A Criação

Todas as coisas têm um início no tempo e no espaço. Cada um de nós teve um início; as nossas casas, carros, naves, roupas, etc. tudo teve o seu momento inicial. Houve um tempo que estes corpos não existiam.
Pelo facto de estarmos cercados por coisas que tiveram início, somos tentados a concluir que tudo teve um início. Obviamente que tal conclusão pode nos conduzir a uma avaliação errada da realidade, e pode traduzir-se num salto no abismo do absurdo, visto que se esta conclusão fosse correcta, seria uma sentença de morte para a religião (e para a fé cristã), para a ciência e para a própria razão.
Afirmar que todas as coisas tiveram um início no tempo e no espaço, não significa que tudo teve um início, de maneira nenhuma. Em termos lógicos e científicos é simplesmente impossível que todas as coisas tenham um início, visto que, se tudo o que existe teve início, então teria havido um tempo em que nada existia.
Não se pode imaginar a existência do nada. Não podemos nem mesmo conceber a existência do absolutamente nada, já que o próprio conceito é a pura negação da existência de alguma coisa. O nada é diametralmente o oposto de alguma coisa.
Se houve tempo em que não havia nada, então hoje deveria continuar não haver algo, por uma simples razão de que, não se pode obter algo a partir do nada.
Uma lei absoluta da ciência e da lógica diz que ex nihilo nihil fit, quer dizer, “a partir do nada, nada procede”. O nada não pode produzir coisa alguma. O nada não possui nenhum poder porque não tem existência. Para que alguma coisa procedesse no nada, ela teria de possuir o poder de criação própria; teria de ser capaz de produzir a sua própria existência. Para que alguma coisa criasse ou produzisse a si próprio teria de ser antes de existir. Entretanto, se algo já existe, não tem a necessidade de ser criado.
Concluímos, pois, que se as coisas existem hoje, então de alguma maneira, em algum lugar, algo não teve início.
A famosa teoria de que o Universo é o resultado de uma ‘série infinita de causas finitas’ defendida por Bertrand Russell, pode negar a lei de que nada procede do nada, mas não pode refutá-la sem cometer suicídio mental. É preciso que tenha havido algo antes do começo temporal de tudo. O que ou Quem seria? Esta é a grande questão.
A Bíblia responde com a existência de um Ser Transcendente, isto é, alguém que está acima e além do Universo, alguém que deu início a tudo o que existe. Alguém que pertence a uma ordem mais elevada do que os outros seres. E esse ser é Deus, o Supremo Criador, que não teve início. Quando tudo começou, alguém esteve presente (Génesis 1:1). Este texto é fundamental para todo o pensamento cristão. “Antes que existisse algo, existiu alguém”. “No princípio…Deus”. Ele é a Causa não causada de tudo o que existe.
A obra da criação é da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo (Génesis 1:1,2; Isaías 40: 13; João 1:3; I Coríntios 8:6; Colossenses 1:16). Deus fez tudo a partir do nada (Colossenses 1:17).


Textos de apoio: Génesis 1; Sal. 33:9; Salmos 104:24 – 26; Jeremias 10:1.16; Hebreus 11:3

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R. C. Sproul; Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones; Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).
estudo elaborado por: Pastor Samuel Quimputo

OS DECRETOS ETERNOS DE DEUS

Começamos os nossos estudos com a doutrina da Revelação nas suas diversas formas. Falamos do seu aspecto geral, assim como do específico. Abordámos a questão da Bíblia e da sua relação com a revelação especial de Deus. Analisámos os requisitos usados na elaboração do Cânon do Novo Testamento. Tratámos da questão da interpretação bíblica, sobretudo, no que diz respeito ao estudo pessoal das Escrituras. Abordámos as vantagens e as desvantagens (ou perigos) da interpretação demasiadamente individualista e subjectiva.
Passámos, depois, a analisar as doutrinas acerca de Deus, dos Seus atributos incomunicáveis e comunicáveis. Esperava-se que, depois da doutrina acerca de Deus, passássemos para a doutrina da Criação. Contudo, não teríamos uma compreensão mais abrangente sobre a Criação, sem antes focalizarmos a nossa atenção no complexo tema dos Decretos divinos.
Esta doutrina aborda a questão acerca de Deus, antes mesmo de ter criado algo, isto é, antes de Deus ter criado o mundo e o Homem. Houve um momento em que Ele ponderou, intentou e determinou certas coisas, assim como um projectista elabora o plano, antes de iniciar a obra.
Esta doutrina (difícil, mas fundamental) é frequentemente evitada. Contudo, somos recomendados a estudar e a expor a Bíblia na sua totalidade. É fundamental, visto que a Bíblia menciona a verdade de que “certas coisas foram decididas na mente e no conselho eternos de Deus, antes que Ele fizesse qualquer coisa no âmbito da Criação”.
Para entendermos o que a Bíblia ensina acerca desta grandiosa doutrina, devemos elaborar, com base bíblica, alguns princípios orientadores.
Salientamos, ainda, o facto de que, a dificuldade que encontramos quando estudamos algumas porções das Escrituras, não deve ser motivo para nos afastarmos delas ou de as ignorarmos, fazendo de contas que elas não existem.
Um dos grandes males (ou dificuldade) do cristianismo actual e da evangelização contemporânea é o facto de que, não dedicamos tempo suficiente com a doutrina a respeito de Deus. Este facto é de suma importância, visto que quanto mais conhecermos a verdade sobre Deus e a Sua infinita grandeza, mais a nossa alma sente a sua pequenez e se curva em adoração do grande e soberano Eu Sou.
As grandes doutrinas, tais como a Trindade, a Encarnação, ou o Nascimento Virginal revelam a nossa limitação e fraqueza mental. Estas verdades estão além da nossa capacidade de raciocínio, contudo, e por serem bíblicas, devem estimular-nos a nos sentirmos como crianças, dependentes do auxílio dos adultos. Vamos, então, com humildade e sem preconceitos, estudarmos o que a infalível Palavra de Deus nos ensina acerca desta augusta doutrina. Eis os princípios fundamentais (seguindo a sequência lógica sugerida por D. Martyn Lloyd-Jones):

1. Desde a eternidade Deus tem um plano imutável em relação às Suas criaturas (Efésios 1:4; Gálatas 4:4)
Significa que Deus jamais faz algo com indiferença; nada é incerto, acidental, casual ou fortuito em Suas actividades. Tudo o que Deus faz está de acordo com o Seu próprio plano eterno. Ele nunca perdeu o controlo sobre a obra de Suas mãos.

2. O plano de Deus abarca e determina todas as coisas e todos os eventos, de toda espécie, que acontecem.
Significa que, se Ele determinou certos fins, então Ele determina, também, tudo o que conduz a esses fins, isto é, os meios pelos quais os fins são atingidos. Isto inclui, necessariamente, as acções livres e voluntárias dos agentes livres e voluntários (Provérbios 16: 33; 21:1; Mateus 10: 29, 30; Efésios 1:10,11; 2:10; Filipenses 2:13).
Desse maneira, Deus governa, controla e determina os eventos que aparentam aos nossos olhos ser totalmente fortuitos (Provérbios 16:33).

3. As acções pecaminosas estão nas mãos de Deus e debaixo da Sua permissão.
Embora Deus não sejam o Autor ou a causa do mal, nem seja a origem do pecado, de modo algum, Ele, porém, “permite que os agentes perversos o realizem, e então o administra para Seus próprios fins sábios e santos”. Isto é, o mesmo decreto de Deus que ordena a Lei moral, que proíbe e pune o pecado, também permite a sua ocorrência. (Génesis 45: 8; 50: 20; Actos 2:23; 4:27,28). Há na vontade de Deus dois aspectos, distintos mas complementares, que são: o decretório e o permissivo. (a continuar)

4. Todos os decretos de Deus são incondicionais e soberanos.
Quer dizer que eles não dependem, em nenhum sentido, das acções humanas. Os decretos de Deus não são, de modo nenhum, determinados à luz do que Ele sabe que as pessoas irão fazer. Eles são absolutamente incondicionais e dependem, somente, da própria vontade e da própria santidade de Deus. Isto não significa que não exista a realidade de causa e efeito que se verificam na vida. Existem as chamadas acções condicionais ou causas secundárias.
O que a doutrina afirma, porém, é que cada causa e efeito, bem como as acções espontâneas, são componentes do decreto do próprio Deus. Quer dizer que Ele determinou agir daquela forma particular, com a fim de realizar a Sua santa vontade.
Deus decretou que o fim que Ele tem em vista será cumprido inevitavelmente, isto é, que nada poderá impedir o seu cumprimento, frustrá-lo ou mesmo questiona-lo (Daniel 4:35; Mateus 11: 25,26). A Sua vontade é soberana (Efésios 1:5). O Senhor sabe o que faz e fá-lo com toda a liberdade (Romanos 9:11, 13, 15-18).

5. Os decretos de Deus são eficazes.
Sendo Ele o Senhor soberano, necessariamente, e em virtude da Sua omnipotência e da Sua grandeza, os Seus propósitos jamais podem fracassar. Ele cumpre o que decretou. Ele realiza o que prometeu. O Seu plano será plenamente cumprido.

6. Os decretos de Deus são em todos os aspectos, perfeitamente consistentes com a Sua própria natureza sábia, benevolente e santa.
Isto, obviamente, significa que não há em Deus nenhuma contradição. Ele é perfeito e a Sua perfeição é absoluta. Nenhum aspecto da Sua natureza apresenta debilidade.
Apesar de existirem algumas contradições aparentes (isto é, paradoxais) em nossa mente finita, de uma coisa podemos estar certos e que devemos sempre ter em conta, é que Deus jamais é a causa do pecado. A Sua natureza é infinitamente pura e santa (Habacuque 1:13; Tiago 1:13).
É preciso salientar, também, que o propósito de Deus é, em todas as coisas, perfeitamente consistente com a natureza e o modo de agir das Suas criaturas. Há uma conciliação final entre os decretos de Deus e a existência de agentes livres e das acções livres.
Apesar de conceder liberdade às Suas criaturas, não obstante, Ele governa tudo a fim de que os Seus fins determinados possam ser concretizados.
A pergunta que se coloca, portanto, é: como pode Deus decretar tudo e ainda mantermo-nos responsáveis pelo que fazemos? Só existe uma resposta: Romanos 9:20-23. Mas, como podemos conciliar as duas realidades? Racionalmente não podemos. Contudo, está bem claro que a Bíblia afirma as duas coisas. Existe o Homem, como um agente livre, e, por sua vez, existe a verdade de que os decretos eternos de Deus governam todas as coisas, pois Ele é tudo em todos.

7. A salvação dos homens e das mulheres (e a preservação de alguns dos anjos) foi determinada por Deus antes da fundação do mundo.
Ele faz isso de acordo com o Seu beneplácito e com a Sua graça (Mateus 11: 25-26; João 6: 37, 44; Actos 13:48; 2 Tessalonicenses 2:13; 2 Timóteo 1:9).
A nossa tendência em racionalizar tudo (embora a própria razão não seja capaz de fazê-lo) leva-nos sempre a tentar encontrar explicações da parte de Deus acerca da lógica do funcionamento da nossa débil, enferma e limitada mente (Romanos 9:19). Muitos, na tentativa de encontrar uma justificação racional, que defenda a liberdade humana, chegam mesmo ao ponto de acusar Deus de injusto, como se esta atitude mudasse a natureza pura, santa e perfeita de Deus.
Contudo, a verdade bíblica afirma que, se somos filhos de Deus é por que Ele assim o determinou, e o que Ele determinou a nosso respeito é indiscutível, seguro e certo. Eis a razão da segurança que temos acerca da eficácia da nossa salvação. Se a nossa salvação não estiver inteiramente nas mãos de Deus, então, não podemos afirmar, com convicção, que somos filhos de Deus e que temos a vida eterna.
Temos que aceitar as verdades bíblicas com humildade, inundando os nossos corações com elevado senso de gratidão àquele que nos remiu e nos amou, antes mesmo de O termos conhecido (Romanos 5: 8-10), cujo Cordeiro, morto em nosso lugar, foi preparado antes da fundação do mundo (Apocalipse 13: 8; 17: 8).


(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R. C. Sproul; Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones; Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).

A Pessoa do Senhor Jesus Cristo

Todos os verdadeiros cristãos concordariam com a afirmação de que a pessoa do Senhor Jesus Cristo é central e o mais extraordinário facto na história da redenção. Todos os outros aspectos históricos, por muito importantes que sejam, não alcançarão a estupenda dimensão deste facto. Tão extraordinário que ele é, tornou o nosso cálculo histórico (e cronológico) divisível em antes de Cristo (a.C) e depois de Cristo (d.C). A encarnação é, indubitavelmente, o evento central e singular de todo o percurso histórico.
A fé cristã, diferentemente de outras crenças (ou religiões), não pode existir (e subsistir) sem a Pessoa “incontornável” do Senhor Jesus. Ele é absolutamente vital.
A prova da verdadeira fé cristã em cada ser humano reside (e evidencia-se) no facto da pessoa do Senhor Jesus ser, em termos absolutos, essencial para si. A fé cristã não pode existir em alguém em quem o Senhor Jesus não seja essencial. “Ela (a fé) está inteiramente voltada para Ele, para quem Ele é, para o que Ele tem feito e para o que tornou válido e possível para nós” (Lloyd-Jones).
Em certa medida, existe uma espécie de intolerância acerca da fé cristã, isto é, algum aspecto em que não pode haver cedência doutrinária, no que diz respeito aos fundamentos da fé cristã autêntica. Paulo provou este facto em Gálatas 1: 8,9. Tal como fez Paulo, cada cristão sincero, honesto e evangélico deve proceder da mesma forma. Uma atitude diferente e opcional seria uma traição declarada para com Aquele que deu a Sua vida, para tornar possível a salvação ao ser humano perdido e alienado do seu Deus (Actos 4: 12).
Quando alguém afirma que crê em Cristo, temos o dever (amoroso) de averiguar o que a pessoa sabe acerca daquilo que o próprio Senhor Jesus diz sobre Si. Ele disse e fez coisas que devem ser levadas em conta. Tudo foi registado para levar, não a um mero conhecimento intelectual ou admiração mas, à fé (João 20: 31).
Embora a encarnação seja um mistério insondável (por causa da nossa limitada capacidade de compreensão), a Bíblia, graças a Deus, não nos deixa um vazio (1 Timóteo 3:16). Nela encontramos matéria suficiente para nos levar à fé e à obediência. A Doutrina (ou ensino), portanto, é de extrema importância. Ela deve anteceder a conduta e deve regulá-la. A piedade sem entendimento é vaga e não passa de uma religiosidade vulgar, uma espécie de zelo oco e fanático (Romanos 10: 2), que leva, necessariamente, à auto justificação e à rejeição da verdadeira justiça que vem do Deus misericordioso e compassivo (Romanos 10: 3), que justifica o pecador, em Cristo Jesus, mediante a fé (Romanos 10: 4).
A fé cristã baseia-se em factos históricos que podem ser explicados com entendimento. Embora a fé esteja para além do âmbito da razão, elas não contrárias; apenas pertencem a dimensões diferentes. Portanto, o propósito (ou a razão de ser) da fé pode ser explicado com entendimento (IPedro 3: 15).
Podemos, assim, afirmar que o Senhor Jesus Cristo é o cumprimento de todas as profecias e de todas as promessas do Velho Testamento (2 Coríntios 1:20). Ele é, essencialmente, o cumprimento da promessa feita em Génesis 3: 15 e em Génesis 17: 10, 19, facto este confirmado em Gálatas 3:16.
A vinda do Senhor Jesus ao mundo, por meio da encarnação, trouxe glória ao templo reconstruído por Herodes (Ageu2:9); enviou João Baptista para preparar o Seu caminho (Malaquias 3:1); nasceu exactamente no lugar indicado pelos profetas (Miquéias5:2); veio da linhagem da tribo de Judá, como profetizado séculos antes (Jeremias 23: 5,6); o Seu nascimento teve lugar por intermédio de uma virgem (Isaías7:14).

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul, Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd, Teologia Sistemática de Wayne Gruden, Comentário de Génesis de Derek Kidner).

Textos de apoio: João 3: 16; Hebreus 1: 1,2; 3: 5, 6; 9: 10-12
Pastor Samuel Quimputo

A BONDADE DE DEUS

A Doutrina da Bondade de Deus aponta-nos para o carácter e para o “comportamento” divinos, cujo elemento essencial é a perfeição.
Por ser Deus recto, essencialmente puro e sem arbitrariedades nem ambiguidades, a Sua bondade pode ser definida como “aquela perfeição que O induz a tratar generosamente e de uma maneira benevolente todas as Suas criaturas” (Salmo 145:9; Romanos 11:22).
A bondade de Deus está intimamente ligada ao Seu amor. Se, por um lado, o Seu amor é aquele atributo pelo qual Ele é eternamente movido a comunicar-se com as Suas criaturas morais, a Sua bondade, por outro, é a expressão perfeita desse amor.
Diferentemente das criaturas decaídas, não existe em Deus qualquer mal. Nada pode manchar o Seu carácter nem contaminar as Suas motivações. As trevas são contrárias ao Seu carácter (Tiago 1:17). Nele tudo é puro e perfeito.
Quando as Escrituras mencionam a bondade de Deus, elas se referem não somente à sua abrangência, mas também à sua consistência; isto é, Deus é total e consistentemente Bom. Este facto leva-nos à conclusão de que Ele “não pode ser outra coisa senão ser bom”.
A perfeição da Sua Lei reflecte a Sua bondade. Ele não obedece a uma Lei cósmica fora de Si mesmo. Ele obedece uma Lei que é a Lei do Seu próprio carácter. A Sua Lei é eterna, imutável e intrinsecamente boa (Tiago 1:17).
A Verdade acerca da Bondade de Deus leva-nos, forçosamente, a um dos versículos mais conhecidos e citados das Escrituras, que é Romanos 8: 28. Este versículo revela a profundidade da providência divina. Ele prova o absoluto controlo que Deus exerce sobre a Sua criação, especialmente em Seu cuidado pelo bem-estar dos Seus redimidos.
Se Deus é intrinsecamente bom e capaz de fazer com que tudo funcione para o nosso bem, em última análise, tudo o que nos acontece, apesar da nossa compreensão parcial e limitada, deve ser considerado positivo e benéfico.
Significa que, no plano terrestre, as coisas podem, de facto, ser ruins (mesmo sem chamar o mal de bem nem o bem de mal), ainda assim, Deus em Sua bondade transcende todas essas coisas e age nelas e por meio delas para o nosso bem. Portanto, para o cristão, em última instância, não existem tragédias. “No final, a providência de Deus opera em todos esses males que estão próximos de nós, para o nosso benefício”.
Quando compreendemos a bondade de Deus, a nossa confiança nele cresce, visto que sendo Bom, Ele fará tudo para o nosso bem-estar espiritual.
Aquele que não poupou o Seu Filho Unigénito, por causa do Seu grande amor por nós, não permitirá que algo que seja prejudicial ao nosso crescimento espiritual invada o nosso ser. Devemos compreender (e aceitar) que até as coisas menos boas servem para cumprir o propósito divino em nós.
Ele é a perfeição de toda a noção do Bem. Ele é o Supremo Bem, por excelência! Ele é Bom e age com Bondade. Ele é fiel em Seu amor e no cumprimento das Sua promessas. Louvemos o Seu santo Nome. Amém!

Textos de apoio: Êxodo 34: 6,7; Salmo 25: 8 – 10; Salmo 100:1-5; Tiago 1:17

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C. Sproul e Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).

A JUSTIÇA DE DEUS

Depois de termos estudado acerca da Santidade de Deus, passamos, agora a reflectir sobre um outro atributo moral que, naturalmente, vem a seguir, que é a Justiça ou Rectidão de Deus.
Justiça é uma palavra que ouvimos com frequência. Ela é usada, basicamente, nos relacionamentos interpessoais: nas convenções sociais, em relação à legislação, nos veredictos pronunciados nos tribunais, etc.
Embora seja uma palavra comum e de uso quotidiano, ela é uma palavra que deixa muita gente perplexa quando tenta defini-la. Às vezes ela é conectada com aquilo que é conquistado ou merecido. Por exemplo, é comum falarmos de pessoas que receberam aquilo que mereciam, em termos de recompensa ou de punição. Contudo, as recompensas nem sempre são baseadas nos méritos.
Na tentativa de se encontrar um significado mais adequado ao conceito de justiça, Aristóteles definiu a justiça como “dar a uma pessoa aquilo que lhe é devido”. E, como sabemos, o que é ‘devido’ pode ser determinado por obrigações éticas ou por acordo preestabelecido. Por exemplo, se uma pessoa recebe uma punição mais severa do que o seu crime merece, tal punição é injusta. De igual modo, se alguém recebe uma recompensa inferior à que merece, a recompensa é injusta.
Assim sendo, a Justiça de Deus deve ser entendida como a manifestação da Sua santidade para connosco; isto é, aquela qualidade existente em Deus, que O leva a fazer sempre o que é certo (ou recto). De uma forma negativa, podemos definir a justiça divina como uma qualidade (ou um atributo) que torna Deus incapaz de fazer algo que seja errado. A justeza do Seu ser e dos Seus actos é inerente à Sua natureza santa e justa.
A Rectidão e a Justiça de Deus são, por assim dizer, “a Sua santidade em acção e a expressão dessa mesma santidade no governo do mundo e de todas as Suas criaturas.
A Rectidão de Deus é a demonstração da Sua Santidade legislativa, isto é, da sua santidade judicial (ou legal).
Se a Rectidão de Deus expressa o Seu amor pela Sua santidade, então, a Sua justiça é a Sua abominação pelo pecado (João 3:36; Efésios 2:3). Pelo facto de ser Santo, Deus rejeita (e de distancia de) tudo o que é contrário à Sua natureza.
Diante desta realidade, surgem algumas questões fundamentais:
1ª Qual é, então, a relação entre a justiça de Deus e a Sua misericórdia?
2ª Como é que a graça e a misericórdia de Deus se enquadram na Sua infalível justiça?
Como a Bíblia ensina, a graça e a misericórdia de Deus são sempre voluntárias. Quer dizer, Deus exerce-as sem que do lado dos beneficiários (humanos) haja qualquer espécie de mérito ou de causas que exijam uma recompensa. Tanto a graça, assim como a misericórdia de Deus são fruto do Seu beneplácito (ou livre vontade) (Romanos 9:15).
Esta verdade leva-nos à conclusão de que, diante do Deus Justo nada é meritório da nossa parte. Ele é justamente soberano para agir com cada uma das Suas criaturas como lhe apraz. Quando Deus perdoa uma pessoa e não outra, Ele não é obrigado a fazê-lo.
A Misericórdia e a Graça de Deus são formas de “não justiça”, mas não são actos de injustiça. Tanto a graça, assim como a misericórdia de Deus não são exigidas. Elas devem ser suplicadas, visto que só serão exercidas pela livre e soberana vontade do Deus justo (Génesis 18:25; Ezequiel 18:4; Romanos 9:14).
É importante salientar que a Justiça de Deus não se manifesta somente na Sua ira. Ele revela as mesmas qualidades quando aplica o perdão pelos nossos pecados (Romanos 3: 25; I João 1:9).
A rectidão e a justiça de Deus manifestam-se na manutenção e preservação da Sua Palavra ou seja e no exercício da Sua fidelidade.
Embora o exercício da justiça divina não seja fruto do mérito humano, Deus, por causa da Sua graça, recompensa os justos (2 Timóteo 4:8). Isto é, pelo facto de ser um Justo Juiz, Ele, através dos méritos do Seu Cristo, terá em conta a obediência daqueles que por Si foram chamados. A fidelidade e o serviço cristãos serão recompensados.
Como crentes no Senhor Jesus, devemos descansar da justiça de Deus, confiando nas fiéis promessas do Seu amor e perdão.

Textos de apoio: Génesis 18:25; Êxodo 34: 6,7; Neemias 9: 32,33; Salmo 145:7; Romanos 9: 14-33

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C. Sproul e Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).

O PACTO DA GRAÇA NO NOVO TESTAMENTO

Um estudo cuidadoso da Bíblia mostra que, o pacto da graça é o mesmo, tanto no Antigo assim como no Novo Testamentos. É correcto, porém, afirmar que ele foi administrado ou dispensado de duas formas – a antiga e a nova dispensações.
Este pacto foi delineado logo no princípio, em Génesis 3: 15, e entregue de forma clara e proposicional a Abraão, em Génesis 17.
Como já vimos, Deus fez outros pactos “subsidiários” em relação a nação de Israel; contudo, devemos ser cuidadosos e enfatizar o facto de que “nenhum desses pactos adicionais interfere, desvia, ou mesmo interrompe o pacto da graça firmado com Abraão”. Convém afirmar, com toda força, que sem esse pacto não haveria esperança para nós. Ele estabelece a base da nossa aceitação perante o Criador.
A Nova dispensação ou melhor, a nova administração do mesmo pacto da graça, mantém o mesmo propósito inicial de Deus, que era (e é) conduzir-nos de volta ao conhecimento da Sua Pessoa, numa relação de amor. E tudo isso foi realizado, de facto, através da obra do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Mais uma vez afirmamos que, apesar deste pacto se chamar de “novo”, por causa da nova abordagem ou administração, ele continua a ser o mesmo estabelecido na “antiga” dispensação (Génesis 17: 8). O único alvo, nas duas administrações, é sempre o relacionamento com Deus (Sal. 51: 10,12). O Tipo e o género da benção a ser buscada é a mesma, tanto no Velho quanto no Novo.
Além disso, a Bíblia ensina de forma clara que “só há um evangelho”, bem latente no Velho Testamento e nitidamente patente no Novo (Gálatas 3: 8). A prova disso é que “os santos do Velho Testamento vivem agora no reino de Deus exactamente da mesma forma que nós hoje, e participam connosco das mesmas bençãos divinas” (Lucas 13: 28). Paulo destaca a unidade do povo de Deus de todos os tempos (Romanos 11: 5, 16-18, 24). Ele prova que a “antiga e a nova economias, pertencem, ambas, à mesma árvore”, formando “ um só reino, um só pacto da graça, uma só salvação” (Gálatas 3: 14, 29).
A mesma verdade encontra-se incluída em Efésios 2: 11–13, onde os gentios “chegaram perto” do pacto da graça e se tornaram participantes da promessa (Efésios 3: 6 cf. Hebreus 6: 12,13; 11: 39,40).
Outra evidência é o facto de que, segundo as Escrituras, “só há um único meio de obter a salvação e todas as bençãos, e esse é o caminho da fé”. Os santos do Velho testamento criam, explicitamente, em Deus e nele exerceram a sua fé, fizeram desta o seu modo de vida (Habacuque 2:4, cf. Romanos 1: 17; 4: 23-25). O cristão recebe a justificação pela fé tal como Abraão a recebeu. Nas duas dispensações há um único Mediador, que é o Senhor Jesus (Apocalipse 13: 8). A antiga aliança da graça já apontava para Cristo, o Único Mediador entre Deus e os homens (João 5: 39, 46; 8: 56; Hebreus 9: 15), em cujo Nome há perdão dos pecados (Actos 10: 43; Romanos 3: 25).
Uma das grandes diferenças é que, no Velho Testamento, a verdade acerca do Senhor Jesus era caracterizada pelos “tipos e sombras, presságios e alusões, os quais constituíam a forma que a promessa assumia na primeira dispensação”. Nesse sentido, a Antiga Aliança foi mediada através dos servos Abraão e Moisés; mas a Nova Aliança foi mediada pelo Filho (Hebreus 3: 5,6). Na pessoa do Filho a revelação tornou-se mais clara, por meio da encarnação (Hebreus 1: 1–3; 9: 10-12).
A outra diferença entre as duas administrações reside no facto de que a antiga destinava-se a um só povo, embora o alcance final fosse universal. E isso por que a antiga dispensação era de carácter preparatório, enquanto que a nova é final.
Concluímos, pois, que a diferença entre ambas as dispensações pode ser comparada àquela entre uma criança e um adulto, embora em ambos os casos, ele continue sendo filho (Hebreus 11: 40).
Portanto, devemos enfatizar a realidade de que há tão-somente um pacto da graça, e todo ele concentra-se em torno do Senhor Jesus. O Antigo Testamento apontava para Ele e o Novo revela-o, exibindo a sua gloriosa pessoa, na qualidade de Filho do Homem encarnado.


(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul, Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd, Teologia Sistemática de Wayne Gruden, Comentário de Génesis de Derek Kidner).
Pastor Samuel Quimputo

O PACTO DA GRAÇA NO VELHO TESTAMENTO

(Hebreus 1: 1,2)
O Homem foi criado perfeito e sem pecado. Mas tendo falhado em guardar a lei e o mandamento de Deus, caiu em pecado, tornando-se escravo de Satanás, o que resultou na sua morte espiritual ou insensibilidade para com o seu Criador (Efésios 2: 1-3). A verdade bíblica é a de que, se ele fosse deixado à sua mercê, a sua condição transformar-se-ia mais e mais num quadro de total desespero. Contudo, pela Sua infinita graça, amor e misericórdia, Deus condescendeu-se e buscou o homem com compaixão, informando-o do Seu grande plano de salvação.
Deus revelou-se ao homem através de um pacto, conhecido como o Pacto de redenção ou o Pacto de salvação.
Esta realidade mostra-nos o facto de “a estrutura básica do relacionamento que Deus estabeleceu o seu povo é a aliança” ou o pacto.

A Natureza de Um Pacto
Embora, de um modo geral, uma aliança seja entendida como um contrato, existem algumas diferenças entre elas. Ambos são acordos obrigatórios. Os contratos são feitos a partir de posições de pesos relativamente equilibradas e iguais. Em certo sentido, uma aliança também é um acordo, embora não envolva partes, necessariamente, iguais.
Contudo, na Bíblia, as alianças geralmente não são entre partes iguais. O padrão comum seguido é o do antigo Médio Oriente, semelhante aos tratados estabelecidos entre suseranos e vassalos (ex. entre os reis hititas), que eram firmados entre um rei vencedor e outro vencido, cujos elementos eram, com base em Êxodo 20, os seguintes:
- O preâmbulo, que relacionava as duas partes (v. 2);
- O prólogo histórico, que provava o que o suserano tinha feito para merecer a lealdade exigida (v. 2);
- As estipulações, que representavam as exigências do dominador sobre os dominados (vv. 3-17), isto é, as condições da própria aliança (v23);
- Os juramentos ou votos, que constituíam as promessas que obrigavam as partes aos termos (vv. 22-24);
- As sanções, isto é, as recompensas ou as punições (bençãos/maldições) resultantes da obediência ou violação da aliança;
- A ratificação, que representava a selagem da aliança (ex. Génesis 15) que, geralmente, era celebrada por meio do sacrifício de um animal (Génesis 17).
Assim sendo, podemos definir o Pacto como sendo “uma aliança ou um acordo que é assumido por duas partes, sendo essas duas partes, geralmente, mais ou menos de posição igual”.
Contudo, quando Deus faz um pacto com um homem, não há dois participantes em igualdade de circunstâncias; neste caso é Deus que está a conferir o Seu pacto ao homem. Ele não tinha necessidade de fazê-lo. Simplesmente resolve fazê-lo por causa da Sua livre e boa vontade, comprometendo-se a ser “o seu Deus”, numa relação outrora quebrada por Adão, por causa do pecado (Êxodo 6: 7; Jeremias 31: 33; 32:38-40; Apocalipse 21:3).
Como o primeiro pacto foi violado, o pacto original das obras, estabelecido com Adão, Deus fez um novo pacto, que se chama de Pacto da Graça que se encontra em Génesis 3: 15, onde o Evangelho é prefigurado numa espécie de prenúncio das boas-novas.
A Razão disso é que, o único pacto das obras estabelecido entre Deus e a humanidade, no qual exigiu perfeita e total obediência ao Seu governo, foi violado. Todos os seres humanos, desde Adão até ao dia de hoje, estão debaixo desse pacto. Um único pecado foi suficiente para violá-lo. Adão violou-o (Gálatas 3: 10 -14).
O único ser humano que o cumpriu e obedeceu na íntegra foi Jesus. A sua acção, como segundo Adão, satisfaz todos os termos da nossa aliança original com Deus. O Seu mérito em satisfazer as suas exigências, faz dele o único meio através do qual todos os seres humanos entrariam no céu e beneficiariam da comunhão com Deus (Romanos 5: 12-14).
Assim, Jesus é a primeira (e única) pessoa humana a entrar no céu pelas suas boas obras. Todos os outros seres humanos entram no céu, na vida de comunhão com Deus, através das boas obras, isto é, das boas obras de Jesus, mediante a fé Nele e na Sua obra, realizada na cruz do Calvário (Romanos 10: 5-13).


(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul, Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd, Teologia Sistemática de Wayne Gruden, Comentário de Génesis de Derek Kidner).

Textos de apoio: Génesis 15; Êxodo 20; Jeremias 31:31-34; Lucas 22:20; Hebreus 8; 13: 20, 21
Pastor Samuel Quimputo