A Pessoa e a Obra do Espírito Santo
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A personalidade do Espírito Santo. A primeira prova da personalidade do Espírito Santo é o uso do pronome pessoal masculino singular (ele) para representá-lo, sendo espírito (pneuma, no grego) uma palavra neutra (Jo 16.13,14).
Nas Escrituras, todos os elementos da personalidade são atribuídos ao Espírito Santo. Ele possui características pessoais como inteligência, vontade e emoções (Jo 14.26; 1Co 12.11; Ef 4.30). Ele tem mente (inteligência): “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará” (Jo 14.26). Ele tem vontade: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer” (1 Co 12.11); e tem sentimento: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o Dia da redenção” (Ef 4.30).
Há também uma série de outras passagens que associam a obra do Espírito Santo a obra de um agente pessoal, uma pessoa:
(a) O uso do termo paraklétos (consolador, ajudador), mostra que o Espírito opera no mesmo nível que o Senhor Jesus (Jo 14.16,26; 15.26; 16.7; 16.14 e 17.4). O termo paraklétos (consolador) é usado para falar de uma pessoa que ajuda ou dá consolo ou conselho a outra pessoa ou pessoas, mas se refere ao Espírito Santo no evangelho de João (14.16,26; 15.26; 16.7).
(b) Como o Pai e o Filho são ambos pessoas, a expressão coordenada indica fortemente que o Espírito Santo também é uma pessoa (Cf.: Mt. 3.17; 28.19; 2Co 13.13; Mt 28.19; 1Co 12.4-6; 2Co 13.13; Ef 4.4-6; 1Pe 1.2).
(d) Ele pode ser “afetado” por atitudes e reage a certos actos praticados pelo homem, por exemplo: (a) Pedro obedeceu ao Espírito Santo (At 10.19,21). (b) Ananias mentiu ao Espírito Santo (At 5.3). (c) Estevão disse que os judeus sempre resistiram ao Espírito Santo (At 7.51). (d) O apóstolo Paulo recomenda-nos a não entristecer o Espírito Santo (Ef. 4.30). (e) Os fariseus blasfemaram contra o Espírito Santo (Mt 12.29-31). (f) Os cristãos são batizados em seu nome (Mt 28.19).
Outras atividades pessoais são atribuídas ao Espírito Santo, como ensinar (]o 14.26), dar testemunho (Jo 15.26; Rm 8.16), interceder ou orar em nome de outros (Rm 8.26-27), sondar as profundezas de Deus (I Co 2.10), conhecer os pensamentos de Deus (I Co 2.11), decidir conceder certos dons para alguns, e outros para outros (ICo 12.11), proibir ou não permitir determinadas atividades (At 16.6-7), falar (At 8.29; 13.2), avaliar e aprovar um proceder sábio (At 15.28) e entristecer -se diante do pecado dos cristãos (Ef 4.30).
Por último, e não menos importante, o Espírito é claramente distinto do poder ou da força de Deus em ação no mundo (cf.: Lc 1.35; 4.14; At 1.8; 2.4; 10.38; Rm 15.13; ICo 2.4; 12.4, 8,11). Se o Espírito Santo é interpretado meramente como o poder de Deus, e não como pessoa distinta, então várias passagens bíblicas simplesmente não fariam sentido, pois nelas se mencionam tanto o Espírito Santo quanto o seu poder, ou o poder de Deus. Por exemplo, Lucas 4.14 ("Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia") significaria então 'Jesus, no poder do poder, regressou para a Galiléia". E Atos 10.38 ("Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder") significaria "Deus ungiu a Jesus com o poder de Deus e com poder" (ver também Rm 15.13; ICo 2.4).
A divindade do Espírito Santo. A divindade do Espírito Santo é afirmada em Hebreus 3.7: “Portanto, como diz o Espírito Santo: Se ouvirdes hoje a sua voz, 8 Não endureçais os vossos corações, Como na provocação, no dia da tentação no deserto. 9 Onde vossos pais me tentaram, me provaram, e viram por quarenta anos as minhas obras”. O Espírito Santo diz que foi tentado pelo povo de Israel e por isso não permitiu que o povo entrasse na terra. O texto de Êxodo 17 diz que foi Yahweh quem foi tentado. Assim, o Espírito Santo é Yahweh (‘SENHOR’ ou Javé).
Embora tantas passagens distingam claramente o Espírito Santo das outras Pessoas da Santíssima Trindade, 2Coríntios 3.17 se revela um versículo desconcertante: "Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade". A gramática e o contexto nos fornecem bons argumentos para dizer que esse versículo tem melhor tradução com o Espírito Santo como sujeito: "Ora, o Espírito é o Senhor…». Neste caso, portanto, Paulo estaria a dizer que o Espírito Santo é também 'Yahweh (‘SENHOR’ ou Javé), o SENHOR revelado no Velho Testamento (repare o claro pano de fundo do Velho Testamento que se revela nesse contexto, a partir de 2 Coríntios 3.7). Teologicamente, isto seria bastante aceitável, pois sem dúvida se pode dizer que assim como Deus Pai é "Senhor" e Deus Filho é "Senhor" (no pleno sentido de "Senhor" no Velho Testamento como nome de Deus), também o Espírito Santo é chamado "Senhor" no Velho Testamento - e é o Espírito Santo que manifesta-nos especialmente a presença do Senhor na era da Nova Aliança.
O apóstolo Paulo também ensinou que o Espírito é Yahweh (SENHOR) ao substituir o nome do Espírito Santo pelo de Yahweh, ao citar Isaías 6.8-10, no sermão que pregou aos judeus em Roma (At 28.25-27; Jo 12.37-41).
Ao Espírito Santo são atribuídos os nomes divinos: Santo (At 1.8), verdade (Jo 15.26), Deus (Rm 8.14). O Espírito Santo tem os atributos divinos: omnisciente (SI 139.7-10, ICo 2.10-12), omnipotente (Lc 1.35, 37; 11.20), fonte de verdade (Jo 14.26, 16.13), aquele que liberta o pecador do pecado e da morte (Rm 8.2), eternidade (Hb 9.14). Ao Espírito Santo são atribuídas as obras de Deus: criação (Sl 104.30), fonte da Palavra de Deus (At 28.25; 2Pe 1.21; 2.21), regenera pecadores (Jo 3.5-8; Tt 3.5), santifica crentes (2Te 2.13; IPe 1.2), faz milagres (Mt 12.28). O Espírito Santo é digno de louvor. ‘Vós sois o templo de Deus... o Espírito de Deus habita em vós’ [ICo 3.16] – aquele que habita no templo é objeto de adoração nele”. Também somos batizados no nome do Espírito (Mt 28.19)."
Além disso, existem algumas bases pela quais podemos concluir que o Espírito Santo é Deus como o Pai e o Filho: (a) Entre elas, as várias referências ao Espírito Santo que são intercambiáveis com referências a Deus (At 5.3,4; 1Co 3.16; 6.19) e (d) a associação de igualdade com o Pai e o Filho (Cf.: Mt 28.19; 1Co 12.4-6; 2Co 13.13; Ef 4.4-6; 1Pe 1.2).
Finalmente, o Espírito Santo é uma pessoa distinta da pessoa Pai e da pessoa do Filho. O Espírito Santo procede do Pai (Jo 15.26) e, portanto, não pode ser o Pai. Imediatamente depois do baptismo de Jesus, o Espírito Santo desceu na forma de uma pomba, enquanto o Pai falou dos céus. Nesse momento os três foram revelados juntos, cada qual distinto do outro. Então, nenhum deles pode ser identificado como sendo um dos outros (Mt 3.17).
A obra do Espírito Santo
Com sua partida em vista, Jesus encoraja os discípulos sobre o futuro ministério do Espírito Santo (Jo 16.7-15). Jesus diz que os seus discípulos ainda não estavam preparados para ouvir tudo em detalhes (Jo 16.12). Então o Senhor consolou seus discípulos com a certeza de que Sua ida para a glória seria vantajosa para eles uma vez que Ele enviaria o Espírito Santo, o outro Consolador (14.16-17): Ele os capacitaria, encorajaria, ensinaria e tornaria Cristo mais real para eles.
Jesus havia afirmado anteriormente que o Pai enviaria o Espírito (14.25-26), mas Cristo também diz que Ele mesmo envia o Espírito (15.26). Exatamente como afirma o cristianismo bíblico e histórico: "Cremos no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai e do Filho; que, com o Pai e o Filho, conjuntamente, é adorado e glorificado; que falou por meio dos profetas” (Credo Niceno, um conteúdo resumido da fé dos cristãos elaborado no Concílio de Constantinopla em 381).
Jesus deixa claro que, antes de o Espírito Santo descer, ele próprio precisa subir (Jo 16.7). O Pentecostes somente pode acontecer depois da Sexta-feira da Paixão, depois da “Páscoa”. Apenas a ida de Jesus para a cruz e para o trono do Pai torna possível que ele envie o Espírito Santo, o Consolador, aos discípulos. O Espírito não viria com o poder e a plenitude da nova aliança até que Jesus voltasse ao céu e fosse glorificado à mão direita de Deus (16.7; 7.39; At 2.32-33).
A obra do Espírito Santo nos crentes (16.7, 12–15). É o Espírito Santo que aplica os méritos redentores de Cristo ao coração dos crentes (Rm 8; Gl 4.4–6). Porém, o Espírito não pode aplicar esses méritos quando não há méritos para aplicar. Portanto, a menos que Jesus parta, o Espírito não pode vir. Além de disso, deve-se ter em mente que a bênção do Espírito Santo é a recompensa do trabalho de Cristo (At 2.33, Jo 16.14).
O Espírito Santo habitará os seguidores de Jesus para sempre. O Espírito é dado a todos os crentes em vez de ser algo seletivo (Jo 7.37–39; At 11.16–17; Rm 5.5; 1Co 2.12; 2Co 5.5). O Espírito veio para a Igreja, não para o mundo. O Espírito Santo trabalha por intermédio das pessoas nas quais ele habita (Jo 14.17). Quando o Espírito veio em Pentecostes, deu poder a Pedro para pregar, e foi a pregação da Palavra que convenceu os ouvintes dos seus pecados (At 2).
“Ele habita convosco e estará em vós” (Jo 14.17, 1Co 3.16), não significa que não havia obra do Espírito de Deus dentro dos crentes antes desse tempo, mas sim que o Espírito Santo “estará nos crentes” num sentido novo e mais poderoso após o Pentecostes. Portanto, o facto de ainda não ter sido dado o Espírito (como lemos em João 7.39) não significa que o Espírito de Deus não operava dentro dos crentes antes da vinda de Cristo (veja por exemplo, Nm 27.18; Ez 2.2; Mq 3.8; cf. Lc 1.15, 41, 67).
Nenhum homem jamais foi salvo do poder do pecado e transformado sem que houvesse a operação regeneradora do Espírito Santo. Abraão, Isaque, Samuel, Davi e os profetas foram o que a Bíblia nos conta somente por causa da obra do Espírito Santo neles. Por outro lado, não podemos esquecer que, após a ascensão de Cristo, o Espírito Santo foi derramado com maior poder sobre as pessoas e houve mais ampla influência sobre as nações do que em épocas anteriores.
O dia de Pentecostes foi aquele momento da história da redenção quando Deus liberou o poder do Espírito Santo e o deu para sua igreja, não somente para aqueles que estavam reunidos lá, mas para a igreja de todas as épocas e para cada cristão através dos tempos (Sproul, 2017). Contudo, antes da descida do Espírito Santo no Pentecostes, o Espírito não havia sido dado no sentido pleno e poderoso que foi prometido para a era da nova aliança (como lemos, por exemplo, em Ez 36.26-27: “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis”. Ou como profetizou Joel, no capítulo 2.28: “E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne …”
Vale a pena ressaltar que a promessa da presença divina nos seguidores de Jesus, em João 14.15–24, inclui o Espírito (14.15–17), Jesus (14.18–21) e o Pai (14.22–24).
O Espírito revela a pessoa e a obra de Jesus (16.14-15). O Espírito Santo não vem para glorificar a si mesmo, mas para glorificar Jesus. O propósito do ministério do Espírito Santo é exaltar Jesus, anunciá-lo e torná-lo conhecido. Por outras palavras, nada nos é outorgado pelo Espírito à parte de Cristo. O Espírito Santo constantemente chama a nossa atenção para Jesus – aplicando a obra consumada de Jesus em nossas vidas.
O plano de redenção centra-se em Cristo, este é o tópico sobre o qual o Espírito concentrará Seu ensino (15.26, 16.14). O próprio Espírito Santo é uma dádiva que recebemos do Pai mediante fé na pessoa e na obra de Jesus Cristo na cruz (Rm 8.9; Gl 3.2). Jesus disse: "Ele há de receber do que é meu” (Jo 16.14). Isto significa que o Espírito Santo receberá as grandes verdades concernentes a Cristo. São essas as coisas que ele revela aos cristãos. Deste modo, podemos pôr à prova todo ensino e toda pregação. Se tiver o efeito de magnificar o Salvador, então é do Espírito Santo.
O Espírito Santo exerce o ministério de ensino (16.13). O Espírito continua o ministério de Jesus em todo o mundo na era da nova aliança. A obra que o Senhor começou seria continuada pelo Espírito da verdade. Jesus ensinou que o ‘outro Consolador’ (14.16), o Espírito Santo (14.26), o Espírito da verdade, guiará os discípulos em toda a verdade (16.13). Há um sentido no qual toda a verdade foi confiada aos apóstolos durante sua vida, e encontra cumprimento particular no trabalho subsequente dos apóstolos ao escreverem pessoalmente ou supervisionarem a escrita dos livros do NT (16.13; 14.26). Isso, adicionado ao Velho Testamento, completou a revelação escrita de Deus ao ser humano. Mas é naturalmente verdade, em todas as épocas, que o Espírito guia o povo de Deus em toda a verdade. Ele o faz através das Escrituras. O Espírito Santo é o Espírito da verdade, Jesus é a verdade (14.6), e a Palavra de Deus é a verdade (17.17). Portanto, tudo o que Espírito Santo ensina está coerentemente alinhado com a pessoa e obra de Cristo e com as Sagradas Escrituras.
O Espírito Santo deu aos apóstolos a plena revelação da vontade de Deus para Sua igreja (toda verdade), que agora está registada no Novo Testamento (14.26; 1 Co 2.9-13; Ef 3.3, 5, 8), e continua a ajudar a igreja a compreender e aplicar as Escrituras (Efésios 1.17). Portanto, esta promessa de Cristo também tem uma aplicação mais ampla a todos os crentes à medida que o Espírito Santo os conduz e os guia (veja Rm 8.14; Gl 5.18). Como diz a Escritura: “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus” (Rm 8.14).
A obra do Espírito Santo no mundo (Jo 16.8–11). O Espírito revela aos homens três verdades fundamentais:
1) O Espírito convence o mundo do pecado, que os condenará se não crerem em Cristo (3.36; 5.45-46). Jesus disse: “E quando ele vier, convencerá o mundo do pecado […] porque não creem em mim.” (16.8,9). O Espírito convence o mundo do pecado de falhar em crer em Cristo (Jo 15.22-24). Além disso, a obra de convencimento do Espírito graciosamente ajuda o mundo a reconhecer que eles são pecadores e precisam de um Salvador.
Calvino observa que “há duas formas nas quais o Espírito convence os homens pela proclamação do evangelho. Alguns são movidos de bom grado, ao ponto de curvarem-se voluntariamente e assentir espontaneamente com o juízo pelo qual são condenados. Outros, ainda que se convençam de culpa e não possam escapar, contudo não cedem sinceramente, nem se submetem à autoridade e jurisdição do Espírito Santo, porém, ao contrário, vendo-se sujeitados, gemem intimamente e se sentem esmagados com confusão, contudo não cessam de acalentar obstinação no recôndito de seus corações”.
2) O Espírito também […] convencerá o mundo […] da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais (16.8,10). Por sua ressurreição e ascensão, Jesus provou ser um homem justo, e tudo quanto afirmou de si, com relação à divindade, foi dado como justo e verdadeiro. Por sua glorificação por meio de seu retorno ao Pai, Jesus é justificado em suas reivindicações durante o seu ministério, apesar da rejeição de seus oponentes - que rejeitaram o único que poderia salvá-los.
Em seguimento à convicção do pecado, este é o segundo passo, isto é: que o Espírito convenceria o mundo sobre qual é a verdadeira justiça. O Espírito “mostra aos homens que sua justiça diante de Deus não depende de seus próprios esforços, mas da obra de Cristo por eles” (Leon Morris).
3) O Espírito Santo […] convencerá o mundo […] do juízo, porque o príncipe deste mundo já está condenado (16.8,11). O julgamento de Deus sobre este mundo ímpio já começou na vitória de Cristo sobre Satanás (16.7-11). A vitória de Cristo sobre Satanás antecipa o juízo vindouro de Jesus de todos os pecadores (o mundo). Satanás e aqueles sobre quem ele governa serão finalmente condenados pela justiça divina. Este veredicto já foi proferido (João 12.31: o príncipe deste mundo é julgado; Lc 10.18; Ap 12.7-11).
A morte, a ressurreição e a ascensão de Cristo são o julgamento legal e a derrota definitiva do diabo. Jesus triunfou sobre ele na cruz. Despojou-o, venceu-o e esmagou sua cabeça. Na cruz de Cristo, o diabo foi derrotado para sempre. Sua condenação foi decidida, e sua sentença foi declarada.
O Espírito manifesta ao mundo que Jesus Cristo subverteu a autoridade de Satanás. Cada vez que Cristo é proclamado na pregação, sob o poder do Espírito Santo, Satanás sofre mais uma perda, e cada alma salva é nova prova de que o diabo está “julgado”. O primeiro e grande cumprimento dessa promessa ocorreu no dia de Pentecostes, quando Pedro, cheio do Espírito Santo, apresentou essas provas, e cerca de três mil pessoas foram convencidas de seus pecados, convertidas a Cristo e salvas.
Enfim, a obra do Espírito Santo é tão importante como a obra de Cristo. É por isso que antes de enviar a igreja ao mundo, Jesus enviou o Espírito Santo à igreja. É o Espírito Santo quem capacita o povo de Deus para o cumprimento da grande comissão (At 1.8).
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Referências: Beeke, J. R., Barrett, M. P. V. and Bilkes, G. M., ed. The Reformation Heritage KJV Study Bible. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2014, p. 1541. / Berkhof, L. Teologia Sistemática, 4a edição. SP: Cultura Cristã, 2012, p. 391–392. / Boor, W. Comentário Esperança, Evangelho de João. Curitiba: Esperança, 2002, p. 365–370. / Carson, D. A., ed. NIV Biblical Theology Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2018, p. 1927. / Calvino, J. Evangelho Segundo João, vl. 2 - Série Comentários Bíblicos. São José dos Campos, SP: FIEL, 2015, p. 150–161. / Crossway Bibles, The ESV Study Bible. Wheaton, IL: Crossway Bibles, 2008, p. 2038, 2053. / Grudem, W. Systematic Theology: An Introduction to Biblical Doctrine. Second Edition. Grand Rapids, MI: Zondervan Academic, 2020, p. 778–800. / Hendriksen, W. João: Comentário do Novo Testamento. SP: Cultura Cristã, 2014, p. 637–641. / Lopes, H. D. João: As Glórias do Filho de Deus - Comentários Expositivos Hagnos. SP: Hagnos, 2015, p. 405–409. / MacDonald, W. Comentário Bíblico Popular: Novo Testamento. SP: Mundo Cristão, 2011, p. 310–311. / Packer, J. I. Teologia Concisa: Um Guia de Estudo das Doutrinas Cristãs Históricas. 3a ed. SP: Cultura Cristã, 2014, p. 129–130. / Ryle, J. C. Meditações no Evangelho de João. São José dos Campos, SP: Editora FIEL, 2018, p. 317–319. / Ryrie, C. C Teologia Básica: Um Guia Sistemático Popular para Entender a Verdade Bíblica. SP: Mundo Cristão, 2012, p. 201. / Sproul, R. C., ed. The Reformation Study Bible: ESV. Orlando, FL: Reformation Trust, 2015, p. 1889.
Pastor Leonardo Cosme de Moraes
Igreja que Ora
Atos 12 retorna a Jerusalém onde
encontramos uma nova perseguição contra os líderes cristãos, os apóstolos
(12.1-4). Herodes Agripa I, que nesta altura governava sobre a Judeia, Samaria,
Galiléia, Transjordânia e Decápolis, fazia o que fosse necessário para agradar
os judeus. Enquanto Herodes, o Grande, viva constantemente em conflito com os
judeus, Herodes Agripa I sabia como obter o favor dos líderes e dos principais
sacerdotes e, por essa razão, contava com o apoio deles.
Graças a essa política, ele mandou […] prender alguns da igreja para os maltratar e fez passar a fio da espada o apóstolo Tiago, irmão de João, e filho de Zebedeu (Lc 5.10; 6.14; 8.51; 9.28). A população aprovou a perseguição contra os líderes da igreja, então Herodes decidiu ir atrás de Pedro. Herodes prendeu Pedro com o propósito de matá-lo após os sete dias da Festa da Páscoa, com o único propósito de agradar os judeus (12.3). Ele queria dar um golpe mortal na igreja matando seus principais líderes.
Todas as precauções foram tomadas para que Pedro não escapasse da prisão. Herodes enviou quatro esquadrões de soldados para guardá-lo até que pudesse ser executado (12. 6, 10). Havia quatro esquadrões porque cada um era dividido em quatro turnos. Isso significa que havia quatro grupos de quatro – 16 soldados romanos – vigiando Pedro na prisão. Dois soldados ficavam com ele em sua cela. Pedro tinha cada perna acorrentada a um guarda, enquanto os outros dois guardas vigiavam os portões externos.
Quando Tiago foi executado, os crentes não se desesperançaram com a oração. Em seguida ficou pior, mas os cristãos não abandonaram a oração. Eles oraram ainda mais fervorosamente. Do ponto de vista humano, só um milagre poderia livrar o apóstolo da morte. Eram os dias da Festa da Páscoa. Durante todo o tempo que Pedro esteve na prisão a igreja permaneceu em oração (12.5).
Deus poupou Pedro, mas permitiu que Tiago fosse morto. Tiago morreu pela causa de Deus, assim como seu Senhor (Mc 10.36-39). A vontade do Senhor é sempre sábia e boa, mas nem sempre é previsível. Nós não vemos tudo que Deus vê! Precisamos confiar em Deus, e que Ele nos ajudará a usar o sofrimento em prol do nosso fortalecimento, e ao mesmo tempo para Sua glória. Precisamos dizer como Paulo: “Por que, se vivemos, para o Senhor vivemos, se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.8). Uns são libertos pela fé; outros morrem pela fé. Na galeria da fé, em Hebreus 11, uns foram libertos do fogo e da boca de leões pela fé; outros, pela fé, foram mortos e serrados ao meio. Deus é Deus quando nos livra da morte e quando nos leva para sua presença. Ele é Deus quando atende a nossa oração curando e quando chama-nos para a sua presença.
Este episódio sublinha diferentes princípios relativamente à prática da oração na vida da igreja:
A igreja que ora recebe prontamente o auxílio do céu (12.5-11). Na mesma noite em que Herodes planeava apresentá-lo […], Pedro dormia sono profundo, mesmo algemado entre dois soldados (12.6). Ele confiava em Deus. Ele podia dizer, assim como Paulo escreveu quando também esteve preso: “para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fl 1.21).
Lucas informa que, de repente, um anjo do Senhor apareceu, e a cela encheu-se de luz. O anjo tocou o lado de Pedro e ordenou que ele se levantasse depressa. No mesmo instante, as algemas caíram das suas mãos. Então o anjo disse a Pedro que se vestisse, calçasse as sandálias, pusesse a capa e o seguisse. Mesmo confuso, Pedro obedeceu às instruções do anjo. Depois de terem passado a primeira e a segunda sentinela da prisão, chegaram ao portão de ferro, que abriu-se como se fosse automatizado. Só depois de entrar numa rua da cidade e de o anjo ter apartado-se dele, Pedro deu-se conta de não estar num sonho. O Senhor livrou-o da mão de Herodes e dos judeus (12.7-11).
Vemos aqui uma importante lição para
nós. O visitante celestial tirou Pedro da prisão (12.17), mas o que Pedro podia
fazer, o anjo não fez por ele. Pedro devia levantar-se, cingir-se, colocar suas
sandálias, sua túnica e sair (12.8). Assim que Pedro estava livre, o anjo
deixou-o. Agora, Pedro poderia tomar suas próprias decisões!
Deus comissionou uma classe de anjos
para proteger o seu povo na terra (Sl 91.11; Hb 1.14). Contudo, é fanatismo
esperar que Deus faça por nós o que nos mesmos devemos fazer (12.10-11). Deus
não enviará seus anjos para fazer o trabalho da igreja (1 Pe 1.12).
A igreja que ora recebe de Deus
infinitamente mais do que poderia imaginar (Ef. 3.20). Conforme a história prossegue, Pedro foi à casa de Maria, a
mãe de João Marcos (12.12-17). Quando ele chegou à casa, ele bateu na porta e
esperou que alguém a abrisse (12.14). Uma criada, chamada Rode foi ver quem
era, mas ficou tão alegre ao ouvir a voz de Pedro que esqueceu-se de abrir a
porta! Correu para dentro a fim de dar as boas notícias aos que estavam a orar.
Ao ouvirem as palavras da criada, alguns pensaram que ela havia enlouquecido,
mas ela persistia em afirmar que o apóstolo estava junto do portão (12.15).
Pensaram, então, tratar-se do anjo de Pedro, mas Rode afirmou que era o
apóstolo em pessoa. “Então, eles abriram, viram-no e ficaram atónitos” (12.16).
Eles não podiam crer que Deus concedera-lhes exatamente o que haviam pedido.
Vemos aqui que “não somos a primeira
geração a ser tão fraca em reconhecer as respostas de Deus às nossas orações. É
sempre correto orar, mesmo que sua fé seja tão fraca que você se surpreenda
quando a resposta chegar!” (RC Sproul). Uma vez que nada é impossível para
Deus, nada é impossível para a igreja quando ela se reúne para orar. “A oração
de apenas um justo pode muito em seus efeitos” (Tg 5.16, veja tb. Mt 7.8).
Pedro foi libertado pelo anjo de Deus,
mas em resposta às orações da igreja (12.12, 17). Como escreveu o pregador
puritano Thomas Watson: “O anjo chamou Pedro na prisão, mas foi a oração que
foi buscar o anjo”. A oração fervorosa da igreja reunida afectou o resultado
dos acontecimentos (12.5, 12). “Suas orações imperfeitas, porém fervorosas,
foram mais poderosas que Herodes e o inferno” (G. C. Morgan).
A igreja que ora triunfa sobre as
forças do mal (12.18-23, Mt 16.18). Lucas
informa que “ao amanhecer, houve grande alvoroço entre os soldados a respeito
do que tinha acontecido a Pedro […] Não conseguindo encontrá-lo, Herodes
interrogou os guardas e mandou executá-los.” (12.18-19a). De acordo com o
código Justiniano, se um prisioneiro fugisse, sua sentença – espancamento,
crucificação ou decapitação – era aplicada aos guardas responsáveis pelo turno
em que o prisioneiro havia escapado.
Depois disso, “Herodes partiu da Judeia
e foi passar algum tempo em Cesareia” (12.19d-20). Não sabemos o motivo, mas
Herodes estava muito irritado com o povo de Tiro e Sidom. Os habitantes dessas cidades aproveitaram
as férias do rei em Cesareia para reconciliar-se com ele, pois dependiam dos
cereais que importavam da Judeia. Fizeram amizade com Blasto, camarista do rei
e, por meio dele, pediram a restauração das relações diplomáticas.
Lucas diz que num dia designado,
Herodes fez uma aparição vestido com trajes especiais, sentou-se em seu trono e
fez um discurso. Então o povo bradou: “Voz de um deus, e não de um homem!”
(12.21-22). Porém, em meio à aclamação da multidão, ele subitamente
contorceu-se de dor. Flávio Josefo, historiador judeu, informa que Herodes teve
de ser carregado para fora do anfiteatro, e permaneceu com intensa dor por
cinco dias antes de morrer, a qual, de acordo com Lucas, foi-lhe infligida por
um anjo do Senhor porque Agripa estava tomando para si a glória que pertencia a
Deus (12.23).
Ninguém jamais lutou contra o Altíssimo
e prevaleceu. O anjo de Deus enviado para libertar Pedro é enviado para matar
Herodes (12.7,23). Os anjos de Deus são agentes tanto da bondade como do juízo
de Deus.
A Bíblia ensina que quando uma pessoa
se exalta, ou permite que outros a exaltem, Deus a derrubará (Gn 11.4; Is
14:12–15; Dn 4.19–27). Por outro lado, os humildes e os humilhados serão
exaltados! Este é o glorioso paradoxo do evangelho (Lucas 14.11, 18.14).
Os destinos da vida não estão nas mãos
dos homens, mas nas mãos de Deus. Num momento, Tiago foi da prisão para o céu.
Herodes também num momento passou de sua glória terrena para uma prisão eterna
no inferno. “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor” (Ap 14.13).
Em vez de Pedro ser morto por Herodes,
Herodes é que foi morto pelo Deus de Pedro! O corpo na sepultura é comido por
vermes, mas o corpo de Herodes tornou-se podre enquanto ele ainda estava vivo,
criando vermes que imediatamente passaram a se alimentar dele (12.23).
Finalmente, na igreja que ora, a palavra de
Deus cresce e multiplica-se (12.24). O
rei morreu e foi comido pelos vermes, mas a Palavra de Deus não morreu (12,24).
Apesar de toda oposição o trabalho da igreja progredia (At 6.7; 9.31; 12.24).
O crescimento numérico da igreja
primitiva retrata sua vida de oração. A igreja orava e os resultados apareciam.
Deus abria os corações. A pregação era poderosa (1Co 3.7). “A igreja
contemporânea deveria orar mais, com mais fervor, e com mais intensidade, como
o fez a igreja primitiva” … O poder para realizar a obra de Deus não vem da
nossa inteligência, ou dos nossos recursos financeiros, nem mesmo das nossas
habilidades pessoais, mas de Deus.” (H. D. Lopes).
Precisamos orar pela igreja perseguida. A situação de Pedro na prisão a espera do martírio retrata a realidade da igreja perseguida. A oração é um instrumento que Deus usa para livre os crentes perseguidos. Precisamos orar pelos nossos pastores e líderes. Se você deseja que Deus use o seu pastor ore por ele.
__________
Referências: Beeke, J. R.; Barrett, M. P. V. and Gerald M. Bilkes, eds. The Reformation Heritage KJV Study Bible. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2014), 1577–1579. / Carson, D. A., ed. NIV Biblical Theology Study Bible. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2018, p. 1977–1978. / Crossway Bibles. The ESV Study Bible. Wheaton, IL: Crossway Bibles, 2008, p. 2106-2108. / Kistemaker, S. Atos, vol. 1: Comentário do Novo Testamento. SP: Editora Cultura Cristã, 2016, p. 559–560. / Lopes, H. D. Atos: A Ação do Espírito Santo na Vida da Igreja: Comentários Expositivos Hagnos. SP: Hagnos, 2012, p. 233–250. / MacDonald, W. Comentário Bíblico Popular: Novo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2011, p. 366–368. / Sproul, R. C. Estudos Bíblicos Expositivos em Atos. SP: Cultura Cristã, 2017, p. 182–192.
Pastor Leonardo Cosme de Moraes
Igreja Multiplicadora
A Igreja de Antioquia foi implementada por crentes foragidos e perseguidos. Evangelistas anónimos, espalhados pela perseguição que iniciou após o martírio de Estêvão (8.2-4), avançaram pelos vilarejos e cidades até a Fenícia, Chipre e também para Antioquia da Síria, proclamando o Evangelho de Jesus Cristo (At 11.19b; 8.4). A maioria anunciava a palavra somente aos judeus (11.19c), e a ninguém mais. Alguns deles, porém, que eram de Chipre e de Cirene, no litoral norte da África, foram até Antioquia da Síria, e evangelizaram também aos gregos, anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus (11.20).
A
igreja multiplicou-se sobrenaturalmente através do testemunho dos evangelistas
anónimos (11.19–21). Homens desconhecidos do povo, oriundos da diáspora cristã, sem
formação, sem ordenação, sem sociedade missionária, sem plano estratégico
tornaram-se pioneiros decisivos da missão aos gentios. Simplesmente
arriscaram-se a testificar: temos “um só Senhor, Jesus Cristo” (1Co
8.6). Para surpresa dos que arriscavam-se a dialogar intencionalmente com
gentios sobre Jesus, a mensagem obteve considerável aceitação: “muitos,
crendo, converteram-se ao Senhor Jesus” (11.21). Lucas indica a causa
do sucesso: “A mão do Senhor estava com eles.”
É
por isso que às vezes tendemos a pensar que o quadro de membros da igreja é a
medida do quanto Deus a está abençoando. Mas devemos ser cuidadosos quanto a
isso. O maior culto registado na Bíblia ocorreu no sopé de uma montanha, numa
dança de idolatria e blasfémia, em torno de um bezerro de ouro (em Êxodo 32). A
igreja de Arão, naquele momento, era uma mega-igreja, e fazia tudo o que Deus
desprezava. Podemos dizer que a mão do diabo estava sobre eles ao invés da mão
do Senhor, porque Deus estava enfurecido com o que o seu povo estava a fazer.
Sua atividade causou o crescimento da igreja, mas de maneira errada. Como
escreveu o Dr. Sproul: “Não podemos ter a mão do Senhor e não ter crescimento,
mas podemos ter crescimento sem a mão do Senhor”.
Além
do mais, todo o sucesso da fé e da salvação depende de Deus e nada deve ser
atribuído a nós, exceto o ministério externo. Isso deve ser sempre lembrado,
tanto para que os ministros não se percam em seu orgulho quanto para que
aqueles a quem Deus iluminou com a verdadeira fé aprendam a ser gratos a Ele.
Enfim, o crescimento da igreja é uma obra exclusiva de Deus (1 Co
3.7). De facto precisamos pregar e evangelizar, mas só Deus pode abrir o
coração dos que creem (At 16.14).
A
igreja multiplicou-se num contexto metropolitano, intercultural e multiétnico. Este episódio destaca o
impacto do evangelho na população de Antioquia da Síria (11.20). Antioquia foi
a primeira igreja internacional, formada por pessoas de culturas e etnias
diferentes. A Igreja de Antioquia tornou-se a base, o centro metropolitano,
para a expansão do evangelho para o mundo gentílico na bacia do Mediterrâneo
(13.1-4; 15.40; 18.23).
Com
uma população estimada em pelo menos 500.000, era um centro para troca de
ideias, culturas, costumes e religiões. Era uma cidade sofisticada. Naquela
época, era a única cidade do mundo antigo com iluminação noturna. Era como a
cidade de Nova York de hoje. Em 64 a.C. o general romano Pompeu conquistou a
cidade de Antioquia e envolveu-a na corporação romana. Como resultado, a partir
desse momento até os dias de Cristo e dos apóstolos, Antioquia era a terceira
maior cidade do mundo antigo, depois de Roma e Alexandria. Devido ao seu
tamanho, a cidade foi fundamental para a expansão da cristandade no 1° século
e, posteriormente, tornou-se o centro intelectual para o desenvolvimento da
teologia cristã durante os primeiros 300 anos da história da igreja (Sproul,
2017:175-181). Enfim, Antioquia foi de fundamental importância como uma área de
preparação e como a sede metropolitana para a expansão da igreja cristã entre
os gentios, e é apresentada aqui em Atos.
A
igreja multiplicou-se substancialmente sob a liderança espiritual de homens
piedosos, qualificados e com o melhor perfil para o crescimento. Quando a notícia do
despertamento espiritual de Antioquia chegou a Jerusalém, a igreja decide
enviar Barnabé, um homem de alma generosa, um pastor experiente, um judeu
helenista com o melhor perfil para promover o crescimento da igreja
(11.22).
Barnabé
não era uma pessoa invejosa. Ele viu tudo o que Deus estava a fazer entre os
gentios em Antioquia, e estava satisfeito (Rm 12.15). Ele alegrou-se ao ver a
graça de Deus nas vidas transformadas dos convertidos e exortou todos a
permanecerem firmes no Senhor (11.23).
Em
seu relato Lucas dificilmente elogia pessoas individuais. Aqui, porém, ele não
deixa de acrescentar: “Porque era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé.”
(11.24). Não nos surpreende que “muita gente se uniu ao Senhor” durante sua
presença em Antioquia.
Barnabé
queria ver a obra de Deus prosperar, por isso procurou Saulo, quem ele sabia
ser mais dotado para a obra do que ele (11.25). Ele partiu para Tarso à procura
de Saulo, e quando encontrou-o, trouxe-o para Antioquia. “E, por todo
um ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão. Em Antioquia,
foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos” (11.26).
É
admirável a humildade de Barnabé em querer partilhar o ministério com Saulo, e
também o seu senso estratégico, ao estabelecer uma parceria de ministério
frutífera (11.25; 13.2 –15.35). O que Barnabé fez por Saulo precisa
ser colocado em prática nas igrejas. Os cristãos maduros precisam chamar outros
membros do corpo e encorajá-los em seu serviço ao Senhor. Moody costumava
dizer: "É melhor colocar dez homens para trabalhar do que fazer o serviço
de dez homens”.
Esta
experiência em Antioquia preparou a Saulo e a Barnabé para uma missão muito
maior que se seguiria (13.1ss.). Os grandes rabinos de Israel eram pessoas
solitárias, cada qual formando sua própria “escola”, mas posicionando-se
criticamente diante de outros. Agora Saulo tinha o privilégio de experimentar o
que significa desempenhar o serviço na comunhão com um irmão. Saulo não quis
mais prescindir dessa experiência, como podemos ver na longa lista de saudações
em Rm 16.
A
igreja multiplicou-se pela distinção dos imitadores de Cristo na sociedade. Outro facto significativo
sucede em Antioquia: “foram os discípulos, pela primeira vez, chamados
cristãos” (11.26). Até agora, Lucas se referia a eles como discípulos (6.1), santos (9.13), irmãos (1.16;
9.30), fiéis (10.45), e os seguidores do Caminho (9.2).
E de “nazarenos” pelos judeus, uma expressão de desprezo (At 24.5). Agora,
Lucas passa a chamá-los de cristãos (11.26).
O
facto de os discípulos terem sido chamados de cristãos pela primeira vez em
Antioquia provavelmente reflete um rótulo aplicado pelo público incrédulo em
Antioquia e mostra que os discípulos começavam a ter uma identidade própria à
parte dos outros judeus, como membros de um grupo distinto do Judaísmo. Na
época, cristão era uma designação de cunho depreciativo usado pelos incrédulos.
Os gregos e romanos costumavam designar partidos políticos e religiosos pelos
nomes de seus fundadores. Por outras palavras, eles não chamavam a si mesmos de
cristãos, mas foram chamados por outros de cristãos. De lá para cá, porém, esse
nome tem sido usado com grande satisfação por todos os que amam o Salvador.
Esta
nova designação na narrativa de Lucas prenuncia algo das dificuldades que
aproximavam-se da igreja de Jesus por meio deste nome. O judaísmo tinha no
Império Romano o status de uma religião oficialmente
reconhecida. Como “judeus” os discípulos eram ao mesmo tempo pessoas “legais”.
Qual, porém, seria a situação dos “cristãos”? Muito em breve, sob Nero, a
palavra “cristão” torna-se uma palavra de desprezo e ódio. Numa correspondência
entre o imperador Trajano e seu governador Plínio no ano de 111–113 d. C. já se
aborda a pergunta se o simples nome de cristão como tal era merecedor de
punição.
A
palavra “cristão” ocorre três vezes no NT. A única outra vez que a palavra
ocorre em Atos, é nos lábios de um estranho à comunidade, o rei Agripa (26.28).
Em 1Pe 4.16 o termo já é usado com naturalidade. Todavia, é somente nos
escritos de Inácio, bispo de Antioquia do 2º século, que o termo foi encontrado
como uma auto-designação habitual.
A
palavra significa literalmente uma pessoa que ‘pertence’ ou ‘segue’ a Cristo.
Os cristãos não identificam-se pela nacionalidade, cultura ou idioma, mas pelo
facto de serem seguidores leais do Senhor Jesus Cristo.
Muita
gente que não nasceu de novo considera-se "cristão" simplesmente
porque participa de uma igreja, frequenta os cultos evangélicos e, de vez em
quando, até contribui para o trabalho da igreja! Mas é preciso mais do que isso
para o pecador tornar-se filho de Deus. É preciso arrependimento do pecado e fé
em Jesus Cristo, que morreu por nossos pecados na cruz e ressuscitou para nos
dar vida eterna (Wiersbe, 2006:583). David Fuller certa vez perguntou: "Se
você fosse preso sob a acusação de ser cristão, haveria provas suficientes para
condená-lo?” Em Antioquia os discípulos convertiam doutrina em
vida. Eles eram imitadores de Cristo (1 Jo 2.4). Exalavam o bom
perfume de Cristo (2 Co 2.14-16). Nossa vida, palavras, ações,
reações levam as pessoas a pensar que somos discípulos de Cristo?
A
igreja que multiplicou-se em Antioquia era generosa e totalmente comprometida
com o ministério da misericórdia. Lucas informa que “naqueles dias, desceram
alguns profetas de Jerusalém para Antioquia” (11.27; 13.1; 15.32; 21.9). Um
deles, chamado Ágabo, inspirado pelo Espírito Santo predisse uma grande fome
por todas as regiões habitadas da terra. Essa escassez de alimentos sobreveio
nos dias do imperador Cláudio, que reinou de 41 a 54 d.C (11.27-28).
Os
historiadores acreditam que essa fome ocorreu nos anos 45-48 d.C. O rio Nilo
inundou em 45 d.C., reduzindo drasticamente a colheita de grãos da qual
dependia o Império Romano, e uma grande fome atingiu a Judéia de 46 a 48 d.C. A
fome foi mais intensa na Judeia, especialmente porque no tempo de Cláudio os
judeus foram expulsos de Roma (18.2) e retornaram à Judeia sem suas casas, suas
terras e seus bens. A escassez de alimentos na Judeia foi tão grave que, de
acordo com o historiador judeu Flávio Josefo, muitas pessoas morreram por falta
de recursos para comprar a pouca comida que havia disponível.
Quando
ouviram o anúncio profético dessa fome global, os discípulos de Antioquia
decidiram enviar socorro aos seus irmãos cristãos que moravam na Judeia. A
igreja não ficou só na informação, foi à ação. Eles não podiam impedir a vinda
da fome mas podiam mandar ajuda aos necessitados.
A
graça de Deus manifestou-se nesses discípulos cuja contribuição foi unânime,
espontânea e proporcional (11.29). Cada um ofertou conforme as suas posses (At
11.29, vemos o mesmo parâmetro em 2 Coríntios 8 e 9). Eles uniram-se em amor e
deram o que podiam para ajudar àqueles que estavam com fome e em necessidade.
Eles ajudaram pessoas que não conheciam pessoalmente. Eles estavam totalmente
compromissados com o ministério da misericórdia.
A
verdadeira religião envolve não somente orar e receber a Cristo, mas envolve
também alimentar os famintos, vestir os nus, visitar os prisioneiros e ajudar a
trazer alívio em tempos de calamidade, tais como a fome descrita em Atos (Mt
25.34-40; Tiago 1.27). Os cristãos de Antioquia enviaram para Jerusalém as
doações que coletaram, interrompendo o trabalho de Paulo e Barnabé, a fim de
que pudessem entregar a oferta aos presbíteros (anciãos) da igreja de Jerusalém
(11.30).
Esta
passagem ilustra um princípio espiritual importante: se as pessoas foram uma
bênção espiritual para nós, devemos ministrar-lhes por meio de nossos recursos
materiais. Como escreveu Paulo: "Mas aquele que está sendo instruído na
palavra faça participante de todas as coisas boas aquele que o instrui" (GI
6.6).
Os
cristãos de Jerusalém haviam levado o evangelho a Antioquia. Enviaram Barnabé
para exortar os recém-convertidos. Enviaram Ágabo para edificar e consolar a
igreja. Nada mais certo do que os gentios de Antioquia retribuírem e enviarem a
ajuda material de que seus irmãos e irmãs na Judéia precisavam (At 24.17; Rm
15.23-28).
A
igreja de Antioquia é um excelente exemplo de como nós, cristãos, devemos
demonstrar gratidão de maneiras práticas aos que nos ajudaram em caminhada com
Jesus. Aliás, a igreja de Antioquia é uma igreja modelo para todas as igrejas:
(1) uma igreja centrada no evangelho; (2) poderosa na evangelização (11.20);
(3) que pregava o que vivia; (4) liderada por servos de Deus fiéis e
qualificados (At 11.26; 13.1); (5) Uma igreja generosa que, recém implementada,
pôde ajudar no suprimento material a igreja mãe em Jerusalém. (6) Esta igreja
estava debaixo da bênção de Deus (11.21). A mão do Senhor era com eles! “E Que
diremos, pois, diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm
8.31).
______
Referências: Boor, W. Comentário Esperança, Atos dos Apóstolos.
Curitiba: Evangélica Esperança, 2002, p. 170–174. / Carson, D. A. NIV Biblical
Theology Study Bible. Grand
Rapids, MI: Zondervan, 2018, p. 1975–1976. / Crossway Bibles, The ESV Study
Bible (Wheaton, IL: Crossway Bibles, 2008), 2106. / Chung-Kim, Esther., et
al. Atos.
Comentário Bíblico da Reforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 207–212. /
Kistemaker, S. Atos, vol. 1.
Comentário do Novo Testamento. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2016),
527–542 / Lopes, H. D. Atos: A Ação do Espírito Santo na Vida da
Igreja: Comentários Expositivos Hagnos. São Paulo: Hagnos, 2012, p.
225–231. / MacDonald, W. Comentário Bíblico Popular: Novo
Testamento. São Paulo: Mundo
Cristão, 2011, p. 365–366. / Mikeal C. Parsons, Acts, Paideia Commentaries on
The New Testament (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008), 168. / Pervo, R. I, Acts: a
commentary on the Book of Acts: Hermeneia—a Critical and Historical Commentary on
the Bible. Minneapolis, MN: Fortress Press, 2009, p 290–298. / Sproul, R. C.,
ed. The Reformation Study Bible: English Standard Version. Orlando,
FL: Reformation Trust, 2015, p. 1935. / Sproul, R. C. Estudos Bíblicos Expositivos em Atos. São
Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 175–181. / Wiersbe, W. W. Comentário Bíblico
Expositivo: Novo Testamento: volume 1. Santo André, SP: Geográfica, 2006, p.
580-585.
Pastor
Leonardo Cosme de Moraes
A Universalidade da Mensagem Cristã
A maioria de nós na igreja atual é de origem gentílica, mas
fomos incluídos por causa do que se passou na casa de Cornélio em Cesareia. Nesta passagem
vemos como Deus conduziu os gentios convertidos à comunhão dos santos (Gl
3.27,28; Ef 2.11–22), o Senhor preparou o coração de Cornélio e,
simultaneamente, trabalhou em Pedro e através dele para pregar o evangelho na
casa de Cornélio, um centurião romano, que se converte com sua família e amigos
e recebe o Espírito Santo.
Este episódio divide-se em sete cenas, interligadas por
muita repetição. A repetição demonstra a importância da história: Lucas
descreve a visão de Cornélio quatro vezes (10.3-6, 22, 30-32; 11.13-14) e a
visão de Pedro três vezes (10.9-16; 11:4-10), e Pedro relata todo o episódio
para a igreja de Jerusalém (11.4-17).
Lições a serem aprendidas sobre a
conversão de Cornélio:
1. Deus recruta pessoas para o seu
reino de todos os lugares. Cornélio era um centurião romano,
da coorte italiana, destacado em Cesareia (10.1), mas foi convertido num membro
da família de Deus para ser um soldado de Cristo.
2. Deus recruta pessoas para o seu reino de todas as culturas. O livro de Atos descreve o progresso da igreja, inaugurada em Jerusalém, expandindo-se para a Judeia, para a Samaria, e então até aos confins da terra. Igualmente, o livro de Actos aborda quatro grupos distintos de pessoas: os judeus, os samaritanos, os gentios e os tementes a Deus. Os tementes a Deus eram aqueles gentios que haviam se convertido ao judaísmo em todos os aspectos, exceto um – eles não se submeteram à circuncisão. Eram chamados de tementes a Deus porque, embora fossem gentios, não acreditavam nos deuses e deusas de Roma, ou no panteão de divindades gregas, ou em qualquer religião oriental da época. Ao contrário, acreditavam no Deus Altíssimo e eram fiéis seguidores de Yahweh, o Deus de Israel.
Cornélio era um homem piedoso, generoso e temente a Deus (10.2,3). De contínuo orava a Deus e dava muitas esmolas ao povo (10.2,4). Ele era um homem devoto nos moldes da religião judaica.
3. O método de
Deus para alcançar o mundo é a proclamação da mensagem do evangelho através da
igreja. Aprendemos
que esse homem temente a Deus e sincero ainda precisava ouvir o evangelho,
arrepender-se e crer em Jesus (11.18; 15.7). Por volta das 3 horas da tarde
(hora nona), enquanto estava a orar, Cornélio teve uma visão na qual um anjo
veio e lhe deu ordens da parte de Deus, mas não lhe pregou o evangelho.
Deus poderia
ter ensinado Cornélio por meio do Seu Espírito ou de um anjo, sem o ministério
de Pedro. No entanto, Ele recorre a Pedro, sobre quem o anjo afirma que: “Ele
te dirá o que deves fazer” (At 10.6, RCF; 10.22; 11.14). Cornélio
precisou enviar mensageiros ao apóstolo Pedro, na cidade de Jope, a 50 km de
Cesareia, para que viesse pregar o evangelho a ele e sua família (10.4-8).
Somente então Deus o salvou (11.14,18; 10.43; 10.45). Só então ele foi
baptizado e recebido de forma pública na comunidade cristã.
4. Deus redimiu a alma de Cornélio e a mentalidade de Pedro (10.1-35). Deus preparou o coração de Cornélio e, simultaneamente, trabalhou em Pedro e através dele. Deus preparou o solo (Cornélio e sua família), trouxe o semeador (Pedro) e enviou a chuva (o Espírito Santo) para que houvesse uma colheita (conversão). Deus deu orientações específicas à Cornélio, não apenas para qual cidade ir, mas a que casa ir e onde se localizava – à beira-mar (10.5-8).
5. A separação entre os judeus e os
gentios era somente temporária. No dia seguinte, os mensageiros de
Cornélio saíram a caminho de Jope para chamar Pedro. Nesse intervalo, Pedro
subiu ao eirado da casa de Simão para orar na hora sexta, que é ao meio-dia. Nessa
altura ele sentiu muita fome e queria comer, e assim os empregados da casa
começaram a preparar uma refeição para Pedro. Enquanto preparavam,
sobreveio-lhe um arrebatamento de sentidos, e nesse êxtase Pedro viu o céu aberto e algo parecido com um
grande lençol. “Contendo toda sorte de quadrúpedes, répteis da terra
e aves do céu. E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele: Levanta-te, Pedro! Mata
e come”
(10.12–13). Em resposta ao que Pedro viu ele disse, “De modo
nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda” (10.14). Pedro
era judeu de nascimento e nunca havia quebrado as leis dietéticas judaicas.
No Velho Testamento, Deus declara certos animais
ritualmente “impuros ou imundos” (Lv 11) e ordena aos judeus que não os comam.
Pedro provavelmente pensou que essa visão era um teste de sua fidelidade e
então recusa-se por três vezes a comer. Lucas informa que Deus ouviu os
protestos de Pedro e disse, “Ao que Deus purificou não
consideres comum” (10.15).
Naquele momento, séculos de leis dietéticas e requisitos legais que Deus havia
dado ao Seu povo através de Moisés foram revogados imediatamente.
A nação de Israel foi escolhida para ser um sacerdócio santo
para o mundo. Deste modo, para manter sua pureza e identidade judaica, as leis
dietéticas foram adicionadas por Deus à Velha Aliança até a vinda do Messias, o
qual derrubou o muro de separação e começou a construir sua igreja, não só com
os judeus, mas com samaritanos, gentios e os tementes a Deus.
O apóstolo Paulo escreve que este mistério - os gentios,
através do ministério de Cristo, se tornaram parte do povo de Deus na Nova
Aliança - estivera escondido há muito tempo (Cl 1.15-27). Até aquele momento,
os gentios eram considerados fora do escopo da aliança que Deus fizera com
Abraão e Moisés e consequentemente não tinham esperança. Quando Cristo
inaugurou a nova aliança, a barreira entre judeus e gentios foi quebrada e a
esperança foi estendida aos gentios.
Ao enviar um judeu para pregar aos gentios, Deus
estava a derrubar as barreiras étnicas na igreja. Pedro interpreta
sua visão quando vê a multidão de gentios reunida na casa de Cornélio e diz:
Vocês mesmos sabem como é socialmente inaceitável para um judeu associar-se ou
visitar um estrangeiro; mas Deus mostrou-me que ninguém deve chamar uma pessoa
de impura ou contaminada (10.28). Portanto, a visão de Pedro não se tratava de
alimentos ou animais, referia-se a pessoas. Deus revogou as leis dietéticas
para demonstrar que os impuros estavam a ser acolhidos e purificados por
Cristo.
Pedro rejeita duas atitudes extremas e contrárias que os
seres humanos têm adotado uns com os outros: Ele reconheceu que era totalmente
inadequado tanto adorar uma pessoa como se fosse divina (o que Cornélio tentara
fazer com ele, 10.25), como rejeitar alguém, considerando-a imunda (como teria
feito anteriormente com Cornélio, 10.28). Pedro não aceitou que Cornélio o
tratasse como Deus, e recusou-se a tratar Cornélio como um cão imundo.
6. Os elementos da mensagem do
Evangelho (10.34-43). O evangelho, necessário ao mundo pagão
que nos observa, é o que vemos no livro de Atos, sermão após sermão. É que
vemos aqui em Atos 10, quando Pedro visita Cornélio e prega o evangelho. Nas definições
do NT o evangelho é entendido em termos de um conteúdo definido, e esse
conteúdo não está centrado em nós. O conteúdo foca na pessoa e obra de Jesus –
quem Ele é e o que Ele fez – e sobre como podemos receber os benefícios de Sua
Obra.
Pedro resumiu os principais eventos do ministério de Jesus
conforme os Evangelhos registam: (1) a pregação de João Batista, (2) Jesus
ungido com o Espírito em Seu batismo, (3) cura e exorcismos na Galiléia, (4)
jornada através da Judéia para Jerusalém, (5) prisão e crucificação, (6)
ressurreição no terceiro dia, (7) aparições de Cristo ressuscitado, (8) a
Grande Comissão, e (9) futuro retorno de Jesus como Juiz de todos (10), e,
consequentemente, a necessidade de se arrepender e crer para receber o perdão
dos pecados por meio do Nome Jesus (10.34-43).
O conteúdo do evangelho pregado por Pedro apresenta alguns pontos de destaque (10.36–43):
(a) O evangelho está centrado na vida e
nas obras de Cristo (10.38). Precisamos dar o nosso testemunho, mas não devemos confundi-lo com evangelismo. Nosso testemunho é um pré-evangelismo. Nossa vida não é o evangelho; a vida de Cristo é o evangelho. O poder de Deus para salvação é o evangelho de Jesus Cristo. Pedro proclamou a vida e o ministério de Jesus: Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e
poder para fazer o bem e curar todos os oprimidos do diabo. Jesus libertou os
cativos, curou os enfermos e libertou os atormentados. Perdoou pecados, curou
os cegos, limpou os leprosos e ressuscitou os mortos.
(b) O evangelho está centrado na morte
e ressurreição de Jesus Cristo (10.39-41). Pedro foi de imediato para a morte de Cristo,
concentrando-se na cruz. Uma mensagem que não inclua a cruz não é evangelismo;
não é o evangelho. Temos vida pela Sua morte.
Sua morte foi em nosso lugar e em nosso favor. A mensagem da cruz é o grande equalizador: todos nós
somos humilhados ao compreender a magnitude de nosso pecado e culpa; contudo,
na cruz, a oferta de perdão é feita a todos sem distinção.
Mas na sequência, ele proclamou: “A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto” (10.40). Pedro fala como testemunha ocular e lembra que Jesus muitas vezes comeu e bebeu com os apóstolos depois de ter sido ressuscitado dos mortos (10.41). Ele fornece prova evidente de que o corpo físico de Jesus ressuscitou dentre os mortos e que o Senhor está vivo.
Podemos dizer às pessoas coisas maravilhosas acerca de Deus e como Ele pode mudar suas vidas, e igualmente sobre Jesus, mas se a afirmação da ressurreição de Cristo está ausente desse testemunho, pode ser boas novas, mas não é o evangelho bíblico, porque a cruz de Cristo e Sua ressurreição são elementos indispensáveis ao evangelho.
(c) O evangelho está centrado no
senhorio de Cristo (10.36,42). Jesus é o Senhor de todos (10.36) e o Juiz de vivos e
de mortos (10.42). Todos comparecerão perante Ele para prestar contas da sua
vida. Todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor
para a glória de Deus Pai (Fl 2.10-11).
Pedro afirma que logo após Jesus ter ressuscitado, Ele
mandou que pregassem que Jesus é o Juiz de todos (10.42). Precisamos dizer às
pessoas tudo o que a Bíblia realmente diz: Jesus é nosso Senhor e Juiz. Isso
são más notícias, a menos que Ele seja também o nosso Redentor – a não ser que
coloquemos nossa confiança somente Nele para nossa salvação. Então o Juiz dá
remissão dos pecados; isto é, Ele apaga dos registos todas as acusações contra
nós. Mas se não nos submetermos a Ele, o martelo do Juiz baterá, e não haverá
misericórdia. Responderemos diante do Juiz com base na nossa justiça, ou na
falta dela. Isso é o que Pedro, movido pelo Espírito Santo, expôs a
Cornélio.
(d) O evangelho oferece remissão de
pecados para todo aquele que crê (10.43). A remissão e o perdão dos pecados, a salvação e a vida
eterna são alcançados pela fé em Cristo (Jo 3.16). Deus não mostra
parcialidade, mas recebe gratuitamente todos os que crêem em Seu Filho, Jesus
Cristo.
8. O derramamento do Espírito mostrou a unidade de judeus e gentios na comunidade da Nova Aliança (11.15–17; 15.7–11; Ef 2.14). Enquanto Pedro ainda pregava, o Espírito de Deus foi repentinamente derramado sobre os gentios. Os que eram judeus reconheceram esse derramar porque ocorreu aqui a mesma manifestação que se dera em Jerusalém no dia de Pentecostes – os gentios convertidos começaram a falar em línguas.
O “falar em línguas" também ocorreu no Pentecostes (2.4), mais tarde com o Efésios (19.6), e talvez também entre os samaritanos (8.18). Em todos os casos, falar em línguas confirmou a recepção deles como membros do povo de Deus na plenitude da nova aliança.
Esse foi o Pentecostes gentio em Cesareia, que correspondia
ao Pentecostes judaico em Jerusalém. O que acontecera aos judeus, agora, também
acontecia aos gentios. O batismo do Espírito Santo aqui é simultâneo com a
salvação de Cornélio e sua família, e não uma bênção posterior.
Todos os crentes em Jerusalém receberam o Espírito; todos os
crentes na casa de Cornélio receberam o Espírito. Entre os verdadeiros cristãos
não existe tais coisas como uns “têm” e outros “não têm”. “Pois, em um só
Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo” (1Co 12.13). Todo cristão é
nascido do Espírito, habitado pelo Espírito, e foi batizado pelo Espírito. O batismo
do Espírito Santo não é o mesmo que regeneração; regeneração não significa a
mesma coisa que habitação do Espírito Santo. Podemos fazer distinções sobre a
obra do Espírito Santo, mas a questão é que todas estas dádivas do Espírito são
dadas na conversão (Rm 8.9).
Os seis membros da delegação de Jope (11.12, 10.45) ouvem os
gentios falando em línguas e louvando a Deus (10.46). Pedro, então, dá ordem
aos seis cristãos judeus para batizarem os convertidos gentios (10.47-48).
Assim, os gentios foram incluídos no corpo de Cristo (11.17-18). Eles receberam
o sinal da aliança no batismo com água porque o que o batismo com água
significa, em parte, é o batismo do Espírito. Se eles haviam recebido o batismo
do Espírito, certamente podem ser membros plenos da igreja, por isso foram
batizados com água (Atos 10.47-48).
Pedro informa a igreja de Jerusalém que o Espírito desceu
sobre os gentios exatamente como o fizera com os apóstolos no Pentecoste
(11.15) e que Deus dera aos gentios o mesmo dom que concedera aos judeus
(11.17). Os crentes judeus agora veem que os gentios e judeus são iguais aos
olhos de Deus (11.18).
O Espírito Santo de Deus é derramado em cada um de nós, e se
estamos em Cristo, temos o Espírito. Não obstante, o Espírito de Deus trabalha
com a Palavra e através da Palavra, nunca contra a Palavra. Se você quiser
saber qual é a direção do Espírito de Deus para sua vida, terá que dirigir-se
ao livro do Espírito Santo. Na Palavra de Deus você pode confiar, não nos
palpites interiores de um mero ser humano.
Palavra e Espírito caminham juntos. O Espírito caiu sobre todos os que ouviram a Palavra. Quando Cornélio, sua família, seus parentes, amigos e servos ouviram a mensagem de Pedro, seus corações foram abertos, se arrependeram e creram no Evangelho de Jesus. Pedro disse aquelas palavras, mas as pessoas sobre quem o Espírito caiu ouviram a Palavra.
As experiências espirituais só podem ser explicadas pela
Palavra de Deus. Quando o Espírito Santo caiu sobre os gentios, Pedro se
lembrou imediatamente lembrou-se da palavra do Senhor de que seus discípulos
seriam batizados com o Espírito Santo (11.16). Pedro não apenas confiou em sua
visão e nas experiências espirituais da casa de Cornélio, mas testou essas
coisas pelos ensinamentos de Cristo (1.5; Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16).
Lições práticas:
- Deus
não mostra favoritismo baseado em diferenças étnicas ou sociais entre as
pessoas (10.34; Rm 2.11). Os judeus não estavam em melhor situação do que
os gentios, pois todos devem ser salvos somente pela graça de Deus (Rm
3.22–24; Atos 15).
- Deus
liberou Seu povo para comer todos os tipos de alimentos como os gentios
faziam (10.14; 1 Tm 4.3-5), implicando no cumprimento das leis de pureza
ritual do VT (At 10.15; Cl 2.16–17) e na unificação de judeus e gentios em
Cristo (Ef 2.11-22). Em Marcos 7.15, Jesus deixou claro que leis
dietéticas eram simbólicas e não tinham a inerente habilidade de tornar
alguém justo, quando Ele disse que nada que entra no homem pode
contaminá-lo. É o que sai de uma pessoa (maus pensamentos, palavras e
outras expressões de um coração pecaminoso) que causa contaminação. Em 1
Timóteo 4.1-5, sobre a abstinência dos alimentos que Deus criou para os
fiéis, Paulo adverte que “toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que
rejeitar, sendo recebido com ações de graças. Porque pela palavra de Deus
e pela oração é santificada.”
- Nenhum
pecador é tão vil que não possa ser salvo por Deus. Todos nós
começamos esta vida impuros, mas se já confessamos a Cristo e depositamos
somente Nele a nossa esperança e confiança para salvação, fomos declarados
limpos por Deus! Não há condenação para os que estão em Cristo (Rm 8.1),
pois ele removeu nossos pecados (Sl 103.12; Is 1.18).
- Aqueles
que recebem o evangelho, esses recebem o Espírito Santo e devem ser
integrados na igreja (10.44–48, 11.15-18).
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Referências:
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Pastor Leonardo Cosme de Moraes

