Igreja que Ora


Atos 12 retorna a Jerusalém onde encontramos uma nova perseguição contra os líderes cristãos, os apóstolos (12.1-4). Herodes Agripa I, que nesta altura governava sobre a Judeia, Samaria, Galiléia, Transjordânia e Decápolis, fazia o que fosse necessário para agradar os judeus. Enquanto Herodes, o Grande, viva constantemente em conflito com os judeus, Herodes Agripa I sabia como obter o favor dos líderes e dos principais sacerdotes e, por essa razão, contava com o apoio deles.

 

Graças a essa política, ele mandou […] prender alguns da igreja para os maltratar e fez passar a fio da espada o apóstolo Tiago, irmão de João, e filho de Zebedeu (Lc 5.10; 6.14; 8.51; 9.28). A população aprovou a perseguição contra os líderes da igreja, então Herodes decidiu ir atrás de Pedro. Herodes prendeu Pedro com o propósito de matá-lo após os sete dias da Festa da Páscoa, com o único propósito de agradar os judeus (12.3). Ele queria dar um golpe mortal na igreja matando seus principais líderes. 

 

Todas as precauções foram tomadas para que Pedro não escapasse  da prisão. Herodes enviou quatro esquadrões de soldados para guardá-lo até que pudesse ser executado (12. 6, 10). Havia quatro esquadrões porque cada um era dividido em quatro turnos. Isso significa que havia quatro grupos de quatro – 16 soldados romanos – vigiando Pedro na prisão. Dois soldados ficavam com ele em sua cela. Pedro tinha cada perna acorrentada a um guarda, enquanto os outros dois guardas vigiavam os portões externos. 


Quando Tiago foi executado, os crentes não se desesperançaram com a oração. Em seguida ficou pior, mas os cristãos não abandonaram a oração. Eles oraram ainda mais fervorosamente. Do ponto de vista humano, só um milagre poderia livrar o apóstolo da morte. Eram os dias da Festa da Páscoa. Durante todo o tempo que Pedro esteve na prisão a igreja permaneceu em oração (12.5).


Deus poupou Pedro, mas permitiu que Tiago fosse morto. Tiago morreu pela causa de Deus, assim como seu Senhor (Mc 10.36-39). A vontade do Senhor é sempre sábia e boa, mas nem sempre é previsível. Nós não vemos tudo que Deus vê! Precisamos confiar em Deus, e que Ele nos ajudará a usar o sofrimento em prol do nosso fortalecimento, e ao mesmo tempo para Sua glória. Precisamos dizer como Paulo: “Por que, se vivemos, para o Senhor vivemos, se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.8). Uns são libertos pela fé; outros morrem pela fé. Na galeria da fé, em Hebreus 11, uns foram libertos do fogo e da boca de leões pela fé; outros, pela fé, foram mortos e serrados ao meio. Deus é Deus quando nos livra da morte e quando nos leva para sua presença. Ele é Deus quando atende a nossa oração curando e quando chama-nos para a sua presença. 

 

Este episódio sublinha diferentes princípios relativamente à prática da oração na vida da igreja:


A igreja que ora recebe prontamente o auxílio do céu (12.5-11). Na mesma noite em que Herodes planeava apresentá-lo […], Pedro dormia sono profundo, mesmo algemado entre dois soldados (12.6). Ele confiava em Deus. Ele podia dizer, assim como Paulo escreveu quando também esteve preso: “para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fl 1.21).

 

Lucas informa que, de repente, um anjo do Senhor apareceu, e a cela encheu-se de luz. O anjo tocou o lado de Pedro e ordenou que ele se levantasse depressa. No mesmo instante, as algemas caíram das suas mãos. Então o anjo disse a Pedro que se vestisse, calçasse as sandálias, pusesse a capa e o seguisse. Mesmo confuso, Pedro obedeceu às instruções do anjo. Depois de terem passado a primeira e a segunda sentinela da prisão, chegaram ao portão de ferro, que abriu-se como se fosse automatizado. Só depois de entrar numa rua da cidade e de o anjo ter apartado-se dele, Pedro deu-se conta de não estar num sonho. O Senhor livrou-o da mão de Herodes e dos judeus (12.7-11). 

 

Vemos aqui uma importante lição para nós. O visitante celestial tirou Pedro da prisão (12.17), mas o que Pedro podia fazer, o anjo não fez por ele. Pedro devia levantar-se, cingir-se, colocar suas sandálias, sua túnica e sair (12.8). Assim que Pedro estava livre, o anjo deixou-o. Agora, Pedro poderia tomar suas próprias decisões!

 

Deus comissionou uma classe de anjos para proteger o seu povo na terra (Sl 91.11; Hb 1.14). Contudo, é fanatismo esperar que Deus faça por nós o que nos mesmos devemos fazer (12.10-11). Deus não enviará seus anjos para fazer o trabalho da igreja (1 Pe 1.12). 

 

A igreja que ora recebe de Deus infinitamente mais do que poderia imaginar (Ef. 3.20). Conforme a história prossegue, Pedro foi à casa de Maria, a mãe de João Marcos (12.12-17). Quando ele chegou à casa, ele bateu na porta e esperou que alguém a abrisse (12.14). Uma criada, chamada Rode foi ver quem era, mas ficou tão alegre ao ouvir a voz de Pedro que esqueceu-se de abrir a porta! Correu para dentro a fim de dar as boas notícias aos que estavam a orar. Ao ouvirem as palavras da criada, alguns pensaram que ela havia enlouquecido, mas ela persistia em afirmar que o apóstolo estava junto do portão (12.15). Pensaram, então, tratar-se do anjo de Pedro, mas Rode afirmou que era o apóstolo em pessoa. “Então, eles abriram, viram-no e ficaram atónitos” (12.16). Eles não podiam crer que Deus concedera-lhes exatamente o que haviam pedido.

 

Vemos aqui que “não somos a primeira geração a ser tão fraca em reconhecer as respostas de Deus às nossas orações. É sempre correto orar, mesmo que sua fé seja tão fraca que você se surpreenda quando a resposta chegar!” (RC Sproul). Uma vez que nada é impossível para Deus, nada é impossível para a igreja quando ela se reúne para orar. “A oração de apenas um justo pode muito em seus efeitos” (Tg 5.16, veja tb. Mt 7.8).

 

Pedro foi libertado pelo anjo de Deus, mas em resposta às orações da igreja (12.12, 17). Como escreveu o pregador puritano Thomas Watson: “O anjo chamou Pedro na prisão, mas foi a oração que foi buscar o anjo”. A oração fervorosa da igreja reunida afectou o resultado dos acontecimentos (12.5, 12). “Suas orações imperfeitas, porém fervorosas, foram mais poderosas que Herodes e o inferno” (G. C. Morgan).

 

A igreja que ora triunfa sobre as forças do mal (12.18-23, Mt 16.18). Lucas informa que “ao amanhecer, houve grande alvoroço entre os soldados a respeito do que tinha acontecido a Pedro […] Não conseguindo encontrá-lo, Herodes interrogou os guardas e mandou executá-los.” (12.18-19a). De acordo com o código Justiniano, se um prisioneiro fugisse, sua sentença – espancamento, crucificação ou decapitação – era aplicada aos guardas responsáveis pelo turno em que o prisioneiro havia escapado. 

 

Depois disso, “Herodes partiu da Judeia e foi passar algum tempo em Cesareia” (12.19d-20). Não sabemos o motivo, mas Herodes estava muito irritado com o povo de Tiro e Sidom. Os habitantes dessas cidades aproveitaram as férias do rei em Cesareia para reconciliar-se com ele, pois dependiam dos cereais que importavam da Judeia. Fizeram amizade com Blasto, camarista do rei e, por meio dele, pediram a restauração das relações diplomáticas.

 

Lucas diz que num dia designado, Herodes fez uma aparição vestido com trajes especiais, sentou-se em seu trono e fez um discurso. Então o povo bradou: “Voz de um deus, e não de um homem!” (12.21-22). Porém, em meio à aclamação da multidão, ele subitamente contorceu-se de dor. Flávio Josefo, historiador judeu, informa que Herodes teve de ser carregado para fora do anfiteatro, e permaneceu com intensa dor por cinco dias antes de morrer, a qual, de acordo com Lucas, foi-lhe infligida por um anjo do Senhor porque Agripa estava tomando para si a glória que pertencia a Deus (12.23).

 

Ninguém jamais lutou contra o Altíssimo e prevaleceu. O anjo de Deus enviado para libertar Pedro é enviado para matar Herodes (12.7,23). Os anjos de Deus são agentes tanto da bondade como do juízo de Deus.

 

A Bíblia ensina que quando uma pessoa se exalta, ou permite que outros a exaltem, Deus a derrubará (Gn 11.4; Is 14:12–15; Dn 4.19–27). Por outro lado, os humildes e os humilhados serão exaltados! Este é o glorioso paradoxo do evangelho (Lucas 14.11, 18.14).

 

Os destinos da vida não estão nas mãos dos homens, mas nas mãos de Deus. Num momento, Tiago foi da prisão para o céu. Herodes também num momento passou de sua glória terrena para uma prisão eterna no inferno. “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor” (Ap 14.13).

 

Em vez de Pedro ser morto por Herodes, Herodes é que foi morto pelo Deus de Pedro! O corpo na sepultura é comido por vermes, mas o corpo de Herodes tornou-se podre enquanto ele ainda estava vivo, criando vermes que imediatamente passaram a se alimentar dele (12.23).

 

Finalmente, na igreja que ora, a palavra de Deus cresce e multiplica-se (12.24). O rei morreu e foi comido pelos vermes, mas a Palavra de Deus não morreu (12,24). Apesar de toda oposição o trabalho da igreja progredia (At 6.7; 9.31; 12.24).

 

O crescimento numérico da igreja primitiva retrata sua vida de oração. A igreja orava e os resultados apareciam. Deus abria os corações. A pregação era poderosa (1Co 3.7). “A igreja contemporânea deveria orar mais, com mais fervor, e com mais intensidade, como o fez a igreja primitiva” … O poder para realizar a obra de Deus não vem da nossa inteligência, ou dos nossos recursos financeiros, nem mesmo das nossas habilidades pessoais, mas de Deus.” (H. D. Lopes).

 

Precisamos orar pela igreja perseguida. A situação de Pedro na prisão a espera do martírio retrata a realidade da igreja perseguida. A oração é um instrumento que Deus usa para livre os crentes perseguidos. Precisamos orar pelos nossos pastores e líderes. Se você deseja que Deus use o seu pastor ore por ele.

__________

Referências: Beeke, J. R.; Barrett, M. P. V. and Gerald M. Bilkes, eds. The Reformation Heritage KJV Study Bible. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2014), 1577–1579. / Carson, D. A., ed. NIV Biblical Theology Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2018, p. 1977–1978. / Crossway Bibles. The ESV Study Bible. Wheaton, IL: Crossway Bibles, 2008, p. 2106-2108. / Kistemaker, S. Atos, vol. 1: Comentário do Novo Testamento. SP: Editora Cultura Cristã, 2016, p. 559–560. / Lopes, H. D. Atos: A Ação do Espírito Santo na Vida da Igreja: Comentários Expositivos Hagnos. SP: Hagnos, 2012, p. 233–250. / MacDonald, W. Comentário Bíblico Popular: Novo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2011, p. 366–368. / Sproul, R. C. Estudos Bíblicos Expositivos em Atos. SP: Cultura Cristã, 2017, p. 182–192. 

 

Pastor Leonardo Cosme de Moraes 


 

Igreja Multiplicadora



A Igreja de Antioquia foi implementada por crentes foragidos e perseguidos. Evangelistas anónimos, espalhados pela perseguição que iniciou após o martírio de Estêvão (8.2-4), avançaram pelos vilarejos e cidades até a Fenícia, Chipre e também para Antioquia da Síria, proclamando o  Evangelho de Jesus Cristo (At 11.19b; 8.4). A maioria anunciava a palavra somente aos judeus (11.19c), e a ninguém mais. Alguns deles, porém, que eram de Chipre e de Cirene, no litoral norte da África, foram até Antioquia da Síria, e evangelizaram também aos gregos, anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus (11.20). 

 

A igreja multiplicou-se sobrenaturalmente através do testemunho dos evangelistas anónimos (11.19–21). Homens desconhecidos do povo, oriundos da diáspora cristã, sem formação, sem ordenação, sem sociedade missionária, sem plano estratégico tornaram-se pioneiros decisivos da missão aos gentios. Simplesmente arriscaram-se a testificar: temos “um só Senhor, Jesus Cristo” (1Co 8.6). Para surpresa dos que arriscavam-se a dialogar intencionalmente com gentios sobre Jesus, a mensagem obteve considerável aceitação: “muitos, crendo, converteram-se ao Senhor Jesus” (11.21). Lucas indica a causa do sucesso: “A mão do Senhor estava com eles.”

 

É por isso que às vezes tendemos a pensar que o quadro de membros da igreja é a medida do quanto Deus a está abençoando. Mas devemos ser cuidadosos quanto a isso. O maior culto registado na Bíblia ocorreu no sopé de uma montanha, numa dança de idolatria e blasfémia, em torno de um bezerro de ouro (em Êxodo 32). A igreja de Arão, naquele momento, era uma mega-igreja, e fazia tudo o que Deus desprezava. Podemos dizer que a mão do diabo estava sobre eles ao invés da mão do Senhor, porque Deus estava enfurecido com o que o seu povo estava a fazer. Sua atividade causou o crescimento da igreja, mas de maneira errada. Como escreveu o Dr. Sproul: “Não podemos ter a mão do Senhor e não ter crescimento, mas podemos ter crescimento sem a mão do Senhor”.

 

Além do mais, todo o sucesso da fé e da salvação depende de Deus e nada deve ser atribuído a nós, exceto o ministério externo. Isso deve ser sempre lembrado, tanto para que os ministros não se percam em seu orgulho quanto para que aqueles a quem Deus iluminou com a verdadeira fé aprendam a ser gratos a Ele. Enfim, o crescimento da igreja é uma obra  exclusiva de Deus (1 Co 3.7). De facto precisamos pregar e evangelizar, mas só Deus pode abrir o coração dos que creem (At 16.14).

 

A igreja multiplicou-se num contexto metropolitano, intercultural e multiétnico. Este episódio destaca o impacto do evangelho na população de Antioquia da Síria (11.20). Antioquia foi a primeira igreja internacional, formada por pessoas de culturas e etnias diferentes. A Igreja de Antioquia tornou-se a base, o centro metropolitano, para a expansão do evangelho para o mundo gentílico na bacia do Mediterrâneo (13.1-4; 15.40; 18.23). 

 

Com uma população estimada em pelo menos 500.000, era um centro para troca de ideias, culturas, costumes e religiões. Era uma cidade sofisticada. Naquela época, era a única cidade do mundo antigo com iluminação noturna. Era como a cidade de Nova York de hoje. Em 64 a.C. o general romano Pompeu conquistou a cidade de Antioquia e envolveu-a na corporação romana. Como resultado, a partir desse momento até os dias de Cristo e dos apóstolos, Antioquia era a terceira maior cidade do mundo antigo, depois de Roma e Alexandria. Devido ao seu tamanho, a cidade foi fundamental para a expansão da cristandade no 1° século e, posteriormente, tornou-se o centro intelectual para o desenvolvimento da teologia cristã durante os primeiros 300 anos da história da igreja (Sproul, 2017:175-181). Enfim, Antioquia foi de fundamental importância como uma área de preparação e como a sede metropolitana para a expansão da igreja cristã entre os gentios, e é apresentada aqui em Atos.

 

A igreja multiplicou-se substancialmente sob a liderança espiritual de homens piedosos, qualificados e com o melhor perfil para o crescimento. Quando a notícia do despertamento espiritual de Antioquia chegou a Jerusalém, a igreja decide enviar Barnabé, um homem de alma generosa, um pastor experiente, um judeu helenista com o melhor perfil para promover o crescimento da igreja (11.22). 

 

Barnabé não era uma pessoa invejosa. Ele viu tudo o que Deus estava a fazer entre os gentios em Antioquia, e estava satisfeito (Rm 12.15). Ele alegrou-se ao ver a graça de Deus nas vidas transformadas dos convertidos e exortou todos a permanecerem firmes no Senhor (11.23). 

 

Em seu relato Lucas dificilmente elogia pessoas individuais. Aqui, porém, ele não deixa de acrescentar: “Porque era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé.” (11.24). Não nos surpreende que “muita gente se uniu ao Senhor” durante sua presença em Antioquia.

 

Barnabé queria ver a obra de Deus prosperar, por isso procurou Saulo, quem ele sabia ser mais dotado para a obra do que ele (11.25). Ele partiu para Tarso à procura de Saulo, e quando encontrou-o, trouxe-o para Antioquia. “E, por todo um ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão. Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos” (11.26).

 

É admirável a humildade de Barnabé em querer partilhar o ministério com Saulo, e também o seu senso estratégico, ao estabelecer uma parceria de ministério frutífera (11.25; 13.2 –15.35). O que Barnabé fez por Saulo precisa ser colocado em prática nas igrejas. Os cristãos maduros precisam chamar outros membros do corpo e encorajá-los em seu serviço ao Senhor. Moody costumava dizer: "É melhor colocar dez homens para trabalhar do que fazer o serviço de dez homens”.

 

Esta experiência em Antioquia preparou a Saulo e a Barnabé para uma missão muito maior que se seguiria (13.1ss.). Os grandes rabinos de Israel eram pessoas solitárias, cada qual formando sua própria “escola”, mas posicionando-se criticamente diante de outros. Agora Saulo tinha o privilégio de experimentar o que significa desempenhar o serviço na comunhão com um irmão. Saulo não quis mais prescindir dessa experiência, como podemos ver na longa lista de saudações em Rm 16.

 

A igreja multiplicou-se pela distinção dos imitadores de Cristo na sociedade. Outro facto significativo sucede em Antioquia: “foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos” (11.26). Até agora, Lucas se referia a eles como discípulos (6.1), santos (9.13), irmãos (1.16; 9.30), fiéis (10.45), e os seguidores do Caminho (9.2). E de “nazarenos” pelos judeus, uma expressão de desprezo (At 24.5). Agora, Lucas passa a chamá-los de cristãos (11.26).

 

O facto de os discípulos terem sido chamados de cristãos pela primeira vez em Antioquia provavelmente reflete um rótulo aplicado pelo público incrédulo em Antioquia e mostra que os discípulos começavam a ter uma identidade própria à parte dos outros judeus, como membros de um grupo distinto do Judaísmo. Na época, cristão era uma designação de cunho depreciativo usado pelos incrédulos. Os gregos e romanos costumavam designar partidos políticos e religiosos pelos nomes de seus fundadores. Por outras palavras, eles não chamavam a si mesmos de cristãos, mas foram chamados por outros de cristãos. De lá para cá, porém, esse nome tem sido usado com grande satisfação por todos os que amam o Salvador.

 

Esta nova designação na narrativa de Lucas prenuncia algo das dificuldades que aproximavam-se da igreja de Jesus por meio deste nome. O judaísmo tinha no Império Romano o status de uma religião oficialmente reconhecida. Como “judeus” os discípulos eram ao mesmo tempo pessoas “legais”. Qual, porém, seria a situação dos “cristãos”? Muito em breve, sob Nero, a palavra “cristão” torna-se uma palavra de desprezo e ódio. Numa correspondência entre o imperador Trajano e seu governador Plínio no ano de 111–113 d. C. já se aborda a pergunta se o simples nome de cristão como tal era merecedor de punição.

 

A palavra “cristão” ocorre três vezes no NT. A única outra vez que a palavra ocorre em Atos, é nos lábios de um estranho à comunidade, o rei Agripa (26.28). Em 1Pe 4.16 o termo já é usado com naturalidade. Todavia, é somente nos escritos de Inácio, bispo de Antioquia do 2º século, que o termo foi encontrado como uma auto-designação habitual. 

 

A palavra significa literalmente uma pessoa que ‘pertence’ ou ‘segue’ a Cristo. Os cristãos não identificam-se pela nacionalidade, cultura ou idioma, mas pelo facto de serem seguidores leais do Senhor Jesus Cristo. 

 

Muita gente que não nasceu de novo considera-se "cristão" simplesmente porque participa de uma igreja, frequenta os cultos evangélicos e, de vez em quando, até contribui para o trabalho da igreja! Mas é preciso mais do que isso para o pecador tornar-se filho de Deus. É preciso arrependimento do pecado e fé em Jesus Cristo, que morreu por nossos pecados na cruz e ressuscitou para nos dar vida eterna (Wiersbe, 2006:583). David Fuller certa vez perguntou: "Se você fosse preso sob a acusação de ser cristão, haveria provas suficientes para condená-lo?” Em Antioquia os discípulos convertiam doutrina em vida. Eles eram imitadores de Cristo (1 Jo 2.4). Exalavam o bom perfume  de Cristo (2 Co 2.14-16). Nossa vida, palavras, ações, reações levam as pessoas a pensar que somos discípulos de Cristo?

 

A igreja que multiplicou-se em Antioquia era generosa e totalmente comprometida com o ministério da misericórdia. Lucas informa que “naqueles dias, desceram alguns profetas de Jerusalém para Antioquia” (11.27; 13.1; 15.32; 21.9). Um deles, chamado Ágabo, inspirado pelo Espírito Santo predisse uma grande fome por todas as regiões habitadas da terra. Essa escassez de alimentos sobreveio nos dias do imperador Cláudio, que reinou de 41 a 54 d.C (11.27-28).

 

Os historiadores acreditam que essa fome ocorreu nos anos 45-48 d.C. O rio Nilo inundou em 45 d.C., reduzindo drasticamente a colheita de grãos da qual dependia o Império Romano, e uma grande fome atingiu a Judéia de 46 a 48 d.C. A fome foi mais intensa na Judeia, especialmente porque no tempo de Cláudio os judeus foram expulsos de Roma (18.2) e retornaram à Judeia sem suas casas, suas terras e seus bens. A escassez de alimentos na Judeia foi tão grave que, de acordo com o historiador judeu Flávio Josefo, muitas pessoas morreram por falta de recursos para comprar a pouca comida que havia disponível.

 

Quando ouviram o anúncio profético dessa fome global, os discípulos de Antioquia decidiram enviar socorro aos seus irmãos cristãos que moravam na Judeia. A igreja não ficou só na informação, foi à ação. Eles não podiam impedir a vinda da fome mas podiam mandar ajuda aos necessitados.

 

A graça de Deus manifestou-se nesses discípulos cuja contribuição foi unânime, espontânea e proporcional (11.29). Cada um ofertou conforme as suas posses (At 11.29, vemos o mesmo parâmetro em 2 Coríntios 8 e 9). Eles uniram-se em amor e deram o que podiam para ajudar àqueles que estavam com fome e em necessidade. Eles ajudaram pessoas que não conheciam pessoalmente. Eles estavam totalmente compromissados com o ministério da misericórdia.

 

A verdadeira religião envolve não somente orar e receber a Cristo, mas envolve também alimentar os famintos, vestir os nus, visitar os prisioneiros e ajudar a trazer alívio em tempos de calamidade, tais como a fome descrita em Atos (Mt 25.34-40; Tiago 1.27). Os cristãos de Antioquia enviaram para Jerusalém as doações que coletaram, interrompendo o trabalho de Paulo e Barnabé, a fim de que pudessem entregar a oferta aos presbíteros (anciãos) da igreja de Jerusalém (11.30).

 

Esta passagem ilustra um princípio espiritual importante: se as pessoas foram uma bênção espiritual para nós, devemos ministrar-lhes por meio de nossos recursos materiais. Como escreveu Paulo: "Mas aquele que está sendo instruído na palavra faça participante de todas as coisas boas aquele que o instrui" (GI 6.6). 

 

Os cristãos de Jerusalém haviam levado o evangelho a Antioquia. Enviaram Barnabé para exortar os recém-convertidos. Enviaram Ágabo para edificar e consolar a igreja. Nada mais certo do que os gentios de Antioquia retribuírem e enviarem a ajuda material de que seus irmãos e irmãs na Judéia precisavam (At 24.17; Rm 15.23-28).

 

A igreja de Antioquia é um excelente exemplo de como nós, cristãos, devemos demonstrar gratidão de maneiras práticas aos que nos ajudaram em caminhada com Jesus. Aliás, a igreja de Antioquia é uma igreja modelo para todas as igrejas: (1) uma igreja centrada no evangelho; (2) poderosa na evangelização (11.20); (3) que pregava o que vivia; (4) liderada por servos de Deus fiéis e qualificados (At 11.26; 13.1); (5) Uma igreja generosa que, recém implementada, pôde ajudar no suprimento material a igreja mãe em Jerusalém. (6) Esta igreja estava debaixo da bênção de Deus (11.21). A mão do Senhor era com eles! “E Que diremos, pois, diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31). 

______

Referências: Boor, W. Comentário Esperança, Atos dos Apóstolos. Curitiba: Evangélica Esperança, 2002, p. 170–174. / Carson, D. A. NIV Biblical Theology Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2018, p. 1975–1976. / Crossway Bibles, The ESV Study Bible (Wheaton, IL: Crossway Bibles, 2008), 2106. / Chung-Kim, Esther., et alAtos. Comentário Bíblico da Reforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 207–212. / Kistemaker, S. Atos, vol. 1. Comentário do Novo Testamento. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2016), 527–542 / Lopes, H. D. Atos: A Ação do Espírito Santo na Vida da Igreja: Comentários Expositivos Hagnos. São Paulo: Hagnos, 2012, p. 225–231. / MacDonald, W. Comentário Bíblico Popular: Novo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2011, p. 365–366. / Mikeal C. Parsons, Acts, Paideia Commentaries on The New Testament (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008), 168. / Pervo, R. I, Acts: a commentary on the Book of Acts: Hermeneia—a Critical and Historical Commentary on the Bible. Minneapolis, MN: Fortress Press, 2009, p 290–298. / Sproul, R. C., ed. The Reformation Study Bible: English Standard Version. Orlando, FL: Reformation Trust, 2015, p. 1935. / Sproul, R. C. Estudos Bíblicos Expositivos em Atos. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 175–181. / Wiersbe, W. W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento: volume 1. Santo André, SP: Geográfica, 2006, p. 580-585.

 

 

Pastor Leonardo Cosme de Moraes

 

A Universalidade da Mensagem Cristã

                


Atos 10.1-11.18

 

A maioria de nós na igreja atual é de origem gentílica, mas fomos incluídos por causa do que se passou na casa de Cornélio em Cesareia. Nesta passagem vemos como Deus conduziu os gentios convertidos à comunhão dos santos (Gl 3.27,28; Ef 2.11–22), o Senhor preparou o coração de Cornélio e, simultaneamente, trabalhou em Pedro e através dele para pregar o evangelho na casa de Cornélio, um centurião romano, que se converte com sua família e amigos e recebe o Espírito Santo.

 

Este episódio divide-se em sete cenas, interligadas por muita repetição. A repetição demonstra a importância da história: Lucas descreve a visão de Cornélio quatro vezes (10.3-6, 22, 30-32; 11.13-14) e a visão de Pedro três vezes (10.9-16; 11:4-10), e Pedro relata todo o episódio para a igreja de Jerusalém (11.4-17). 

 

Lições a serem aprendidas sobre a conversão de Cornélio: 

1. Deus recruta pessoas para o seu reino de todos os lugares. Cornélio era um centurião romano, da coorte italiana, destacado em Cesareia (10.1), mas foi convertido num membro da família de Deus para ser um soldado de Cristo.

 

2. Deus recruta pessoas para o seu reino de todas as culturas. O livro de Atos descreve o progresso da igreja, inaugurada em Jerusalém, expandindo-se para a Judeia, para a Samaria, e então até aos confins da terra. Igualmente, o livro de Actos aborda quatro grupos distintos de pessoas: os judeus, os samaritanos, os gentios e os tementes a Deus. Os tementes a Deus eram aqueles gentios que haviam se convertido ao judaísmo em todos os aspectos, exceto um – eles não se submeteram à circuncisão. Eram chamados de tementes a Deus porque, embora fossem gentios, não acreditavam nos deuses e deusas de Roma, ou no panteão de divindades gregas, ou em qualquer religião oriental da época. Ao contrário, acreditavam no Deus Altíssimo e eram fiéis seguidores de Yahweh, o Deus de Israel. 


Cornélio era um homem piedoso, generoso e temente a Deus (10.2,3). De contínuo orava a Deus e dava muitas esmolas ao povo (10.2,4). Ele era um homem devoto nos moldes da religião judaica. 

 

3. O método de Deus para alcançar o mundo é a proclamação da mensagem do evangelho através da igreja. Aprendemos que esse homem temente a Deus e sincero ainda precisava ouvir o evangelho, arrepender-se e crer em Jesus (11.18; 15.7). Por volta das 3 horas da tarde (hora nona), enquanto estava a orar, Cornélio teve uma visão na qual um anjo veio e lhe deu ordens da parte de Deus, mas não lhe pregou o evangelho. 

 

Deus poderia ter ensinado Cornélio por meio do Seu Espírito ou de um anjo, sem o ministério de Pedro. No entanto, Ele recorre a Pedro, sobre quem o anjo afirma que: “Ele te dirá o que deves fazer” (At 10.6, RCF; 10.22; 11.14). Cornélio precisou enviar mensageiros ao apóstolo Pedro, na cidade de Jope, a 50 km de Cesareia, para que viesse pregar o evangelho a ele e sua família (10.4-8). Somente então Deus o salvou (11.14,18; 10.43; 10.45). Só então ele foi baptizado e recebido de forma pública na comunidade cristã.

 

4. Deus redimiu a alma de Cornélio e a mentalidade de Pedro (10.1-35). Deus preparou o coração de Cornélio e, simultaneamente, trabalhou em Pedro e através dele. Deus preparou o solo (Cornélio e sua família), trouxe o semeador (Pedro) e enviou a chuva (o Espírito Santo) para que houvesse uma colheita (conversão). Deus deu orientações específicas à Cornélio, não apenas para qual cidade ir, mas a que casa ir e onde se localizava – à beira-mar (10.5-8). 

 

5. A separação entre os judeus e os gentios era somente temporária. No dia seguinte, os mensageiros de Cornélio saíram a caminho de Jope para chamar Pedro. Nesse intervalo, Pedro subiu ao eirado da casa de Simão para orar na hora sexta, que é ao meio-dia. Nessa altura ele sentiu muita fome e queria comer, e assim os empregados da casa começaram a preparar uma refeição para Pedro. Enquanto preparavam, sobreveio-lhe um arrebatamento de sentidose nesse êxtase Pedro viu o céu aberto e algo parecido com um grande lençol. “Contendo toda sorte de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele: Levanta-te, Pedro! Mata e come” (10.12–13). Em resposta ao que Pedro viu ele disse, “De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda” (10.14). Pedro era judeu de nascimento e nunca havia quebrado as leis dietéticas judaicas. 


No Velho Testamento, Deus declara certos animais ritualmente “impuros ou imundos” (Lv 11) e ordena aos judeus que não os comam. Pedro provavelmente pensou que essa visão era um teste de sua fidelidade e então recusa-se por três vezes a comer. Lucas informa que Deus ouviu os protestos de Pedro e disse, “Ao que Deus purificou não consideres comum” (10.15). Naquele momento, séculos de leis dietéticas e requisitos legais que Deus havia dado ao Seu povo através de Moisés foram revogados imediatamente.

 

A nação de Israel foi escolhida para ser um sacerdócio santo para o mundo. Deste modo, para manter sua pureza e identidade judaica, as leis dietéticas foram adicionadas por Deus à Velha Aliança até a vinda do Messias, o qual derrubou o muro de separação e começou a construir sua igreja, não só com os judeus, mas com samaritanos, gentios e os tementes a Deus.

 

O apóstolo Paulo escreve que este mistério - os gentios, através do ministério de Cristo, se tornaram parte do povo de Deus na Nova Aliança - estivera escondido há muito tempo (Cl 1.15-27). Até aquele momento, os gentios eram considerados fora do escopo da aliança que Deus fizera com Abraão e Moisés e consequentemente não tinham esperança. Quando Cristo inaugurou a nova aliança, a barreira entre judeus e gentios foi quebrada e a esperança foi estendida aos gentios.

 

Ao enviar um judeu para pregar aos gentios, Deus estava a derrubar as barreiras étnicas na igreja. Pedro interpreta sua visão quando vê a multidão de gentios reunida na casa de Cornélio e diz: Vocês mesmos sabem como é socialmente inaceitável para um judeu associar-se ou visitar um estrangeiro; mas Deus mostrou-me que ninguém deve chamar uma pessoa de impura ou contaminada (10.28). Portanto, a visão de Pedro não se tratava de alimentos ou animais, referia-se a pessoas. Deus revogou as leis dietéticas para demonstrar que os impuros estavam a ser acolhidos e purificados por Cristo. 

 

Pedro rejeita duas atitudes extremas e contrárias que os seres humanos têm adotado uns com os outros: Ele reconheceu que era totalmente inadequado tanto adorar uma pessoa como se fosse divina (o que Cornélio tentara fazer com ele, 10.25), como rejeitar alguém, considerando-a imunda (como teria feito anteriormente com Cornélio, 10.28). Pedro não aceitou que Cornélio o tratasse como Deus, e recusou-se a tratar Cornélio como um cão imundo.

 

6. Os elementos da mensagem do Evangelho (10.34-43). O evangelho, necessário ao mundo pagão que nos observa, é o que vemos no livro de Atos, sermão após sermão. É que vemos aqui em Atos 10, quando Pedro visita Cornélio e prega o evangelho. Nas definições do NT o evangelho é entendido em termos de um conteúdo definido, e esse conteúdo não está centrado em nós. O conteúdo foca na pessoa e obra de Jesus – quem Ele é e o que Ele fez – e sobre como podemos receber os benefícios de Sua Obra.

 

Pedro resumiu os principais eventos do ministério de Jesus conforme os Evangelhos registam: (1) a pregação de João Batista, (2) Jesus ungido com o Espírito em Seu batismo, (3) cura e exorcismos na Galiléia, (4) jornada através da Judéia para Jerusalém, (5) prisão e crucificação, (6) ressurreição no terceiro dia, (7) aparições de Cristo ressuscitado, (8) a Grande Comissão, e (9) futuro retorno de Jesus como Juiz de todos (10), e, consequentemente, a necessidade de se arrepender e crer para receber o perdão dos pecados por meio do Nome Jesus (10.34-43).

 

O conteúdo do evangelho pregado por Pedro apresenta alguns pontos de destaque (10.36–43):


(a) O evangelho está centrado na vida e nas obras de Cristo (10.38).  Precisamos dar o nosso testemunho, mas não devemos confundi-lo com evangelismo. Nosso testemunho é um pré-evangelismo. Nossa vida não é o evangelho; a vida de Cristo é o evangelho. O poder de Deus para salvação é o evangelho de Jesus Cristo.  Pedro proclamou a vida e o ministério de Jesus: Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e poder para fazer o bem e curar todos os oprimidos do diabo. Jesus libertou os cativos, curou os enfermos e libertou os atormentados. Perdoou pecados, curou os cegos, limpou os leprosos e ressuscitou os mortos. 


(b) O evangelho está centrado na morte e ressurreição de Jesus Cristo (10.39-41). Pedro foi de imediato para a morte de Cristo, concentrando-se na cruz. Uma mensagem que não inclua a cruz não é evangelismo; não é o evangelho. Temos vida pela Sua morte. Sua morte foi em nosso lugar e em nosso favor. A mensagem da cruz é o grande equalizador: todos nós somos humilhados ao compreender a magnitude de nosso pecado e culpa; contudo, na cruz, a oferta de perdão é feita a todos sem distinção.

 

Mas na sequência, ele proclamou: “A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto” (10.40). Pedro fala como testemunha ocular e lembra que Jesus muitas vezes comeu e bebeu com os apóstolos depois de ter sido ressuscitado dos mortos (10.41). Ele fornece prova evidente de que o corpo físico de Jesus ressuscitou dentre os mortos e que o Senhor está vivo. 


Podemos dizer às pessoas coisas maravilhosas acerca de Deus e como Ele pode mudar suas vidas, e igualmente sobre Jesus, mas se a afirmação da ressurreição de Cristo está ausente desse testemunho, pode ser boas novas, mas não é o evangelho bíblico, porque a cruz de Cristo e Sua ressurreição são elementos indispensáveis ao evangelho.

  

(c) O evangelho está centrado no senhorio de Cristo (10.36,42). Jesus é o Senhor de todos (10.36) e o Juiz de vivos e de mortos (10.42). Todos comparecerão perante Ele para prestar contas da sua vida. Todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor para a glória de Deus Pai (Fl 2.10-11). 

 

Pedro afirma que logo após Jesus ter ressuscitado, Ele mandou que pregassem que Jesus é o Juiz de todos (10.42). Precisamos dizer às pessoas tudo o que a Bíblia realmente diz: Jesus é nosso Senhor e Juiz. Isso são más notícias, a menos que Ele seja também o nosso Redentor – a não ser que coloquemos nossa confiança somente Nele para nossa salvação. Então o Juiz dá remissão dos pecados; isto é, Ele apaga dos registos todas as acusações contra nós. Mas se não nos submetermos a Ele, o martelo do Juiz baterá, e não haverá misericórdia. Responderemos diante do Juiz com base na nossa justiça, ou na falta dela. Isso é o que Pedro, movido pelo Espírito Santo, expôs a Cornélio. 

 

(d) O evangelho oferece remissão de pecados para todo aquele que crê (10.43). A remissão e o perdão dos pecados, a salvação e a vida eterna são alcançados pela fé em Cristo (Jo 3.16). Deus não mostra parcialidade, mas recebe gratuitamente todos os que crêem em Seu Filho, Jesus Cristo.

 

8. O derramamento do Espírito mostrou a unidade de judeus e gentios na comunidade da Nova Aliança (11.15–17; 15.7–11; Ef 2.14). Enquanto Pedro ainda pregava, o Espírito de Deus foi repentinamente derramado sobre os gentios. Os que eram judeus reconheceram esse derramar porque ocorreu aqui a mesma manifestação que se dera em Jerusalém no dia de Pentecostes – os gentios convertidos começaram a falar em línguas. 


O “falar em línguas" também ocorreu no Pentecostes (2.4), mais tarde com o Efésios (19.6), e talvez também entre os samaritanos (8.18). Em todos os casos, falar em línguas confirmou a recepção deles como membros do povo de Deus na plenitude da nova aliança.

 

Esse foi o Pentecostes gentio em Cesareia, que correspondia ao Pentecostes judaico em Jerusalém. O que acontecera aos judeus, agora, também acontecia aos gentios. O batismo do Espírito Santo aqui é simultâneo com a salvação de Cornélio e sua família, e não uma bênção posterior.

 

Todos os crentes em Jerusalém receberam o Espírito; todos os crentes na casa de Cornélio receberam o Espírito. Entre os verdadeiros cristãos não existe tais coisas como uns “têm” e outros “não têm”. “Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo” (1Co 12.13). Todo cristão é nascido do Espírito, habitado pelo Espírito, e foi batizado pelo Espírito. O batismo do Espírito Santo não é o mesmo que regeneração; regeneração não significa a mesma coisa que habitação do Espírito Santo. Podemos fazer distinções sobre a obra do Espírito Santo, mas a questão é que todas estas dádivas do Espírito são dadas na conversão (Rm 8.9). 

 

Os seis membros da delegação de Jope (11.12, 10.45) ouvem os gentios falando em línguas e louvando a Deus (10.46). Pedro, então, dá ordem aos seis cristãos judeus para batizarem os convertidos gentios (10.47-48). Assim, os gentios foram incluídos no corpo de Cristo (11.17-18). Eles receberam o sinal da aliança no batismo com água porque o que o batismo com água significa, em parte, é o batismo do Espírito. Se eles haviam recebido o batismo do Espírito, certamente podem ser membros plenos da igreja, por isso foram batizados com água (Atos 10.47-48).

 

Pedro informa a igreja de Jerusalém que o Espírito desceu sobre os gentios exatamente como o fizera com os apóstolos no Pentecoste (11.15) e que Deus dera aos gentios o mesmo dom que concedera aos judeus (11.17). Os crentes judeus agora veem que os gentios e judeus são iguais aos olhos de Deus (11.18). 

 

O Espírito Santo de Deus é derramado em cada um de nós, e se estamos em Cristo, temos o Espírito. Não obstante, o Espírito de Deus trabalha com a Palavra e através da Palavra, nunca contra a Palavra. Se você quiser saber qual é a direção do Espírito de Deus para sua vida, terá que dirigir-se ao livro do Espírito Santo. Na Palavra de Deus você pode confiar, não nos palpites interiores de um mero ser humano.

 

Palavra e Espírito caminham juntos. O Espírito caiu sobre todos os que ouviram a Palavra. Quando Cornélio, sua família, seus parentes, amigos e servos ouviram a mensagem de Pedro, seus corações foram abertos, se arrependeram e creram no Evangelho de Jesus. Pedro disse aquelas palavras, mas as pessoas sobre quem o Espírito caiu ouviram a Palavra.


As experiências espirituais só podem ser explicadas pela Palavra de Deus. Quando o Espírito Santo caiu sobre os gentios, Pedro se lembrou imediatamente lembrou-se da palavra do Senhor de que seus discípulos seriam batizados com o Espírito Santo (11.16). Pedro não apenas confiou em sua visão e nas experiências espirituais da casa de Cornélio, mas testou essas coisas pelos ensinamentos de Cristo (1.5; Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16).

  

Lições práticas:

  • Deus não mostra favoritismo baseado em diferenças étnicas ou sociais entre as pessoas (10.34; Rm 2.11). Os judeus não estavam em melhor situação do que os gentios, pois todos devem ser salvos somente pela graça de Deus (Rm 3.22–24; Atos 15).
  • Deus liberou Seu povo para comer todos os tipos de alimentos como os gentios faziam (10.14; 1 Tm 4.3-5), implicando no cumprimento das leis de pureza ritual do VT (At 10.15; Cl 2.16–17) e na unificação de judeus e gentios em Cristo (Ef 2.11-22). Em Marcos 7.15, Jesus deixou claro que leis dietéticas eram simbólicas e não tinham a inerente habilidade de tornar alguém justo, quando Ele disse que nada que entra no homem pode contaminá-lo. É o que sai de uma pessoa (maus pensamentos, palavras e outras expressões de um coração pecaminoso) que causa contaminação. Em 1 Timóteo 4.1-5, sobre a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis, Paulo adverte que “toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças. Porque pela palavra de Deus e pela oração é santificada.”
  • Nenhum pecador é tão vil que não possa ser salvo por Deus. Todos nós começamos esta vida impuros, mas se já confessamos a Cristo e depositamos somente Nele a nossa esperança e confiança para salvação, fomos declarados limpos por Deus! Não há condenação para os que estão em Cristo (Rm 8.1), pois ele removeu nossos pecados (Sl 103.12; Is 1.18).
  • Aqueles que recebem o evangelho, esses recebem o Espírito Santo e devem ser integrados na igreja (10.44–48, 11.15-18).

___________

Referências: 

Beeke, J. R., Barrett, M. P. and Bilkes, G. M., eds. The Reformation Heritage KJV Study Bible. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2014, p. 1576. / Carson, D. A., Ed. NIV Biblical Theology Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2018, p. 1971–1975. / Crossway Bibles. The ESV Study Bible. Wheaton, IL: Crossway Bibles, 2008, p. 2104-2105. / Esther, Chung-Kim., et al. Atos: Comentário Bíblico da Reforma. SP: Cultura Cristã, 2016, p. 186–190. / Holcomb, J. S. Gospel Transformation Bible: ESV. Wheaton, IL: Crossway, 2013, p. 1470–1471. / Kistemaker, S. Atos. 2a ed., vl. 1, Comentário do Novo Testamento. SP: Cultura Cristã, 2016, p. 497–526. / Lopes, Hernandes Dias. Atos: A Ação do Espírito Santo na Vida da Igreja: Comentários Expositivos Hagnos. SP: Hagnos, 2012, p. 205–225. / MacDonald, William. Comentário Bíblico Popular: Novo Testamento. SP: Mundo Cristão, 2011, p. 363–365. / Parsons, Mikeal C. Acts, Paideia Commentaries on The New Testament. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008, p. 140-163. / Sproul, R. C. Estudos Bíblicos Expositivos em Atos. SP: Cultura Cristã, 2017, p. 156–175. / Stagg, Frank. Atos, a luta dos cristãos por uma igreja livre e sem fronteiras. 3ª Edição. RJ: JUERP, 1994, p. 115-122. / Stott, John. A mensagem de Atos: até os confiança terra. SP: ABU, 2008, p. 206-223.

 

Pastor Leonardo Cosme de Moraes

Justificados pela fé


 Romanos 5.1-11

A doutrina da justificação pela fé somente é o princípio material da reforma. A teologia da Reforma nasceu da luta pela doutrina da justificação pela fé. O reformador Martinho Lutero definia a justificação pela fé como “o artigo mediante o qual a igreja mantêm-se de pé ou cai”. Lutero insistia que o homem recebe a justiça salvadora de Deus quando apropria-se da graça de Deus pela fé somente. Ele viu a doutrina da justificação, “pela graça somente, através da fé somente, por causa de Cristo somente”, como o âmago do Evangelho.

 

“O Evangelho como Justiça de Deus para todo o que crê” é o tema central da Carta aos Romanos (Rm 1.17). Inicialmente, Lutero entendia essa justiça como o atributo da imparcialidade de Deus no julgamento dos pecadores. Mas tarde, porém, ele compreendeu que Paulo estava a falar da justiça de Deus como dádiva para a justificação dos pecadores pela fé em Cristo. Por outras palavras, Paulo esta a falar das boas novas da justificação pela graça de Deus.


O nosso texto nesta manhã está estruturado em torno de uma secção quiástica (Rm 5.1-8.39). O tema da secção é: “se justificados, então certos da salvação final”, que é expresso no início (Rm 5.1-11) e no final (Rm 8.18-39) desta secção.


A 5.1-11 - Certeza da glória futura (esperança e sofrimento).

     B 5.12-21 - Base para essa certeza na obra de Cristo.

          C 6.1-23 - Liberto do poder do pecado.

          C’ 7.1-25 - Liberto do poder da lei. 

     B’ 8.1-17 - Base para essa certeza na obra de Cristo, mediada pelo Espírito.

A’ 8.18-39, Certeza da glória futura (esperança e sofrimento).


inclusio desta secção é confirmado pelos “temas gémeos de esperança e sofrimento, que foram justapostos em Romanos 5.3,4, tornam-se os temas dominantes de Romanos 8.18-39”. No centro da secção, Paulo trata de dois “poderes” que podem ameaçar essa libertação futura do fiel justificado, a saber, o pecado (Rm 6) e a lei (Rm 7), mostrando em cada um desses casos que os cristãos tinham sido libertos do domínio desses poderes. 


O apóstolo Paulo já havia deixado claro que a justificação é um ato exclusivo de Deus (3.21-31). Também argumentou que a justificação pela fé não é uma novidade, mas uma verdade já presente no VT, e demonstrada na vida de Abraão, o progenitor da nação Israelita e pai de todos os que crêem, tanto judeus como gentios (Rm 4). Agora, Paulo mostrará os benefícios que decorrem da justificação (Rm 5.1-11). Sua ênfase é a glória futura (Rm 5.2) e a salvação final (Rm 5.9,10) por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele explica santos em Roma que todos os que foram justificados em Cristo estão livres da ira de Deus (Rm 5), livres do poder do pecado (Rm 6), livres da condenação da lei (Rm 7) e livres do domínio da morte (Rm 8). 


A necessidade da justificação (Rm 1-3). Deus é santo, o homem é pecador, logo nenhum homem pode ser justo aos olhos de Deus. Pode o pecador justificar-se diante de Deus? Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? (Jr 13.23).


O padrão para entrar no céu é a perfeição e todo o homem é imperfeito, logo é impossível ao homem entrar no céu por seus esforços. Quem obedecer a lei, pela lei viverá (Rm 10.5; Gl 3.12). Mas todos pecaram. Não há justo, nem um sequer (Rm 3.10-23). Logo, ninguém jamais poderá entrar no céu por seus próprios méritos.


Para o homem entrar no céu é preciso que Deus o justifique e para Deus justificá-lo precisa ainda continuar justo (Rm 3.24-28). Como Deus pode ser justo e ainda justificar o pecador? Como Deus pode justificar o pecador sem abrir mão da sua justiça? “A misericórdia de Deus não é uma paixão ou emoção que possa sobrepujar a Sua justiça. Se fosse assim, essa misericórdia seria um defeito de Deus que o tornaria fraco e inconsistente consigo mesmo, e inadequado para ser um juiz.” (Jonathan Edwards).


A justiça violada precisa ser satisfeita. Deus é santo e não pode reagir favoravelmente ao pecado. Deus não pode fazer vistas grossas ao pecado. A Bíblia diz que “o Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente ...” (Naum 1.3). “Ele tão puro de olhos que não pode ver o mal” (Hc 1.13). "A alma que pecar, essa morrerá." (Ez 18.4). 


Enfim, precisamos ser justificados pela graça de Deus pois (1) todos somos pecadores (Rm 3.23; Sl 51.5), (2) e todos vamos ter que comparecer diante do tribunal de Deus (Rm 3.23; Sl 51.5). Seremos julgados por Deus (Rm 14.10; 2Co 5.10) por nossas palavras (Mt 12.36); por nossas obras (Ap 20.12); por nossas omissões (Tg 4.17); e por nossos pensamentos, desejos e propósitos (Mt 5.28; At 8.22).


O que é justificação? A justificação é um ato gracioso de Deus no qual Ele declara, sobre a base da justiça perfeita de Cristo, que todas as demandas da lei estão satisfeitas com respeito ao pecador. No Novo Testamento, o sentido mais comum do verbo justificar (dikaiou) é “declarar justo” (p. ex. Rm 4.5). É um termo legal que foi tomado emprestado dos tribunais. É exatamente o oposto de “condenação”. Condenar é declarar uma pessoa culpada; “justificar” é declará-la inocente ou justa (Rm 8.1).


A base dessa declaração legal é a imputação da justiça de Cristo a nosso favor (Rm 4.5). Somos justificados por fé nas obras executadas a nosso favor por Cristo. Logo, a justificação não é algo que Deus faz em nós, mas por nós. A justificação envolve uma mudança de status, não de uma mudança de natureza. Somos declarados justos não com base num processo futuro e gradual de cura, mas com base na obra concluída de Cristo. A justificação é um ato e acontece uma única vez. Não há graus na justificação. O homem é justificado por completo ou, então, não é justificado. 


O novo status dos crentes resulta de sua real identificação com Cristo nos eventos redentores de sua crucificação, sepultamento e ressurreição. Não se trata de uma ficção legal, mas de um relacionamento real. Somos salvos pela fé em Cristo (ele morreu por nós) e vivemos pela fé em Cristo (ele vive em nós). A cruz de Cristo foi real e o castigo que ele recebeu a nosso favor foi também igualmente real.


A justificação é mais do que perdão (Rm 5.6-8). Deus depositou os nossos pecados na conta do Seu Santo Filho. “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.” (2 Co 5.21). O castigo que nos trás a paz estava sobre Ele. Jesus foi feito maldição por nós. Ele sofreu o castigo da lei que deveríamos sofrer. Ele carregou no seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro. Quando os nossos pecados foram lançados sobre ele, Ele deu um grande brado na cruz: “está consumado - está pago!” (Jo 19.30). Já nenhuma condenação há sobre aqueles que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1). Isso é justificação!


Deus não só pagou a nossa dívida. Ele nos tornou-nos ricos. Como escreveu Paulo: “Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis.” (2 Co 8.9). Deus não só perdoou os nossos pecados, mas depositou a infinita justiça de Cristo em nossa conta. Agora, Deus olha para você e não vê o seu pecado, mas a infinita justiça do Seu Filho depositada em sua conta (Fl 3.9). 


A base da justificação não são nossas obras, nem nossa fé, nem mesmo nosso exemplo, mas a obra expiatória de Cristo na cruz em nosso lugar e favor. Por meio da sua perfeita obediência, Cristo satisfez as exigências da Lei de Deus. Por sua submissão à morte expiatória na cruz, ele satisfez as exigências de Deus contra os transgressores da Lei (2 Co 5.21). Assim, a justiça pela qual somos salvos pertence a outro. Como diz a Escritura: “foi entregue à morte por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação” (Rm 4.25 NVI, v. tb. 1.4).


A pessoa justificada “não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio” (4.5). Se os ímpios chegam a ser justificados, não pode ser por obras ou fé como obra. É a justificação por Jesus Cristo somente. 


A igreja romana ensina que somos salvos pelas obras que vêm da graça. Ou seja, não é a graça e sim as obras que vêm dela que salva. Se uma pessoa crê que a graça a salva, ela é protestante e está do nosso lado. A justiça de Cristo que os romanistas afirmam que justifica não é a justiça pessoal de Cristo imputada aos crentes. Os papistas referem-se não à justiça pessoal de Cristo e sim a justiça pessoal de crente, que ele realiza pela graça de Deus. É uma justiça imputada versus uma justiça infundida. É a realização de Cristo versus a realização do cristão. É uma dádiva de Deus versus uma realização do homem. Enfim, é a salvação pela fé versus a salvação pelas obras. 


O protestante confia em Cristo para salvá-lo e o papista confia em Cristo para ajudá-lo a salvar-se. Mas, como o Espírito de Deus coloca em Romanos 4.16 (NIV): “… a promessa vem pela fé, para que seja de acordo com a graça …” Você não poderá ser salvo somente pela graça a não ser somente pela fé. Se é uma salvação baseada em obras que vêm da graça, não é baseada na graça; e sim nas obras cristãs que vêm pela graça. 


A fé é a causa instrumental da justificação. A fé salvadora é uma fé viva, operosa, que gera boas obras para a glória de Deus. Porém, Deus declara-nos justos aos seus olhos no momento em que a verdadeira fé está presente, antes que qualquer obra brote de nossa fé. A justificação com Deus é à parte do mérito das obras.


Nós não somos justificados com base na fé, mas com base no sacrifício perfeito, definitivo e eficaz de Cristo. Mas pela fé nós nos apropriamos da justificação. A fé é a união com Cristo que é nossa justiça (1 Coríntios 1.30). Nossa justiça não resulta da justiça Dele, ela é a justiça Dele (1 Coríntios 1.30). A nossa fé apenas recebe a Cristo e, com Ele, todos as suas dádivas.


Cristo é a condição necessária e suficiente da fé cristã (At 3.16; Hb 12.2; 2Pe 1.1). É justamente porque Cristo fez tudo que ele possibilita ao pecador a fé e uma resposta salvadora a Deus. Em suma, o meio objetivo da justificação é a obediência fiel de Cristo a caminho da cruz (1.4; 2.21; cf. tb.: Rm 5.15-20 e Fp 2.6-11). E a resposta humana subjetiva de apropriação é a confiança na fidelidade de Jesus Cristo, sua obra fiel ao Pai e em nosso lugar e favor.


Os frutos da justificação (Rm 5.1-2): (1) Paz com Deus - 5.1. Cristo morreu e pelo seu sangue reconciliou-nos com Deus. Agora não somos mais réus, nem inimigos de Deus. Estamos quites com as demandas da lei divina. (2) Graça – v. 2 - Por meio de Cristo temos acesso a esta graça na qual estamos firmes. Somos aceitos, somos apresentados como filhos, como herdeiros, como cidadãos do céu. (3) Glória – v. 2 - O fiel justificado gloria-se na esperança da glória de Deus. Ele está seguro de sua salvação (p. ex.: Paulo em 2Tm 4.6-8).


A justificação não apenas prepara-nos para o céu, mas também para enfrentarmos as pressões da vida (Rm 5.3-5).

(1) Nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que Deus está trabalhando em nós, esculpindo em nós a imagem do seu Filho (Rm 8.28). 


(2) Sabendo que a tribulação produz perseverança – v. 3. A tribulação é pedagógica. Ela produz paciência vitoriosa nas circunstâncias difíceis. As grandes lições da vida nós as aprendemos no vale da dor. Sl 119.71: “Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos.” Primeiro a prova, depois a lição. Primeiro a dor, depois o aprendizado.


(3) A perseverança produz experiência – v. 4. Neste contexto a palavra experiência provavelmente significa um caráter provado e aprovado como resultado de um teste. Não podemos ter uma fé de segunda mão. Precisamos ter a nossa própria experiência com a graça salvadora de Deus. A justificação deve ser uma realidade em nossa vida.  


(4) A experiência produz esperança – v. 5 - Está não é uma esperança vaga, vazia. É uma esperança segura. Como saber que esta esperança não é uma ficção? Porque o amor de Deus é derramado em nossos corações (Rm 5.5). Se nada sobrar, se tudo se perder. Ainda temos Deus. Gloriamo-nos Nele (5.11; cf. tb. Hc 3.17; Rm 8.31-39). 

___________

Referências: Hendriksen, William. Romanos. Comentário do Novo Testamento. SP: Cultura Cristã, 2011, p. 212–221. / Kistler, Don, ed. Justificação pela Fé Somente: A Marca da Vitalidade Espiritual da Igreja. SP: Cultura Cristã, 2013. / Lopes, Hernandes Dias. Romanos: O Evangelho Segundo Paulo: Comentários Expositivos Hagnos. SP: Hagnos, 2010, 201–217. / Moo, Douglas J. The Epistle to the Romans: the new international commentary on the New Testament. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishing, 1996, p. 290-314. / Reeves, Michael e Chester, Tim. Por que a Reforma ainda é importante? São José dos Campos, SP: Fiel, 2017, p. 21-40. / Ridderbos, Herman. A teologia do apóstolo Paulo: a obra definitiva sobre o pensamento do apóstolo dos gentios. SP: Cultura Cristã, 2004. / Schreiner, Thomas R. Romans: Baker Exegetical Commentary on the New Testament. Grand Rapids, Michigan: Baker Academic. Eerdmans Publishing, 2013, (Rm 5.1–11).

 

Pr. Leonardo Cosme de Moraes