Um Povo Com Identidade


Um dos aspetos que diferencia a fé    bíblica das demais realidades religiosas é, sem dúvida, o seu embasamento histórico. Todo o enquadramento histórico do relato bíblico, com o envolvimento de sucessivas civilizações, de reis e reinos, de povos e nações, ao longo de séculos, confirma o seu carácter singular, em que o sobrenatural invade e penetra o tempo e o espaço, dirigindo os acontecimentos que, sem interrupção, se vão sucedendo.

Esta abordagem histórica, que envolve tensões, relacionamentos e dramas humanos, faz com que  a fé bíblica seja uma experiência essencialmente prática, e não um mero exercício contemplativo (ou místico)  que se esgota em meditações de busca de equilíbrio interior.

Uma verdadeira experiência bíblica de fé evidencia-se nas opções feitas e em decisões tomadas nas interações do dia a dia, onde o amor a Deus e ao próximo deve constituir o parâmetro pelo qual tudo  é analisado.

A salvação, portanto, deve ser encarada como uma operação de origem (e de carácter) sobrenatural, realizada pelo próprio Deus no âmago do ser humano, mas que implica uma experiência dinâmica e real de vida, que envolve todas as dimensões da personalidade, incluindo uma nova  e renovada perspetiva a partir da qual se avaliam todos os relacionamentos interpessoais.

É neste sentido que entendemos os constantes apelos feitos pelos escritores bíblicos às igrejas às quais dirigiram os seus escritos, desafiando os seus destinatários a demonstrarem, em termos práticos, e por meio de atitudes, comportamentos, ações e escolhas, a realidade e a eficácia da mudança (radical) ocorrida no interior do seu ser.

Por outras palavras, o desafio bíblico (aqui expresso por Paulo) encontra a sua versão mais acurada nas palavras de Tiago, que considera a falta de (boas) obras na vida de alguém como uma clara evidência de uma fé vaga, inconsequente e morta, que se circunscreve a um assentimento mental teórico e infrutífero, que não passa de uma simples confissão de fé (Tiago 2:14,17-20,26, cf. Tito 2:14; 3:8).

O desafio de Paulo, no nosso texto em análise, vai no sentido de que os crentes que constituíam a igreja em Éfeso deveriam andar (agir, proceder, comportar-se) de acordo com os valores da nova fé que tinham abraçado.

Ao dizer “...que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados”, Paulo, numa abordagem de grande sensibilidade pastoral, quis estimular os efésios ( e a todos os que são eficazmente chamados pelo Espírito Santo) a desenvolver um estilo de vida coerente com a sua fé, e a evitar qualquer espécie de “esquizofrenia existencial” reveladora de uma religiosidade defeituosa, que só confunde e é prejudicial.

No seio da igreja, onde impera uma  variedade de personalidades, de pontos de vista e de preferências, a coerência de vida deve ser nutrida pelas virtudes tais como: humildade (simplicidade assumida), mansidão (modéstia que se autorregula) e longanimidade (uma elasticidade de alma).

O exercício destas virtudes provocará, no seio da igreja, uma capacidade de apoio mútuo que, sob o alicerce do amor, fará com que a paz reine entre os irmãos, e a unidade seja mais e mais mantida e consolidada.

Que o Senhor permita que esta experiência seja uma realidade na vida de cada uma de nós. Soli Deo Gloria!   

Pr. Samuel Quimputo
set 2017

ENVIADOS PELO SENHOR

O Deus revelado nas Sagradas Escrituras é, em termos históricos e teológicos, um Deus missionário, cujo relacionamento com a sua criação é também marcadamente missionário.

Antes da encarnação do seu Filho, muitas vezes, e de variadas formas, Ele se deu a conhecer através de sonhos e visões, de manifestações da sua presença gloriosa, falando de forma audível e comissionando muitos dos seus servos (por acharem graça aos seus olhos) a cumprirem a sua vontade, e isto, por meio de pronunciamentos proféticos.

Além dos humanos, os anjos também, com frequência, eram enviados pelo Senhor, como ministros seus, incumbidos de revelar os seus desígnios e instruir os homens nos (e acerca dos) caminhos daquele que é o Criador e condutor de todo o curso da História.
Nas suas muitas e variadas formas de se relacionar com o mundo, e em especial com os homens, a sua veia missionária sempre foi evidente. E, na plenitude do tempo, de modo sublime, singular e sem precedentes, Deus, o Pai, enviou o seu Filho, como seu grande apóstolo e legítimo representante (Hebreus 3:1), que, por meio da encarnação, assumiu a identidade daqueles que tinham sido criados à imagem do Criador.
Essa decisão do Deus triúno, tomada desde a eternidade, mas executada no tempo, sempre esteve na base da motivação, do ministério e dos atos do Senhor Jesus.
A encarnação do Filho de Deus é, portanto, a clara evidência da assunção, por parte do Pai, da sua visão missionária. É a prova cabal de que o nosso Deus é um Criador que se relaciona com a sua criação e, também, aquele que se compraz em enviar servos seus para executarem a sua vontade.
Consciente de ter sido enviado pelo Pai, ao longo de cerca de três anos, o Senhor Jesus preparou um grupo de seguidores (discípulos), de modo a, por sua vez, os enviar como seus representantes, na proclamação das boas-novas da salvação, no anúncio da chegada do Reino de Deus e na inauguração da nova era.
“Assim como o Pai me enviou”, disse Ele, “também eu vos envio a vós”.
Contudo, este envio não viria a acontecer antes que o coração dos discípulos estivesse “inundado” de paz. 
“Paz seja convosco!”, saúda-os o Senhor ressuscitado. E é esta paz, proveniente do Príncipe da Paz (Isaías 9:6) que, com a presença e capacitação do Espírito Santo, fará com que os enviados sejam qualificados para “invadir” o mundo dominado e cheio de homens escravizados pelo “príncipe deste mundo”, a saber, o Diabo.

De um modo lato e genérico, todos os crentes em Jesus são comissionados a fazer discípulos de todas as nações, por meio do anúncio do evangelho e do exercício do amor sacrificial, que caracteriza homens e mulheres alcançados pela maravilhosa graça de Deus.

Revestidos do poder do Espírito Santo e cheios da paz que vem do Príncipe da Paz e movidos por um amor capaz de dar e de se dar aos outros, assumamos a magna incumbência de sermos agentes desse Deus missionário, participando resoluta e ativamente na Sua grande missão de salvação, restauração e renovação da Sua criação que vive em agonia atroz, presa nos laços do maligno e que clama por libertação.

Que o Senhor de toda a graça nos habilite nesta desafiadora mas honrosa tarefa de sermos os seus “enviados” e anunciadores da paz de Deus, que nasce da paz com Deus. 

Soli Deo Gloria!

Pr Samuel Quimputo
julho 2017

...Vigilantes e Empenhados...

Pr Samuel Quimputo
30 julho 2017

Vidas Perfumadas

Sair das grandes cidades para os campos, em plena primavera, é experimentar uma das sensações mais extraordinárias de variedade de aromas exalados pelas flores que enchem a atmosfera campestre com o seu perfume e cheiro agradável.

Depois de apresentar um quadro pesado e triste, relacionado com a atitude menos cordial da igreja em Corinto, e de manifestar a sua inquietação e apreensão pela ausência de Tito e pelo desconhecimento do seu paradeiro, Paulo passa, de forma brusca e repentina, para uma atitude de alegria e de gratidão a Deus, apesar da realidade menos animadora da vida dos crentes daquela igreja.

O apóstolo dá graças a Deus, o Pai, que, por meio do grande comandante -Jesus Cristo-, conduz Paulo e os seus companheiros (e a todos os seus servos) a uma vida de triunfo. 

Apropriando-se da imagem de uma marcha (ou procissão) militar que ocorria quando o exército romano entrava em Roma, depois de uma conquista bélica, conduzindo, acorrentados, os inimigos derrotados e capturados vivos e cujo intenso cheiro de ervas aromáticas e de incenso se espalhava pelo recinto, exalando a sua fragrância típica, preanunciando o reconhecimento da bravura dos vencedores e, ao mesmo tempo, a morte certa dos vencidos (a não ser que o imperador demonstrasse misericórdia,  poupando-os da pena máxima), Paulo, considerando-se um conquistado por Cristo e um servo do grande general, afirma que, à medida que ele e todos os crentes, comprados pelo sangue de Jesus, vão vivendo e anunciando a mensagem do evangelho, vão também, e ao mesmo tempo, espalhando o bom cheiro de Cristo.

É mister notar o facto de que a fonte  donde todo o perfume se exala é Cristo. A vida, a experiência e o testemunho dos crentes, conquistados pelo poder redentor de Jesus, devem refletir o carácter e a beleza do Senhor, de quem receberam poder e graça suficientes, que os capacita a fazer Cristo conhecido num mundo carente de orientação e de sentido, e  que desconhece o verdadeiro propósito da sua existência.

Segundo Paulo, o cheiro de Cristo deve ser exalado “em todo o lugar”, o que significa que onde quer que estejam os crentes e quaisquer que sejam as circunstâncias em que se encontrem, é necessário que Cristo seja visto através da vida daqueles que professam conhecê-lo e partilham a  sua intimidade com Ele.
Que neste período de férias, em que muitos estarão  fora do seu “habitat natural”, as nossas vidas e o nosso testemunho demonstrem a graça e a beleza de Cristo. Que as palavras que saírem da nossa boca proporcionem um profundo alívio àqueles que nos ouvem e connosco partilham as suas inseguranças.

Que cada um de nós seja usado como um vaso de bênçãos e um depósito da fragrância de Cristo, pronto a exalar o agradável aroma da santidade e do amor que só podem ser encontrados naquele que é, por excelência, a fonte primária de todo o bem. Soli Deo Gloria!   

Pr. Samuel Quimputo
in Boletim julho 2017


Dia dos Pastores




fotos Avelina Menezes
escolha das flores: Zita Urbano
 ano 2017

Discípulos de Um Só Mestre

Mesmo que não lhe tenha sido reconhecido nenhum preparo formal aos pés de algum mestre judeu, ou que tenha frequentado alguma escola rabínica do seu tempo, o Senhor Jesus era popularmente considerado um verdadeiro “Rabi”, isto é, Mestre.

Não houve ninguém que com ele se tenha cruzado ou que o tenha ouvido  ensinar que duvidasse da sua evidente e inegável mestria. As palavras que saíam dos seus lábios eram revestidas de uma sabedoria tal, que não deixavam ninguém indiferente. Mesmo os seus mais acérrimos opositores ficavam, não poucas vezes, emudecidos diante daquele cujo discurso era caraterizado por uma autoridade singular, que ultrapassava a dos fariseus e dos escribas, embora exalasse, ao mesmo tempo e de modo paradoxal, graça, bondade e compaixão.

A consequência lógica do reconhecimento da sua mestria era o número cada vez mais alargado de seguidores que ingressavam na sua “escola”, e que se consideravam seus discípulos.

Embora nem todos os que se intitulavam  “discípulos” o fossem de facto, e por motivações corretas, contudo, aqueles que verdadeiramente criam ser ele o Messias de Deus, que havia de vir ao mundo, eram considerados irmãos, logo, discípulos do único Mestre que os havia convencido pela verdade que proclamava, com discursos penetrantes e que denunciavam os males do coração humano (Mateus 23:8,10).

É na qualidade de discípulos que os crentes que nele confiavam foram comissionados a sair da sua zona de conforto, a ultrapassar as barreiras do comodismo e da indiferença e a levar a mensagem da salvação aos demais seres humanos, que jaziam nas densas trevas espirituais e que careciam do amor sacrificial que abraça, acolhe, ilumina e liberta.

Antes de deixar este mundo, o Senhor Jesus, em ato de despedida, ordenou aos seus discípulos o “fazer discípulos” em todas as nações, querendo isso dizer que  a incumbência de proclamar o evangelho  envolvia não só o anúncio das boas-novas, mas também o acompanhamento necessário dos que aceitassem a fé, de modo que fossem ajudados a crescer na graça e no conhecimento daquele que é o “novo” Senhor das suas vidas.

Ananias, enviado para ser o agente divino da “conversão” e do batismo de Saulo, foi identificado como “discípulo” de Cristo (Atos 9:10). Após o seu batismo, Saulo permaneceu por alguns dias em Damasco, na companhia de crentes que Lucas identifica como “discípulos” (Atos 9:19).

Este aspeto enfatizado por Lucas tem como objetivo destacar o princípio de que todos os seguidores de Jesus estão debaixo da sua liderança e do seu ensino. E, embora haja entre si estágios diferentes  no crescimento espiritual, todos os crentes pertencem à mesma escola que os prepara para a tarefa de levar e fazer conhecido o nome do Senhor aos que ainda estão perdidos.

Essa nobre missão, de resultados e consequências eternas, implica, por parte dos que são escolhidos, um compromisso radical e uma predisposição em sofrer as consequências inerentes ao facto de a proclamação do evangelho de Jesus ser feita com a Bíblia na mão e a “cruz às costas”.

Saulo foi agraciado por Deus para ser um instrumento (ou vaso) útil, a fim de levar a todos o nome, diga-se autoridade, daquele que antes perseguia. Contudo, essa bênção envolvia, igualmente, a realidade do quanto iria sofrer no decorrer do cumprimento da sua missão.

Que o Senhor nos dê uma melhor compreensão da nossa missão neste mundo, e desperte em cada um de nós a consciência de que  só há um Mestre, e que todos somos meros discípulos ao serviço desse Mestre sem igual. 

Soli Deo Gloria!   

Pr. Samuel Quimputo
Boletim junho 2017


Somos Uma Família, Sim!


Com muita frequência, quando se quer reivindicar a igualdade entre todas as pessoas, ou quando se quer denunciar (com certo grau de indignação) a injustiça do infortúnio que atinge  uns e não  outros, é comum usar-se a expressão popular: “todos somos filhos de Deus”.

Embora tal expressão seja usada como um simples dito proverbial, muitos acreditam que é verdadeira e, com base nessa crença, acabam por atribuir-lhe uma carga teológica que defende (e assegura) a paternidade divina de todos os seres humanos.

Infelizmente, essa verdade aparente é alimentada, com algum certo populismo à mistura, por muitos teólogos que não suportam (nem toleram) o claro ensino das Escrituras que afirma que, sendo os seres humanos criaturas de Deus, e nele encontrem a sua origem, sendo Ele o único Criador, não obstante, nem todos pertencem à Sua esfera familiar.

Aliás, esta distinção é a razão do plano redentor divino e, consequentemente, a causa do imperativo missionário que comissiona todos os salvos e os impulsiona a serem testemunhas do Senhor Jesus e proclamadores das boas-novas da salvação a todos aqueles que ainda não fazem parte do “agregado familiar” divino.

A linguagem que caracteriza a narrativa bíblica, no que diz respeito ao relacionamento de Deus com o seu povo, é uma das metáforas que traduz, de forma bem peculiar, o ambiente de amor e de afetos no qual homens e mulheres gozam as benesses da nova vida em Cristo.

Paulo, ao escrever a uma das igrejas mais influentes do seu ministério apostólico, maioritariamente gentílica, embora contivesse um grande número de crentes judeus, partilha com eles o mistério que lhe tinha sido revelado pelo Senhor, e que diz respeito à unidade espiritual entre judeus e gentios, e faz de ambos os grupos  herdeiros coiguais das bênçãos do reino.

À medida que ia desenvolvendo a sua cristologia, destacando de forma sublime a obra realizada no Calvário e a subsequente (e não menos relevante) vitória sobre a morte, Paulo conclui que Cristo, por meio da sua vinda ao mundo e por tudo o que fez em favor, e no lugar, de judeus e de gentios, trouxe uma mensagem de paz.

Essa paz tem duas vertentes: a que reconcilia o Homem pecador, morto em seus delitos e pecados, com Deus, o Criador que se torna seu Pai, e a paz que promove e estabelece a reconciliação entre os homens, independentemente da etnia, raça, nacionalidade, género ou estatuto social.

É com base nesse mistério revelado que Paulo vai afirmar categoricamente  que os gentios crentes em Cristo já não são “estrangeiros nem peregrinos”, isto é, sem família espiritual e sem terra própria, mas sim, incorporados na família espiritual de Deus.

Na qualidade de filhos adotivos de Deus, os crentes em Cristo pertencem à família divina e devem viver dentro dos parâmetros de um ambiente familiar saudável, onde cada membro faz o usufruto das “regalias” da mesma e se compromete a cumprir todos os requisitos necessários para o funcionamento equilibrado do “agregado familiar” e da manutenção de relacionamentos que promovam a edificação do corpo.

Aplicando o ensino de Paulo à nossa realidade eclesiástica, concluímos que, dentro da igreja local, que é a expressão real e visível da Igreja planetária, os crentes devem viver e adorar em família, devem   exercitar e desenvolver os seus dons espirituais em família, devem resolver os seus diferendos em família, onde cada um dos membros se comprometa a participar ativamente na construção de um ambiente familiar saudável que favoreça o crescimento na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo (2 Pedro 3:18).  Soli Deo Gloria!
   
Pr. Samuel Quimputo
maio 2017, no Boletim


O NOSSO REDENTOR VIVE!

A saída dos israelitas do Egito foi um evento profundamente dramático, assinalado com a celebração da páscoa, uma refeição singular, precedente de um ritual que envolveu derramamento de sangue e morte.

As pragas infligidas aos egípcios, antes da páscoa propriamente dita, eram mais que simples expressão de castigo divino que caiu sobre os opressores do povo “santo”, por meio de quem o Deus de Abraão abençoaria todas as nações da terra.

Elas significam, também, a demonstração da supremacia do Senhor do Universo diante dos deuses egípcios, uma realidade que prova o facto de que a libertação dos hebreus, iniciada com a celebração da Páscoa, representava o início (ou a ratificação) de uma relação de aliança entre Yahweh e os descendentes de Abraão.

Segundo Paulo, é na pessoa de Cristo que o cumprimento cabal das promessas feitas a Abraão se concretiza (Gálatas 3:16). Ele é o verdadeiro Filho, por seu intermédio  Israel  renovaria (e cumpriria) a sua missão sacerdotal de ser luz para as nações. É por meio da sua obra redentora e do poder transformador do Espírito Santo que Israel é capacitado a levar as Boas Novas da salvação aos demais povos.

Essa obra salvadora só seria possível e realizável através da morte (necessária) do Messias de Deus, visto que tanto judeus como gentios padeciam da mesma enfermidade fatal, que os tinha afetado desde a desobediência do seu pai federal - Adão.

Na qualidade de representante e substituto da raça humana, Cristo tinha que assumir a sua culpa e arcar com as consequências da mesma. A morte é a punição devida à desobediência aos mandamentos do santo e soberano Deus (Génesis 2:17).

Assim como o sangue do cordeiro pascal, colocado nas ombreiras e nas vergas das portas serviu de sinal para a preservação da vida dos primogénitos abrigados nas respetivas casas (Êxodo 12:7,13), assim também o sangue do Cordeiro de Deus é o preço pago em favor daqueles que se abrigam à sombra da cruz do Calvário.

Para que pecadores e culpados fossem perdoados e considerados “inocentes”, era necessário que alguém sem pecado, sem culpa própria e inocente, assumisse, voluntariamente, o seu lugar.

Portanto, inevitavelmente, Cristo devia provar o amargor da morte. Contudo, a morte do Ungido de Deus não foi a última experiência da sua história terrena. A vitória da morte sobre o Justo foi de pouca dura. O fogo de artifício do reino do mal durou poucas horas. As hostes do maligno cedo viram a sua alegria a transformar-se em pranto.

Na manhã do terceiro dia, o poder da morte seria heroicamente subjugado! A feiura da morte seria vencida pelo poder do bem e da vida. Os grilhões do reino da morte seriam despedaçados e reduzidos a nada. A vida ressurreta do Filho do Homem emergiria, esmagando a cabeça da Serpente. E, finalmente, homens e mulheres escravizados pelo medo da morte podiam nutrir uma nova esperança de um futuro glorioso.

O Senhor Jesus relembra os seus discípulos do facto de que as Escrituras Sagradas (o Antigo Testamento) já traçavam o itinerário da via dolorosa, que culminaria com a saída triunfal do Cristo Vencedor da tumba. 

“Se Cristo não ressuscitou”, afirmou Paulo, “é vã a nossa pregação” e a nossa fé é sem fundamento! (1 Coríntios 15: 14, 17).

Graças a Deus, Ele ressuscitou, tragando a morte com a vitória do império da luz. (1 Coríntios 15: 20, 54).

Embora os efeitos da morte ainda afetem a nossa experiência de vida, aqui e agora, a ressurreição do Senhor Jesus garante-nos a vitória da vida sobre a morte.

Celebremos, pois, com fé, coragem e gratidão a vitória do nosso Comandante, por meio de quem “somos mais que vencedores”. 
Soli Deo Gloria! 

Pr. Samuel Quimputo
abril 2017

MORDOMOS CONFIÁVEIS

A nossa experiência de vida, como seres humanos criados à imagem de Deus e responsáveis pelo cuidado e domínio do resto da criação, encontra a sua realização no ambiente e no envolvimento social, onde cada um interage com os demais, numa relação de interdependência e de mutualismo funcional e de convivência.

A integração na “família da fé” faz com que esta realidade social seja ainda mais significativa e notória, pelo facto de que o próprio espaço de convívio cristão, pela sua natureza essencialmente comunitária, acaba por se revelar propício para o exercício do amor abnegado e da generosidade contagiante.

Na parte final da sua epístola às igrejas da Galácia, Paulo exorta os crentes a viverem,   de modo prático, a nova realidade (de vida) que lhes foi outorgada em Cristo, provando, assim, a veracidade da sua fé por meio de atitudes, de decisões tomadas no dia-a-dia e de atos concretos que provam a vitalidade e a relevância da sua fé.

Ao fazê-lo, o Apóstolo dos gentios, socorreu-se de um método pedagógico muito apreciado entre os rabinos, conhecido como a “regra” ou o “princípio da sementeira”, que estabelece a correspondência e a relação de proporcionalidade entre o ato (ou atividade) de semear e os resultados da colheita.

Entre outras recomendações feitas por Paulo aos gálatas encontra-se a de “não se cansarem de fazer o bem”. A formulação negativa da frase revela e intensifica o pensamento do Apóstolo, que procura incentivar os irmãos da Galácia a perseverarem em fazer o bem (como quem semeia) para que, diz ele, a seu tempo colham os benefícios do seu investimento.

O tempo verbal usado na afirmação (ou exortação) sugere que esta atitude deve ser contínua e constante.

Na sua vivência diária, instrui Paulo, todas as oportunidades que se lhes apresentassem deviam ser aproveitadas para a prática do bem a todos, sem, contudo, ignorar o estabelecimento das prioridades.

Nessa atitude beneficente, os irmãos na fé, ou usando os termos do próprio Paulo, “os domésticos da fé” deviam ser os primeiros a serem contemplados e favorecidos.

O ensino bíblico mostra-nos, do princípio ao fim, que o nosso papel neste mundo é o de sermos mordomos ou “vice-gerentes” de Deus, o Criador do universo. Aliás, em termos teológicos, esta função de governar a terra, sob a supervisão divina, é a que potencia a nossa qualidade de “imagem de Deus” (Génesis 1: 26-28).

Tendo como base o nosso pepel de mordomos do mundo criado (em especial, no cuidado da terra), a nossa responsabilidade consiste em tratar da melhor forma o meio ambiente do qual fazemos parte, extrair (de um modo equilibrado) os recursos necessários para a  continuidade da nossa existência e, por fim, em partilhar com os nossos semelhantes, de forma altruísta e generosamente, os resultados do nosso empreendimento, suprindo, deste modo,  as suas necessidades básicas.

Para cada um de nós, crentes em Jesus e objetos da maravilhosa graça de Deus, o desafio torna-se ainda mais relevante e pertinente, visto que o exercício do bem é um imperativo a ser materializado, tendo em conta, não apenas o bem proporcionado a outros, mas também a garantia da recompensa que aguarda aqueles que “semeiam o bem”.

Que o Senhor nos sensibilize (com incómodo, se necessário for), de modo a desempenharmos da melhor maneira a nossa função de mordomos confiáveis, responsáveis por gerir, com sabedoria, os bens que nos foram incumbidos gerir.
Que cada um de nós se empenhe, com toda a diligência, na benigna missão de praticar e promover o bem, de suprir as necessidades dos mais carenciados e de “semear” o amor ao próximo, contribuindo, assim, para o engrandecimento do nome do Senhor Jesus e para a expansão do Reino “daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. 

Soli Deo Gloria! 

Pastor Samuel Quimputo
março 2017

Instruídos e Edificados na Palavra


Segundo a narrativa inicial da Bíblia, que nos conta a história da criação do Homem, à imagem do seu Criador, a harmonia existente entre Deus e a coroa da sua engenhosa obra era completa, e abrangia todas as dimensões da personalidade humana: física, psíquica e espiritual.

Tudo era vivido numa relação de proximidade com o divino que se refletia no relacionamento entre os cônjuges do primeiro casal.

Desafortunadamente, o pecado entrou em ação, com as suas consequências nefastas, trazendo desobediência, desarmonia, vergonha e dor, e, por fim, a morte.

Um dos elementos que sempre esteve (e continua a estar) na causa da desavença entre Deus e a sua nobre criação é a centralidade da sua Palavra. A aceitação, ou não, dos pronunciamentos divinos seria o elemento avaliador do grau de relacionamento entre o Homem e o seu bondoso Criador, visto que, em certo sentido, eles são a extensão objetiva do Seu carácter e da Sua vontade.

A comunicação com a Sua criação sempre foi mediada pela palavra proclamada. E o pecado, que veio de fora, entrou e reinou no coração do Homem (primeiro de Eva e depois de Adão) precisamente quando, por astúcia e pura maldade, Satanás o persuadiu a duvidar da “palavra divina”, pondo em causa não só a validade da mesma, mas também o carácter do próprio Deus.

Ao longo da História da humanidade decaída, e gravemente afetada pelas degradáveis consequências do pecado original, Deus continuou (e continua) a falar por meio da própria criação (embora deformada em relação à sua beleza inicial), de experiências pessoais (mesmo que algumas delas sejam de difícil interpretação) e, de um modo mais seguro e objetivo, por meio da sua Palavra escrita, que estabelece a regra infalível com base na qual tudo deve ser avaliado e balizado.

A pertinente profecia de Isaías, que se inicia com o lamento divino pela infidelidade do seu povo, seguida de uma mensagem de esperança que no futuro trará alegria não só a Israel, mas também a outras nações, abre um novo capítulo na vida do povo da aliança.

Por meio de Isaías, Deus preanuncia que, no futuro, muitos desejarão subir ao monte de Sião (nome poético de Jerusalém), à casa do Deus de Jacó.
Esse ardente desejo de se achegarem ao coração da espiritualidade de Israel deve-se a duas razões:

Primeiro, os povos iriam para serem ensinados. É o desejo de instrução nos caminhos do Senhor que serviria de motivação para a peregrinação a Jerusalém. Para essas nações, Sião era o lugar de aprendizagem das diretrizes necessárias para a vida.

Em segundo lugar, e como resultado do ensino recebido, as nações sabiam que a sua conduta, isto é, o seu comportamento diário, seria profundamente moldado ao carácter e à vontade do próprio Autor da lei.

É a presença e o ensino da Palavra de Deus, contida na Arca da Aliança, que faz de Sião um lugar atraente para as multidões.

A centralidade da Palavra de Deus na vida do povo era (e é) determinante na compreensão da vontade divina e na tomada de decisões importantes que a vida nos coloca e, não menos importante, no crescimento equilibrado da experiência de fé.

Hoje, não existe a necessidade das nações afluírem a Jerusalém a fim de serem instruídas. A Palavra de Deus “saiu da Arca da Aliança” e da terra de Israel, invadindo as nações, tornando possível a sua leitura e o seu ensino nos púlpitos e, maravilhosa e graciosamente, nos recintos públicos e nas casas dos fiéis.

A Educação Teológica deve ser estimulada e apoiada. A familiaridade com a Palavra de Deus deve caracterizar a experiência de cada filho de Deus, a fim de estar preparado para responder a todo aquele que lhe pedir a razão da esperança que nele há.

Que o Deus da Palavra, que na sua graça nos outorgou o seu Livro de orientações para a vida e para o conhecimento do seu maravilhoso plano de salvação, coloque em nós o ardente desejo de buscar a Lei do Senhor, cimentando, por meio dela, as nossas convicções e os alicerces da nossa fé. 

Soli Deo Gloria! 

Pr Samuel Quimputo
Boletim de fev 2017

Um Povo Marcado Pela Graça


Mais um ano chegou ao fim e outro entrou em ação há meia dúzia de dias, numa sequência repetitiva de dias, de semanas, de meses e de estações do ano, embora este, como todos os outros, traga novos e diferentes desafios a cada um de nós. 

O que muda, garantidamente, é o facto de que, independentemente do estrato social a que pertençamos, ou do credo religioso que defendamos, todos ficamos um pouco mais velhos, o que por si só, e em condições normais, deveria tornar-nos um pouco mais maduros e responsáveis na assunção dos nossos compromissos pessoais, familiares, sociais e espirituais. 

Para nós, filhos de Deus, e constituintes da Igreja do Senhor Jesus, o novo ano que agora começa, com todas as incertezas, próprias de um futuro que não somos capazes de prever, com exactidão, muito menos de controlar com os recursos ao nosso alcance, traz consigo enormes (mas também estimulantes) desafios para o nosso ambiente eclesiástico, onde cada um é incentivado a envolver-se, com toda a diligência, na promoção do bem comum. 

Todos somos desafiados a usar, com sabedoria, os dons que o Espírito Santo colocou ao nosso dispor, a fim de contribuir para a edificação do corpo (a igreja local). Entre outras instruções dadas pelo apóstolo Paulo aos membros da Igreja em Éfeso, retiramos uma que nos parece relevante e pertinente, neste início do novo ano civil, de modo a servir-nos de ponto de partida para os embates futuros que se avizinham. 

Paulo desafia os efésios a serem “benignos” uns para com os outros, num envolvimento de prática recíproca e reiterada. 

“Benignidade” é a ternura de coração que leva alguém a agir, motivado pelo bem, de modo a “beneficiar” o outro, ou, como diz, e bem, o grande teólogo William Barclay, “a disposição mental que pensa nos interesses do próximo, como o faz com os seus próprios”. Significa que cada um de nós, com os olhos postos na edificação do corpo de Cristo, deve, com empenho e abnegação, comprometer-se a ser usado como um “vaso útil” nas mãos do bom Deus e Pai, agindo com uma predisposição mental altruísta, que vê o outro como “um potencial membro da família a ser ajudado a crescer” e a ganhar maturidade para, por meio dela, servir da melhor maneira a causa do Reino. 

Essa atitude deve ser acompanhada de condescendência em relação àqueles que apresentam fragilidades (dificuldades ou debilidades) no seu crescimento espiritual. A compaixão deve ser exercida numa atitude de “identificação auxiliadora” por parte daquele que procura ajudar o outro a continuar a sua caminhada, cujo objetivo é o de levantar o caído, segurando-o pelas mãos. 

O fundamento de todo o ensino de Paulo aos efésios (e a todos nós) encontra-se no próprio carácter de Deus. Ele é benigno e compassivo na forma como lida connosco e nos trata, apesar das nossas fragilidades e imperfeições. 

“Perdoando-vos uns aos outros” diz Paulo, para completar a sua exortação. Literalmente, o verbo usado por ele significa “agir com graça” ou “tratar graciosamente”, querendo dizer com isso que, um coração benigno e compassivo levará, necessariamente, o irmão a olhar para os outros (sobretudo os que apresentam debilidades no seu crescimento) de modo gracioso, favorecendo-os com a sua ajuda e assistência. 

Não é por acaso que, logo a seguir (no início do capítulo cinco), Paulo acrescenta que os efésios deviam ser “imitadores de Deus” no exercício do seu dom de amor. Os filhos imitam os pais. Os filhos de Deus devem imitar o carácter do seu benigno, compassivo e gracioso Pai. 

Com o desafio de Paulo aos efésios em mente, encaremos este novo ano com confiança, com entrega e com um ardente desejo de sermos “úteis” nas mãos do nosso Deus e “bênçãos” para os demais irmãos que connosco percorrem a cainhada da fé. 

Que o Senhor derrame sobre cada um de nós a sua maravilhosa graça. 

Soli Deo Gloria! 
 Pr. Samuel Quimputo
Boletim jan 2017

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