Pentecostes, a descida do Espírito Santo

 Atos 2.1-13

Dez dias após sua Ascensão, Jesus, o Filho, junto ao Pai, enviou o Espírito Santo, no Dia de Pentecostes. Esse foi o dia do cumprimento da promessa de Jesus aos apóstolos: “Vós sereis batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias” (At 1.5). O evento cumpre as profecias de Isaías 32.15 (“até que se derrame sobre nós o Espírito lá do alto”) e Jl 2.28-32, o derramamento do Espírito Santo, indicando a chegada dos últimos dias (cf. tb. Jr 31.33–34; Ez 36.26–27; 39.29). 

 

A partir de Pentecostes, o Espírito de Deus passou a habitar nos salvos em caráter permanente: Ele veio para ficar (Jo 14.16-17) e para capacitar a igreja para o testemunho eficaz (At 1.8). Embora o Espírito estivesse presente na velha aliança, os crentes da nova aliança possuem permanentemente o Espírito, que os capacita de maneira única para testemunhar. Agora, o Espírito estava vindo para as pessoas de uma maneira nova e mais poderosa.

 

No Velho Testamento a unção do Espírito foi restrita a certos indivíduos. Joel profetizou que virá o tempo em que Deus derramará seu Espírito sobre todo o povo de Deus. Pedro interpretou os eventos do Pentecostes como o cumprimento da profecia de Joel (2.14-18). O Pentecostes marcou uma nova época no plano divino de redenção.

 

Nenhum daqueles que viveu antes da Ascensão de Jesus, que está à mão direita do Pai, foi batizado com o Espírito Santo. Existem, portanto, duas grandes épocas distintas. É por essa razão que ninguém hoje pode provar aquela experiência das duas épocas como os apóstolos tiveram. Eles viveram na época antes do batismo com o Espírito Santo, antes do Pentecostes, e viveram também na época depois de Pentecostes, e receberam o batismo com o Espírito Santo (Robertson, 1999).

 

A descida do Espírito Santo pertence à história da salvação (At 1.5; Lc 3.16; At 2). Os eventos na história da salvação, diferentemente da aplicação contínua da obra de Cristo, referem-se a eventos que fazem parte da realização da obra de Cristo, feita de uma vez por todas (Gafin, 2003). O Natal, a Sexta-feira Santa, a Páscoa, a Ascensão e o dia de Pentecostes são celebrações anuais, mas o nascimento, a morte, a ressurreição, a ascensão e a dádiva do Espírito são actos redentores que aconteceram uma única vez (Stott; Fee). O dia de Pentecostes foi aquele momento da história da redenção quando Deus liberou o poder do Espírito Santo e o deu para sua igreja, não somente para aqueles que estavam reunidos lá, mas para a igreja de todas as épocas e para cada cristão através dos tempos (Sproul, 2017).

 

A estrutura histórica de transição, da Velha para a Nova Aliança, no livro de Atos dos Apóstolos não deve ser ignorada como fazem aqueles que pensam que Atos 2 estabelece paradigmas permanentes para a experiência cristã (Gafin 2003; Robertson, 1999). As experiências dos crentes no Pentecostes (At 2.1-13) e Samaria (At 8.16,17), geralmente citadas como experiências de duas fases, representam a vinda inaugural do Espírito Santo sobre diferentes grupos de crentes (judeus e samaritanos), que viveram durante a transição da Velha para a “Nova época do Espírito” no contexto da Nova Aliança. Estas experiências não são normativas para os crentes na era presente. Trata-se de “um pretendente histórico” (Fee, 2011).

 

A mesma experiência recebida pelos judeus foi dada igualmente aos samaritanos (At 8.16,17), aos tementes a Deus (At 10.44-45) e aos ‘gregos’ (At 19.6), promovendo a unidade e confirmando a universalidade da povo de Deus no contexto da Nova Aliança inaugurada pelo Senhor Jesus Cristo. Isto é, que na igreja não há distinções étnicas, culturais ou sociais que dividam as pessoas: Deus dá seu Espírito a todas as pessoas que vêm à fé, judeus ou gentios, homens ou mulheres escravos ou livres (Atos 2.16-21).

 

A Vinda do Espírito Santo e o nascimento da igreja cristã. A vinda do Espírito Santo em Pentecostes reuniu os cristãos no Corpo de Cristo, a Igreja (1Co 12.13). Desse momento em diante, judeus e gentios seriam uma nova humanidade em Cristo Jesus e membros do mesmo Corpo (Ef 2.11–22). A Bíblia diz: “em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1 Co 12.13, ARA). 

 

“O Senhor Jesus Cristo é quem realiza esse baptismo. Os novos cristãos são baptizados. O elemento com o qual Jesus baptiza esses novos discípulos é o Espírito Santo. E o propósito desse baptismo é uni-los ao corpo de Cristo, a Igreja” (Alisson, 2021). Portanto, o Baptismo com o Espírito Santo não foi apenas um evento histórico no Dia de Pentecostes, mas também faz parte da experiência inicial de salvação de todos os crentes (1 Co 12.13). Trata-se de uma experiência cristã inicial, universal e permanente. 

 

O Baptismo com o Espírito Santo não ocorre como uma segunda bênção, subsequente a experiência inicial de salvação. No corpo de Cristo não há crentes de duas classes. A única pré-condição para receber o Baptismo do Espírito - ou ser incorporado no corpo de Cristo - é a fé em Cristo, que traz a salvação inicial (At 11.17; Gl 3.2, 13, 14; Jo 7.38,39). Pedro disse ao público em Jerusalém: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo” (2.38 – NVI).

 

Além disso, Cristo e o Espírito Santo não estão tão divididos que cada um deva, separadamente e em tempos apropriados, batizar um no outro. O batismo no corpo de Cristo não é uma coisa sem o Espírito, que mais tarde é melhorada por um batismo espiritual no Espírito Santo. Pois é um só Espírito que batiza no corpo de Cristo (1 Co 12.13a). No batismo em Cristo, o batismo no Espírito Santo ocorre (Bruner, 1986).

 

Depois do Pentecostes, os únicos dois mandamentos bíblicos em relação ao Espírito são viver/andar no Espírito (Gl 5,16,25) e deixar-se encher pelo Espírito (Ef 5.18). Estes mandamentos estão no tempo presente e sugerem o crescimento contínuo na vida do crente que já tem com o Espírito.

 

A descrição do evento do Pentecostes (2.1-13). No dia de Pentecostes, o Espírito de Deus veio sobre seu povo (Jo 7.37-39). Os crentes ficaram cheios do Espírito e experimentaram o Batismo com o Espírito Santo (1.5). Lucas emprega a expressão ficaram cheios para descrever a experiência. É importante observar, que aquilo que aqui se chama “ficar cheio” (especificamente nesta passagem), também é denominado de “batismo” (1.5 e 11.16), um “derramamento” (2.17-18; 10.45), e um “recebimento” (10.47); um ser “revestidos de poder” do alto (Lc 24.49).

 

Estavam todos reunidos no mesmo lugar. O termo todos do versículo 1, aparece mais uma vez no versículo 4, e deve ser entendido no sentido de que não só os doze estão presentes, mas também as mulheres e os outros discípulos mencionados em 1.13–15. Foi sobre todos esses, e não só sobre os doze, que o Espírito desceu. Não sabemos se a "casa" do versículo 2 ainda é o cenáculo (At 1.13; 2.46b), ou uma casa em algum lugar nas proximidades do templo (Lc 24.53, 2.46a). Por conseguinte, o contacto dos discípulos com a multidão indica que o cenário deve ser o terreno do templo, o único lugar em Jerusalém que poderia acomodar mais de 3.000 pessoas (2.41). 

 

Já o tempo da vinda do Espírito é indicado com precisão: foi no dia de Pentecostes (1.1). Este era o dia de Ação de Graças judaico. O povo reunia-se para o evento de Ação de Graças do Pentecostes no santuário em Jerusalém para agradecer a Deus pela colheita. Era chamada Festa da Colheita (Êx 23.16, 21), pois nela comemorava-se o fim da colheita dos cereais; ou Festa das Semanas ou Pentecostes, porque acontecia sete semanas ou cinquenta dias após a Páscoa, dia em que  iniciava-se a colheita dos cereais (Lv 23.15,16). Nesta data, os judeus lembravam-se da entrega total da lei no Monte Sinai, pois isso aconteceu cinquenta dias após o Êxodo (Êx 19.1).

 

A vinda do Espírito foi acompanhada por três sinais sobrenaturais (vento, fogo e línguas). O som não era vento, mas soava como vento; a visão não era fogo, mas lembrava o fogo; e falava-se em outras línguas como de fogo (2.3). 

 

O vento é um símbolo da presença do Espírito Santo (Ez 37.9; Jo 3.8), enquanto o fogo é um símbolo de Seu poder de purificação (Mt 3.11, 12). Quando Deus deu a lei ao povo no Monte Sinai, chamas foram vistas nas montanhas, simbolizando o poder transcendente da majestade de Deus (Êx 19.19).

 

O derramamento do Espírito Santo produziu o fenómeno das línguas. Os discípulos receberam o poder sobrenatural de falar línguas estrangeiras que nunca haviam estudado. Não eram palavras sem sentido ou declarações extáticas, mas línguas faladas em todas as partes da região oriental do Mediterrâneo, de Roma à Pérsia. Assim, Judeus e prosélitos de diversas partes do mundo puderam ouvir os discípulos falando em sua própria língua materna (At 2.11).

 

O que eles experimentaram foi mais do que sensorial; foi significativo. Essa ocorrência foi um sinal para indicar que o plano redentor de Deus deslocou-se da atividade centrada nos judeus, para uma atividade que abrange todas as nações (1Co 14.21-23; Is 28.11-12; Dt 28.49; At 2, 8, 10, 19). O falar em outras línguas simbolizou uma nova unidade no Espírito, transcendendo barreiras raciais, nacionais e linguísticas. 

 

Lucas procura enfatizar que estavam ali, representativamente, pessoas "de todas as nações debaixo do céu" (2.5). Atos 2 apresenta-nos uma lista das nações semelhante à de Génesis 10. Nada poderia ter demonstrado de forma mais clara a natureza multirracial, multinacional e multilíngue do reino de Cristo. Em Babel (Gn 11.1-9), as línguas humanas foram confundidas e as nações espalhadas; em Jerusalém, a barreira linguística foi vencida de forma sobrenatural, como sinal de que as nações agora seriam reunidas em Cristo, como um só povo de Deus a serviço do Seu reino.

 

Atos 2 é a única passagem em que o fenómeno das línguas é descrito e explicado. A glossalalia (‘o falar em línguas’) no dia de Pentecostes foi uma habilidade sobrenatural para falar em línguas reconhecíveis. Não foi, portanto, uma algaravia fervorosa ou uma livre vocalização emotiva, aprendida ou sugestionada.

 

Ademais, a ocorrência de línguas no dia de Pentecostes não deve ser usada como prova de que a dádiva do Espírito deve sempre ser acompanhada desse fenómeno. A com clareza diz que todos os coríntios haviam sido batizados com o Espírito Santo (1 Co 12.13), mas nem todos falavam em línguas (12.30). O Espírito não concede os mesmos dons a todos (12.7, 11; 14.17, 26). Portanto, não é verdade que falar em línguas é resultado inevitável do Batismo com o Espírito.

 

Por fim, Lucas descreve três reações ao milagre das línguas (2.7–13). Em primeiro lugar, o Preconceito (2.7). Os galileus eram recebidos em Jerusalém como pessoas de segunda classe. O sotaque arrastado dos galileus incomodava os judeus de Judéia. Por causa da pronúncia defeituosa do idioma falado, alguns judeus achavam que os galileus deveriam ser proibidos de ler a Torá publicamente nas sinagogas. Eles tinham medo de que o sotaque do Galileu ofendesse o criador. Portanto, ao escolher esses galileus, Jesus de Nazaré ensina-nos que o nosso local de nascimento não deve ser um empecilho para sermos usados na obra de Deus. 

 

Em segundo lugar, o Ceticismo (2.12). Todos, atônitos e perplexos, interpelavam uns aos outros: Que quer isto dizer? Mas depois da pregação de Pedro, se arrependem e creram quase 3000 pessoas, as quais foram baptizadas e unem-se à igreja (2.41).

 

Em terceiro lugar, a Zombaria (2.13). Um grupo dentre a multidão rotulou o fenómeno das línguas como resultado de embriaguez. Mas não era o excesso de vinho (2.15), pois durante as festas, os judeus jejuavam até o encerramento dos cultos matinais. Lucas descreve este evento acima de qualquer dúvida: eles "passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia" (2.4).

 

É o Espírito Santo quem capacita o povo de Deus para o cumprimento da grande comissão (1.8). A obra do Espírito Santo é tão importante como a obra de Cristo. É por isso que antes de enviar a igreja ao mundo, Jesus enviou o Espírito Santo à igreja. “Se os ministros não derem crédito à obra do Espírito Santo, darão pedra em vez de pão ao seu rebanho”, como escreveu Abraham Kuiper. Sobre isso também advertiu-nos E. M. Bounds, “Homens mortos pregam sermões mortos e sermões mortos matam”. Por outras palavras, a Palavra é ineficaz sem o Espírito. Temos uma doutrina maravilhosa, mas sem o Espírito, não poderá produzir vida.  

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Referências: Allisson. G. 2021. 50 verdades essenciais da fé cristã: um guia para compreender e ensinar doutrina. SP: Vida Nova. / Boor, W. 2002. Comentário Esperança, Atos dos Apóstolos. Curitiba: Evangélica Esperança, p. 39–46. / Bruner, D. 1986. Teologia do Espírito Santo. SP: Vida Nova. / Carson, D. A., ed. 2018. NIV Biblical Theology Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, p. 1954–1955. / Crossway Bibles. 2008. The ESV Study Bible. Wheaton, IL: Crossway Bibles, p. 2082–2083. / Gafin, R. B. 2003. O ponto de vista cessasionista. (Em Grudem, W. A., ed. Cessaram os Dons Espirituais? São Paulo: Vida, p. 23-90). / Gordon, Fee. 2011. Entendes Tu o que Lês?: Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese da hermenêutica. SP: Vida Nova., p. 131-152. / Kistemaker, S. 2016. Atos, Comentário do Novo Testamento, vl. 1. SP: Cultura Cristã, p. 103–108. / Lopes, H. D. 2012. Atos: A Ação do Espírito Santo na Vida da Igreja: Comentários Expositivos Hagnos. SP: Hagnos, p. 49–60. / MacDonald, M. Comentário Bíblico Popular: Novo Testamento. SP: Mundo Cristão, 2011), 335–337. / Marshall, I. H. 1980. The Acts o f the Apostles, an Introduction and Commentary. London: Inter-Varsity Press. / Robertson, P. 1999. Você já foi Batizado com o Espírito Santo? Recife: Os Puritanos. / Sproul, R. C. 2017. Somos Todos Teólogos: Uma Introdução à Teologia Sistemática. São José dos Campos, SP: Editora FIEL, p. 278–282. / Sproul, R. C. 2017. Estudos Bíblicos Expositivos em Atos. SP: Editora Cultura Cristã, p. 30–35.

 

 

Pr. Leonardo Cosme de Moraes


Ascensão do Senhor

 

Atos 1.1-11

 

Embora o Evangelho de Lucas seja sobre "tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar", o livro de Atos relata o que Jesus continuou a fazer por meio de sua igreja no poder do Espírito. 

 

Antes da vinda do Espírito Santo para habitar na igreja, houve um tempo de espera; quarenta dias entre a ressurreição e a ascensão de Jesus ao Pai (1.3), e mais dez dias entre a ascensão e o Pentecostes (At 2.1-11). Lucas indica aquilo que o Senhor ensinou durante os quarenta dias em que, ressurrecto, "se apresentou" aos apóstolos, dando "muitas provas incontestáveis" de que estava vivo (1.3). 

 

Em primeiro lugar, Jesus falou-lhes do "reino de Deus" (v. 3). Em segundo lugar, ele ordenou-lhes que esperassem pela dádiva do batismo com o Espírito Santo, prometida por ele, por seu Pai e também por João Baptista, e que iriam receber "não muito depois destes dias" (1.4-5).

 

Esta não foi a primeira vez que os discípulos ouviram Jesus falar da promessa do Pai (Lc 24.49). Jesus reafirmou essa promessa várias vezes: “Mas, o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (Jo 14.26). “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim” (Jo 15.26). “Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (Jo 16.7).

 

Os apóstolos sabiam que Ezequiel 36 e Joel 2 ligavam a vinda do Reino com o derramamento do Espírito prometido por Jesus. Assim, a pergunta que os apóstolos fizeram a Jesus quando estavam reunidos (Senhor, será esse o tempo em que restaures o reino a Israel? , v. 6 ) não era totalmente descabida. O erro que cometeram foi confundir a natureza do reino e a relação entre o reino e o Espírito. O verbo ‘restaures’ mostra que eles estavam a espera da restauração imediata de um reino político, territorial e nacional (de Israel). Em sua resposta (1.7-8), Jesus corrigiu essas noções equivocadas da natureza, extensão e chegada do reino (Stott, 2008).

 

Os apóstolos estava a confundir o reino de Deus com o reino de Israel. Os apóstolos estavam como àqueles dois discípulos a caminho de Emaús, que esperavam "que fosse ele (Jesus) quem havia de redimir a Israel", mas tinham ficado desiludidos devido à cruz (Lc 24.21). A esperança dos apóstolos, porém, reacendeu com a ressurreição de Jesus. Eles ainda estavam a sonhar com o domínio político do Israel étnico, o restabelecimento da monarquia, a libertação de Israel - sua independência nacional do jugo de Roma. 

 

A resposta de Jesus foi dupla (1.7-8). Em primeiro lugar, “não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade” (v. 7). "Tempos" (χρόνους - duração) ou "épocas" (καιρος - ocasião/data), juntos, formam o plano secreto e soberano de Deus. De modo que a transição do reino da graça para o reino da glória é da exclusiva economia do Pai. Nosso papel não é especular o futuro, mas agir no presente. Em segundo lugar, eles precisavam saber que receberiam poder para que, no período entre a vinda do Espírito e a segunda vinda do Filho, pudessem ser suas testemunhas, em círculos cada vez maiores (1.8).

 

Jesus descreveu esta vinda do Espírito sobre eles como um “revestimento de poder do alto" (Lc 24.49) para o testemunho eficaz (Atos 3.12; 4.7, 33). Eles deviam ser suas testemunhas "até aos confins da terra" (1:8) e "até a consumação do século”.

 

Os discípulos deveriam ser testemunhas não apenas no território de Israel, mas até aos confins da terra. Não apenas aos judeus, mas também aos gentios. O reino de Deus domina sobre uma comunidade internacional em que raça, nação, posição e sexo não são barreiras para a comunhão. A missão da igreja, portanto, é global. Devemos ir atrás da última tribo da terra.

Esta foi a essência do ensino de Jesus durante os quarenta dias entre a ressurreição e a ascensão: quando o Espírito viesse em poder, o tão prometido reino de Deus, que o próprio Jesus inaugurara e proclamara, começaria a expandir-se. No entanto, antes que o Espírito pudesse vir, o Filho precisava partir. Esse é o próximo assunto de Lucas.

 

Lucas narra a elevação de Jesus no final do Evangelho (Lucas 24.50–52) e no início de Atos (1.2, 9–11). A descrição que Lucas faz em Atos é mais completa que a do Evangelho. Todavia, Stott observa que “(1) ambos os relatos dizem que a ascensão de Jesus seguiu-se ao comissionamento dos apóstolos para que fossem suas testemunhas. (2) Ambos dizem que ela se deu fora de Jerusalém, em algum lugar do Monte das Oliveiras. (3) Ambos dizem que Jesus "foi elevado às alturas", sendo que o uso da voz passiva indica que a ascensão, assim como a ressurreição, foi um acto do Pai que, primeiro, o levantou dentre os mortos e, depois, o elevou às alturas. (4) Ambos relatam que os apóstolos "voltaram a Jerusalém"; o Evangelho acrescenta: "tomados de grande júbilo". (5) Ambos dizem que depois disso eles aguardaram a vinda do Espírito, de acordo com a ordem e promessa expressa do Senhor". 

 

A ascensão visível de Cristo tinha um propósito definido. Lucas inclui a ascensão de Jesus entre as verdades históricas que as testemunhas oculares podiam certificar. Quando Judas é substituído, Pedro faz do batismo de João e da ascensão de Jesus o início e o fim do ministério público acerca do qual os apóstolos precisam testemunhar (1.22).

 

Na transição de seu estado terreno para o celestial, Jesus poderia voltar para o Pai secretamente. Mas a razão para uma ascensão visível é que ele desejava que os discípulos soubessem que ele estava a partir de vez. “Ele passou aqueles quarenta dias, aparecendo, desaparecendo e reaparecendo. Mas esse período havia terminado. Desta vez, sua partida era definitiva” (Stott, 2008). Portanto, eles não deviam aguardar uma outra aparição. Pelo contrário, deveriam esperar outra pessoa, o Espírito Santo (1.4). O Espírito viria somente após a partida de Jesus, e então os discípulos estariam aptos a dar início à missão no poder que receberiam dele (Jo 16.7). Os versículos 12 ao 14 mostram que a ascensão visível de Cristo atingiu o efeito planeado. Os apóstolos voltaram para Jerusalém e esperaram pelo Espírito.

 

Se quisermos perceber a ênfase de Lucas ao contar a história da ascensão, precisamos prestar atenção àqueles dois varões vestidos de branco (v. 10) - àqueles anjos enviados da corte celestial (Mc 16.5; Jo 20.12; Ap 4.4) - ; que se puseram ao lado dos apóstolos, e fizeram uma pergunta: “Varões galileus, por que estais olhando para as alturas?” (v. 11a). Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu, assim virá do modo como o vistes subir (v. 11b). Esse mesmo Jesus, indica que sua segunda vinda será pessoal, em seu corpo humano ressuscitado e glorificado. E "do mesmo modo como" indica que a sua vinda também será visível e gloriosa; como diz a Escritura: "E então verão vir o Filho do homem numa nuvem, com poder e grande glória.” (Lc 21.27; cf. tb.: Mt 24.30; 26.64; 1 Ts 4.16, 17).

 

Esse foi o retorno de Jesus ao céu, de onde ele tinha vindo. Ele veio em humilhação e retornou na nuvem de glória, sendo elevado ao céu à destra de Deus. A nuvem que ocultou-o dos olhos deles (1.9), indica a presença gloriosa de Yahweh (Êx 40:34; Lc 9.34–36). Essa foi a nuvem profetizada no livro de Daniel, onde o Filho do Homem aparece diante do Ancião de Dias, vindo na nuvem de glória (Dn 7.13). 

 

Haverá, contudo, algumas diferenças importantes entre a partida de Jesus e o seu retorno. Sua volta será pessoal, mas ela não será vista por poucos, como na ascensão. Apenas os onze apóstolos o viram partir, mas quando ele voltar "todo olho o verá” (Ap 1.7). Em vez de voltar sozinho (como partiu), milhões de santos - humanos e angelicais - formarão sua comitiva. E em vez de ser uma volta restrita a um local ("Lá está!" ou " Ei-lo aqui!" ), será "assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente” (Mt 24.27).

 

Entre a ida e volta de Cristo, alonga-se um período de duração indeterminada que deve ser preenchido pelo testemunho da igreja. Mas enquanto isso, à semelhança dos discípulos, ansiamos pelo dia quando o reino será manifesto, quando ele trará o novo céu e a nova terra, o reino consumado em sua plenitude. Aguardamos ansiosamente por isso.

 

O nosso Senhor voltará em glória. Enquanto isso, é hora de trabalharmos para cumprir a Grande Comissão. É hora de testemunharmos da realidade deste reino por todo o mundo. “É tarefa da igreja visível tornar visível o reino invisível de Cristo” (Calvino), para manifestar às pessoas como seria viver numa comunidade governada por Jesus. 

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Referências: Carson, D. A., ed. 2018. NIV Biblical Theology Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, p. 1946-1947. / Lopes, H. D. 2012. Atos: A Ação do Espírito Santo na Vida da Igreja: Comentários Expositivos Hagnos. SP: Hagnos, p. 32. / Nathan, B. 2020. “Jesus, Ascension of” (Em Barry, J. D., ed. Lexham Bible Dictionary. Bellingham, WA: Lexham Press). / Stott, J. 2008. A Mensagem de Atos: até os confins da terra. SP: ABU. / Sproul, R. C. 2017. Estudos Bíblicos Expositivos em Atos. SP: Cultura Cristã, p. 16.

 

Pr. Leonardo Cosme de Moraes


Mães que fizeram a diferença

           

Êxodo 2.1-10

 

A maternidade é um dom de Deus. O Salmo 127.3 diz “que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o Seu galardão”. Deus concede graça às mães com a grande oportunidade de servi-lo na formação da civilização humana. Por outro lado, ser mãe é um desafio incrível. Deus confiou as mães o cuidado de um pequeno ser humano, completamente indefeso e muito precioso; e o seu trabalho tem uma jornada de 24 horas por dia, sete dias por semana. 

Há muitas mães dignas de destaque na Bíblia. Histórias inspiradoras de mulheres de fé que fizeram a diferença para seus filhos e para o mundo. Mulheres que através de seus filhos deixaram suas marcas de influência. Mães dignas de serem imitadas. Pense em Joquebede, a mãe de Moisés (Êx 1 e 2), em Ana e no pequeno Samuel (1Sm 1 e 2), em Isabel e João Baptista (Lc 1); e em Maria, a mulher escolhida para conceber Jesus, o Salvador do mundo (Lc 1 e 2). Hoje vamos ver o exemplo de algumas mães: 

Joquebede, uma mãe que lutou pela sobrevivência do seu filho (Hb 11.23; Êx 2.1-10). Joquebede teve três filhos: Miriã, Arão e Moisés (Êx 2.4; 7.7; 6.20; Nm 26.59). Todos os três foram influentes. Todos os três foram grandes diante do povo. Todos os três foram líderes que conduziram o povo.  

Quando Joquebede estava grávida de Moisés, as coisas iam de mal a pior (Êx 1.1-22). Os anos se passaram. O povo de Israel multiplicou-se na terra do Egito, e o Faraó que se levantou (que não conhecerá a José, Êx 1.8) passou a tratar o povo de Israel com tirania e crueldade. O novo Faraó quis controlar o crescimento da população de escravos hebreus, então disse às parteiras para lançar no rio Nilo todos os meninos hebreus recém-nascidos. 

Justamente no momento em que a crueldade de Faraó atinge o seu ponto máximo, mandando matar os meninos hebreus, nasce Moisés. Ele portanto deveria ser lançado no rio Nilo, logo ao nascer. Mas seus pais viram que ele era um menino formoso (At 7.20; Hb 11:23), e não aceitaram a decretação da morte do filho. Não se intimidaram com as ameaças do rei, mas traçaram um plano para poupar a vida de Moisés. Hebreus 11.23 informa que os pais de Moisés o esconderam pela fé. Eles protegeram o bebé “formoso”, porque creram que Deus tinha um propósito especial para ele. Não foi nada fácil, uma vez que todos os egípcios haviam se tornado espiões oficiais do Faraó à procura de bebés para serem afogados (Êx 1.22). 

Ao final de três meses, quando já não podiam mais esconder o bebé, colocaram-no numa pequena cesta à prova d’água para flutuar no rio Nilo (3), e a sua irmã para que a vigiasse. Joquebede obedeceu à lei ao pé da letra quando colocou Moisés nas águas do Nilo, mas certamente desafiou as ordens do Faraó na forma como seguiu essa lei. O bebé foi colocado estrategicamente num lugar do rio onde a princesa do Egipto normalmente frequentava. Também dispôs que a filha ficasse num ponto estratégico para fazer a pergunta certa no momento certo (Êx 2.4,7). Foi Miriã que ofereceu à filha de Faraó, os serviços de sua mãe como ama, o que foi aceito pela princesa (Êx 2.7).  

Joquebede confiou na providência de Deus e não foi decepcionada. Seu filho foi protegido por Deus quando navegava a sós, um indefeso bebé sobre as águas. Quando a princesa foi até o Nilo para lavar-se, viu o cesto, descobriu o bebé e ouviu-o chorar. Seguindo seus instintos maternos, salvou o menino e cuidou dele (Êx 2.5-6). Deus usou as lágrimas do bebé para controlar o coração da princesa egípcia. Usou as palavras de Miriã a fim de providenciar para que o bebé fosse criado por sua mãe e ainda recebesse por isso. Joquebede tornou-se a mãe de criação de seu próprio filho.  

A adoção de uma ama-de-leite para amamentar e cuidar da criança até que fosse desmamada era um costume normal entre as famílias abastadas ou aristocráticas. Foi nesse tempo, da primeira infância de Moisés, que sua mãe deu tudo de si para transmitir ao seu infante as verdades que mais tarde governariam a sua vida. Foi o ensino aprendido com sua mãe que levou Moisés a rejeitar as glórias do Egipto por causa do opróbrio de Cristo (Hb 11.23-27).  

Mãe, você que está preocupada com o futuro dos seus filhos, lembra-se da mãe de Moisés. Como deve ter sido preparar aquela pequena arca para seu filho recém-nascido? Lembra-se de que o que ela fez pela fé em Deus é uma chamada para si também – uma chamada para confiar seus filhos ao cuidado bondoso de Deus; uma chamada para confiar activamente a vida e o futuro de nossos filhos.  

Ana, uma mãe que consagrou o seu filho para Deus (1Sm 1.9-20). Ana era estéril, porque o próprio Deus havia cerrado a sua madre (1 Sm 1.6). No seu tempo, esse era um problema que trazia muitos estigmas. Ana teve ainda que enfrentar a zombaria da sua rival (Penina), a incredulidade do seu marido (Elcana) e a censura do seu sacerdote (Eli). Ela, contudo, não desistiu. Continuou a orar e a chorar diante de Deus, pedindo-lhe um filho. Houve um dia, porém, que ela resolveu fazer um voto a Deus. Prometeu-lhe que se Deus lhe desse um filho, o devolveria para o Senhor por todos os dias da sua vida. Deus ouviu o seu clamor e ela concebeu e deu à luz a Samuel, o maior juiz, o maior profeta e o maior sacerdote da sua geração. Precisamos de mães que coloquem seus filhos no altar de Deus. Mães que consagrem seus filhos para Deus.

Eunice, uma mãe que educou seu filho nos caminhos do Senhor (2 Tm 1.5; 3.14,15). Eunice era mãe de Timóteo e filha de Loide. Ela era uma judia devota e transmitiu a seu filho as mesmas verdades aprendidas em seu lar. Nela habitava uma fé sem fingimento. Essa mesma fé, ela transmitiu para seu filho (2 Tm 1.5). Eunice era uma mãe comprometida com a Palavra de Deus. Ela ensinou a Timóteo as sagradas letras desde a sua infância. Essas sagradas letras tornaram Timóteo sábio para a salvação. As mães são desafiadas a andar com Deus, a ensinar os seus filhos a Palavra de Deus e a prepará-los para serem instrumentos nas mãos de Deus.

Quando Deus chamou Timóteo, através do ministério de Paulo, Ela não fez oposição; mesmo sabendo que seu filho Timóteo era jovem e adoecia frequentemente. Mais tarde, Timóteo tornou-se discípulo do apóstolo Paulo e constituiu-se num dos maiores pastores da história da igreja cristã, aquele que haveria de dar continuidade ao ministério do apóstolo Paulo.  

Muitos pais hoje deixam os filhos crescerem para depois eles escolherem o caminho que querem seguir. Nós escolhemos o nome, as roupas, a comida, a escola para os filhos. Mas não escolheremos o mais importante? Josué, o líder do povo de Deus disse: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Lopes, 2018). Eunice, do mesmo modo, ensinou Timóteo desde a sua infância.

 Por fim, gostaria de lembrar Suzana Wesley (1669-1742). Poucas mulheres na história possuíram a sensibilidade espiritual, o vigor e a sabedoria de Susanna Wesley. Ela criou dezenove filhos e dedicava tempo para cada um individualmente. Em sua escola doméstica, seis horas por dia, durante 20 anos ela ensinou a seus filhos de maneira tão abrangente que eles se tornaram notavelmente cultos. Quando sua casa pegou fogo e John Wesley foi salvo naquele incêndio, ela disse: “Este é como um tição tirado do fogo" (Zc 3.2). Deus tem um plano especial para este menino, concluiu ela. Desde então ela passou a dedicar-se ainda mais na formação espiritual de John Wesley (seu 15º filho) e este, juntamente com o seu irmão Carlos Wesley e George Whitefield, foi um dos principais instrumentos do grande reavivamento evangélico na Inglaterra e o fundador do metodismo” (Século 18). E seu filho Charles, também ministro anglicano, daria à Igreja mais de 9 mil hinos inspiradores. 

Precisamos de mães que invistam tempo na vida espiritual de seus filhos. Mães que busquem a salvação de seus filhos mais do que seu sucesso. Mães que dêem o melhor do seu tempo para inculcar nos filhos as verdades eternas, verdades essas que os ajudarão a tomar as mais importantes decisões ao longo da vida. 

A Bíblia nunca ordena que todas as mulheres devam ser mães. Contudo, diz que aquelas que o Senhor abençoa e se tornam mães devem tomar seriamente tal responsabilidade.

 

Referências: Laubach, F. 2000. Comentário Esperança, Carta aos Hebreus. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, p. 193. / Juliani, B. M. 2020. Preparando-se para a Maternidade: Informações Privilegiadas sobre sua Nova Função. São José dos Campos, SP: Editora FIEL, p. 23–42. / Lopes, H. D. 2018. Hebreus: A Superioridade de Cristo - Comentários Expositivos Hagnos. SP: Hagnos, p. 244–245. / Lopes, H. D. Mãe, uma mestra do bem (em https://voltemosaoevangelho.com/blog/2012/05/mae-uma-mestra-do-bem/). / Phillips, R. D. 2018. Estudos Bíblicos Expositivos em Hebreus: Como Enfrentar os Desafios e Armadilhas do Mundo Confiando na Supremacia de Cristo. SP: Editora Cultura Cristã, p. 474–475. / Vários autores. 2005. Mães Que Mudaram o Mundo. Editora Habacuc. Wiersbe, W. W. 2010. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vl. 1. Santo André, SP: Geográfica. 

 

 

Pr. Leonardo Cosme de Moraes 

A vinda do Reino

 




O tema da vinda do Reino de Deus foi central na missão de Jesus (Mt 4.17; Mc 1.15). Seu ensino visava mostrar aos homens como entrar no Reino de Deus (Mt 5.20; 7.21). Suas obras poderosas pretendiam provar que o Reino de Deus chegara a eles (Mt 12.28). Suas parábolas ilustraram para seus discípulos a verdade a respeito do Reino dos céus (Mt 13.11) - Reino de Deus e reino dos Céus (ou Reino que vem dos céus) são termos intercambiáveis (veja Mt 19.23-25). 

 

Do princípio ao fim, a Bíblia proclama a soberania eterna de Deus sobre todas as coisas (Is 40.12-48). Ele reina supremo como criador e sustentador de tudo o que existe. No entanto, a Bíblia também conta-nos como Adão e Eva rejeitaram a autoridade de Deus como rei do universo com trágicas consequências para a história da humanidade.

 

A partir desse início trágico (Gn 3), a Bíblia revela como Deus restabelece gradual e pacientemente seu reinado sobre toda a terra, redimindo a humanidade e subjugando seus oponentes. O ponto central para este processo é o Senhor Jesus Cristo, cuja morte, ressurreição e ascensão são centrais para estender o reinado de Deus por toda a terra. Aqueles que reconhecem Jesus como Rei tornam-se membros do reino de Deus. 

 

Embora o reino já esteja presente e a crescer na terra, a Bíblia antecipa um tempo em que Jesus retornará em glória como rei universal para recompensar os justos e punir os ímpios. Quando isto acontecer, o reinado de Deus se estenderá sem contestação no novo céu e na nova terra. 

 

O progresso do Reino de Deus (Mt 13.31-33). A vinda do reino de Deus parece insignificante, quase imperceptível, como uma pequena semente ou como o fermento escondido na massa do pão, mas sua influência acabará por espalhar-se por todas as nações.

 

Na parábola da semente de mostarda, Jesus estava a dizer aos ouvintes que o reino o qual viera anunciar e inaugurar era minúsculo naquele momento (v. 32b). A semente de mostarda mal pode ser vista quando colocada na terra; porém, depois, começa a crescer e expandir-se até tornar-se uma “hortaliça” grande o suficiente para servir de ninho às aves. A imagem lembra passagens do AT que retratam um grande reino como uma grande árvore com pássaros em seus galhos (Jz 9.15; Ez 17.22–24; 31.3–14; Dn 4.7–23). Portanto, o tamanho actual do Reino e sua aparente insignificância não são, de modo algum, indicadores de sua consumação, a qual abrangerá todo o universo.

 

Na sequência, Jesus comparou o reino dos céus ao fermento no contexto da culinária (Mt 13.33). Jesus falou sobre uma mulher que estava a realizar esta tarefa. Ele disse que ela “escondeu” o fermento na massa. Com isso, Jesus expressava que o reino dos céus estava escondido à vista da maioria das pessoas naquele momento, mas que, apesar disso, estava em actuação. Quando o fermento é acrescentado à farinha, nada parece acontecer por um momento, mas ao final toda a massa está fermentada. De maneira semelhante, o reino de Deus está escondido agora, até que um dia surgirá a céu aberto para ser visto por todos.

 

Os homens podem rejeitar Jesus, mas nunca poderão detê-lo. O Reino de Deus é como uma semente minúscula que se transforma numa grande árvore; é como o fermento que, um dia, permeará toda a tigela de massa. Portanto, o reino em seu estado presente é objeto de fé, não de uma visão clara. Mas quando a fase final do reino for instaurada pela segunda vinda de Jesus Cristo, “toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.11); o reino do cosmos será dele “e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Apocalipse 11.15b).

 

As fases do reino de Deus. O reino de Deus envolve dois grandes momentos: cumprimento dentro da história e a consumação ao fim da história. O Reino é uma realidade actual (Mt 12.28) e, ao mesmo tempo, é uma bênção futura (I Co 15.50).

 

O Reino de Deus é uma realidade presente. O Reino é um domínio no qual os seguidores de Jesus Cristo já entraram. Paulo escreve que Deus nos “resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado” (Cl 1.13;  Ef 5.5). Em Mateus 21.31, Jesus advertiu os falsos religiosos dizendo: “Os publicanos e as prostitutas estão entrando antes de vocês no Reino de Deus”. 

 

O Reino de Deus agora não é físico, nem geográfico, nem político. Jesus disse para Pilatos: “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18.36). Quando os fariseus perguntaram a Jesus sobre quando o Reino de Deus viria, ele respondeu: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está entre vocês” (Lc 17.20,21).

 

O Reino agora é uma bênção espiritual redentora – Rm 14.17: justiça, paz, alegria no Espírito Santo. Neste sentido, o Reino de Deus é a esfera na qual se vivência o reinado de Deus. Esta bênção redentora é experimentada apenas por meio do novo nascimento (Jo 3.3).

 

No Sermão do Monte, as bem-aventuranças descrevem o tipo de pessoa de quem se pode dizer: “deles é o reino dos céus” (Mt 5.3–12). Neste reino, o maior é o menor; e quem governa como quem serve.” (Lc 22.26). Neste reino, quem quiser ser o primeiro, deve ser servo de todos (Mt 20.27).

 

A porta de entrada do Reino inaugurado na primeira vinda de Cristo é o arrependimento dos pecados para com Deus e a fé na pessoa e na obra de Cristo (Mc 1.15).

 

O Reino de Deus é, ao mesmo tempo, um domínio futuro. O reino de Deus culminará nos novos céus e nova terra; quando “a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.19–21; cf. tb. Ef 1.8–10; Cl 1.19–20; 2 Co 5.17); quando, enfim, teremos corpos glorificados numa nova ordem cósmica (I Co 15.50). 

 

Nosso Senhor referiu-se muitas vezes a esse evento futuro. “Muitos virão do oriente e do ocidente, e se sentarão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus (Mt 8.11). “Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo’” (Mt 25.34). “É melhor entrar no Reino de Deus com um só olho do que, tendo os dois olhos, ser lançado no inferno” (Marcos 9.47). 

 

Nessas passagens, o Reino de Deus equivale aos aspectos da vida eterna a ser experimentado apenas após a segunda vinda de Cristo. O apóstolo Paulo adverte que certas pessoas serão excluídas do reino de Deus: “Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus?” (1Co 6.9); “… eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam [as obras da carne]” (Gl 5.21). Em Efésios 5.5, ele escreve: “Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus”.

 

A relação entre o reino de Deus e a igreja. O reino de Deus refere-se ao facto de Deus governar. O reino deve ser concebido como o domínio e autoridade de Deus em todas as esferas da existência. “O Senhor tem estabelecido o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo" (Salmos 103.19). “O teu reino é reino eterno, e o teu domínio permanece de geração em geração." (Salmo 145.13).

 

O reino estava presente no céu mesmo antes da criação dos seres humanos, pois os anjos estavam sujeitos a Deus e lhe obedeciam. Eles estão incluídos em seu reino agora, e assim estarão no futuro. Mas eles nunca foram nem serão parte da igreja. 

 

A igreja de Cristo, entretanto, é uma manifestação do reino. O reino é o governo de Deus, enquanto a igreja é a comunidade humana debaixo desse governo. O reino não deve ser confundido com os seus súbditos. A igreja é a comunidade do reino, mas nunca o reino em si. Os discípulos de Jesus pertencem ao reino assim como o reino pertence a eles; todavia, eles não são o reino. O reino é o domínio de Deus; a igreja é o povo do domínio; uma sociedade de pessoas regeneradas que adentraram o reino, nele vivem. 

 

George Ladd faz cinco afirmações básicas a respeito da relação entre o reino e a igreja:

 

(1) A igreja não é o reino. Jesus e os primeiros cristãos pregaram que o reino de Deus estava próximo e não que a igreja estava próxima; eles pregaram as boas novas do reino e não as boas novas da igreja: At 8.12; 19.8; 20.25; 28.23, 31). 

 

(2) O reino cria a igreja quando as pessoas entram no reino de Deus elas unem-se a comunhão da igreja. Logo, entrar no reino de Deus implica em tornar-se membro da Igreja como corpo místico de Jesus Cristo.

 

(3) A igreja testemunha do reino, pois Jesus disse: “E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim.” (Mt 24.14). 

 

(4) A igreja é a guardiã do reino, porquanto à igreja foram dadas as chaves do reino dos céus (Mt 16.19).

 

(5) A igreja é o instrumento do reino. Na medida em que a Igreja serve de instrumento para o estabelecimento e a extensão do Reino, naturalmente ela está subordinada a este como um meio para um fim.

 

Pertencer ao reino de Deus não é uma conquista humana. Deus chama-nos para o seu reino (1Ts 2.12); dá-nos o reino (Lc 12.32); traz-nos para o reino do seu Filho (Cl 1.13). No entanto, o reino de Deus exige, de nós, arrependimento e fé (Mc 1.15). 

 

Somente aqueles nascerem de novo podem entrar no reino de Deus (Jo 3.3,5). Toda vez que o Espírito Santo regenera um coração, o Reino vem e o Rei governa. Mas só Deus pode fazer alguém renascer (Jo 1.13; 3.6); logo, o ponto em que a mensagem do evangelho atinge o ouvinte é a intimação para crer em Jesus Cristo (Jo 3.16; 1 Jo 5.1).

 

Jesus disse que devemos “receber o reino de Deus” como uma criança (Mc 10.15). O que é recebido? O governo de Deus. Jesus ensinou que devemos procurar “em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6.33). Devemos buscar a justiça de Deus — o domínio dele em nossa vida. A oração do crente é: “Venha o teu Reino” (Mt 6.10) - que só o Senhor seja Rei sobre todo o mundo. Portanto, o reino de Deus demanda um compromisso radical (Lc 14.26; Mt 13.44-46); como advertiu Jesus: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai …” (Mt 7.21).

 

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Referências: Alexander, T. D. “The Kingdom of God” (in Carson, D. A., ed. 2018. NIV Biblical Theology Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, p. 2351). / Berkhof, L. 2012. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, p. 523–525. / Carson, D. A. 1984. ‘Matthew’. (Gaebelein, F. E. The Expositor’s Bible Commentary: Matthew, Mark, Luke, vl. 8. Grand Rapids, MI: Zondervan, p. 319–320). / Crossway Bibles, The ESV Study Bible (Wheaton, IL: Crossway Bibles, 2008), p. 1849. / David Seal, “Kingdom of God”, org. John D. Barry, Dicionário Bíblico Lexham (Bellingham, WA: Lexham Press, 2020). / Hoekema, A. A. 2012. A Bíblia e o Futuro. SP: Editora Cultura Cristã, p. 52–66. / Hendriksen, W. 2010. Mateus, vl. 2. Comentário do Novo Testamento. SP: Editora Cultura Cristã, p. 78–83. / Ladd, G. E. 2008. O evangelho do reino: estudos bíblicos sobre o reino de Deus. SP: Shedd Publicações. / Lopes, H. D. 2019. Mateus: Jesus, o Rei dos Reis: Comentários Expositivos Hagnos. SP: Hagnos, p. 434–437. / Seal, D. “Kingdom of God” (Barry, J. D., ed. 2020. Dicionário Bíblico Lexham. Bellingham, WA: Lexham Press). / Sproul, R. C. 2017. Estudos Bíblicos Expositivos em Mateus. SP: Editora Cultura Cristã, p. 382–386.

 

 

Pr. Leonardo Cosme de Moraes