8). “O Filho de Deus deixou o céu, a glória, o Seu trono, e se fez carne, fez-se homem.” [1] Em vez de explorar a Sua igualdade com Deus, Jesus despojou a si próprio das glórias e das prerrogativas da divindade. [10] Jesus não deixou de ser Deus ao tornar-se humano, embora abdicasse de Sua glória e de Seus direitos. Ele voluntariamente submeteu-se ao Pai e disse: “Eu não procuro a minha própria vontade, e, sim, a daquele que me enviou” (Jo 5.30). Ele renunciou às Suas riquezas. O apóstolo Paulo diz: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (2Co 8.9). Jesus renunciou a tudo, até mesmo a Sua própria vida (Jo 10.11). [1]

Nas palavras do Dr. William Hendriksen: “Tão pobre Ele era que tomou emprestado um lugar para nascer, uma casa para pernoitar, um barco de onde pregar, um animal para cavalgar, uma sala para reunião e um túmulo para ser sepultado. Ele renunciou à Sua glória celestial … [Jo 17.5]. No entanto, voluntariamente deixou a companhia dos anjos e veio para ser perseguido pelos homens. Do infinito sideral de eterno deleite, na própria presença do Pai, voluntariamente Ele desceu a este reino de miséria a fim de armar a Sua tenda com os pecadores. Ele, em cuja presença os serafins cobriam o rosto, o objeto da mais solene adoração (comp. Is 6 com Jo 12.41; cf. tb. At 28.25-27), voluntariamente desceu a este mundo, onde foi “... desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer (Is 53.3).” [5]

Jesus serviu com absoluta fidelidade e abnegação (2.7). “Jesus nasceu numa manjedoura, cresceu numa carpintaria e morreu numa cruz.” [1] Ele não veio ao mundo para ser servido, mas para servir (Mc 10.45). Foi Cristo Jesus mesmo que disse: “Pois, no meio de vós, eu sou como quem serve” (Lc 22.27). O Senhor de todos tornou-se servo de todos (Mt 20.27; Mc 10.45) a fim de salvar Seu povo de seus pecados.

Jesus fez-se semelhante aos homens (2.7). Jesus possui todos os atributos essenciais da humanidade, embora, diferentemente de nós, nunca tenha pecado (1 Pedro 2.21–25; Rm 8.3). Ele continuou subsistindo em forma de Deus em Sua natureza essencial a despeito de Sua encarnação. Ele conservou a natureza essencial de Deus mesmo depois de se tornar à semelhança de homens. Por outro lado, tudo o que diz respeito à experiência humana, Jesus também vivenciou: tentação (Hb 4.15), sofrimento (IPe 2.21) e desapontamento (Mt 23.37). [9]

Exceto no pecado, qualquer coisa que pode ser dita acerca do homem, pode ser dita também sobre o Senhor Jesus Cristo. Jesus, assim, tornou-se semelhante ao primeiro Adão, que foi sem pecado, mas, como segundo Adão, fez-se pecado por nós, para vencer o pecado e nos remir dele. [5] [10]

Jesus se sacrificou (2.8).  Jesus Cristo foi obediente até à morte e morte de cruz. “Cristo se esvaziou e se humilhou quando se fez homem. Depois desceu mais um degrau nessa escalada da humilhação, quando se fez servo; mas desceu às profundezas da humilhação quando suportou a morte e morte de cruz.” [1]

A morte de cruz foi dolorosa (ele sofreu dores atrozes); foi ultrajante (teve de carregar a cruz debaixo do escárnio da multidão até o lugar da sua execução); e considerada maldita (Dt 21.23; Gl 3.13). Contudo, a Escritura diz que Jesus foi para a cruz porque o Pai o entregou por amor e porque Ele a si mesmo se entregou por nós. Ele morreu pelos nossos pecados, segunda as Escrituras (1 Co 15.3). Ele foi desamparado na cruz para sermos aceitos. Ele se fez maldição na cruz para sermos benditos de Deus. [1] [13]

A exaltação de Cristo 
A exaltação excepcional de Cristo é obra de Deus, o Pai (2.9). A Bíblia diz que Deus exalta aqueles que se humilham (Lc 18.14; Mt 23.13; Lc 14.11; 18.14; Tg 4.10; 1Pe 5.6). Deus não deixou Cristo na sepultura, mas o levantou da morte, o levou de volta ao céu e o glorificou (At 2.33; Hb 1.3). Deus Pai deu a Jesus “toda autoridade no céu e na terra” (Mt 28.18). Deu a Ele autoridade para julgar (Jo 5.27) e o fez Senhor de vivos e de mortos (Rm 14.9), fazendo-o assentar à sua destra, acima de todo principado e potestade, constituindo-o cabeça de toda a Igreja (Ef 1.20-22). Essa elevação de Jesus foi a restituição da glória eterna que tinha com o Pai antes que houvesse mundo (Jo 17.5,24). [1] 

Jesus foi “superexaltado” por Deus Pai. Cristo ultrapassou os céus (Hb 4.14), foi feito mais alto que os céus (Hb 7.26) e subiu acima de todos os céus (Ef 4.10). Ele recebeu um nome que está acima de todo nome (2.9). Sua revelação como o ‘Senhor’ é o sinal de que ‘todo joelho deve se dobrar’ para oferecer-Lhe adoração e que toda língua deve aclamá-lo, Senhor absoluto de todo o Universo (Mt 28.18; Is 45.14-25). [5]

A exaltação de Cristo exige a rendição de todos e será proclamada universalmente (2.10, 11). O Filho de Deus é chamado de Senhor mais de seiscentas vezes no Novo Testamento. [11, 8] O senhorio de Cristo foi a grande ênfase da pregação apostólica (At 2.36; Rm 10.9; Ap 17.14; 19.16). [10] “A aclamação final do Universo é, também, o slogan confessional da Igreja de hoje: Jesus Cristo é Senhor”. [6]

Na segunda vinda de Cristo, os três mundos vão se dobrar aos pés de Jesus: os céus, a terra e o inferno. Todas as criaturas e toda a criação reconhecerão que Jesus é Senhor (2.11; Ap 5-13). Essa confissão será pública e universal.

Jesus foi coroado no dia da Sua ascensão. Aqueles que amam a Jesus sabem disso e se regozijam nesse fato, mas milhões de pessoas no mundo não sabem que Jesus é o Rei coroado e somente se prostrarão aos Seus pés quando Ele se manifestar em glória. [14] Isso, entretanto, não significa que todas as pessoas serão salvas. Será apenas o inevitável reconhecimento do senhorio de Cristo por ocasião da vinda de Jesus em glória triunfal. Já será tarde demais para aqueles que o negaram nesta vida. À vista disso, advertiu Jesus: “qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 10.32, 33). [2]

A exaltação de Cristo teve um propósito estabelecido (2.11): Que o Pai seja glorificado pela exaltação do Filho. Cristo se humilhou e suportou a cruz, para a glória de Deus Pai (Jo 17.1). Ele ressuscitou, e foi exaltado para a glória de Deus Pai (2.11). Toda a vida e obra de Jesus assinala a glória de Deus Pai. O fim último de todas as coisas é a glória de Deus (I Co 10.31). [1] [6]

Enquanto alguns membros da igreja de Filipos queriam ser o centro das atenções, Jesus queria que o único centro da atenção fosse Deus. Assim, também, o seguidor de Cristo nunca deve deve buscar a sua própria glória, senão a glória de Deus. [1]

Pastor Leonardo Cosme de Moraes
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Referências bibliográficas:
[1] Lopes, H. D. 2007. Filipenses. SP: Hagnos, p. 102-143
[2] Foulkes, F. 2009. Filipenses. (In Carson, D. A, ed., et al. Comentário Bíblico Vida Nova. SP: Vida Nova, p. 1881-1885).
[3] Shedd, R. P & Mulholland, D. M. 2005. Epístolas da prisão: uma análise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. SP: Vida Nova, 120-123.
[4] Crossway Bibles, 2008. The ESV Study Bible: Philippians   2. Wheaton, IL: Crossway Bibles.
[5] Hendriksen , W. 2005. Efésios e Filipenses, SP: Cultura Cristã, p. 465-478.
[6] Martin, R. P. 1985. Filipenses: Introdução e comentário. SP: Vida Nova. 1985: p. 100-104.
[7] Boor, W. 2006. Comentário Esperança: Carta aos Filipenses. (cap. 2) Curitiba: Editora Evangélica Esperança.
[8] Bruce, F. F. 1992. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Filipenses. SP: Vida, p. 70-89.
[9] Sproul, R.C., ed. 2015. The Reformation Study Bible: ESV (Philippians 2). Orlando, FL: Reformation Trust.
[10] MacArthur, J. 2010. Bíblia de Estudo MacArthur. SP: Sociedade Bíblica do Brasil, p. 1617-1620.
[11] Kittel, G. F., & G. W. Bromiley, G. W., ed. 2013. Dicionário Teológico do Novo Testamento. SP: Cultura Cristã.
[12] Biblical Studies Press. 2006. The NET Bible Edition Notes (Philippians 2).
[13] Wiersbe, W. W. 2006. Comentário bíblico expositivo. Vol. 6. Rio de Janeiro: Central Gospel, p. 94-98.
[14] Motyer, J. A. The message of Philippians, 1984: p. 120-130.
[15] Boyce, J. M. 1971. Philippians: an expositional commentary. Grand Rapids, MI: MRL, p. 129-130