A exclusividade do Evangelho da graça de Deus em Cristo


Na carta aos Gálatas, Paulo expõe em detalhes o que é o evangelho e como ele opera. Mas o público-alvo dessa explanação é só de cristãos professos. Isto significa que não são apenas os não cristãos que precisam do evangelho, mas também os crentes.


O evangelho não é apenas a maneira pela qual entramos no reino, mas a maneira pela qual vivemos na condição de participantes do reino. O evangelho é a maneira pela qual Cristo transforma as pessoas, igrejas e comunidades. Como observou Tim Keller, “o evangelho cria uma nova dinâmica radical para o crescimento pessoal, para a obediência, para o amor”. 


Na abertura de suas cartas, Paulo normalmente oferece uma oração de ação de graças por sua audiência (Rm 1.8; 1 Co 1.4; Fp 1.3). Mas com os gálatas, não há motivo para ações de graças; pois eles estavam afastando-se do evangelho da graça por outro evangelho. Aqui Paulo limita-se a dizer: “Maravilho-me” (“estou admirado”, “surpreso” v. 6). Esta expressão de espanto, em termos retóricos, pode ser interpretada como o início da secção de repreensão da carta.


O que despertou estes sentimentos em Paulo? Em primeiro lugar, Paulo ficou admirado porque aqueles cristãos estavam a deixar-se levar por um falso evangelho (1.7). Em segundo lugar, o alvo principal de sua fúria são aqueles que queriam perverter o evangelho de Cristo (v. 7b). Paulo invoca a maldição escatológica de Deus sobre eles (v. 9). A palavra “anátema” aqui refere-se a colocar alguém sob o julgamento de Deus: Deus vai punir aqueles que distorcerem a mensagem do evangelho de Cristo.


Ao percorrermos a carta, vemos que um grupo de mestres judeus (missionários rivais) vinha ensinando aos cristãos gentios que eles eram obrigados a cumprir os costumes culturais judaicos da Lei Mosaica – em relação a circuncisão e às demais leis cerimoniais para serem plenamente aceitos por Deus, e como requisitos para serem membros do povo da aliança de Deus (cf. 5.2-6; 6.12-13; 2.3-5). Entretanto, Paulo diz que esse ensino judaizante (2.14) consiste numa rejeição completa da suficiência e da exclusividade de Cristo.  


Portanto, esses intrusos nas igrejas da Galácia não estavam a proclamar o evangelho verdadeiramente, mas estavam a alterar o imutável e único evangelho de Cristo (1.7; 5.10, 12). Eles estavam a seduzir os gálatas a voltarem-se da luz do verdadeiro evangelho para as trevas de um falso evangelho.


A linguagem forte usada por Paulo, demonstra que ele não considera estes intrusos como crentes, pois eles pregam um evangelho diferente. Paulo também está zangado com os próprios cristãos da Galácia, e os adverte de que estão a afastar-se do Deus que os chamou à graça de Cristo (v. 6b).


Quem é Paulo para escrever a estes cristãos desta maneira? Paulo é um apóstolo (1.1): um homem “enviado” com autoridade divina imediata. A frase “não da parte de homens, nem por homem algum” deixa claro o carácter exclusivo dos primeiros apóstolos. Embora os actuais ministros da palavra recebam sua chamada de Deus (a razão última de sua chamada, fundamentada na Escritura), são separados por intermédio de outros ministros humanos, ou por meio da eleição de uma congregação. O apóstolo Paulo, no entanto, foi comissionado e ensinado directamente pelo próprio Senhor Jesus ressurrecto (At 9.1-19). Ele recebeu autoridade absoluta de Cristo e que ele escrevia era Escritura inspirada pelo próprio Deus. 


Nos versículos 8 e 9, Paulo informa que foi enviado com uma mensagem divina específica: o evangelho. Seu ensinamento divino serve de padrão para julgar quem é ORTODOXO e quem é HEREGE, como ele diz no versículo 9.


Na abertura da carta, Paulo apresenta um esboço da mensagem central do evangelho: 

A condição espiritual da humanidade pós-queda: impotente e perdida. É o que pode ser subentendido pelo uso da palavra “livrar” no versículo 4. Não se pode livrar pessoas a menos que estejam cativas e em condição de impotência! A condição espiritual do homem, por causa do pecado, é de inabilidade total. Nada do que somos ou fazemos nos salva. Portanto, é de um libertador que nós mais precisamos.


Jesus é o libertador, que “se entregou a si mesmo pelos nossos pecados” (v.4a). A palavra “pelos” significa “em benefício de” ou “no lugar de”. A morte de Cristo foi substitutiva. Ele não comprou apenas uma “segunda chance”, dando-nos nova oportunidade. Ele fez tudo que precisávamos fazer e deveríamos ter feito, mas não conseguimos. A expiação realizada por Cristo é eficaz! Seu sacrifício foi completo, perfeito, suficiente, definitivo.


Deus Pai aceitou a obra de Cristo em nosso benefício ressuscitando-o “dentre os mortos” (v.1) e dando-nos a “graça e paz” (v. 3) que Cristo conquistou por nós. Tudo isso foi feito por Sua graça soberana – não por algo que tenhamos feito, mas “segundo a vontade de Deus nosso Pai” (v. 4d). Não há nenhum indicativo de qualquer outra motivação ou causa para a missão de Cristo, exceto a soberana vontade de Deus. Não há nada em nós que mereça a salvação. Portanto, o único que recebe “glória para todo o sempre” é Deus (v. 5).


Por essa razão, o apóstolo Paulo condena qualquer ensino que não seja baseado no facto de que: (a) Pecamos demais para contribuir para nossa salvação (precisamos de uma libertação completa). (b) Somos salvos pela fé na obra de Jesus Cristo – a “graça de Cristo” – e mais nada.


Contudo, os opositores de Paulo nas igrejas da Galácia estavam pervertendo a verdade do evangelho. E Paulo diz que qualquer mudança no evangelho significa transformá-lo em algo “que, na realidade, não é o evangelho” (cf. v. 7, NVI). 


Os cristãos são chamados “pela graça de Cristo” (v. 6). Deus chamou-nos e aceitou-nos de pronto, apesar de não merecermos. No versículo 7, Paulo diz que qualquer ensinamento que acrescente a manutenção da lei cerimonial à fé em Cristo “perverte” o evangelho. Logo, se acrescentarmos qualquer coisa a Cristo como um requisito para sermos aceitos por Deus – se começarmos a dizer: para sermos salvos, precisamos da graça de Cristo mais alguma coisa -, revertemos por completo a ordem do evangelho, anulando-o e esvaziando-o.   


Hoje em dia muitos abraçam o pluralismo (que a salvação pode ser obtida por meio de todas as religiões) ou o inclusivismo (que as pessoas podem ser salvas por meio de Cristo, embora nunca tenham ouvido o evangelho). Num mundo onde a tolerância é valorizada e a rigidez das gerações anteriores é rejeitada, estamos inclinados a ir para o outro extremo. Os anátemas de Paulo, portanto, revelam o quanto nos afastamos do testemunho bíblico, indicando que nossas igrejas não equilibraram corretamente as doutrinas da santidade de Deus e seu amor. 


Muitos ensinam que não tem muita importância aquilo que uma pessoa crê, desde que seja uma pessoa amorosa e boa. Essa visão ensina que todas as pessoas boas, independentemente de sua religião (ou falta dela), encontrarão a Deus. Embora a ideia pareça revelar uma mente aberta, ela é intolerante para com a graça. Pois se o caminho das boas obras é suficiente para se chegar a Deus, então a morte de Jesus não era necessária; basta a virtude. O problema é que isso contradiz o evangelho que convida “tanto maus quanto bons” ao banquete divino (Mt 22.10). Se as pessoas “boas” podem conseguir a vida eterna por si mesmas, então a “glória para todo o sempre” (v.5) é transferida para elas por serem boas o suficiente para o céu. Todavia, o evangelho desafia as pessoas a verem seu pecado radical. Sem esse senso do próprio mal, deixaremos de compreender a glória da graça de Deus; e o quanto Deus é glorificado pela presença de qualquer pessoa no céu. 


Ademais, se deixarmos de proclamar que há apenas um nome pelo qual podemos ser salvos (Atos 4.12) e que os seres humanos vêm a Deus somente por meio de Jesus Cristo (João 14.6), sem dúvida daremos garantia de salvação às pessoas que estão caminhando para o julgamento final.


Paulo apresenta o conteúdo do evangelho como um padrão para julgar todas as afirmações de verdade, sejam elas externas (de mestres, escritores, pregadores, líderes institucionais ou mesmo ministros ordenados em uma hierarquia eclesiástica) ou internas (sentimentos, sensações, experiências). Esse padrão é o evangelho que ele, junto com os outros Apóstolos receberam de Cristo e ensinaram, o qual é encontrado nessa carta e em todo o restante da Bíblia. “Ainda que nós [...] ou um anjo [...] vos pregue um evangelho diferente [...] seja maldito” (v. 8).


No versículo 8, Paulo está dizendo que até sua autoridade apostólica deriva da autoridade do evangelho, não o contrário. Ele diz aos gálatas para avaliarem tanto seu apostolado quanto seu ensino à luz do evangelho bíblico. A Bíblia julga a igreja; a igreja não julga a Bíblia. A Bíblia é que cria e fundamenta a igreja; a igreja não cria nem fundamenta a Bíblia. A igreja e sua hierarquia devem ser avaliadas pelo crente à luz do evangelho bíblico, considerando-o o padrão para avaliar todas as afirmações de verdade. Tampouco nossa experiência pessoal é o padrão de avaliação da verdade. Não julgamos a Bíblia por nossos sentimentos ou convicções; julgamos nossas experiências pela Bíblia. 


Portanto, se um anjo aparecesse literalmente perante uma multidão de pessoas e ensinasse que a salvação é obtida pelas boas obras (ou qualquer outra coisa, exceto somente por Cristo, por intermédio da fé somente), deveríamos considerá-lo anátema (v. 8). 


Por que o evangelho é algo acerca do qual precisamos ser inflexíveis e radicais? 

1. Porque abandonar a teologia do evangelho é abandonar Cristo em pessoa (v. 6). Uma diferença na sua compreensão do evangelho leva a uma diferença em sua compreensão de quem é Jesus – e isso significa que é questionável se de facto você o conhece. 


2. Porque outro evangelho não é de facto evangelho (v. 7). O evangelho não pode ser alterado, nem de leve, sem se perder. A mensagem do evangelho é: você é salvo pela graça (Sola Grafia) por meio da obra de Cristo (Solus Christus), e nada mais. Quando você faz qualquer acréscimo a isso, perdeu tudo de uma vez. No momento em que revisa o evangelho, você o reverte (Tim Keller).


3. Porque outro evangelho produz maldição (v. 8, 9, 10). O que está em jogo é algo muito sério: nosso conhecimento de Cristo, a verdade do evangelho e o destino eterno das almas. É por isso Paulo adotou uma linguagem tão severa. A franqueza rude de Paulo é por amor. Ele é um apóstolo que ama o Senhor, o evangelho do Senhor e o povo do Senhor. 


4. Porque devemos temer a Deus em vez das pessoas. Não devemos modificar a mensagem do evangelho para agradar as pessoas (1.10). É muito melhor ser um escravo de Cristo do que ser escravo das opiniões humanas sobre nós. A razão de muitos não crerem em Jesus foi porque eles almejaram a glória e o louvor das pessoas mais do que a glória de Deus (João 5.43-44; 9.22). 


No capítulo 12, João resume o ministério público de Jesus: “Ainda assim, muitos líderes dos judeus creram nele. Mas, por causa dos fariseus, não confessavam a sua fé, com medo de serem expulsos da sinagoga; pois preferiam a aprovação dos homens do que a aprovação de Deus.” (Jo 12.42-43). Entendo que esses versículos estão a ensinar que tais pessoas não tinham fé salvadora genuína (cf. João 2.23-25). Novamente, o motivo do fracasso em seguir a Jesus foi o medo dos seres humanos. 


A palavra de Deus diz que precisamos ser corajosos. O Senhor Jesus advertiu-nos que “qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos.” (Lc 9.26).


Confie na graça de Deus revelada no evangelho. Creia que pela graça de Deus, por meio de Cristo, pelo poder do Espírito Santo, você será libertado do medo das pessoas.


Fontes: 

Keller, T. 2015. Gálatas para você. São Paulo: Edições Vida Nova (principalmente).


Schreiner, T.R. 2010. Galatians. Grand Rapids, MI: Zondervan.


Witherington, B., III. 1998. Grace in Galatia: a commentary on St. Paul’s Letter to the Galatians. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co.


A DIFERENÇA ENTRE O JUSTO E O ÍMPIO

 

Salmos 1.1-6


Este salmo é considerado um salmo de conselhos práticos. Ele aborda os tópicos encontrados na literatura de sabedoria, como Provérbios, e torna-os objecto de cânticos. O propósito é que aqueles que cantam os salmos possuam também seus valores.


O Salmo 1 introduz todo o livro de Salmos. Esta abertura propõe-se a desafiar os leitores a comprometerem-se com o Senhor e com sua lei. O Salmo tem dois parágrafos, um sobre o justo (v. 1-3) e o outro sobre o ímpio (v. 4-6). O parágrafo sobre o justo é mais longo que o do ímpio. Os parágrafos têm uma ordem inversa. O parágrafo sobre o justo termina com uma metáfora e o do ímpio começa com uma metáfora. As metáforas mostram fortemente o contraste entre os dois.


diferenciação é o tema em torno do qual o poema está estruturado, traçando um contraste acentuado entre os Justos e os ímpios - que são os únicos tipos de pessoas do ponto de vista de Deus: (1) Os Justos, caracterizados pela retidão e obediência a Palavra de Deus. (2) Os ímpios, que representam as ideias do mundo e não permanecem na Palavra de Deus. 


A diferenciação deles é patente na maneira como vivem. O contraste também é estabelecido através da fonte de valores deles.  Esta separação e distinção entre esses dois grupos de pessoas existirá no decurso da história e continuara na Eternidade.


Tal diferenciação também foi anunciada pelo profeta Jeremias que disse: “… Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! Porque será como a tamargueira no deserto, e não verá quando vem o bem; antes morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável. Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja confiança é o Senhor. Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto” (Jeremias 17.5-8).


O CAMINHO DA BÊNÇÃO (Sl 1.1-3)

O livro do Salmos abre-se com um pronunciamento de bênção. “Bem-aventurado o homem”, diz o salmista. O substantivo hebraico usado aqui (é ashre, אַשְׁרֵי e) descreve alguém que é abençoado com a felicidade (lit. “quão feliz e abençoado é”). Seu equivalente grego - makarios - é encontrado nas bem-aventuranças de Jesus (Mt 5.3-11). Este homem piedoso é um representativo dos seguidores de Deus (homem ou mulher, jovem ou idoso).


O homem piedoso é descrito, primeiramente, em termos do que ele não faz (Sl 1.1). As três formas verbais no verso 1 referem-se ao comportamento característico dos justos. O justo é feliz naquilo que não faz: (a) Não anda segundo o conselho dos ímpios. (2º) Nem fica no caminho dos pecadores. (3º) Nem assenta-se na roda dos escarnecedores.


A pessoa justa é descrita pelo que evita. A sequência “andar-ficar-sentar” prevê uma progressão de uma associação casual com os ímpios para uma identificação completa com eles. Este é o caminho que justo evita com todo o cuidado.


O salmista descreve o caráter daqueles cuja confiança está no Senhor. Eles não olham para os ímpios como fonte de sabedoria; sua vereda não é aquela transitada por pecadores; sua companhia não é com aqueles que zombam de Deus ou que são arrogantes ao ponto de desprezar a instrução do Senhor. 


“Bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (Sl 2.12). Conforme o testemunho do profeta Jeremias, que disse: “Achando as tuas palavras, logo as comi, e a tua palavra foi para mim o gozo e alegria do meu coração; porque pelo teu nome sou chamado, ó SENHOR Deus dos Exércitos. Nunca assentei-me na assembleia dos zombadores, nem regozijei-me; por causa da tua mão assentei-me solitário; pois encheste-me de indignação” (Jr 15.16-17).


Os verdadeiros crentes podem ser conhecidos pelas coisas que praticam, pelos lugares que frequentam e pelas pessoas com as quais convivem. Ninguém pode experimentar a bênção de Deus sem evitar as coisas destrutivas. Não existe neutralidade na Vida Cristã (Mt 6.24). Muitas vezes o amor e o ódio caminham lado a lado: “Vós que amais o Senhor aborrecei o mal” (Sl 97.10). “O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegando-vos ao bem” (Rm 12.9). O mesmo João que falou-nos que o amor é a marca do verdadeiro cristão (1Jo 2.10), também diz que a marca do verdadeiro cristão é não amar o mundo (1Jo 2.15).


O salmista apresenta o estilo de vida de uma pessoa que é verdadeiramente feliz. O homem bem-aventurado é destacado porque “seu deleite está na lei do Senhor, e em sua lei medita dia e noite” (1.2). Ele tem o seu prazer na Lei do Senhor, que é a expressão da vontade de Deus. A instrução divina forma a base de sua conduta e é o tesouro de seu coração. A “Lei” aqui não significa uma lista de regras e as punições correspondentes, mas a plenitude do ensino de Deus para seus filhos. Portanto, o justo deseja o que Deus requer dele. Ele desenvolve-se por sua obediência a Palavra de Deus. Ele memoriza a lei, recita-a e medita nela. O texto lembra Josué 1.8, onde o Senhor diz a Josué: “Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme a tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido”. A pessoa feliz é caracterizada pela contemplação consistente e a interiorização da Palavra de Deus a fim de alcançar a direcção ética e a obediência. 


O resultado de tal meditação na instrução do Senhor é que o  indivíduo bem-aventurado é como uma árvore transplantada (v. 3) para as margens de um canal de irrigação. O salmista compara uma pessoa abençoada a uma árvore: forte, estável, bem nutrida, frutífera e próspera. Como diz o salmista: “O justo florescerá como a palmeira; crescerá como o cedro no Líbano. Os que estão plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice ainda darão frutos; serão viçosos e vigorosos, para anunciar que o Senhor é reto. Ele é a minha rocha e nele não há injustiça” (Sl 92.12-15). 

Em sua posição bem irrigada, a árvore produz seu fruto, e sua localização assegura que ela não secará. Dessa forma ela assemelha-se ao verdadeiro filho de Deus que persevera até o fim (Fp 1.6) e que produz frutos de justiça (Gl 5.16-26). A árvore, portanto, transmite uma imagem de resistência. Essa árvore não será levada pelo vento como a palha. 


A árvore foi plantada - literalmente transplantada, isto é, uma nova posição que a pessoa foi colocada. As árvores não plantam-se sozinhas e nem os pecadores transportam-se sozinhos para o reino de Deus. A salvação é obra da maravilhosa graça de Deus. Em contrapartida, o Senhor Jesus disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mt 15.13).


Contudo, como o próprio contexto indica, há uma responsabilidade inquestionável quanto  a  apropriar-se dos recursos de Deus, que conduz a essa produtividade.

 

O CAMINHO DA RUÍNA  (Sl 1.4-6)

Quão diferentes são aqueles cuja confiança não está no Senhor! As linhas de demarcação entre os filhos de Deus e os filhos do mundo são claramente traçadas. Os que confiam no Senhor amam sua instrução. Os ímpios, porém, odeiam, desprezam e até zombam da instrução do Senhor. 


Diferente da árvore com raízes profundas, os ímpios são como a palha ou a casca do trigo, que é levada pelo vento quando o grão é peneirado. Uma referencia ao local da debulha e ao trabalho de separação dos grãos do trigo (Mt 3.12). A vida do ímpio é como uma palha seca, morta e transitória -  que facilmente é levada pelo vento. 


O contraste é claro. Em vez de ser como uma árvore viva, os ímpios são tão instáveis quanto a palha. São sem raiz e sem fruto. Tais pessoas não serão capazes de manter sua posição diante do tribunal de Deus, e nenhum direito terão de estar entre o povo de Deus na eternidade. Eles não subsistirão no Juízo. Eles não serão aprovados no julgamento de Deus. Não ficarão de pé na congregação do povo de Deus. 


O caminho dos justos é constantemente protegido pelo Senhor, enquanto que o caminho dos ímpios não tem futuro. Destina-se a perecer completamente. A repetição da palavra caminho reforça o propósito do salmo. Ela refere-se ao curso de vida total de uma pessoa (seu estilo de vida).  Aqui, esses dois cursos de vida (do justo e do ímpio) conduzem aos caminhos de vida e de morte (Dt 30.19; Jr 21.8). Deus fará o contraste durar para sempre. Os dois modos de vida são determinados pela relação de alguém com o Senhor. 


No Novo Testamento aprendemos que Jesus cumpriu o papel que nunca poderíamos cumprir e também é o modelo que devemos imitar. Nesse sentido, o Salmo 1 remete-nos para Cristo, o homem perfeito, o abençoado e justo Filho de Deus; e chama-nos a andar como ele andou (1 Jo 2.6)


Na avaliação divina final, os que tem um relacionamento correto com Deus (justos) contrastam com os que seguiram seu próprio conselho, e consequentemente, não viveram dentro dos parâmetros da palavra de Deus.  Acerca dos tais, profetizou Isaías: “… Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Isaías 8.20). “Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” (Mt 6.23). É por isso que Jesus disse: “Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas” (Lc 11.35).


O Senhor conhece o caminho dos justos. Conhecer aqui não é apenas uma referência a omnisciência de Deus, mas sobretudo ao relacionamento íntimo e pessoal de Deus com os seus servos. O Senhor protege e zela pelo destino dos piedosos.  “O Senhor conhece os dias dos retos, e a sua herança permanecerá para sempre” (Sl 37.18). Mas a respeito dos ímpios, a Escritura diz: “… o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade". (2 Timóteo 2:19). No juízo final, Jesus dirá abertamente: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7.23).


O Senhor conhece os nossos caminhos. A Escritura diz que “Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (Eclesiastes 12.14). 


O Caminho do ímpio perecerá. Ao contrário do justo, que tem a presença do Senhor com ele, o ímpio não prevalecerá no juízo de Deus, ficará fora da congregação dos justos e perder-se-á para sempre.


Perecerá, a última palavra, faz um contraste decisivo com a inicial, bem-aventurado (também começam com a primeira e a última letra do alfabeto hebraico respectivamente, alef e tau).


Há um desenvolvimento para o pior no grupo confiante de zombadores. No princípio o seu conselho, parece uma coisa importante, no final, porém, já não consegue ficar em pé sequer na congregação dos justosDá entender que a vida do justo vai subindo, como uma árvore mas a do ímpio vai descendo e desfazendo-se como moinha ou farelo levado pelo vento.


Um dia, o caminho do ímpio - seu comportamento pecaminoso - acabará em ruína (Ler Sl 112; Ap 6.17). Todos os seus planos terminarão em desapontamento e ruína (Sl 37.13; 146.8; Pv 4.19). O caminho dos ímpios perecerá refere-se à destruição final ou à frustração de esperanças ou planos. “Os ímpios serão lançados no inferno, e todas as nações que se esquecem de Deus.” (Sl 9.17; 9.6). “O ímpio o verá, e se entristecerá; rangerá os dentes, e se consumirá; o desejo dos ímpios perecerá.” (Sl 112.10).


Esta cena final é novamente retratada na Escritura, como uma grave advertência contra os queixosos insolentes no meio do povo de Deus (Ml 3.13-4.2, NVI): “13 Vocês falaram coisas terríveis contra mim”, diz o Senhor. “Mas vocês perguntam: ‘O que falamos contra ti?’. 14 Vocês disseram: ‘De que adianta servir a Deus? Que vantagem temos em obedecer a suas ordens ou chorar por nossos pecados diante do Senhor dos Exércitos? 15 De agora em diante, chamaremos de abençoados os arrogantes. Pois os que praticam maldades enriquecem, e os que provocam a ira de Deus nenhum mal sofrem’. 16 Então aqueles que temiam o Senhor falaram uns com os outros, e o Senhor ouviu o que disseram. Na presença dele, foi escrito um livro memorial para registrar os nomes dos que o temiam e que sempre honravam seu nome. 17 Eles serão meu povo”, diz o Senhor dos Exércitos. “No dia em que eu agir, eles serão meu tesouro especial. Terei compaixão deles como o pai tem compaixão de seu filho obediente. 18 Então vocês verão outra vez a diferença entre o justo e o mau, entre o que serve a Deus e o que não serve. 4.1 Assim diz o Senhor dos Exércitos: “O dia do julgamento aproxima-se e arde como uma fornalha. Naquele dia, serão queimados como palha os arrogantes e os perversos. Serão consumidos, desde as raízes até os ramos. 4.2 Mas, para vocês que temem meu nome, o sol da justiça se levantará, trazendo cura em suas asas. E vocês sairão e saltarão de alegria, como bezerros soltos no pasto”.

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Referências Bibliográficas:

Barry, J.D., ed.; et al., 2012, 2016. Faithlife Study Bible, Bellingham, WA: Lexham Press.

Biblical Studies Press, 2006. The NET Bible first edition notes. Biblical Studies Press.

Carpenter, E., 2011. עֵדָה (In VanGemeren, W. A. ed. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, 3, p. 1129).

Calvino, J. 2009. Salmos. 1º Edição. São José dos Campos, SP: Editora Fiel.

Carpenter, E. & Grisanti, M.A., 2011. עֵצָה (In VanGemeren, W. A., ed. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, 3, p.1129).

Collins, C. J., ed. 2008. The ESV Study Bible. Wheaton, IL: Crossway Bibles.

Harman, A., 2011. Salmos: comentário bíblico cultura cristã SP: Editora Cultura Cristã.

MacArhur, J.  2010. Bíblia de Estudo MacArthur. SP: SBB, p. 679-680.

Motyer, J. A. 2009. Os Salmos. (in Carson, D., ed., et al. Comentário Bíblico Vida Nova. SP: Edições Vida Nova). 

Sproul, R.C. org., 2015. The Reformation Study Bible: ESV (2015 Edition). Orlando, FL: Reformation Trust.



Pastor Leonardo Cosme de Moraes


A justificação pela fé



Paulo apresentou o seu ensino sobre a justiça/justificação contestando os ensinamentos de um grupo de cristãos judeus que insistiam que os gentios deveriam ser circuncidados e forçados a obedecer à lei como parte de sua salvação e como a base para fazer parte da comunhão com o povo da aliança de Deus. 

O argumento paulino sobre a justificação pela fé, enunciado no contexto de Gálatas 2.15-21, assenta-se na articulação interrelacionada dos seguintes pontos:

1. Pedro e Paulo reconheceram que eram pecadores na busca de serem justificados em Cristo, e constataram que não eram melhores que os gentios. Então a distinção padrão entre judeus e gentios deve ser abandonada por aqueles que acreditam que alguém é justificado através da fé na obra fiel de Jesus Cristo. Paulo também deixou evidente que a justificação não pode ser desfrutada pelos pecadores sob um pacto cuja condição de bênção é o cumprimento de suas leis. Logo, a universalidade do pecado e a inadequação da lei (como um caminho de salvação) tornam evidentes que a causa da justificação não pode ser o esforço ou o desempenho humano no tocante a obediência a lei. Em razão disso, Paulo pôde afirmar que os verdadeiros transgressores dos propósitos de Deus são aqueles que tentam restabelecer a lei como a base para justificar e definir a comunidade cristã. A transgressão deles caracteriza-se na rejeição da suficiência da graça de Deus revelada na morte expiatória de Cristo; providenciando a justiça/justificação diante de Deus (2.16, 20, 21) que a prática da Lei não pode. 

2. A expressão πίστεως Ἰησοῦ Χριστοῦ refere-se em primeiro lugar à ‘fidelidade de Cristo’ e ao modo como essa fidelidade veio à expressão visível e concreta no evento objetivo da morte fiel e expiatória de Cristo na cruz. Paulo usa essa frase em 2.16 para indicar o fundamento do evangelho cristão: que sua base objetiva e sua causa eficiente é a obediência fiel que Jesus Cristo prestou a Deus Pai, tanto ativamente em sua vida como passivamente em sua morte; na qual a humanidade está incluída e representada. Enfim, a fidelidade de Jesus Cristo é outra maneira de referir-se à obediência de Jesus, necessária para alcançar nossa salvação. A passagem de Gálatas 2.15-21 não exclui a fé em Cristo. Antes, porém, afirma que os crentes devem colocar a sua confiança no que Cristo fez a fim de serem justificados perante Deus. Por outras palavras, é justamente porque Cristo fez tudo que ele possibilita ao pecador a fé e uma resposta salvadora a Deus. O contrário disso é buscar ser justificado pelo esforço humano através da obediência a lei. 

3. O novo status dos fiéis justificados resultam de sua real identificação com Cristo nos eventos redentores de sua morte e ressurreição. Cristo submeteu-se a maldição da lei na cruz e os cristãos morreram com ele e, assim, foram libertos da maldição, da condenação e do poder da lei. Contudo, a morte para a lei não significa liberdade para viver em pecado, mas o meio de alcançar o objetivo supremo: “viver para Deus”. Os crentes são agora um ‘novo eu’ pela habitação de Cristo. O velho ‘eu’, que eram em Adão, não vive mais. Cristo agora é o Senhor é o agente efetivo para viverem a nova vida de justiça. Outrossim, a fidelidade de Cristo e o seu amor sacrifical inspiram aqueles que foram justificados em Cristo (como Paulo) a viverem da mesma forma. Uma vez que a fidelidade de Jesus Cristo refere-se ao tipo de fidelidade ou lealdade que Jesus demonstrou, Paulo poderia também está exortando os gálatas a terem o mesmo tipo de fidelidade que Jesus teve (sendo assim, a fé/fidelidade de Cristo é tanto redentora como exemplar).  

4. A ‘justiça/justificação’ foi o termo amplo e multifacetado que Paulo usou para descrever a ação salvadora de Deus em relação ao seu povo. Em linhas gerais é possível afirmar que justificação é o ato pelo qual Deus confere um novo status como um antegosto da nova era; criando um novo povo em um novo pacto; para uma nova vida em Cristo produzida por seu Espírito. De outra forma, ser justificado significa “ser (1) declarado justo por antecipação ao julgamento escatológico de Deus; e (2) membro do povo de Deus redefinido na nova era inaugurada através da obra expiatória de Cristo”; para tornar-se (3) participante da nova vida em Cristo produzida por seu Espírito. Paulo, entretanto, afirma que nada disso resulta da realização dos crentes através dos atos de obediência exigidos pela lei, mas baseia-se inteiramente no cumprimento da promessa salvífica de Deus através da ‘fé/fidelidade de Jesus Cristo’. 

5. A resposta humana subjectiva de apropriar-se da justificação é a confiança ou fé na fidelidade de Cristo. Ou seja, a justificação é pela fé na fidelidade de Cristo: o mesmo que pela fé na pessoa e obra de Cristo. Paulo, então, distingue a πίστις (fé/fidelidade) de Cristo da crença dos crentes nele em Gálatas 2.15-21. Contudo, a ênfase fundamental de Paulo em Gálatas 2.15-21 é a obra de Deus em Cristo e não a resposta de fé dos crentes. A expressão, em “Cristo Jesus temos crido, para que pudéssemos ser justificados pela fidelidade de Cristo” (2.16c), apresenta num nível secundário, o ato de ter fé em Cristo. O significado primário ou referencial da expressão, no entanto, é a fidelidade de Cristo ao Pai necessária para consumar a salvação. Assim, Paulo estabelece as bases objetivas e subjectivas para a vida cristã. Vale ressaltar, entretanto, que a resposta de fé dos crentes é também uma obra de Deus comunicada pelo Espírito Santo através do Evangelho de Jesus Cristo (Gl 3.2; Ef 2.8, Fl 1.29; Rm 4.3-5, 14, 16; 5.2; 9.32, 10.16-17). 

Estes são os elementos centrais que Paulo apresentou para a fundamentação do seu ensino sobre a justificação pela fé em Gálatas 2.15-21. Estes pontos, outrossim, definem e expressam sinteticamente e positivamente “a verdade do evangelho” que ele anunciava (Gl 2.5; 2.14).  

Pastor Leonardo Cosme de Moraes

O PODER DO EVANGELHO DE JESUS CRISTO



O apóstolo Paulo, em seu ministério em Filipos, encontrou três tipos diferentes de pessoas e ganhou-os para Cristo (Atos 16.11-34). Stott (1994:302) observou que “é difícil imaginar um grupo mais heterogêneo do que uma comerciante, uma jovem escrava e um carcereiro. Em termos raciais, sociais e psicológicos, eram mundos totalmente diferentes. Mas todos os três haviam sido transformados pelo mesmo evangelho e recebidos na mesma igreja.” [1] 

O evangelho alcança a todos os tipos de pessoas. Deus salvou em Filipos três classes sociais: uma comerciante; uma escrava; e um funcionário público. Deus Salvou em Filipos pessoas de paradigmas religiosos diferentes: Lídia era uma gentia convertida ao judaísmo; a jovem escrava vivia na prática do ocultismo e era possessa por demónios; o carcereiro provavelmente professava a religião oficial do Império Romano. Cada uma dessas pessoas teve uma experiência distinta de salvação. Lídia foi salva enquanto estava numa reunião de oração e ouviu a Palavra de Deus (At 16.13-15). O evangelho alcançou a jovem escrava enquanto ela estava com o coração possuído por Satanás (At 16.16-18). O evangelho alcançou o carcereiro à beira do suicídio (At 16.27-34). Portanto, esta é uma passagem que demostra que a salvação alcança a todos os tipos de pessoas. É uma passagem de demonstra que as paredes que dividem as pessoas são quebradas pelo poder do Evangelho de Cristo. [2] [1]

O evangelho chega até às pessoas pela graça soberana. Foi Deus quem enviou Paulo para pregar o evangelho em Filipos (16.10). É Deus quem abre o coração de Lídia (16.13-14), é Ele quem liberta a jovem cativa (16.16-19); é Ele quem abre as portas da prisão (16.25-27) e transforma a vida do carcereiro (16.30-34).Temos aqui uma ênfase na soberania de Deus na salvação. [2] [3]

O Senhor abriu o coração de Lídia para atender às coisas que Paulo dizia (16.13-14). É a obra sobrenatural de Deus, não a sabedoria ou persuasão do pregador, que atrai as pessoas a Cristo. A salvação não é obra do homem, mas do Senhor. É o próprio Senhor quem abre o coração humano para receber a palavra do Evangelho (Lc 24.45; Mt 13.10-15). O resultado é que Lídia responde a mensagem de Paulo e aceita o Senhor como o seu Salvador. [3] [4] [5]

A iluminação e a persuasão divinas são necessárias para que o coração cego pelo pecado responda ao evangelho (At 13.48). A Bíblia diz que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus.” (2 Co 4.4). Em 1 Coríntios 2.14 lemos que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” Jesus, com absoluta clareza, disse: “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6.44) […] “ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido.” (Jo 6.65). A Escritura também diz: “Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas?” (Jr 13.23). “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.” (Rm 9.16). [5] [6]

Embora a mensagem do Evangelho possa soar como loucura para alguns, o evangelho é efetivo porque carrega em si a omnipotência de Deus. Como escreveu o apóstolo Paulo: “a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos. Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo? Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação.” (1 Co 1.18-21). Essa é a razão pela qual Paulo jamais sentiu qualquer envergonha “do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê…” (Rm 1.16, ACF).

O evangelho é o poder de Deus para a salvação (At 16.13-14). Lídia era uma mulher temente a Deus, religiosa, ela orava. Mas não era convertida. Não basta frequentar uma igreja ou ter uma religião. É necessário nascer de novo (Jo 3.3-8). Precisamos nascer de Deus (1 Jo 5.1). Precisamos da regeneração produzida pelo Espírito Santo (Jo 3.8; Tt 3.5; Tg 1.18; 1Pe 1.23). Nesse sentido, a Escritura também usa a linguagem de ressurreição espiritual em Efésios 2.1-11. Quando indivíduos são ligados a Cristo pela fé nele, tornam-se parte da nova criação (2 Co 5.17; Jo 1.12). [2]

Deus abriu o coração de Lídia e Ela ouviu e atendeu a chamada de Deus. Ela creu no Evangelho e foi salva. Sua casa acabou se tornando o local de encontro dos cristãos em Filipos (At 16.15, 40). É na casa de Lídia que surge agora a primeira igreja e centro de missões na Europa.

O evangelho é o poder de Deus para libertação dos cativos (At 16.16-19). O diabo estava escravizando aquela jovem. Ela era escrava tanto do diabo como dos homens. O diabo possuiu essa jovem, dando-lhe um espírito de adivinhação. Ela adivinhava pelo poder dos demónios. O diabo falava pela boca dela. Muita gente acreditava no poder preditivo dessa jovem. Os donos desse jovem lucravam com o seu ocultismo e com o misticismo pagão da população da cidade de Filipos (que, à luz da Bíblia, é uma prática abominável aos olhos de Deus, Dt 18.9-14; 2 Rs 17.17; Mq 3.11). [2]

As palavras da jovem eram verdadeiras no sentido formal, mas Paulo ficou indignado, pois sabia quem estava por trás daqueles gritos. Paulo não aceitou o testemunho dos demónios nem conversou com os demónios. Ele não tolera nenhuma propaganda do diabo para a causa de Jesus. Ele não queria que parecesse que ela era sua parceira na evangelização (At 16.17-18). Por isso, “Paulo voltou-se e disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela. E na mesma hora saiu” (At 16.18, ACF). “Enquanto, porém, o próprio Jesus podia proferir o simples “ordeno-te” (Mc 1.25; 5.8), o discípulo somente tem autoridade quando o faz “em nome de Jesus Cristo”, com o olhar de fé para a vitória na cruz e o poder do Cristo vivo e presente, naquele tempo e hoje”. O diabo mantém muitos no cativeiro hoje também. Mas, quando o evangelho chega, os cativos são libertos. [7]

Ademais, a atitude dos proprietários dessa escrava demonstra a crueldade desumana da instituição da escravidão. O texto informa quando Paulo exorcizou o espírito que dominava a jovem, exorcizou também a fonte de renda daqueles que a exploravam. Movidos pelo ódio antissemita, esses homens acusaram Paulo e Silas de estarem a pregar práticas religiosas ilegais, que ameaçavam ao modo de vida romano. Os quais, sem nenhum direito de defesa, foram ilegalmente acoitados e lançados numa prisão de segurança máxima (At 16.19-24).  

O evangelho é o poder de Deus para nos suster nas provas da vida (At 16.24-26). Paulo e Silas são açoitados e trancados no cárcere interior. Mas eles não murmuram, não se desesperam, não se revoltam contra Deus. Em vez de clamar vingança, eles clamam pelo nome de Deus para adorá-lo. Eles fazem um culto na prisão. Seus pés estão no tronco, mas o coração deles está em Deus. Eles cantam e oram a despeito das circunstâncias. Exaltaram a Deus não porque estavam no controle da situação, mas porque o Senhor estava. A Bíblia diz que os demais prisioneiros os escutavam (At 16.25). Quando os filhos de Deus cantam no sofrimento o nome de Deus é glorificado. [2] 

Trancafiados, ultrajados e machucados eles oram cantaram louvores a Deus antes do terremoto. Então, “de repente, houve um forte terremoto, e até os alicerces da prisão foram sacudidos. No mesmo instante, todas as portas se abriram e as correntes de todos os presos se soltaram” (At 16.26). Eles experimentam um poderoso livramento. Eles viram Deus usar essas circunstâncias para trazer a salvação para uma família inteira. Eles deixam o cárcere na condição de honrados cidadãos romanos respeitados pelas autoridades locais (16.37-40). O mesmo Jesus que liberta e salva é o Jesus sustém os seus servos. [3] [4] [2]

O evangelho também alcança o principal dos pecadores. A boa notícia é que “Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores” (1Tm 1.15). “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” (2 Co 5.19). A conversão de Lídia aconteceu num lugar favorável. Ela buscava a Deus. O carcereiro não procurava. Ela estava orando; o carcereiro estava à beira do suicídio. Mas o mesmo Deus que abriu o coração de Lídia, abriu as portas da prisão e salvou o carcereiro. Há pessoas que só se convertem depois de um abalo sísmico, alguma dificuldade, algo radical. [2] [4]  

O carcereiro reconhece (At 16.30-34): (1) Que está perdido – “Que farei para ser salvo?” – Não há esperança para você a menos que reconheça que está perdido. Sem Cristo você caminha para um abismo de trevas eternas. (2) Que é preciso crer no Senhor Jesus – “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa” – Não importa quão longe você esteja. Se você crer, será salvo. Venha a Jesus! Creia no Senhor Jesus, confia-lhe tua vida! Não há outro caminho. Somente Cristo é que pode dar a salvação (At 4.12). Ele é o único mediador entre Deus e os homens (2Tm 2.5). Jesus é a única porta de entrada para o céu (Mt 7.14; Jo 10.1, 7, 9; 14.6). (3) É preciso obediência – Crê no SENHOR Jesus – Se Jesus não é o dono da sua vida, ele ainda não é o seu salvador. Ele não nos salva no pecado, mas do pecado. Jesus é salvador daqueles dos quais ele é Senhor. (4) É preciso dar provas de transformação – Conversão implica em mudança de vida. Esse homem rude deixa de açoitar, para lavar os vergões de PauloEsse homem duro se tornou hospitaleiro e, com alegria, alimentou os missionários. Deus mudou a vida dele. Como escreveu Crisóstomo: “o carcereiro lavou […] e foi lavado. Ele lavou os vergões dos açoites e foi lavado de seus pecados.” [2]

… “serás salvo, tu e a tua casa”. O carcereiro chamou toda a sua família para ouvir a mensagem do evangelho (At 16.32). Ele e toda a sua família foram baptizados (At 16.33) e se alegraram, porque creram em Deus (At 16.34). O evangelho traz esperança para as nossas famílias. Há dez registos de baptismos no Novo Testamento, e deles seis referem-se a baptismos de casas inteiras. O plano de Deus é salvar também as nossas famílias. “Quando o homem abre seu coração para Cristo, também abre sua casa.” [4] [7] [2]

Pastor Leonardo Cosme de Moraes 
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Fontes bibliográficas:
[1] Stott, J. R. W. 1994. A mensagem de Atos: até os confins da terra.  SP:ABU Editora, 285-304.
[2] Lopes, H. D. 2012. Atos: a ação do Espírito na vida da Igreja. SP: Hagnos, p. 293-318.
[3] Kistemaker, S. 2016. Atos. 2ª ed. SP: Cultura Cristã.
[4] Wiersbe, W. W. 2006. Comentário bíblico expositivo. Vol. 1. Rio de Janeiro: Central Gospel, p. 604-608.
[5] Sproul, R.C., ed. 2015. The Reformation Study Bible: ESV (Acts of the Apostles 16). Orlando, FL: Reformation Trust.
[6] MacArthur, J. 2010. Bíblia de Estudo MacArthur. SP: Sociedade Bíblica do Brasil, p. 1463-1465.
[7] Boor, W. 2002. Comentário Esperança: Atos dos Apóstolos. Curitiba: Editora Evangélica Esperança.