O PECADO IMPERDOÁVEL

 Mateus 12.22-32

 

Jesus libertou e curou um endemoninhado cego e mudo. Ao sair o demónio, o homem passou a ver e a falar (12.22). Mateus não costuma referir-se aos incidentes de libertação de demónios como “curas”; ele prefere dizer que o demónio foi expulso (Mt 8.16). Neste caso, entretanto, tanto o poder de cura quanto o poder libertador de Jesus agiram para resolver as múltiplas aflições do homem. Como consequência, ele ficou completamente são.  

Diante do poder extraordinário de Jesus para curar e libertar, a multidão ficou tomada de admiração e começou a pensar seriamente que ele poderia ser o Messias de Israel (12.23). Familiarizados com as profecias messiânicas, interrogavam-se: “Será que este homem é o Filho de David?”. 

“No entanto, quando os fariseus souberam do milagre, disseram: “Ele só expulsa demónios porque seu poder vem de Belzebu, o príncipe dos demónios” (12.24). Belzebu é usado aqui para descrever o próprio Diabo, como o “governante dos demónios”.  

Os fariseus não negaram a realidade sobrenatural dos milagres de Jesus, mas atribuíam o poder que Jesus tinha sobre os demónios a Satanás. Eles reconheciam o poder de Jesus, mas atribuíam-no à fonte errada. Deste modo, trataram o Messias de Deus como um feiticeiro demoníaco (cf. 9.34; 10.25).

 Guerra entre os reinos (12.25-30)

Os fariseus estavam a sugerir que o reino de Satanás estava dividido internamente – uma ideia absurda. Se o reino de Satanás estivesse tão dividido contra si mesmo, como os fariseus aparentemente imaginavam estar, ele seria um reino extinto. Porém, todos sabiam que Satanás estava actuando no planeta terra. 

O argumento de Jesus é claro: qualquer reino, cidade ou casa, que desenvolva briga interna destrói a si mesmo. O mesmo é verdade para o “reino” de Satanás (12.26). Se o que os fariseus diziam era verdade, o dominador estaria destruindo o próprio domínio; o príncipe, o próprio principado. 

Entretanto, o reino de Satanás é um sistema unificado. “Contra o Senhor Jesus, Pilatos e Herodes se uniram e se tornaram amigos (Lc 23.12). Herodes e Pilatos se ajuntaram […] contra o teu santo Servo Jesus […] com gentios e gente de Israel (At 4.27). Portanto, as forças do mal insurgem-se contra as do bem, e não umas contra as outras.” (Lopes). 

Jesus demonstra que a ideia dos fariseus é absurda. A união de esforços é fundamental para a manutenção da existência de qualquer reino, cidade, família ou instituição. Basta um mínimo de racionalidade, lucidez e bom-senso para perceber isto. Até o reino das trevas sabe que “a união faz a força”. 

A incoerência das acusações contra Jesus tornou-se uma armadilha contra os próprios acusadores, pois Jesus argumenta: “E, se eu expulso demônios por Belzebu, por quem os expulsam vossos filhos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes” (12. 27). Ou seja, se Jesus estava a expulsar os demónios no poder de Belzebu, os discípulos dos fariseus também estavam. Os fariseus nunca admitiriam isso, mas não podiam escapar da lógica do argumento. 

A verdade, porém, era que Jesus expulsava demónios pelo Espírito de Deus. A libertação dos cativos pelo Espírito de Deus era uma prova da chegada do reino de Deus sobre eles (v. 28). O reino de Deus estava sobre eles porque o rei estava entre eles, mas eles ainda não haviam percebido que o Rei estava lá! Pior ainda; estavam opondo-se ao Reino de Deus.

Uma verdade solene pode ser destacada aqui: a existência de dois reinos. Jesus afirma com clareza a existência do reino de Satanás, assim como já havia falado muitas vezes sobre o reino de Deus (12.26-27). Jesus não nega o poder de Satanás; antes, afirma que ele é um valente. Satanás tem uma organização de súditos em seu reino tenebroso. Jesus referiu-se várias vezes a Satanás como o “príncipe deste mundo” (Jo 12.31; 14.30; 16.11). Paulo falou do “príncipe da potestade do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência” (Ef 2.2) e dos “dominadores deste mundo tenebroso” (Ef 6.12).  

Isto significa que há dois reinos. Uma intensa batalha é travada entre os dois reinos, e não há território neutro (12.30). Se você não está no reino de Deus, só existe um reino onde pode estar: no reino do maligno. No entanto, Satanás não é páreo para Deus. Por mais ativo e forte que seja Belzebu, ele não tem poder para impedir a obra de Cristo. Ao expelir os demónios, Jesus demonstra que é mais forte do que o valente. Ele entra na casa do valente, imobiliza-o e arranca de seu reino aqueles que estão cativos (At 26.18; Cl 1.13).  

Enfim, o reino de Deus, inaugurado no advento de Cristo, atropelou o reino de satanás. Jesus venceu Satanás e rompeu o seu poder. Satanás é um inimigo limitado e está debaixo da autoridade absoluta do Senhor Jesus Cristo (Cl 2.15). 

Os fariseus, no entanto, acusaram Jesus de expelir demónios pelo poder de Satanás, mas os verdadeiros servos de Satanás eram eles, que tentavam atrapalhar o trabalho de Deus. 

Em relação a algumas questões e pessoas, a neutralidade é possível e, às vezes, até sábia. Mas em nosso relacionamento com Jesus não pode haver neutralidade (12.30). Quem não se decide por Cristo, decide-se contra Cristo. Quem com ele não ajunta, espalha. 

Será que existe alguma coisa mais politicamente incorreta do que dizer: “Se você não crê em mim, pertence ao reino de Satanás; se você não me segue, é meu inimigo; se você não é por mim, é contra mim”? Jesus estava a dizer que só há um caminho, e ele é o caminho (Sproul, 2017).  

Aqueles que recusam-se a vir a Cristo estão em rebelião contra o Rei dos reis. Mas em Atos 17.30, a Escritura diz: “No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam. (At 17.30). 

O pecado imperdoável (12.31-32)

Embora o evangelho ofereça perdão gratuitamente a todos os que se arrependem de seus pecados, há um limite estabelecido nesta passagem: A blasfêmia contra o Espírito Santo. Jesus declarou que este pecado não pode ser perdoado nem no presente nem no futuro (Mateus 12.31-32). Marcos acrescenta: “Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de pecado eterno.” (Mc 3.29,30) 

Frequentemente, o pecado imperdoável é identificado com a descrença persistente e final em Cristo. Visto que a morte acaba com a oportunidade de uma pessoa arrepender-se do pecado e crer em Cristo para a sua salvação. Embora a descrença persistente e final traga tais consequências, não explica adequadamente a advertência de Jesus sobre a blasfémia contra o Espírito Santo. Blasfémia (ou calúnia contra) o Espírito Santo é algo que se faz com a ‘boca', a ‘caneta’ ou o ‘teclado’. Envolve palavras (falada ou escrita). 

Aqueles fariseus haviam acabado de sugerir que Jesus expulsava demónios pelo poder de Satanás. Isto certamente era blasfémia, mas, visto que tais afirmações haviam sido direcionadas a Jesus, eles tecnicamente não estavam a blasfemar contra o Espírito. No entanto, Jesus disse que expulsava demónios “pelo Espírito de Deus” (Lc 12.28). Deste modo, os fariseus estavam a caluniar o Espírito de Deus. 

Na cruz, Jesus orou pelo perdão daqueles que blasfemaram contra Ele com base em sua ignorância: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34). Entretanto, se as pessoas são iluminadas pelo Espírito Santo a ponto de saberem que Jesus é verdadeiramente o Cristo, e então O acusam de ser satânico, elas cometeram um pecado para o qual não há perdão (Sproul, 2017).  

A blasfêmia contra o Espírito Santo é imperdoável porque é um pecado consciente e deliberado de atribuir a obra de Cristo pelo poder do Espírito Santo a Satanás. Esse pecado constitui uma irreversível dureza de coração. Spurgeon observa que o indivíduo culpado desse pecado, de imputar as obras de Cristo e seu poder gracioso à agência diabólica, pecou numa condição na qual a sensibilidade espiritual está morta e o arrependimento tornou-se moralmente impossível. 

Esta passagem preocupa muitas pessoas, que se perguntam se cometeram ou não esse pecado. Três coisas devem ser mantidas em mente: (1) A natureza do pecado é atribuir o que é uma obra óbvia do Espírito Santo ao próprio Satanás; (2) não é simplesmente uma dúvida momentânea ou atitude pecaminosa, mas é de facto uma condição de oposição intencional, consciente e deliberada à obra do Espírito Santa; e (3) uma pessoa que está preocupada e angustiada com isso provavelmente nunca cometeu esse pecado. Ninguém pode sentir tristeza pelo pecado sem a obra do Espírito Santo. Quem comete esse pecado, jamais sente tristeza por ele. Jamais mostrará qualquer arrependimento. O temor de pensar ter cometido o pecado imperdoável é, por si só, evidência de que tal pessoa não o cometeu. 

Billy Graham disse que devemos hesitar em sermos dogmáticos em nossas afirmações sobre aqueles que cruzaram a linha divisória da paciência de Deus. Somente Deus sabe se e quando alguém ultrapassa essa linha do pecado para morte (Lopes, 2019). 

Por fim, muitas as pessoas querem saber se um cristão verdadeiro é capaz de cometer este pecado. É certo que, por si mesmo, qualquer crente teria a capacidade ou potencialidade de blasfemar contra o Espírito Santo. Contudo, estou convencido pelas Escrituras de que Deus, em sua graça soberana, não permite que os verdadeiros crentes - os filhos do reino - cometam este pecado.  

Ao falar dos salvos em Cristo, a Bíblia ensina que “aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (1 Pe 1.5). A Bíblia afirma que Deus “é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória” (Jd 1.24). 

Além disso, a Escritura afirma a segurança da salvação em Cristo. O Senhor Jesus disse: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6.37-40). Noutra ocasião, o nosso Senhor declarou: As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai.” (João 10.27-29) 

É com esta segurança inabalável em mente que escreveu Paulo: “Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8.38-39). 

Mas para que ninguém esteja enganado, a Escritura também adverte: “… tornamos participantes de Cristo, desde que, de fato, nos apeguemos até o fim à confiança que tivemos no princípio” (Hb 3.14). Que seja, nossa participação passada nas bênçãos do evangelho só é válida se continuarmos Nele. Os que deixam a ‘igreja de Cristo’, a comunhão dos santos, simplesmente demostram que de facto nunca pertenceram realmente a ela. É o que lemos em 1 João 2.19: “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós” (1 João 2.19). 

Portanto, o verdadeiro cristão é alguém que foi justificado diante de Deus (Rm 8.1) e que nasceu de novo pelo poder do Espírito Santo (Jo 3; 1 Jo 5.1-13), cuja vida é caracterizada pela lealdade, constância e perseverança no caminho do Senhor.  

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Referências: Carson, D. A., ed. 2018. NIV Biblical Theology Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, p. 1723-1724, 1850. / Biblical Studies Press, The NET Bible First Edition Notes (Biblical Studies Press, 2006), Mt 12,32-35. / Lopes, H. D. 2019. Mateus: Jesus, o Rei dos Reis: Comentários Expositivos Hagnos. SP: Hagnos, p. 395-406. / MacDonald, W. 2011. Comentário Bíblico Popular: Novo Testamento. SP: Mundo Cristão, p. 51–52. / Ryle, J. C. 2018. Meditações no Evangelho de Mateus. São José dos Campos, SP: Editora FIEL, p. 128–132. / Sproul, R. C. ed. 2015. The Reformation Study Bible: English Standard Version. Orlando, FL: Reformation Trust, p. 1739. / Sproul, R. C. 2017. Estudos Bíblicos Expositivos em Mateus. SP: Editora Cultura Cristã, p. 328–339.

 

Leonardo Cosme de Moraes 

 

A PAIXÃO DE CRISTO

 

Mateus 27.27-61

 

Assim que Pilatos ordenou sua morte, Cristo começou a ser maltratado pelos soldados romanos incumbidos de crucificá-lo. Num acto de extrema humilhação, eles tiraram a roupa de Jesus e vestiram-no com um manto vermelho, como símbolo jocoso de realeza. Em seguida, eles fingiam curvar-se diante dele e saudavam-no como rei dos judeus. Todavia, aquele que estavam a ridicularizar como rei era, de facto, o Rei. Eles estavam a fazer aquilo com o Filho de Deus, o Deus encarnado, o Rei eterno (Mt 27.27-29). 

 

Depois de todo este escárnio, o tratamento dispensado a Jesus ficou ainda mais cruel. Mateus escreve: “E, cuspindo nele, tomaram o caniço e davam-lhe com ele na cabeça. Depois de o terem escarnecido, despiram-lhe o manto e o vestiram com as suas próprias vestes. Em seguida, o levaram para ser crucificado” (Mt 27.30-31). 

 

Mateus continua: “Ao saírem, encontraram um cireneu, chamado Simão, a quem obrigaram a carregar-lhe a cruz" (v. 32). Era costume os presos serem forçados a carregar a cruz na qual morreriam – ou pelo menos, as vigas horizontais – enquanto eram levados para o local da crucificação. Assim, o facto de os soldados terem obrigado um homem chamado Simão, um nativo de Cirene, para carregar a cruz sugere que Jesus já estava muito debilitado fisicamente. O Senhor já havia sido açoitado, e é possível que tivesse perdido muito sangue. Marcos menciona que Simão tinha dois filhos, Alexandre e Rufo (Mc 15.21), e escreve como se os leitores de seu evangelho estivessem familiarizados com eles. Isto sugere que Simão, depois daquele encontro, teve fé em Jesus e criou seus filhos na igreja. 

 

Mateus, em seguida, diz: “E, chegando a um lugar chamado Gólgota, que significa Lugar da Caveira, deram-lhe a beber vinho com fel; mas ele, provando-o, não o quis beber" (Mt 27.33–34). O Lugar da Caveira era o lugar onde as pessoas eram mortas. E quando Jesus chegou ali, os soldados deram-lhe “vinho com fel”. Jesus estava com sede, mas o fel deixou o vinho intragável, e ele recusou-se a bebê-lo. 

 

Então, Mateus escreve: “Depois de o crucificarem …” (Mt 27.35a). Cravos atravessaram as mãos, ou os pulsos, de Jesus e foram cravados na madeira da viga transversal. Outros cravos também perfuraram seus pés. Este era um método de execução extremamente doloroso. Além disso, este tipo de morte era terrivelmente humilhante. 

 

Os soldados já haviam despido Jesus temporariamente a fim de divertirem-se no pretório (Mt 27.28), mas, quando chegaram ao Gólgota, tiraram as vestes dele novamente porque os criminosos eram executados nus. O objetivo era fazer com que o prisioneiro se sentisse humilhado e desonrado. Mateus informa que este acto de humilhação específico havia sido predito numa profecia do Velho Testamento (Mt 27.35b). Os soldados lançaram sortes para determinar quem ficaria com os as peças de roupa de Jesus, e isto havia sido profetizado no Salmo 22.18.

 

Depois da crucificação, a principal tarefa dos soldados era ficar de guarda até que Jesus morresse (Mt 27.36). Contudo, eles tinham pelo menos mais uma tarefa para executar: "Por cima da sua cabeça puseram escrita a sua acusação: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS” (27.37). Esta iniciativa tinha em vista os transeuntes, e seu objetivo era adverti-los a não cometerem o mesmo delito. João relata que Pilatos foi quem ordenou que se fizesse esta inscrição, e que ela incomodou os sacerdotes e anciãos. Eles pediram-lhe que alterasse os dizeres para: “Ele disse: Eu sou o Rei dos judeus”, mas Pilatos recusou-se (Jo 19.19–21). 

 

Mateus também observa: E foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda (Mt 27.38). Marcos informa que este facto também cumpriu uma profecia: a de Isaías 53.12 - “e foi contado com os transgressores” (Mc 15.28).

 

Mateus volta a descrever as zombarias e insultos que Jesus enfrentou. “Os que iam passando blasfemavam dele, meneando a cabeça e dizendo: Ó tu que destróis o santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz! De igual modo, os principais sacerdotes, com os escribas e anciãos, escarnecendo, diziam: Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se. É rei de Israel! Desça da cruz, e creremos nele. Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus (Mt 27.39–42).

 

“Os mesmos impropérios lhe diziam também os ladrões que haviam sido crucificados com ele” (Mt 27.43). Felizmente, sabemos que um dos dois arrependeu-se e colocou sua fé em Jesus antes de morrer (Lc 23.39–43). Talvez ele tenha se arrependido ao ouvir Jesus perdoando aqueles que o crucificavam (Lc 23.34), que convenceu-se de que Jesus era o Salvador e pediu-lhe para participar do seu reino que viria (v.42).

 

Este foi um suplício terrível para Jesus, mas algo muito pior estava por vir. No auge do dia, entre meio-dia e 15h, houve trevas (Mt 27.45). Esta escuridão foi um sinal do juízo divino sobre o pecado que Jesus estava a carregar em seu corpo no madeiro. Isto explica o que aconteceu em seguida. Mateus diz: Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? Uma mistura de hebraico com aramaico que significa: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mt 27.46). 

 

Quando o pecado do homem é transferido a Jesus, como os pecados de Israel eram transferidos ao bode expiatório, o Pai interrompe a comunhão com o seu Filho. Naquele momento Deus fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. Deus puniu o nosso pecado nele. Foi na cruz que Jesus suportou o justo castigo que os nossos pecados merecem. Ele foi feito maldição por nós.

 

Alguns presentes não perceberam o que Jesus disse: “ouvindo isto, diziam: Ele chama por Elias” (Mt 27.47). Ao que parece, pelo menos um dos espectadores sentiu certa compaixão de Jesus e ofereceu-lhe algo para beber – ou talvez simplesmente quisesse que ele continuasse falando. Outros, porém, o dissuadiam para ver se Elias de facto viria (Mt 27.48-49). 

 

Enquanto esperavam, lemos: E Jesus, clamando outra vez com grande voz entregou o espírito (Mt 27.50). Lucas relata que, logo antes de morrer, Jesus clamou as seguintes palavras: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23.46); e, segundo João, ele também disse: “Está consumado!” no momento da morte (Jo 19.30). 

 

O que estava consumado? Certamente o desamparo do Pai por causa dos pecados que Jesus voluntariamente assumiu como o representante, o fiador e o substituto dos pecadores. O seu sacrifício vicário e expiatório terminara. Ele realizara a obra para a qual o Pai o havia enviado. A obra da redenção estava concluída.

 

O Calvário não foi um acidente, mas um plano divino. A morte sacrificial de Cristo estava no plano de Deus antes da fundação do mundo (1Pe 1.18-20; Ap 13.8; At 2.23). Cristo foi para a cruz porque o Pai o entregou por amor (Jo 3.16, Jo 1.29). Cristo voluntariamente deu a sua vida (Jo 10.17, Gl 1.4; 2.20; Ef 5.25). Ele é o pastor que dá a sua vida pelas ovelhas (Jo 10.11-18). Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou para a nossa salvação. O Santo no lugar dos pecadores, o justo no lugar dos injustos.

 

Mateus, em seguida, relata várias manifestações que ocorreram após a morte de Jesus. Ele escreve: Eis que o véu do santuário se rasgou em duas partes de alto a baixo (Mt 27.51a). Esta era a cortina do Santo dos Santos, o lugar mais sagrado para o judaísmo, situado no interior do templo. 

 

Imediatamente após a morte de Cristo, Deus fez com que a cortina de 25 metros de altura, cuja função era separar o povo de sua presença, fosse rasgada – e, a fim de indicar que a ação tinha origem divina, ela foi rasgada de cima para baixo. Esta foi uma declaração simbólica de que a barreira entre a humanidade pecadora e o Deus santo havia sido removida através do sacrifício expiatório de Cristo.  

 

Agora temos livre acesso a Deus por meio de Cristo. Agora não precisamos de sacerdotes como mediadores. Agora um novo e vivo caminho foi aberto para o céu. O véu rasgado simboliza a consumação da obra de Cristo. O véu rasgado significa que Cristo venceu o pecado.

 

Assim como houve trevas na terra enquanto Jesus estava pendurado na cruz (Mt 27.45), outro fenómeno natural aconteceu no momento de sua morte: um terremoto que fendeu as rochas (Mt 27.51b). A natureza identifica-se com o sofrimento do Filho de Deus.

 

Por último, Mateus relata um episódio inusitado: “abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram; e, saindo dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos (v. 52–53). Mateus é o único evangelista a fornecer este detalhe. Como devemos interpretar isso?

 

No domingo, com a ressurreição de Jesus, vários mortos ressuscitaram e dirigiram-se a Jerusalém, onde foram vistos por muitas pessoas. Não sabemos se esta ressurreição foi como a de Jesus, o qual recebeu um corpo glorificado, ou se foi mais parecida com a ressurreição de Lázaro, o qual recebeu uma prolongação da vida neste planeta e, mais tarde, morreu de novo para aguardar a ressurreição final. Seja como for, por que Deus fez isso?

 

Em sua morte, Jesus removeu o aguilhão da morte, de modo que a morte de crente não é mais o castigo pelo pecado, mas a transição para uma dimensão melhor (Fp 1.23–24). Quando morremos, o nosso corpo dorme, mas nosso espírito vai imediatamente para a presença de Cristo, cuja existência é muito melhor do que aquilo que temos neste mundo (Lc 23.43; 2Co 5.8).

 

Neste incidente, vemos um sinal, uma promessa de que, na morte e ressurreição de Cristo, a morte foi derrotada. As sepulturas foram abertas, e as pessoas saíram vivas. Cristo entrou nas entranhas da morte e venceu a morte e todo aquele que nele crê não morrerá eternamente.

 

Quando a cortina rasgou-se, a terra tremeu e as sepulturas foram abertas, o centurião e seus homens foram tomados de pavor. Eles nunca tinham visto a morte de um prisioneiro ocasionar tais manifestações. Aquelas coisas os fizeram declarar: “Verdadeiramente este era Filho de Deus” (Mt 27.54). Jesus fora rejeitado pelo seu próprio povo, mas um pagão romano observou a forma como ele morreu e fez uma profissão de fé sobre a personalidade e a natureza do crucificado.

 

Mateus observa também que estavam ali muitas mulheres, observando de longe; eram as que vinham seguindo a Jesus desde a Galiléia, para o servirem; entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mulher de Zebedeu (Mt 27.55–56). Estas mulheres estavam presentes na crucificação e viram tudo o que aconteceu.

 

A mudança de humilhação para exaltação começou no sepultamento de Jesus (Mt 27.57-61). Normalmente, os corpos dos criminosos executados sob a lei romana em Jerusalém eram arrastados e lançados no lixão da cidade sem qualquer cerimónia. Isto fazia parte da desonra da execução por crucificação. Todavia, conforme foi predito no Antigo Testamento sobre o Servo Sofredor (53.7-9), o Messias seria poupado desta ignomínia, sendo sepultado “com o rico”.

 

Jesus foi sepultado no túmulo particular de um dos homens mais ricos da cidade (Mc 15.43; Jo 19.38-41). Na cruz, ao final do tormento de ser desamparado pelo Pai, ele disse: “Está consumado!” (Jo 19.30). A humilhação havia terminado. A partir daquele momento, Deus estava determinado que seu único Filho deveria ser exaltado para todo o sempre.

 

A cruz de Cristo é o nosso triunfo. Na Cruz ele desfez as obras do diabo (1Jo 3.8). Na cruz Jesus justificou-nos, perdoou-nos, reconciliou-nos com Deus. "Não há condenação alguma para quem crê nele. Mas quem não crê nele já está condenado por não crer no Filho único de Deus." (Jo 3.18).

 

Referências: Hendriksen, H. 2010. Mateus vl. 2: Comentário do Novo Testamento. SP: Editora Cultura Cristã. / Lopes, H. D. 2019. Mateus: Jesus, o Rei dos Reis: Comentários Expositivos Hagnos. SP: Hagnos. / MacDonald, W. 2011. Comentário Bíblico Popular: Novo Testamento. SP: Mundo Cristão. / Sproul, R. C. 2017. Estudos Bíblicos Expositivos em Mateus. SP: Editora Cultura Cristã. / Wiersbe, W. W. 2006. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vl. 1. Santo André, SP: Geográfica editora. 

 

Pr. Leonardo Cosme de Moraes 


LEITURAS BÍBLICAS NA SEMANA SANTA (“Maçãs de ouro em salvas de prata”) Domingo da Semana da Paixão: Domingo de Pásco

 


João 20:1-31 – Ressurreição de Jesus e suas primeiras aparições


Muitas vezes, a morte é uma surpresa. Vem quando menos se espera, quando tudo parece normal, deixando muitas palavras por dizer, muitos planos por concluir, muitos sonhos por realizar, muitas esperanças por cumprir. Mas não foi esse o caso do Senhor Jesus. Por causa de nós, por amor de nós, tudo estava programado desde o princípio. Em João 10:17-18 Ele declarou: “Por isso o Pai me ama, porque dou a minha vida para retomá-la. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou espontaneamente. Tenho autoridade para dá-la e para retomá-la. Essa ordem recebi do meu Pai”.

Por isso, nós lemos nos capítulos anteriores a este que Jesus deu a sua vida por nós voluntariamente, cumprindo assim a obra de redenção, e clamando do alto daquela cruz: “Está consumado”. Sem sucesso, a morte tentou tirar-lhe a vida muitas vezes ao longo do seu ministério. Mas Ele só morreria no momento preciso do plano de Deus. A sua morte não foi a morte de uma vítima, mas de um vencedor.

A demonstração final do poder de Cristo sobre a morte foi a sua ressurreição. Maria Madalena foi de madrugada ao sepulcro e viu que a pedra tinha sido removida. Correu a dizê-lo a Pedro e João e estes foram de volta, pressurosos, para confirmar o sepulcro aberto e vazio. Mas não só. O que viram comoveu-os e convenceu-os completamente da ressurreição do seu Mestre e Senhor: “os panos de linho deitados ali”, e “o lenço, que fora colocado sobre a cabeça de Jesus..., dobrado num lugar à parte”; como se o corpo do Senhor Jesus se tivesse evolado e, redivivo, os tivesse atravessado.

Dois anjos, “sentados onde o corpo de Jesus fora posto” confirmaram depois a sua ressurreição a Maria. E esta, ainda meio estonteada e incrédula, foi a seguir testemunha viva dessa maravilhosa realidade, quando o próprio Senhor Jesus lhe apareceu em pessoa. Por isso, correu a anunciá-lo aos demais discípulos e, esfusiante de alegria, lhes anunciou: “Vi o Senhor! Vi o Senhor!

“Ao cair da tarde” desse dia deslumbrante da ressurreição, foi Jesus ao encontro dos seus discípulos no Cenáculo e disse-lhes por mais do que uma vez: “Paz seja convosco!”. E foi acrescentando: “Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio” [...] “Recebei o Espírito Santo”. Só Tomé estava ausente, mostrando-se incrédulo. Mas, oito dias depois, também este O viu, recebendo do próprio Mestre a mesma mensagem e vendo confirmados os sinais da sua ressurreição. Perante tal evidência, nenhuma outra resposta podia então dar: “Senhor meu e Deus meu!” E Jesus lhe acrescentou: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”. 

Não é possível crer em Jesus Cristo sem crer que Ele ressuscitou fisicamente dos mortos. Como tão claramente diz Pedro no dia do Pentecostes: “Jesus, o Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais [...] Ele, que foi entregue pelo desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o pelas mãos de ímpios, e Deus o ressuscitou, quebrando as algemas da morte, pois não era possível que fosse detido por ela” (Atos 2:22-24).

São eloquentes e desafiadoras as últimas palavras deste capítulo. Elas são como que a síntese do Evangelho todo. Crer que Jesus Cristo é o Deus que se fez carne por amor de nós, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, a ressurreição e a vida; crer na verdade central deste Evangelho, é confessar Cristo como o nosso Salvador e Senhor e ter vida eterna em seu nome.


Pastor Manuel Alexandre Júnior

LEITURAS BÍBLICAS NA SEMANA SANTA (“Maçãs de ouro em salvas de prata”) Sábado da Semana da Paixão

 



João 19:1-42 – Condenação de Jesus, sua crucificação, morte e sepultamento

Depois de Pilatos ter declarado Jesus inocente (18:38), ainda o mandou a Herodes para melhor se escudar na sua decisão (Lucas 23:7). Mas este limitou-se a ouvir Jesus e humilhá-lo, mandando-o de volta a Pilatos. Pelo que este o açoitou e entregou aos soldados, que ainda mais o humilharam, esbofeteando-o, espancando-o, colocando-lhe uma coroa de espinhos na cabeça e vestindo-lhe um mando de púrpura. Com sarcasmo, Pilatos ainda disse à multidão dos seus acusadores: “Eis aqui o homem!” Sem saída possível, ainda ousou oferecer-lhes Barrabás em troca. Mas, os principais sacerdotes e os seus guardas, gritavam ainda mais alto: “Crucifica-o, crucifica-o”. Depois de falhadas todas as suas tentativas para o libertar, perante a insinuação de traição – “Se soltas este não é amigo de César” – Pilatos acabou por entregá-lo para ser crucificado.

Nós sabemos que a crucificação do Senhor Jesus Cristo foi o clímax da história da redenção, do plano da salvação de cada um de nós. Foi pelo seu grande amor que Deus enviou o seu Filho “para ser a propiciação pelos nossos pecados” (1 João 4:10). Mas, se a cruz foi a expressão suprema do amor de Deus, ela foi também a expressão final da depravação humana. Jesus suportou toda esta maldição por causa de nós, por amor de nós (Hebreus 12:3).

A crucificação de Jesus Cristo e seus contornos (19:17-27) é-nos aqui descrita em termos de sublimidade divina, com detalhes que apontam para o cumprimento das profecias do Velho Testamento. Jesus carregou a sua cruz até ao Calvário, sofreu a forma mais vergonhosa e horrível de punição e execução, mas a sua cruz recebeu o título da condenação de quantos lhe forçaram a morte: “Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus”. Jesus Cristo é realmente “o Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Apocalipse 19:6), e “ao nome de Jesus se dobrarão os joelhos de todos os que estão nos Céus, na terra e debaixo da terra, e toda a língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus o Pai” (Filipenses 2:11,12).

O Senhor Jesus, que só com os outros se preocupava, até na cruz revelou o altruísmo e generosidade do seu amor tão grande. O modo como, na sua dor agonizante, confiou sua mãe ao discípulo amado, impressiona e comove o mais duro coração (vs. 25-27). E, cumpridos todos os desígnios do seu infinito amor por nós, nas últimas horas da agonia da cruz, ainda disse: “Tenho sede”, “está consumado”, “Pai, nas tuas mãos entrego e meu espírito”. Neste clamor final da missão cumprida está a manifestação do conhecimento e controlo sobrenatural de tudo em sua vida, até na morte, a alegria infinda da missão cumprida, a expressão suprema da sua infinita compaixão por nós.

O vencedor da própria morte foi sepultado, mas por pouco tempo. Assim como mostrou o seu poder divino sobre a morte, no controlo de todos os detalhes e na sequência das sete palavras que foi pronunciando, assim também controlou as circunstâncias do seu sepultamento, que foi cumprido antes que o Sábado começasse. José de Arimateia providenciou o sepulcro e “retirou o corpo de Jesus”. Nicodemos levou “cerca de trinta e quatro quilos de um composto de mirra e aloés”. E “Os dois o envolveram em faixas de linho, com as especiarias, de acordo com os costumes judaicos de sepultamento”.

Curvemo-nos, irmãos, e demos glória ao Senhor Jesus.

Pastor Manuel Alexandre Júnior


LEITURAS BÍBLICAS NA SEMANA SANTA | “Maçãs de ouro em salvas de prata” | Sexta-feira da Semana da Paixão



João 18:1-40 – Jesus no Getsémani: sua traição, prisão e julgamento perante Anás e Pilatos; A negação de Pedro


Depois da sublime oração do Senhor Jesus no capítulo 17, João dá-nos uma síntese narrativa da saída de Jesus com seus discípulos de Jerusalém. Desceu a encosta da cidade na direcção do Monte das Oliveiras, atravessou o ribeiro de Cedrom, começou a subir o monte e entrou no Jardim do Getsémani, onde se recolheu com seus discípulos para orar a sós com Deus. Esta experiência íntima de Jesus em oração com o Pai, é registada nos três outros evangelhos (Mateus 26:36-46; Marcos 14:32-42; e Lucas 22:39-46). João, porém, centrou-se imediatamente na horrível cena da traição de Judas, a fim de continuar a dar relevo à majestade e glória do Senhor Jesus no seu Evangelho, mesmo na mais horrenda das suas provações, como é o ser traído por um dos seus próprios discípulos, com tudo o que esta traição desencadeia: prisão, julgamento, condenação à morte, crucificação e morte na cruz.

João relata neste capítulo a traição e prisão de Jesus (18:1-11), o julgamento religioso de Jesus perante Anás e a incrível negação de Pedro (18:12-27), a primeira fase do seu julgamento civil perante Pilatos (18:28-40). E o faz para demonstrar quatro dos traços mais evidentes dessa sua majestade e glória: a grandeza infinita da sua autoridade, coragem, amor e obediência ao Pai. Como o Deus que se fez homem, Ele revelou sempre um controlo absoluto em tudo o que foi acontecendo na sua vida; controlo até no seu sacrifício final, na entrega de Si mesmo à morte, e morte de Cruz. Como Jesus disse, tantas vezes, ao longo do seu ministério, Ele não foi vítima; e se a vida lhe foi tomada, foi Ele que de Si mesmo a deu, para tornar a recebê-la de volta. O cálice que o Pai lhe deu a beber foi o cálice do julgamento divino; cálice que Ele bebeu até à última gota na cruz do Calvário, por amor de nós. “Aquele que não conheceu pecado”, Deus “o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21).

João relata também a negação de Pedro, coisa horrível que não dá para acreditar, mas foi verdade. Pedro nega Jesus no princípio do seu julgamento religioso, e volta a negá-lo também no fim. Tinha-se mostrado o mais corajoso dos seus discípulos, e afinal foi o mais fraco de todos. Assistindo ao julgamento cruel do seu Mestre e Senhor, negou-o três vezes: a uma simples criada, diante de todos; a uma outra criada que também o denunciava; directamente a “todos os que ali estavam”, a praguejar e jurar que não conhecia tal homem. Só quando o galo cantou, “se lembrou das palavras que Jesus lhe dissera... E chorou amargamente” (Mateus 26:69-75).

Perante Pilatos, já passada a madrugada e a despontar o dia, Jesus foi acusado, interrogado e condenado da maneira vil como o texto limpidamente relata (18:28-40)); apesar da maneira como o Senhor Jesus responde ou interpela o governador da Judeia. A sua palavra é sempre calma, consciente, segura, e as suas respostas sempre certeiras. Foi malevolamente tratado, odiado, e falsamente acusado, embora em tudo achado inocente, sem mácula e perfeito. E, se foi condenado, foi-o por amor de nós. Não porque Deus Pai nos amasse mais a nós do que ao seu Filho amado, mas porque sem o sacrifício do seu querido Filho unigénito, nenhum de nós teria sido ou seria alguma vez salvo. Foi o próprio Deus que afinal se fez homem para nos remir de todo o pecado, a nós os seus eleitos. Como lhe agradecer?


Pastor Manuel Alexandre Júnior

LEITURAS BÍBLICAS NA SEMANA SANTA | “Maçãs de ouro em salvas de prata” | Quinta-feira da Semana da Paixão



O ministério do Senhor Jesus foi todo ele marcado pela oração, e esta é seguramente a sua oração maior, no fim do tempo que passou com seus discípulos. A celebração da Ceia Pascal, a instituição e celebração da Ceia do Senhor, e os ensinos de preparação, encorajamento e consolação aos discípulos no final da quinta-feira da paixão culminaram nesta impressionante oração, lá por volta da meia-noite.

Das 650 orações registadas na Bíblia, esta é de todas a maior. E compreende-se porquê: pela pessoa que a fez; pela ocasião em que Jesus a fez, a dois passos de ser entregue e se separar dos seus discípulos; pelo altruísmo e grandeza das suas petições; pela alegria da vitória e a bênção que também a nós inspira.

Divide-se esta oração em três partes: Jesus ora por Si mesmo (17:1-5), ora por seus discípulos (17:6-19), e ora pela sua Igreja (17:20-26). Quatro vezes nesta oração Jesus diz que o Pai o enviou (vs. 3,18, 21, 25); quatro palavras resumem as suas principais súplicas: glória, segurança, santidade e unidade (vs. 1-5, 6-12, 13-19, 20-26); e três dons maravilhosos Ele diz que nos concedeu: a vida eterna (v. 2), a Palavra de Deus (vs. 8, 14), e a glória de Deus (v. 22). Dezanove vezes usa a palavra ‘mundo’ em vários sentidos: mundo perigoso, maculado, poluído, aviltado e corrompido em que somos atribulados, mas um mundo em que também somos protegidos e guardados do mal pelo socorro e amparo divinos.

A palavra bíblica aqui traduzida por dar, conferir, conceder, confiar e seus derivados é uma das palavras mais importantes nesta oração de Jesus. Das 76 vezes que ela ocorre neste Evangelho, 17 vezes é usada por Jesus na sua oração. Sugiro que os irmãos façam o exercício de as sublinhar e que se detenham na riqueza da sua mensagem. O Pai deu ao Filho autoridade sobre todas as coisas: a autoridade de morrer e ressuscitar, a autoridade de julgar, a autoridade de dar a vida eterna a todos os que o Pai lhe deu.

A nossa união com Cristo é segura porque Cristo orou por nós (vs. 9, 15), porque Cristo continua a orar por nós (v. 11), porque nós somos o dom que Deus Pai deu ao seu Filho (v. 9, 11), e porque Deus é glorificado em nós (v. 10). É, firmados em Cristo e na verdade que nós somos santificados (vs. 17-19), e é pela nossa vida consagrada a Cristo que a nossa unidade se alimenta e sustenta (vs. 21-23). O modelo perfeito da nossa santificação é Cristo, na sua humildade, submissão, compaixão e obediência ao Pai (v. 19). E, se permanecemos espiritualmente unidos é porque cremos no mesmo Salvador (vs. 20 e 21), partilhamos a mesma glória (vs. 22 e 24), e disfrutamos o mesmo amor (v. 23-26). 

A vida é curta demais e a nossa união com Cristo preciosa demais, para a desperdiçarmos em banalidades. Se queremos vencer o mundo, teremos de nos recusar a imitá-lo, e abandonar os seus padrões de sucesso. As prioridades cristãs que Jesus acentua nesta sua oração são: a glória de Deus, oito vezes aqui referida; a verdade, e Jesus Cristo é a Verdade; a segurança na comunhão com Cristo; a obediência a Cristo e sua palavra; a unidade espiritual que brota de vidas consagradas. É nisso que o Senhor Jesus é verdadeiramente glorificado.


Pastor Manuel Alexandre Júnior