A IMAGEM DE DEUS NO HOMEM

Depois de nos debruçarmos sobre a doutrina do Homem, onde abordámos questões tais como: a sua origem, a sua singularidade em relação ao resto da criação, a sua humanidade caracterizada pela consciência própria, pela liberdade moral, pela elaboração de pensamentos abstractos e pela capacidade de possuir religião e de prestar culto. Falámos, também, da sua perfeição original, assim como da unidade de toda a raça humana, confirmada pelas tradições comuns, tais como a Queda e o Dilúvio e pela Filologia, que desvenda as afinidades entre as línguas.
A constituição do ser humano é integral, embora haja evidências nas Escrituras sobre as diferentes partes que compõem a sua pessoa (1 Tessalonicenses 5 :23; Hebreus 4: 12).
Agora, passamos a abordar a importantíssima questão da Imagem de Deus implantada no Homem. Reflectiremos sobre as implicações no entendimento e na compreensão da Antropologia bíblica e na valorização da doutrina da Salvação (a Soteriologia).
A doutrina da Imagem de Deus no Homem é basilar para a compreensão de toda a Antropologia bíblica. “Não podemos explicar o mundo e o que estamos a fazer nele, a menos que estejamos esclarecidos sobre a nossa origem, a nossa natureza e o nosso ser essenciais”. Só um entendimento correcto sobre a imagem de Deus no Homem pode nos capacitar a discernir o ensino acerca da humanidade do Senhor Jesus e da Cristologia em geral. O que Ele fez por nós torna-se relevante em nossas mentes quando compreendemos a posição em que nos colocou, depois de termos sido salvos. E para isso, devemos desenvolver o interesse pela “psicologia bíblica”, visto que, toda verdade sobre a nossa salvação passa, necessariamente, pelo entendimento de quem é o Homem.
Assim, a primeira questão a ser abordada é a seguinte: Qual é o significado das expressões “imagem” e “semelhança”?
Em primeiro lugar, não há diferença real de significado entre “imagem” e “semelhança”. Ambos os termos são cambiáveis. Eles significam a mesma coisa, dependendo da ênfase que é dada no contexto em que aparecem.
Convém salientar que a questão da imagem de Deus no Homem revela a grandiosidade do Homem no plano da criação divina. É neste ponto que reside o grande erro da Humanidade, e de um modo particular, da Sociedade actual visto que, contraditoriamente, ao tentar exaltar o ser humano, rebaixa-o com a sua doutrina (a Teoria da Evolução). Esta Teoria é um insulto à grandeza e à dignidade que a Bíblia coloca sobre o Homem.
O termo “imagem” ou “semelhança” transmitem-nos a ideia de um espelho e de um reflexo (ex. 2 Coríntios 3:18). Sermos feitos à imagem de Deus significa sermos uma espécie de reflector de Deus, a saber, uma “espécie de reflector de algo da própria glória divina. Essa é a ideia essencial.
Em segundo lugar, convém notarmos que o termo “imagem” é usado antes e depois da Queda do Homem. Quer isto dizer que, a imagem de Deus no Homem não foi inteira e totalmente perdida quando Adão e Eva pecaram e caíram. Há teorias que defendem que a imagem foi perdida na queda e que, só mediante a redenção (pelo novo nascimento) é que ela é restituída.
Contudo, as Escrituras, como iremos provar, confirmam o contrário, e mostram que a posição do salvo é mais elevada em relação à do Homem, antes da queda.
É verdade o facto de que, quando o Homem caiu, perdeu algo da sua imagem. Entretanto, não perdeu toda a dimensão da mesma. Algo essencial à imagem ainda permanece.
Em terceiro lugar, é um engano definir a imagem original de Deus no Homem em termos do que nos é dito sobre o homem regenerado.
Este princípio esclarece a confusão que se gera quando se tenta equiparar a regeneração à imagem original implantada no Homem. O que aconteceu na regeneração não se restringe ao regresso ao estado original; ultrapassa a realidade anterior à queda (Romanos 5:20).
A salvação, a redenção e a regeneração colocam-nos a um nível superior e mais elevado do que o original em que se encontravam Adão e Eva.
Em Quarto lugar, há uma diferença entre o homem como criado no princípio por Deus e a natureza humana do Senhor Jesus Cristo. Esta diferença reside no facto de que, o Senhor Jesus é “a expressa imagem da pessoa de Deus”. Todo o brilho da glória divina encontra-se nele, realidade esta que não pode ser contemplada no homem.
Contudo, tendo em conta a verdade acerca da imagem divina no homem, podemos dizer que, ele é uma espécie de cópia criada. Cristo é a imagem real e essencial do próprio Deus.
Ainda no que diz respeito à imagem de Deus no homem, há dois elementos importantes a ter em conta: a imagem natural e a imagem espiritual. Isso pode ser definido da seguinte forma: “a imagem consiste da natureza intelectual e moral do homem, bem como da sua perfeição moral original”.
A sua natureza intelectual e moral constitui a sua imagem natural.
A sua perfeição moral original constitui a sua imagem espiritual. João Calvino afirmou que “a sede da imagem no homem é a alma, ainda que alguns raios dela brilhem igualmente no corpo”. Significa que, a imagem de Deus no homem, representa “a integridade original do homem, a sua unidade, a sua justiça e a sua rectidão”. Essa imagem “se estende a tudo o que há no homem e que excede a de todas as demais espécies de animais”. Esta imagem diferencia o homem de qualquer outra espécie do mundo animal – o seu aspecto espiritual.

Qual é, então, o significado da imagem com que o homem foi criado no princípio? O que significa essa semelhança de Deus em nós?
Antes de mais, ela refere-se à alma ou ao espírito, isto é, à nossa espiritualidade. Trata-se da nossa “invisibilidade” espiritual.
Em certo sentido, a essência do nosso ser é invisível. Ninguém é capaz de ver o que somos em termos do nosso ser essencial, nem nós próprios. A nossa percepção de nós próprios é deficiente pelo facto de que a nossa personalidade, o nosso ser essencial, é invisível, tal como a Pessoa de Deus (João 1:18). A nossa alma ou espírito é invisível.
Em segundo lugar, a imagem de Deus em nós refere-se à nossa “imortalidade”. Com imortalidade queremos dizer que a nossa alma (ou espírito) continua activa e consciente, mesmo depois da experiência da morte física. Nem mesmo a sua “morte” espiritual significa extinção ou inexistência. Significa, apenas, separação da presença graciosa do Deus que é a fonte da verdadeira vida.
De certa forma, por termos sido criados à imagem de Deus (como no início), fomos capacitados a viver por um tempo indeterminado.

Para além da invisibilidade e da imortalidade, a imagem refere-se às nossas capacidades e faculdades psicológicas (da alma). Aqui o interesse está em fenómenos psicológicos e não psíquicos.
Somos seres racionais e morais; quer dizer que possuímos intelecto e temos a capacidade de pensar; possuímos vontade e podemos desejar. A nossa capacidade de pensar e de desejar condiciona-nos a raciocinar, pensar, meditar e a desejar o que é eterno, ou seja, Deus (Eclesiastes 3:11).

Como imagem de Deus, também possuímos “auto consciência”. Temos consciência de nós mesmos. Possuímos auto consciência e reconhecemos a nossa incapacidade de fugir da nossa própria pessoa, do nosso próprio “eu”. De forma geral, como imagem de Deus, possuímos a “capacidade para a auto contemplação e de análise. Podemos nos contemplar a nós próprios e fazer uma auto análise. E quantas vezes não queremos exercer essa capacidade, chegando mesmo ao ponto de detestarmos o facto de sermos possuidores da mesma!
Outra característica da imagem de Deus no homem é a sua integridade intelectual e moral, que se revela no conhecimento, na justiça e na santidade. Esta realidade faz parte do ser humano, visto que ele foi criado intelectual e moralmente “de tal forma que havia uma espécie de integridade nele, sem falsidade, sem imperfeição e sem erro”. Havia nele rectidão, justiça e verdade. Ele foi preparado para ser íntegro moral e intelectualmente (Efésios 4: 24).

Textos de apoio: (Génesis 1: 26, 27; Génesis 5: 1,3; Génesis 9:6; Tiago 3:9; Efésios 4:24; Colossenses 3:10)

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul, Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd, Teologia Sistemática de Wayne Gruden, Comentário de Génesis de Derek Kidner e A Terra…De Onde Veio de John C. Whitcomb)

RECAPITULAÇÃO DOS ESTUDOS JÁ REALIZADOS

  1. A Revelação
    Revelação Geral e a Especial (sol, Lua, chuva, mar e milagres, aparições, sinais, prodígios, sonhos, visões, inspiração da Bíblia e a revelação em Cristo).
    A Bíblia e a Revelação especial. A Sua autoridade assenta-se na sua origem e na sua inspiração. Na Bíblia encontramos doutrinas fundamentais em matéria de piedade, de fé e de conduta (isto é, do comportamento correcto e de acordo com o padrão divino).
    A Bíblia não é uma história geral do mundo. Exemplo, só em Génesis, Ela acumula cerca de 2 mil anos em apenas 11 capítulos.
    Em sua essência a Bíblia é a grande História da Redenção.
    Deus revelou-se por ser Bom e misericordioso (Actos 14: 15 – 17). Ele quis, de um modo gracioso, revelar-se, isto é, dar-se a conhecer.
  2. A Existência de Deus
    Vimos que Ele é Soberano demais para ser contido na mente humana limitada (Romanos 11:33). A Bíblia não argumenta sobre a existência de Deus. Parte do princípio que a Sua existência é real. Não entra em questões cosmológicas, teleológicas ou morais da existência de Deus. O Conhecimento de Deus é resultado da fé (Hebreus 11:6). A seguir, reflectimos sobre a incompreensibilidade de Deus.
    Abordamos as qualidades (ou atributos) de Deus: Sua infinidade, espiritualidade, personalidade, unidade (trindade).
    Aprendemos sobre os Seus atributos: comunicáveis e incomunicáveis, pessoais e morais tais como: eternidade, imutabilidade, omnipresença, omnisciência, omnipotência, vontade (prescritiva, “decretativa” e permissiva), glória, santidade (distinção e pureza), justiça, bondade, graça, misericórdia, longanimidade, fidelidade, etc.

    Analisámos os nomes divinos que representam o Seu carácter: El (o primeiro), Elohim, Elion (sublime, exaltado), Adonai (soberano), Shadadai (poderoso), Jehováh (o Grande EU SOU, o Deus da aliança), Emanuel (emanu ‘el). Também Pai, Filho e Espírito Santo.

    Falámos acerca dos Decretos de Deus. Vimos que eles são eternos, cumprem-se sempre, são a expressão da Sua vontade, são incondicionais, soberanos e eficazes; são perfeitamente consistentes com a Sua natureza. Não negam a existência de agentes livres, mas concorrem com eles.
  3. Anjos
    Abordámos a doutrina dos anjos, como poderosas criaturas Deus (Colossenses 1:16), criados perfeitos no princípio. Alguns deles se rebelaram, sob a liderança de Lúcifer, e se tornaram inimigos de Deus e de tudo o que constitui o plano benéfico e redentor de Deus.
    Vimos que existem em número bastante grande e que são poderosos em seus feitos. Aparentemente são assexuais (Mateus 22: 29,30), são imortais (Lucas 20:36) e obedecem a uma hierarquia definida (em ambos os grupos – bons e maus); possuem liderança mais elevada (Miguel e Lúcifer) e estão empenhados naquilo que fazem.
    Os anjos bons estão envolvidos no plano da salvação dos homens: protegem (Salmo 91:10,11); orientam (Actos 8:26); animam (Actos 27: 23,24); livram (Actos 12: 7,8); acompanham os crentes na morte (Lucas 16:22,23), executam o juízo presente e futuro (Mateus 24:30,31; Actos 12: 23);
    Os maus são inimigos de Deus e dos homens, semeiam dor e escravizam o homem espiritual e moralmente, dominam os homens, apoderam-se deles, maltratando-os em termos físicos, mentais, morais e espirituais. São qualificados de inimigos, adversários, mentirosos, enganadores, acusadores, caluniadores, etc.
  4. Criação
    Falámos da criação do mundo (Colossenses 1:17; Actos 17: 24-28; Hebreus 11:3). Enfatizámos de que Deus criou tudo do nada. Que o Pai, o Filho e o Espírito participaram na criação inicial.
    Aprendemos que nada provém do nada (um princípio científico); tudo o que existe teve origem numa causa última, que não se criou.
    Abordámos ligeiramente a Teoria da Evolução (incluindo o evolucionismo teísta) e as suas contradições.
    Falámos da criação do Homem (Actos 17:26), como algo singular, criado à imagem de Deus e conforme a Sua semelhança. Falámos bendita providência divina.

Pastor Samuel Quimputo

A CRIAÇÃO DO HOMEM

Seguindo a ordem cronológica e teológica das doutrinas bíblicas, fundamentais para a fé cristã, chegamos, neste momento, àquela que ocupa uma grande parte do relato bíblico: a doutrina do Homem. A particular importância desta doutrina prende-se com o facto de que, ela ocupa um lugar especial na abordagem que se faz dela nas Escrituras. Com certeza, “as Escrituras foram-nos dadas a fim de podermos chegar a um conhecimento da verdade concernente a nós mesmos e à nossa relação com Deus”.
Portanto, é de extrema importância começarmos com o que a Bíblia diz sobre a origem da raça humana.
Quando lemos o relato no primeiro capítulo de Génesis (complementando-o com o segundo), o próprio relato faz transparecer a impressão óbvia de que algo especial aconteceu; algo singular, distinto e marcante em sua especificidade.
A criação do Homem é enfatizada pela seguinte afirmação: “Disse Deus, façamos o Homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Génesis 1:26). Enquanto que no resto do processo da criação vegetal e animal o feito tenha sido coroado com a distintiva frase “segundo a sua espécie” (vs. 11, 12, 21, 24, 25), aqui, na criação do homem, todo o discurso é inovador. As três pessoas da santíssima trindade unem-se, numa espécie de conselho, para determinar a singularidade e a personalidade daquela criatura, cuja existência estava prestes a ser concretizada.
É forçoso demais concluir que a expressão “façamos” seja, apenas uma forma de um género de plural majestoso, com frequência usado por personagens reais, quando se expressam, dizendo “nós” em vez de “eu”. Esta forma de expressão não encontra apoio nas Escrituras. Muito menos pode ser visto como uma consulta de Deus feita aos anjos. Também essa tentativa de interpretação não encontra nenhum apoio bíblico. Desde os primórdios da fé bíblica (ou cristã), tem havido uma acentuada concordância no sentido de ver na expressão “façamos” uma alusão ao acordo entre Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo. Este aspecto específico e singular não é evidenciado em relação ao resto da criação, embora a obra da criação tenha sido sempre da competência do Deus Triúno.
O Homem, portanto, foi criado à imagem de Deus, conforme a Sua semelhança.
Em seguida, somos informados em Génesis 2:7 que o Homem foi formado do pó da terra (que constituiu o seu corpo), e que depois, o Senhor “soprou em seus narizes o fôlego da vida; e, então, o Homem foi feito uma alma vivente”. Embora os outros animais fossem criados do pó da terra, tal como o Homem (Génesis 2:19), há, no entanto, uma diferença essencial quanto ao modo como ele veio a ser uma alma vivente.
O Homem é caracterizado, essencialmente, pela “consciência própria; liberdade moral; capacidades de pensamentos abstractos e capacidades de exercício da religião e de culto”. Estas características são peculiares ao ser humano, distinguindo-o dos outros animais, mesmo os tipos mais excelentes e mais desenvolvidos.
Se o Homem evoluiu (como afirma a teoria da evolução), e sempre num processo ascendente, partindo do primitivo e do simples para o mais complexo, altamente organizado e desenvolvido, movendo-se em direcção à perfeição, como “encaixar” a doutrina bíblica da queda? A Bíblia afirma que o Homem começou no “topo” e que, depois, caiu de lá e não o contrário. Ela ensina a doutrina da Queda logo no início da existência humana. Esta doutrina é uma parte vital da doutrina bíblica da salvação. Todo o ensino bíblico acerca da salvação repousa sobre a premissa de que o homem criado perfeito, caiu e se tornou imperfeito, ao contrário do que é ensinado pela teoria da evolução (mesmo do ainda mais incoerente evolucionismo teísta).
A negação do ensino bíblico da Criação do homem, como ser especial, coloca sérios problemas, relativamente à doutrina da salvação. Mesmo o chamado evolucionismo teísta não responde às questões básicas da antropologia bíblica.
A Bíblia afirma a unidade da raça humana. Toda a humanidade veio de Adão e Eva. O Novo Testamento corrobora com a narração de Génesis em várias passagens, incluindo as afirmações do Senhor Jesus (Mateus 19:4, 5). Os apóstolos criam na criação espontânea do ser humano e no relato histórico de Génesis (Romanos 5: 12 – 19; 1 Coríntios 11: 8 – 12; 2 Coríntios 11: 3; 1 Timóteo 2: 13, 14).
Experiências científicas na área da genética têm vindo a provar a unidade da raça humana, confirmando a História das migrações dos povos, com tradições comuns (queda, dilúvio) e evidências filológicas.

Textos de apoio: (Génesis 1: 26, 27; Génesis 11: 1-9; Deuteronómio 32:8; Actos 17: 26; Romanos 5)

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul, Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd, Teologia Sistemática de Wayne Gruden, Comentário de Génesis de Derek Kidner e A Terra…De Onde Veio de John C. Whitcomb)

A PROVIDÊNCIA DIVINA

A doutrina da Providência divina está intimamente ligada a da Criação. Ela procura enfatizar a questão da sustentabilidade de tudo o que foi criado por Deus. Por outras palavras, a doutrina da providência ensina que o Universo não só teve a sua origem em Deus, mas também depende dele para a continuação da sua existência.
A providência significa que Deus governa a Sua criação “com absoluta soberania e autoridade”.
Segundo o ensino das Escrituras, os conceitos de fortuna, destino ou sorte não são sustentáveis, visto que a fortuna é cega, o destino é impessoal e a sorte é muda. Não existem forças cegas e impessoais a operar na história humana. Tudo funciona por meio da mão invisível da providência de Deus. Isso significa que num mundo governado por Deus não existem eventos casuais. O acaso não existe.
Esta doutrina da Providência divina é das mais relevantes numa sociedade como a nossa, dominada por uma filosofia marcadamente naturalista. Ela tem sido a pedra de tropeço para muitas pessoas que não possuem a fé cristã. Duvidam da existência de um Deus de amor e Todo-poderoso, num mundo confuso, cheio de maldade e de desequilíbrios profundos.
O panteísmo (a crença de tudo o que existe é parte de Deus) e o deísmo negam a doutrina da providência divina, visto que para o primeiro, Deus não está fora do que existe e para o segundo, Deus não intervém, actualmente, na Sua própria criação. Permanece inactivo perante o desenrolar dos acontecimentos, ao longo dos séculos.
Contudo, a Bíblia afirma e assevera que Deus está no controle de todas as coisas (Salmo 104; Salmo 103:19). Tal como o piloto de um navio (e não como um relojoeiro), Deus sustenta e coordena o funcionamento de tudo o que acontece no Universo.
A Bíblia apresenta evidências inegáveis da providência divina:
- As profecias que predizem o que vai acontecer, o modo como será feito e a garantia da sua concretização, são provas da actividade e da intervenção divinas;
- As Orações feitas, na esperança de que serão atendidas pelo Criador, não fariam qualquer sentido se a doutrina da providência divina não fosse verdadeira;
- Os milagres são, de certa forma, alguns dos aspectos da evidência da intervenção de Deus na Sua própria criação;
A Providência pode ser definida como “o exercício contínuo da energia divina, por meio da qual o Criador sustente todas as Suas criaturas, é operante em tudo o que ocorre no mundo, e dirige todas as coisas ao seu destinado fim”. (Martin Lloyd-Jones). Ou, como a Confissão de Fé de Westminster (séc. XVII), diz: “Pela mui sábia providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável conselho da sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória da sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as criaturas, todas as acções delas e todas as coisas, desde a maior até ao menor” (Cap. VI, cit. de R.C. Sproul).

A Providência divina envolve três aspectos importantes:
1º - Preservação – a continuidade da “obra de Deus por meio da qual sustenta as coisas que criou, em conjunto com as propriedades e energias com que Ele as dotou”; significa que Ele conserva tudo na sua existência (Salmo 104: 28-30; Actos 17:28; Colossenses 1:17; Hebreus 1:3).

2º - Governo – a “actividade contínua de Deus por meio da qual Ele conduz todas as coisas para um fim e um objectivo definidos,...a fim de assegurar a consumação do Seu próprio propósito divino” (Salmo 97:1; 103:19; Isaías 40:15; Daniel 4: 34,35).

3º - Concorrência - quer dizer “a cooperação de Deus e Seu divino poder com todos os poderes subordinados segundo as leis preestabelecidas da sua operação, levando-as a agir precisamente como fazem”. Aqui encontra-se a totalidade da ideia da relação das causas secundárias com a suprema ordenança de Deus. Ele opera nas e através das causas secundárias, usando-as, ordenando-as e manipulando-as como quer (Jó 12:24; Salmo 104:20, 21 e 30; Amós 3: 6; Mateus 5:45; 6:26; 10:29; Gálatas 1:15,16).

Textos de apoio: Jó 38: 1-41:34; Daniel 4: 34,35; Actos 2: 22-24; Romanos 11: 33-36

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul, Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd, Teologia Sistemática de Wayne Gruden, Comentário de Génesis de Derek Kidner e A Terra…De Onde Veio de John C. Whitcomb).
Pastor Samuel Quimputo

A criação do Mundo

Já vimos, num dos estudos, que o ensino da Bíblia, relativamente ao que existe hoje, é que tudo foi criado por Deus (Hebreus 11:3), a partir do nada ou seja, tudo veio à existência pela Palavra criadora de Deus (João 1:3; Colossenses 1: 16) e continua a ser sustentado por Ele (Colossenses 1: 17).
A Criação divina pode ser definida como “aquele acto soberano de Deus por meio do qual Ele... no princípio trouxe à existência o universo visível e invisível, sem o uso de materiais preexistentes, e assim imprimir-lhe uma existência distinta da Sua (de Deus) e, contudo, sempre dependente dEle” (L. Berkhof). Esta é uma definição interessante do que significa criação ex nihilo, isto é, do nada, visto que “a partir do nada, nada procede” (do lat. ex nihilo nihil fit).
A Bíblia não fornece uma razão para a criação. Deus não criou o mundo por sentir uma necessidade de o fazer. Simplesmente decidiu criar tudo de acordo com a Sua soberana vontade e para a Sua glória. O que sabemos é que, toda a complexidade e a beleza da Criação de Deus, apontam para a grandeza e para a incomparável sabedoria do Criador.
Há quem creia que a matéria é inerentemente eterna; outros há, porém, que crêem numa geração espontânea da matéria, bem como em seu desenvolvimento espontâneo. Há, ainda, os que pensam que Deus simplesmente deu forma à matéria já existente, ou que a matéria é apenas uma emanação da substância divina. O panteísmo ensina que a matéria é apenas uma forma de Deus, isto é, que ela é Deus. Existe também o dualismo que afirma que Deus e a matéria são ambos eternos.
A primeira questão que surge com frequência, quanto ao relato bíblico de Génesis, é se existem dois relatos da criação na Bíblia – um em Génesis 1 e outro em Génesis 2:4. A resposta deve ser negativa. Em Génesis 2:4 o relato não é da criação. Este é um estilo próprio do hebraico que especifica e desenvolve o relato inicial da criação do homem, num típico hebraísmo, como o encontrado em Génesis 5:1: “Este é o livro das gerações...”
A criação é obra do Deus Triuno (Génesis 1:2; Isaías 40:13; João 1:3; I Coríntios 8:6; Colossenses 1:16).
A segunda questão é a seguinte: se tudo começou “no princípio”, isto é, envolvendo tempo, o que é que houve antes desse princípio?
Para uma boa compreensão, é preciso ter em conta as palavras que são usadas na Bíblia com referência à Criação. Embora possam ser intercambiáveis, a sua diferenciação pode ajudar-nos a distinguir os seus vários signifiados.
1ª “bará” – esta palavra significa chamar à existência sem o uso de material preexistente. É usada apenas três vezes em Génesis, capítulo 1, e somente em relação à actividade de Deus no Velho Testamento. Bará jamais é usada em conexão com material existente e descreve sempre a actividade divina (Génesis 1: 1, 21, 27).
2ª “asah” – esta palavra significa dispor do material existente, usada para descrever a obra da maioria dos dias da Criação (Génesis 1:7, 16,25, 26, 31).
3ª “yatsar” – que significa modelar o material já existente. Ela é usada em Génesis 2:7.

Qual é, então, a relação existente entre o 1º e o 2º versículos de Génesis? Qual é a interpretação deles? Tem havido duas respostas principais. Uma delas é que esses versículos descrevem dois estágios de um longo processo; enquanto que a outra diz que houve um intervalo entre os dois versículos. O segundo ponto de vista afirma que o versículo 1 fala da criação original do céu e da terra, provavelmente com Satanás e anjos habitando nele. Depois veio uma calamidade e uma destruição, em consequência da queda dos anjos; portanto, o versículo 2 descreve a obra da reconstituição e da reconstrução do caos provocado.
Há, subjectivamente, dois pontos de vantagem quanto à 2ª interpretação, visto que as palavras “sem forma e vazia” pressupõem devastação e destruição. Esse é o significado em Isaías 24:1 e em Jeremias 4:23.
Contudo, quanto ao que realmente ocorreu, devemos restringir-nos ao que está relatado na Bíblia. Ainda mais porque as expressões usadas em Génesis (sem forma e vazia, do heb. towú wabohú) não exigem, necessariamente, um estado de caos e de destruição, como no caso de Isaías e Jeremias.
A luz do primeiro dia deve ser entendido como sendo o “éter” luminoso ou a “electricidade”, já que o sol é o condutor da luz.
No segundo dia, a palavra “sobre” refere-se às nuvens; enquanto que o “firmamento”, significa expansão.
No terceiro dia, houve separação entre o mar e a terra seca, e o reino vegetal de plantas e árvores veio a existir, em três tipos: relva, ervas, vegetais e grãos. Árvores frutíferas – todas “segundo a sua espécie”.
O versículo 12 mostra que as espécies são distintas e não se evoluem umas das outras.
A doutrina da Criação é de extrema importância quanto ao fundamento da fé cristã. Ela prepara o “terreno” para a compreensão da realidade em que vivemos e nos movemos, e responde às inúmeras questões da nossa existência e da forma como nos relacionamos, como sociedade. Explica a causa das nossas crises existenciais e dos nossos conflitos no que diz respeito ao propósito da nossa presença neste mundo.
O relato bíblico da história da criação, na sua forma condensada e bem elaborada, procura, em termos gerais, servir de guia e baluarte contra a sucessão de erros, tais como: o politeísmo, o dualismo, a eternidade da matéria, a inerência do mal na matéria, a astrologia. Também, serve de protecção contra toda a tendência (cada vez mais popular) de esvaziar de sentido da verdadeira História do Homem.
Uma das questões que tem suscitado calorosas discussões, mesmo entre aqueles que crêem na Bíblia como Palavra de Deus, é a que diz respeito ao significado dos dias da criação, mencionados no relato de Génesis 1.
À parte das posições intermédias, dois pontos de vista têm sido defendidas. O primeiro defende que o termo “dia” significa um dia de 24 horas. O segundo afirma que “dia” significa um extenso período de tempo. Dos dois lados existem defensores piedosos que tudo fazem para entender, com honestidade, o verdadeiro significado da mensagem.
A favor do segundo ponto de vista está o facto de que, na Bíblia, a palavra traduzida, em Génesis 1, por “dia” nem sempre significa um dia de 24 horas. Nos versículos 5, 16 e 18, de Génesis 1, o termo refere-se às horas diurnas, enquanto que nos versículos 5, 8 e 13, significa luz e trevas. Em Génesis 2: 4, significa o sexto dia da criação.
Há passagens na Bíblia onde a palavra “dia” significa um período de tempo, tais como: Salmo 90: 4; Isaías 4:2; 13: 6; Jeremias 51: 2; Joel 3:14. Em 2 Pedro 3: 8 a ideia não é de enfatizar o “dia” em si, mas a de contrastar o tempo com a eternidade. A ênfase recai na aparente demora da parte de Deus em executar as suas promessas.
Por outro lado, a favor do dia de 24 está, antes de tudo, o facto de que este é o primeiro significado da palavra hebraica. Em segundo lugar, há expressão sequencial “tarde e manhã” ao longo de todo o capítulo 1. É difícil a explicação de tal expressão, caso o “dia” fosse algo indeterminado. Ainda, com base na interpretação do “dia” como sendo um “estágio”, como classificar o longo período de “tardes” e “manhãs”? O que estaria a acontecer nesse período de milhões de anos? Como poderia (mesmo em termos científicos) existir vida (vegetal e animal) durante esse período extenso de milhões de anos de trevas e de ausência de luz? Ou ainda, se os últimos três “dias” foram determinados pelo sol (que separa dia e noite), como dilatar o período entre ambos? Isso só seria possível se crêssemos que os 3 primeiros dias significam longos períodos de tempo, e que os 3 últimos significam dias de 24 horas. Mesmo assim, esta conclusão não encontra apoio no contexto da passagem em causa.
Uma outra dificuldade encontra-se na aplicação feita em Êxodo 20: 8, 11; cf. 31:17, onde o sábado a ser gozado pelo homem encontra a sua base e exemplo no “dia” em que o Senhor descansou da Sua obra inicial (Génesis 2:3). Como se pode aplicar um período de tempo de milhões de anos a pessoas que só vivem, no máximo, cerca de cem anos?
Embora “sábado” (cessação; descanso) não seja um conceito limitado pelo dia (de 24 h, ex. Levítico 25:4), quando ligado ao “dia” resume-se ao descanso diário de 24h.
Embora a nossa tendência, nos dias actuais, seja a de aceitar, cegamente, todas as propostas que nos são feitas, em nome da Ciência, sem análise crítica, convém afirmar, nesta altura, que “todo esforço para modificar a subitaneidade e sobrenaturalidade dos eventos da criação, a fim de torná-los mais aceitáveis para a ‘mentalidade moderna’, acabam por resultar somente na minimização e obscurecimento dos verdadeiros atributos do Deus da criação” (John C. Whitcomb).
Concluímos, assim, que não há provas bíblicas, na passagem de Génesis 1, que nos leve (em nome da ciência) a descartar a interpretação dos “dias” do capítulo 1 como compostos, cada um, de 24 horas. A Bíblia não é um livro escrito com um propósito científico. Contudo, ela não é anti-científica. A sua linguagem simples e de observação dos fenómenos é coerente, contendo, mesmo, elementos da mais avançada ciência (Jó 26:7; Actos 17:26).



(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul, Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd, Teologia Sistemática de Wayne Gruden, Comentário de Génesis de Derek Kidner e A Terra…De Onde Veio de John C. Whitcomb).

A Doutrina dos anjos: O Diabo e os Anjos Apóstatas

Continuamos o nosso estudo acerca dos Anjos, estes seres magníficos, criados por Deus para o Seu próprio louvor e para a participação destes na vida dos Homens e na História de toda a criação.
Felizmente, o estudo acerca dos anjos eleitos (santos) não esgota a revelação bíblica, no que diz respeito aos seres angelicais existentes.
Se por um lado, como já estudamos, existem os anjos que nos ajudam e cuidam de nós, por outro existem os que são mencionados como sendo os nossos maiores inimigos. Estes agem contra nós e com todas as suas forças procuram prejudicar-nos e afastar-nos de Deus.
É completamente impossível entendermos a história humana sem considerar o que a Bíblia nos relata acerca destes anjos apóstatas e perversos. Infelizmente, é cada vez mais crescente a negligência (ou até descrença) na mente de muitos da existência de seres espirituais, tais como o diabo e seus anjos.
A realidade da apatia espiritual e das constantes derrotas no campo da espiritualidade pessoal e colectiva, no seio do cristianismo actual, deve-se, em grande medida, ao desprezo deliberado acerca do que o Senhor diz na Sua bendita Palavra, relativamente à presença e à actividade das forças demoníacas e a sua influência maléfica na vida dos seres humanos.
A Bíblia refere-se ao diabo do princípio ao fim, do Génesis ao Apocalipse. Por esta razão, podemos afirmar, com toda a certeza, que o facto de não levarmos a sério da doutrina bíblica sobre o diabo e seus aliados, é um mau serviço que prestamos a nós próprios e a todos aqueles que, por se encontrarem cegos e dominados por Satanás, rejeitam a mensagem da salvação que lhes é pregada.
A Bíblia deixa bem claro que, assim como existe uma realidade física, existe também outra de carácter espiritual, com os seus agentes potencialmente activos.
1. Nomes
Ele é referido como “satanás” (isto é, adversário); também como o “diabo” (ou seja, caluniador); ele é ainda descrito como “Belzebu” (o principal dos demónios); é chamado, também de “Apolion” (isto é, destruidor, Apocalipse 9:11); como “o anjo do abismo insondável”; “príncipe deste mundo”; “o deus deste mundo” (2 Coríntios 4:4). A outra designação mais significativa é a do “maligno”, que demonstra o seu carácter imundo (Mateus 6:13; João 17:15; I João 5:19); ele é ainda descrito como o “adversário, isto é, aquele que nos resiste” (Zacarias 3:1; Daniel 10: 13; Lucas 22: 31; I Tessalonicenses 2:18).
2. Natureza e personalidade
A Bíblia diz-nos que o diabo é uma criatura de Deus (Isaías 14; Ezequiel 28; 11-19). Tudo indica que, entre os seres criados, ele era o mais elevado de todos.É evidente no relato bíblico que o diabo é uma pessoa, isto é, possui personalidade e faculdades que o qualificam como um ser consciente, inteligente e possuidor de vontade própria.Há uma tendência para se negar a verdade bíblica que afirma que o diabo é uma pessoa. Contudo, as evidências das Escrituras confirmam, claramente, que Satanás é um ser pessoal que fala (ou dialoga), que faz sugestões e que procura enganar as pessoas (Lucas 4: 1-13). Ele é identificado como pessoa (Mateus 13:19; João 8: 44).
3. Os anjos apóstatas
O que se aplica ao diabo aplica-se igualmente àqueles anjos que com ele se rebelaram. Estes são descritos como “demónios” (Mateus 8:31), seres espirituais hostis a Deus); como “legião”, por serem numerosos.
A função destes anjos consiste em tentar os crentes, cegar os descrentes e boicotar o plano redentor de Deus, na tentativa e impedir (ou frustrar) o seu cumprimento cabal.É preciso salientar que, “independentemente do pecado que há em nós, bem como do mal inerente à nossa natureza, em resultado da Queda, somos confrontados por uma pessoa fora de nós que anda em nosso encalço, uma pessoa que tem um reino, do qual é a cabeça, o qual é altamente organizado e cuja grande preocupação consiste em destruir a obra de Deus”(Martin Lloyd-Jones) (Efésios 6:12).
4. Outras considerações:
Não sabemos da origem do mal que invadiu o coração de Lúcifer. Ele é ainda descrito como “leviatã” (Isaías 27:1); “leão que ruge” (I Pedro 5:8 e 2 Pedro 2: 10,11); “dragão”; “valente” (Lucas 11:21); “Opressor” (Actos 10:38; 2 Coríntios 12:7); “o deus deste mundo” (2 Coríntios 4:4); “homicida” que habita os lugares celestiais (Jó 1: 7, 12; 2:6).
Como conclusão, devemos sempre ter a consciência de que, apesar do seu poder, este é um poder limitado. E os que estão em Cristo podem resistir-lhe (Tiago 4:7; I João 4:4).A nossa dependência do poder libertador e protector do sangue de Jesus, derramado na cruz, é a garantia da nossa força para vencermos o maligno e as suas hostes.
(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul e Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).

Estudos sobre os anjos

Depois de reflectirmos sobre a doutrina dos Decretos eternos de Deus, isto é, do Seu projecto eterno sobre as Suas criaturas, revelando-nos o facto de que as acções de Deus não são casuais nem fortuitas, chegamos ao ponto de abordar o resultado prático (ou a execução) dos mesmos decretos. Isso leva-nos à doutrina da Criação.
Contudo, antes de falarmos de uma forma específica sobre o Universo criado, logicamente, devemos analisar a revelação bíblica, no que diz respeito aos seres criados, antes do nosso Universo, incluindo a parte habitável.
Como crentes em Cristo sabemos que a Bíblia é a revelação da divina vontade de Deus. Tudo o que nos foi revelado é (e deve ser) para a nossa aprendizagem (Deuteronómio 29:29).
É triste o facto de que, geralmente, muitos crentes não usufruem das grandes verdades reveladas nas Escrituras, para a sua edificação. Há uma grande tendência para a negligência de certas doutrinas bíblicas, o que resulta, necessariamente, na pobreza espiritual do próprio crente negligente, privando-se, desta forma, das bençãos provenientes do conhecimento e da aceitação destas doutrinas.
O estudo dos Anjos (naquilo que nos é dado a conhecer, na Palavra do Deus) é enriquecedor e estimulante quanto à visão da fé cristã e do cuidado que o nosso Senhor, na Sua multiforme graça, demonstra pelos Seus eleitos.
De uma forma resumida iremos conhecer algumas verdades acerca desses magníficos seres espirituais, activos e cooperantes com Deus e com os homens.
Tudo indica que, antes de criar o nosso mundo, Deus trouxe à existência seres inteligentes e celestiais a quem chamamos Anjos.

1. Etimologia e Natureza
O termo “anjo” significa “mensageiro” (do hebraico mal’ák e do grego ângelos). Os anjos são seres espirituais, cuja função principal é a de servir a Deus como mensageiros, para a execução de várias missões (Hebreus 1: 5, 13, 14).
Embora sejam seres espirituais, são seres criados. Não existiram desde a eternidade (Neemias 9:6; Salmo 148:2,5; Colossenses 1:16).
Embora sejam referidos como espíritos (1 Pedro 3:19), os anjos parecem possuir corpos espirituais (Génesis 18; Juízes 13) em suas manifestações (ou angelofanias).
Quanto ao seu género, mais uma vez, sem falarmos em termos dogmáticos, parece que os anjos são assexuados (Mateus 22:29,30). Eles são sempre referidos no masculino.
Outra verdade acerca dos anjos é que, eles não morrem e nem podem morrer; são imortais (Lucas 20:36; Hebreus 2:9).

2. O Seu Estatuto (status)
Quanto ao seu estatuto, os anjos são inferiores ao Filho, o Senhor Jesus Cristo, mas superiores ao Homem (Salmo 8). São magníficos e poderosos em força (Salmo 103:20).
Eles são mencionados como:
espíritos, principado, poder, potestade, domínio (Efésios 1:21), tanto para os bons quanto para os maus (Efésios 6: 12). Também são designados de santos (Lucas 9:26; eleitos (I Timóteo 5:21); ministradores (Hebreus 1:14).

3. Classificação
Parece evidente que existem graus diferentes entre os anjos.
Querubins (Génesis 3:24; Êxodo 25:22; Salmo 18: 10; Salmo 99:1; Ezequiel 10:1-22).
Serafins (Isaías 6:2-7) – anjos de contínua adoração diante de Deus.
Seres (ou criaturas) viventes (Ezequiel 1: 5-14; Apocalipse 4: 6-8).


4. Hierarquia
Miguel (arcanjo ou anjo principal) (Daniel 10: 13; Judas 9). Tudo indica ser ele o principal do exército angélico (I Tessalonicenses 4:16; Apocalipse 12:7,8).
Gabriel (Lucas 1: 19, 26,27).

5. A Sua Função (ocupação) é:
a) Adorar a Deus e ao Cordeiro (Mateus 18:10; Apocalipse 5);
b) Inspeccionar a questão da nossa salvação (Efésios 3:10; I Pedro 1:12);
c) Observar os crentes (I Coríntios 11:10);
d) Executar a vontade de Deus (Actos 7:53; Gálatas 3:19; Hebreus 2:2,3);
e) Revelar os propósitos de Deus (Génesis 18. à Abraão, Jacó; Gideão, Zacarias; José);
f) Participar (como instrumentos) na nossa salvação (Actos 10; Hebreus 1:14);
g) Proteger os crentes dos perigos (Salmo 91:10,11; Daniel 6:22);
h) Orientar e animar os crentes nos momentos difíceis (Actos 8:26; 27:23,24);
i) Trazer (ou proporcionar) libertação aos crentes (Actos 12: 7,8);
j) Acompanhar os crentes na morte (Lucas 16: 22,23); Que consolo!
k) Executar juízo contra os inimigos de Deus (Mateus 13: 40-42; 24: 30,31; 2Tessalonicenses 1:6-8).


(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul e Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden)