Quando Deus Parece Ausente

“Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que sperais”



Todos nós, em algum momento da nossa vida, já experimentámos a sensação de termos chegado ao fim da linha: Sonhos frustrados, segurança abalada, confiança traída, notícia inesperada de uma doença grave, um despedimento sem pré-aviso, conta bancária lapidada por um burlão informático, uma profunda crise existencial, uma sensação de vazio interior e de falta de significado para a vida, etc. Várias são as situações que nos causam calafrios e que nos levam a sentir um apertado “nó” no estômago, bloqueando a nossa capacidade de raciocínio e paralisando as nossas forças.

Nesses momentos, de um modo geral, pensamos que tudo isso só nos acontece a nós, e esse raciocínio leva-nos a desenvolver um sentimento de auto-comiseração. Sentimo-nos as pessoas mais injustiçadas do mundo.

Em alguns momentos, Deus e a Sua intervenção chegam a ser postas em causa. Muitas vezes, nestas situações, a fé de alguns é abalada, fazendo com que esses crentes questionem e duvidem do poder ou da bondade de Deus para com eles.

O capítulo 29 do livro do profeta Jeremias é uma carta dirigida aos judeus exilados na Babilónia. É uma bela carta que podia ser intitulada “Uma Carta Magna ao Emigrante”. Nela, Deus orienta o Seu povo, dando-lhe algumas instruções importantíssimas sobre como viver e desfrutar dessa nova experiência de vida, embora estejam numa terra estranha.

Contudo, a grande ênfase da carta reside no facto de Deus mostrar ao Seu povo  que, apesar da aparente sensação de abandono ou de esquecimento por parte do Todo-Poderoso, Ele continua a ser o mesmo Senhor que controla o mundo e todos os acontecimentos que nele se desenrolam. Esta é, sem dúvida, a razão pela qual Deus, começa por se apresentar como “Jahweh dos exércitos, o Deus de Israel” (v.4).

Ele queria que o povo soubesse que continuava a ser dele o trono que governa o mundo e dirige o curso da História. Portanto, não havia razão para o desespero, para o desânimo. Nada estava acabado; a história de amor entre Deus e o Seu povo ainda não tinha chegado ao fim.

Para provar que o Seu coração ainda pulsava pelo bem-estar da Sua amada, Deus revela o Seu estado emocional, dizendo que os pensamentos (planos ou projectos) acerca desses homens e mulheres, no exílio, ainda continuavam a ser de “paz e não de mal”. Quer dizer que, apesar das circunstâncias de desprezo e de humilhação (pelo abandono da terra natal), a presente condição na qual viviam, fazia parte de um processo pedagógico, cujo fim culminaria com o regresso certo à sua terra natal (v.10).

Portanto, a realização do seu maior sonho, era algo que ocupava os pensamentos do bom Deus. Ele estava pronto a dar-lhes “o fim que esperavam”.

Que diante de circunstâncias adversas, de dificuldades ou de dor, as palavras desta carta, cheia de esperança, nos sirvam de bálsamo e de estímulo para que não desfaleçamos no nosso ânimo, mesmo quando tudo nos pareça sem solução e as nossas forças nos pareçam fracas demais para continuarmos a caminhar no trilho da nossa peregrinação terrena.

Que as nossas mentes sejam constantemente estimuladas pela verdade incontestável de que Deus, o Todo-poderoso, o grande “Eu Sou”, continua a dirigir as nossas vidas e a cuidar de nós, onde quer que seja e em que circunstância for, cientes de que, no fim, tudo contribuirá para o nosso bem e para a exaltação do Seu santo nome. Soli Deo Gloria!  
                                                         

Pr. Samuel Quimputo
Boletim 116
26 de Junho 2011


A DEIDADE E A HUMANIDADE DE CRISTO

No nosso estudo sobre a doutrina da encarnação, abordámos alguns pontos importantes e que esclarecem o que a encarnação é e o que não é. No seu nascimento virginal, a criança que Maria deu à luz era o próprio Filho eterno de Deus, preexistente mas que adquiriu uma segunda natureza, que é humana.

A Bíblia afirma que o Senhor Jesus, o menino nascido em Belém, é divino. A verdade acerca da Sua divindade (ou deidade) preenche as páginas das Escrituras.

Em primeiro lugar, convém enfatizar o facto de que alguns nomes divinos Lhe são atribuídos, o que subentende, claramente, a Sua deidade. Entre eles constam os seguintes títulos:

Filho de Deus – por cerca de quarenta vezes Ele é chamado de Filho de Deus, isto é, o Unigénito do Deus Pai, partilhando da mesma natureza do Pai (João 1: 18).

O Princípio e o Fim – Esses termos expressam a ideia da deidade, visto que, não existe nada antes do começo e depois do fim a não ser o próprio Deus, que tudo criou e integrou dentro do tempo (Apocalipse 1: 17). Ele é o “Santo” e o “Justo”, por excelência (Actos 3: 14).

O Senhor – centenas de vezes, no Novo Testamento, Ele é chamado de “Senhor”, termo usado, com frequência, como o equivalente de “Jeová” ou “Yahweh”, no Velho Testamento. Ele é o “Senhor da glória” (I Coríntios 2: 8 cf. Salmo 24 – Rei da glória).

Deus – o Seu nome “Emanuel” significa “Deus connosco”. Ele é o próprio Deus Filho que veio para habitar entre nós (Mateus 1:23). Tomé chamou-o “Deus” (João 20: 28). Ele é o Grande Deus e Salvador (Tito 2: 13) e Deus bendito (Romanos 9: 5).

Para além dos nomes divinos que Lhe são conferidos, há também atributos divinos que Lhe são atribuídos.

Omnipotência – Em Hebreus 1: 3 nos é dito que “Ele sustenta todas as coisas pela palavra do Seu poder”. Paulo diz-nos em I Coríntios 15: 27 que Ele domina sobre tudo.

OmnisciênciaJoão 2: 24, 25 refere-se ao facto de que o Senhor Jesus sabia tudo o que estava no interior do homem, conhecendo e desvendando os pensamentos ainda não expressos verbalmente.

Omnipresença – A presença do Senhor Jesus abrangente e preenche todo o espaço de adoração (Mateus 18: 20; 28: 20). Ele podia estar na terra enquanto se referia à Sua presença simultânea no céu (João 3: 13; Efésios 1: 23).

Eternidade – A Sua eternidade e imutabilidade são claramente confirmadas nas páginas das Escrituras Sagradas (João 1: 1; Hebreus 13:8). Ele é preexistente (João 17: 5; Filipenses 2:6; Colossonses 1: 17; 2:9).

Da mesma forma, a Bíblia atribui ao Senhor Jesus funções divinas, tais como:

CriaçãoJoão 1:3; Colossenses 1:16, 17; Hebreus 1: 3, 10;

Perdão de pecadosMarcos 2: 5;

Autoridade sobre a morteJoão 6: 39 – 44; Filipenses 3: 21;

Julgamento (juízo) – João 5: 22,23; Actos 17: 31; 2 Timóteo 4: 1;

Conceder vidaJoão 10: 28; 17:2.

Ele é honrado e adorado como o é o Pai – Mateus 28: 9; Lucas 24:52; I Cor. 1: 2; Actos 7: 59; João 5: 23; Filipenses 2: 10.

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul e Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).

Pastor Samuel Quimputo

A DOUTRINA DA ENCARNAÇÃO

A doutrina bíblica da pessoa do nosso Senhor Jesus, que estudámos recentemente, está intimamente ligada à da Sua encarnação. A compreensão clara e cuidada do ensino acerca da encarnação proporcionar-nos-á um melhor entendimento da nossa salvação e de tudo o que esteve envolvido no processo da sua concretização na história, visto que “a nossa salvação e o nosso destino eterno dependem da nossa relação com o Senhor Jesus Cristo”. Só este facto é, em si mesmo, suficiente para que nos interessemos no esclarecimento das nossas mentes quanto a esta questão fundamental da fé cristã.
Contudo, é de extrema importância estabelecer alguns pontos de apoio para uma melhor compreensão das verdades bíblicas que abordam o tema da encarnação.
1. As doutrinas da Pessoa do Senhor Jesus e a da sua encarnação revelam-nos a extrema importância da doutrina da Trindade.
Toda a posição da fé cristã assenta-se, de certo modo, na aceitação da doutrina da santíssima Trindade. Não crer nesta doutrina revela a impossibilidade de se ser cristão. Quem não crê na doutrina da Trindade (isto é, na existência de Deus em três Pessoas distintas, mas unas) não pode ser, de facto, um cristão bíblico.
2. A doutrina da encarnação não ensina que o eterno Deus triúno Se fez carne, mas afirma que a segunda Pessoa da Trindade Se fez carne.
Esta distinção é fundamental para uma melhor compreensão do papel das três Pessoas divinas envolvidas no grande plano da nossa salvação. É o Verbo que se fez carne (João 1: 14), isto é, o Deus-Filho que se fez carne e habitou entre nós. É unicamente a segunda Pessoa da Trindade que se encarnou, nascendo como um ser humano real. Afirmar, de um modo não definido, que Deus se fez homem pode conduzir ao engano.
3. A doutrina da encarnação não afirma que a segunda Pessoa da Trindade assumiu uma mera aparência ou forma humana. Foi, sim, uma genuína encarnação; o que significa que Ele realmente veio em carne (1 João 4: 2).
A razão para esta ênfase assenta-se no facto de que, desde os primeiros anos da Igreja Cristã houve pessoas que caíram nesse erro. Por exemplo, os gnósticos afirmavam que o Senhor Jesus tinha uma mera aparência humana, uma espécie de corpo fantasmagórico. O que, de facto, a Bíblia diz é que o Verbo se fez carne e habitou entre nós (como um tabernáculo ou uma tenda).
4. A doutrina da encarnação não diz, simplesmente, que a natureza divina, de alguma maneira, se uniu à natureza humana, formando, assim, uma pessoa.
Não é isso que as Escrituras ensinam. O que Elas ensinam é que foi a segunda Pessoa da Trindade, preexistente, se fez carne, adquirindo uma nova natureza, a humana. O que significa que não se formou uma nova pessoa ou uma nova personalidade. Não! Foi a eterna Pessoa da Trindade que tomou a natureza humana. A doutrina da encarnação não ensina a criação de uma nova pessoa. É o Verbo preexistente que tomou para Si mesmo a carne e apareceu neste mundo em semelhança do homem.

5. A doutrina da encarnação não ensina (nem sugere) que, de certa forma, uma mudança ocorreu na personalidade do Filho de Deus.
O estado e a forma em que Ele apareceu, foram diferentes. Contudo, não houve mudança em Sua personalidade. Ele foi e continua a ser a mesma Pessoa. Mesmo no ventre de Maria, Ele continuava a ser a mesma Pessoa, o mesmo Filho de Deus (Lucas 1:35). É esse mesmo Filho que tomou para Si a natureza humana, da semente de Abraão, por intermédio de Maria (Hebreus 2: 16).

Textos bíblicos de apoio:
(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul e Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).

Pastor Samuel Quimputo

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