Um Povo Marcado Pela Graça


Mais um ano chegou ao fim e outro entrou em ação há meia dúzia de dias, numa sequência repetitiva de dias, de semanas, de meses e de estações do ano, embora este, como todos os outros, traga novos e diferentes desafios a cada um de nós. 

O que muda, garantidamente, é o facto de que, independentemente do estrato social a que pertençamos, ou do credo religioso que defendamos, todos ficamos um pouco mais velhos, o que por si só, e em condições normais, deveria tornar-nos um pouco mais maduros e responsáveis na assunção dos nossos compromissos pessoais, familiares, sociais e espirituais. 

Para nós, filhos de Deus, e constituintes da Igreja do Senhor Jesus, o novo ano que agora começa, com todas as incertezas, próprias de um futuro que não somos capazes de prever, com exactidão, muito menos de controlar com os recursos ao nosso alcance, traz consigo enormes (mas também estimulantes) desafios para o nosso ambiente eclesiástico, onde cada um é incentivado a envolver-se, com toda a diligência, na promoção do bem comum. 

Todos somos desafiados a usar, com sabedoria, os dons que o Espírito Santo colocou ao nosso dispor, a fim de contribuir para a edificação do corpo (a igreja local). Entre outras instruções dadas pelo apóstolo Paulo aos membros da Igreja em Éfeso, retiramos uma que nos parece relevante e pertinente, neste início do novo ano civil, de modo a servir-nos de ponto de partida para os embates futuros que se avizinham. 

Paulo desafia os efésios a serem “benignos” uns para com os outros, num envolvimento de prática recíproca e reiterada. 

“Benignidade” é a ternura de coração que leva alguém a agir, motivado pelo bem, de modo a “beneficiar” o outro, ou, como diz, e bem, o grande teólogo William Barclay, “a disposição mental que pensa nos interesses do próximo, como o faz com os seus próprios”. Significa que cada um de nós, com os olhos postos na edificação do corpo de Cristo, deve, com empenho e abnegação, comprometer-se a ser usado como um “vaso útil” nas mãos do bom Deus e Pai, agindo com uma predisposição mental altruísta, que vê o outro como “um potencial membro da família a ser ajudado a crescer” e a ganhar maturidade para, por meio dela, servir da melhor maneira a causa do Reino. 

Essa atitude deve ser acompanhada de condescendência em relação àqueles que apresentam fragilidades (dificuldades ou debilidades) no seu crescimento espiritual. A compaixão deve ser exercida numa atitude de “identificação auxiliadora” por parte daquele que procura ajudar o outro a continuar a sua caminhada, cujo objetivo é o de levantar o caído, segurando-o pelas mãos. 

O fundamento de todo o ensino de Paulo aos efésios (e a todos nós) encontra-se no próprio carácter de Deus. Ele é benigno e compassivo na forma como lida connosco e nos trata, apesar das nossas fragilidades e imperfeições. 

“Perdoando-vos uns aos outros” diz Paulo, para completar a sua exortação. Literalmente, o verbo usado por ele significa “agir com graça” ou “tratar graciosamente”, querendo dizer com isso que, um coração benigno e compassivo levará, necessariamente, o irmão a olhar para os outros (sobretudo os que apresentam debilidades no seu crescimento) de modo gracioso, favorecendo-os com a sua ajuda e assistência. 

Não é por acaso que, logo a seguir (no início do capítulo cinco), Paulo acrescenta que os efésios deviam ser “imitadores de Deus” no exercício do seu dom de amor. Os filhos imitam os pais. Os filhos de Deus devem imitar o carácter do seu benigno, compassivo e gracioso Pai. 

Com o desafio de Paulo aos efésios em mente, encaremos este novo ano com confiança, com entrega e com um ardente desejo de sermos “úteis” nas mãos do nosso Deus e “bênçãos” para os demais irmãos que connosco percorrem a cainhada da fé. 

Que o Senhor derrame sobre cada um de nós a sua maravilhosa graça. 

Soli Deo Gloria! 
 Pr. Samuel Quimputo
Boletim jan 2017

ORIENTADOS PELA PALAVRA

Uma cuidada leitura da passagem do texto bíblico em Êxodo 19:1-6 levar-nos-á à perceção do propósito da existência da nação de Israel e da sua missão no panorama mundial, e tudo isso, em cumprimento das promessas feitas a Abraão em Génesis 12:1-3.

Israel, como nação, foi constituída como modelo diante das outras nações, com o objetivo de apresenta-la como “uma montra” a ser contemplada pelas demais, a fim de suscitar nelas o desejo, não só de admirar a sua sabedoria, a justeza das suas leis, mas também de imitar o seu exemplo de adorar um só e único Deus, criador do céu e da terra.

Este propósito é patentemente exposto em Deuteronómio 4:4-8, onde Moisés, à guisa de despedida, exorta o povo, prestes a entrar na terra prometida, a permanecer fiel ao Senhor, que o libertara do jugo egípcio.

Para que Israel preservasse a sua identidade nacional e cumprisse a sua vocação missionária, a de ser luz para as nações, era necessário colocar a Lei de Deus, isto é, a sua Palavra, no lugar de destaque, fazendo com que ela “regulasse toda a vida nacional”, pessoal e coletivamente. Dito de outra forma, a lei que lhe fora dada por um Deus gracioso e bondoso, devia servir de “guia de orientação” constante e de instrumento de diferenciação étnica.

Todos os profetas que falaram em nome de Deus, interpretaram as calamidades que se abateram sobre Israel, incluindo a destruição do templo e o exílio, como resultantes da desobediência do povo eleito, e como  a clara evidência da indignação divina; e a causa primária apresentada por, praticamente, todos eles, era a rejeição do povo em seguir as orientações divinas.

O Deus da Bíblia é um Deus que se revela, principalmente, por meio da sua Palavra. É por meio dela que Ele manifesta a sua vontade e exterioriza os seus “sentimentos”.

Fica claro, portanto, que existe uma estreita relação entre a Palavra de Deus e o relacionamento pessoal e a “saúde” espiritual que deve caraterizar a vida do crente.

O processo de aquisição do conhecimento (diga-se, da intimidade), necessário para o alcance da maturidade espiritual, é assegurado e consolidado pela “familiaridade que se nutre” com a Palavra de Deus.

Vivemos numa época e numa sociedade em que os sentimentos assumem maior protagonismo, relativamente aos pensamentos. Os pilares do Iluminismo, com a sua ênfase na Razão, parece terem colapsado e terem sido    colocados numa gaveta de reserva.

Para muitos, o que faz um culto ser “interessante”, e mais atrativo, é o grau de  emoções que produz nos seus participantes, é o “sentir o momento”.

Para esses, não importa tanto o que se ensina, o lugar e a importância que são atribuídos à pregação e ao ensino da Palavra de Deus. O que determina a “relevância” do culto e do ambiente nele criado é a abundância e a intensidade de sentimentos que proporciona aos adoradores. Logicamente, o que define a qualidade do culto (e a própria relevância da igreja local), passa a ser o sentimentalismo (e às vezes, com entretenimento santo) e a agitação que predominam nos “encontros” e que satisfazem os seus “consumidores”.

Convém deixar bem claro que as emoções, e a legítima manifestação de sentimentos, fazem parte da estrutura da personalidade humana. Alegria, tristeza, medo e ira, para citar apenas algumas, são emoções que acompanham as celebrações do ser humano. Não é possível compreender o amor e a graça de Deus, na medida do possível, sem que essa perceção afete a nossa emoção e suscite sentimentos profundos em nós.

O que está em causa, segundo Deus, por intermédio do seu profeta Oseias, é que o povo é destruído e perde o rumo quando lhe falta o conhecimento que, obviamente, se adquire quando a fé é principalmente “nutrida” pelo ensino da palavra divina.

Sempre que o povo de Deus destaca algo mais, que não seja o próprio Senhor e a centralidade da sua Palavra, vacila e perde a orientação.

Que o bom Deus, por meio do Seu Espírito, nos impeça de negligenciarmos a centralidade da sua Palavra na nossa experiência pessoal de fé e  de vivência comunitária.

Soli Deo Gloria! 
Pr. Samuel Quimputo
Boletim 175
25 set 2016

Seguros nas Mãos do Pastor

A relação de Deus com o seu povo é constantemente ilustrada pela analogia com a vida pastoril, onde Deus se assume como o pastor enquanto que o seu povo é considerado como o rebanho.

Esta analogia é também aplicada à relação existente entre o povo e aqueles que eram chamados por Deus e incumbidos de cuidar o Seu rebanho, na qualidade de seus guias espirituais e de “facilitadores” da caminhada da fé dos demais peregrinos.

Profetas, sacerdotes, juízes e reis pertenciam à mesma categoria de pastores, cujo ministério consistia no cuidado da vida e da saúde espiritual do rebanho do Senhor.

Antes da encarnação do Senhor Jesus , os fariseus e os escribas, peritos em matéria da Lei, eram considerados os guias qualificados para orientar o povo nos “caminhos da espiritualidade”. Contudo, eles não se revelaram suficientemente capazes de desempenhar tão exigente tarefa. E a avaliar pelas contundentes críticas que lhes eram dirigidas pelo Senhor Jesus, o bom Pastor, só podemos concluir que o seu trabalho não tinha sido bem realizado.

Neste texto de João 10, Jesus assume-se como o pastor mais qualificado e capaz de cuidar do seu rebanho, proporcionando-lhe todos os recursos necessários para a manutenção do seu equilíbrio existencial e da sua saúde espiritual.

Porém, ao fazê-lo, Ele traça uma linha divisória e inconfundível, que separa as verdadeiras ovelhas dos lobos que, maldosa e dissimuladamente, se infiltram no seio do rebanho.

Nesta passagem, o bom Pastor destaca os sinais do verdadeiro discipulado , sinais esses que identificam aqueles que foram regenerados pelo Espírito Santo, eficazmente chamados pelo poder da pregação, e que foram integrados no seio do rebanho, no qual amorosamente servem uns aos outros e são edificados na fé; nele também encontram as condições ideais para o seu crescimento saudável, na graça e no conhecimento do Senhor Jesus, Autor e Consumador da sua fé (Hebreus 12:1,2; 2 Pedro 3: 17,18). 

Segundo o diagnóstico feito pelo Supremo Pastor, as suas ovelhas são aquelas que:

 1º -  ouvem a sua voz, isto é, aqueles que aceitam de bom grado as suas reivindicação e obedecem às suas recomendações, procurando seguir as suas orientações. Para Ele, o verdadeiro discipulado carateriza-se , acima de tudo, pela aceitação da liderança do Mestre, por meio do seu ensino.

 2º - seguem os passos do seu Pastor; aqueles que, por cultivarem uma relação de intimidade com o SEU Mestre, são capazes de identificar a sua voz com precisão, de modo bem nítido e familiar.

Essas ovelhas seguem o seu pastor porque o conhecem; e, por meio da cumplicidade existente entre ambas as partes, conseguem distinguir a sua voz, da voz dos estranhos (João 10:5).

O Pastor identifica cada uma das suas ovelhas sem se esquecer de uma única sequer. Ele cuida de todas, embora cada uma seja especial e única.
Depois de revelar o que carateriza e distingue as suas verdadeiras ovelhas, das falsas, o Senhor Jesus, de modo perentório e categórico, assegura a completa proteção das mesmas, tanto no presente como no futuro.

Ele declara que elas são detentoras da “vida eterna”, vida essa que procede e flui do próprio Pastor. Uma vida de qualidade singular e que garante uma experiência de amor que não terá fim.

“Nunca hão de morrer”, afirmou Ele, sem hesitação. Esta declaração prova o facto de que nenhuma força, natural ou sobrenatural, é suficientemente capaz de provocar uma separação entre o Pastor e as sua ovelhas. Quem é protegido por Ele  nunca se perderá! Quem é amparado pelo seu forte braço nunca será separado do seu amor. Louvemos a Deus pela Sua fidelidade! Soli Deo Gloria! 

Pr. Samuel Quimputo
agosto 2016