A PROFECIA E OS PROFETAS DE DEUS

(Deuteronómios 18: 28-32; 1 Reis 17: 1; 18:15; Joel 2: 28-32; Mateus 7: 15-20; Lucas 1: 67-80; Atos 2: 18)

Os profetas do Antigo Testamento foram pessoas que receberam uma chamada (no sentido de chamamento específico e único) de Deus. Com esta chamada, receberam, também, a mensagem a ser transmitida, de uma forma sobrenatural e pelo poder sobrenatural do Espírito Santo. Deus transmitiu a Sua Palavra através dos lábios e dos escritos dos profetas.
A profecia é, essencialmente, uma proclamação (pronunciamento, anúncio), embora envolva, também, a predição do futuro (preanúncio). Os profetas de Deus eram revestidos de poder pelo Espírito Santo, de modo que as suas palavras eram as palavras do próprio Deus (2 Pedro 1: 20,21). É por esta razão que as mensagens proféticas eram prefaciadas com a frase: “Assim diz o Senhor” ou “Ouvi a Palavra do Senhor!”.
Os profetas (em hebraico, nabhi’m) surgiram com o objectivo de reformar a religião de Israel. A sua missão era desafiar o povo de volta à adoração pura e à obediência a Deus. Eles não eram nem revolucionários nem anarquistas religiosos. A sua função era a de purificar e reformar o culto de Israel, levando o povo ao verdadeiro conhecimento do grande Jeová.
Outra característica dos profetas do Antigo Testamento era a sua acentuada preocupação em relação à justiça social e à integridade individual e sociocultural do povo. Eram, por assim dizer, a consciência do povo de Israel, agindo como promotores legais da aliança com Deus. Nesta função eles desafiavam e convidavam o povo ao verdadeiro arrependimento.
Os profetas eram chamados por Deus para serem os Seus porta-vozes.
Por outro lado, havia os falsos profetas que, em vez de transmitirem os oráculos divinos, transmitiam os seus próprios ideais, sonhos e opiniões, dizendo ao povo somente o que este queria ouvir. Contrariamente, os verdadeiros profetas eram frequente e severamente perseguidos e rejeitados pelos seus contemporâneos por se recusarem a comprometer a proclamação de todo o concelho de Deus.
De um modo geral, os livros proféticos são divididos em Profetas Maiores e em Profetas Menores. Essa distinção não se refere à maior ou menor importância dos profetas ou do conteúdo das profecias, mas ao volume dos seus escritos canónicos.
Os Chamados profetas maiores são: Isaías, Jeremias, Ezequiel, e Daniel. Os chamados profetas menores são: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
No Novo Testamento, embora encontremos referências acerca dos profetas, o ministério profético não ocupa um lugar de maior relevância como o era no Antigo Testamento.
Contudo, no início da era da Igreja (da nova aliança) houve profetas e profecias que assinalavam a plenitude dos tempos acerca da vinda de Cristo, o Messias de Deus, que viria da linhagem de Davi.
Os apóstolos do Novo Testamento possuíam muitas das características dos profetas do Antigo Testamento. A sua missão podia ser equiparado, em certa medida, à dos profetas de Israel.
Os apóstolos do Novo Testamento e os profetas do Antigo Testamento são constituem “o fundamento” sobre o qual a Igreja do Senhor seria edificada (Efésios 2: 20; 3:5; 4: 11-16).

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul e Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).

Texto: Samuel Quimputo

A BÍBLIA: A LEI DE DEUS

O Universo é uma diversidade de elementos ordenados, e que funciona de acordo com Leis (físicas e matemáticas) preestabelecidas.
A existência de Leis reporta à existência de um legislador: Deus.
Deus não está sujeito a nenhuma lei fora de Si mesmo, isto é, Ele não está limitado nem é obrigado a obedecê-la.
Deus age de acordo com o Seu próprio carácter moral. Esse carácter é moralmente perfeito e representa o padrão supremo da perfeição.
O Criador do Universo age de acordo com a Sua natureza, visto que a Sua natureza é perfeita. Ele é coerente e não arbitrário, extravagante ou caprichoso. Não se engana nem entra em contradição. Tudo o que faz fá-lo com bondade e justiça.
Por ser o Senhor e Criador (Dono) de tudo o que existe, Deus exige, para o nosso bem, que vivamos segundo a Sua Lei moral, revelada através da Bíblia.
Essa Lei é o padrão (modelo, referência) supremo de justiça e a norma suprema para se julgar o certo e o errado.

Algumas Leis na Bíblia baseiam-se directamente no carácter de Deus. Essas Leis reflectem os elementos transculturais e permanentes das relações divinas e humanas. Outras tais como: cuidados alimentares e práticas cerimoniais, foram planeadas de acordo com as condições temporais da sociedade. Embora sejam benéficas em si mesmas, essas leis circunscrevem-se a momentos específicos em que foram necessárias, funcionando como meios da provisão e do cuidado divinos.
Assim, podemos dizer que, algumas leis são absolutas e eternas, imutáveis em seus propósitos, enquanto que outras podem ser anuladas por Deus por razões históricas e culturais.
Contudo, somente Deus tem a autoridade para anular e anunciar qualquer norma legal temporário, visto que nós (seres humanos) não somos autónomos. Não podemos viver de acordo com as nossas próprias leis. (Êxodo 20: 1-17; Salmos 115; Mateus 5:17-20; Romanos 7: 7-25).
Seres humanos, imperfeitos e limitados, podem tentar elaborar leis para o melhor funcionamento nas suas relações interpessoais, mas com o passar de tempo, as mesmas se tornam ultrapassadas, obsoletas e muitas vezes contraditórias.
A Bíblia é, por excelência, a Lei divina dada aos homens para o seu bem-estar, em todas as dimensões da sua existência. Ela é inerrante em sua essência e em seus propósitos, tendo como alvo a sua realização holística (2 Timóteo 3: 16,17).


(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul e Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).

Pastor Samuel Quimputo

Estudo Biblicos

Sempre que utilizar estes estudos por favor divulgue a fonte. Obrigada
  1. Revelação geral
  2. A Bíblia: a lei de Deus
  3. A profecia e os profetas de Deus
  4. O Cânon das Escrituras
  5. A interpretação da Bíblia
  6. A interpretação pessoal
  7. A natureza e os atributos de Deus
  8. A Triunidade de Deus
  9. A auto-existência de Deus
  10. A omnipotência de Deus
  11. A omnipresença de Deus
  12. A omnisciência de Deus
  13. A Santidade de Deus
  14. A justiça de Deus
  15. A bondade de Deus
  16. Os decretos eternos de Deus
  17. A criação
  18. Estudos sobre os anjos
  19. A doutrina dos anjos. O diabo e os anjos apóstatas
  20. A criação do mundo
  21. A providência
  22. A criação do Homem
  23. Recapitulação dos estudos já realizados sobre doutrinas fundamentais da fé cristã
  24. A imagem de Deus no Homem
  25. A Doutrina da Queda do Homem
  26. A posteridade e o pecado original
  27. A redenção: o eterno plano de Deus
  28. A redenção: o eterno plano de Deus (continuação)
  29. O pacto da graça no velho testamento
  30. O pacto da graça no novo testamento
  31. A pessoa do Senhor Jesus Cristo
  32. A doutrina da Encarnação
  33. A deidade e a humanidade de Cristo
  34. Deus-Homem: a doutrina
  35. Os ofícios do Senhor JesusCristo - o Profeta
  36. Os ofícios do Senhor JesusCristo - o Sacerdote
  37. O ministério sacerdotal do Senhor Jesus
  38. A expiação
  39. A morte expiatória do Senhor Jesus
  40. A expiação substitutiva
  41. O Cristo vitorioso
  42. O Cristo rei
  43. Arrependimento: uma mudança profunda
  44. A certeza da fé
  45. A justificação pela fé

REVELAÇÃO GERAL

A Revelação geral, confirmada pela Bíblia, não deve ser confundida com o conceito pagão do panteísmo. O panteísmo é a crença de que Deus é tudo o que existe, ou seja, Ele não é uma entidade pessoal que existe fora (ou para além) da Sua própria criação mas sim, o conjunto de tudo o que existe.
Quando a Bíblia fala na Revelação geral, ela se refere a magnífica beleza e ordem apresentada pelos elementos criados, e que apontam para o Criador, a causa de todas as causas.
A criação não deve ser confundida com o Criador. A sua função é revelar, destacar e despertar admiração no que diz respeito ao saber criador de Deus.

Dentro da Revelação Geram, identificam-se duas categorias:
1. Revelação Geral Imediata
O termo imediato, de origem latina (immediatu-) significa que algo acontece sem passar por nenhum agente, objecto ou meio intermediários. Uma acção imediata é aquela que ocorre sem a participação de intermediários.
Neste sentido, podemos afirmar que todo o Universo é um meio de revelação divina, dando testemunho do seu Criador.
2. Revelação Geral Mediada
Além de revelar a sua glória indirectamente por meio da criação, Deus também se revela directamente (de modo mediato) à mente humana (Romanos 2: 12-16). Calvino chamou-o de um senso divino implantado na mente de cada pessoa, facto esse que explica a forte inclinação religiosa no âmago do ser humano. Essa voz interior (que pode ser levada ao extremo em forma de idolatria) pode ser abafada, mas jamais destruída.


(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul e Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden).

Pastor Samuel Quimputo

A INTERPRETAÇÃO PESSOAL

A Reforma protestante do Séc. XVI foi um marco de grande importância na História do Cristianismo. Foi um movimento de retorno às bases e aos fundamentos da fé cristã, ensinada pelo Senhor Jesus e pelos Seus incansáveis apóstolos.
A Reforma protestante deixou-nos dois legados de grande valor:
- O princípio da interpretação pessoal da Bíblia
- A tradução da Bíblia para a língua do povo.
Diante da Dieta de Worms (concílio no qual foi acusado de herege por causa dos seus ensinos) Lutero declarou:
“A menos que eu seja convencido pela Escritura, a minha consciência continuará cativa da Palavra de Deus – não aceito a autoridade de papas e concílios, porque se têm contraditado. Não posso nem quero retratar-me, porque ir contra a consciência não é certo nem seguro. Que Deus me ajude. Amém.”
Tanto a declaração de Lutero assim como a sua subsequente tradução da Bíblia para a sua língua vernácula, tiveram dois efeitos tremendos:
1º Tirou da Igreja Católica Romana o direito exclusivo de interpretação das Escrituras. O povo deixou de estar à mercê das doutrinas da Igreja, que impunha as suas tradições, fazendo com que os seus ensinos tivessem autoridade igual à da Palavra de Deus.
2º Colocou a interpretação da Palavra nas mãos do povo. Esta mudança foi mais problemática, levando aos mesmos excessos que caracterizavam a Igreja Católica, isto é, excessos de interpretações subjectivas do texto, cujas consequências foram o afastamento da sã doutrina bíblica e da fé cristã pura e simples.
O subjectivismo tem sido o grande perigo da interpretação pessoal das Escrituras. Por isso, convém dizer que o “princípio da interpretação pessoal não deve significar o direito de usar o texto bíblico de maneira que bem se entende”.
O ‘direito’ de interpretar as Escrituras traz consigo uma responsabilidade acrescida de interpretá-las correctamente, com reverência e santo temor.
Os crentes são livres de descobrir do verdadeiro sentido das Escrituras, aquele pretendido pelo autor original, mas não são livres para impor as suas próprias verdades, fazendo com que o texto diga o que se quer e não o que realmente pretende dizer.
O intérprete deve buscar compreender os sólidos princípios de interpretação, evitando, assim, os perigos do subjectivismo hermenêutico ou exegético.
A interpretação pessoal deve, sempre, levar em conta o significado objectivo das Escrituras, isto é, compreender o que a Palavra de Deus diz, no seu próprio contexto, antes de prosseguirmos para a tarefa igualmente necessária de aplicá-las à nossa vida.
Uma declaração particular pode ter inúmeras aplicações pessoais possíveis, contudo só pode ter um único significado correcto.
A interpretação pessoal da Bíblia não pode (nem deve) servir de pretexto para moldar o ensino das Escrituras ao sabor dos caprichos do intérprete. Como se diz “o texto fora do seu contexto é puro pretexto”.
O intérprete das Sagradas Escrituras deve cultivar uma honestidade mental e uma humildade espiritual, deixando que Elas falem ao seu coração, tendo a consciência de que o que elas afirmam é a Palavra do Senhor Todo-Poderoso.
A obediência e a busca humilde do poder orientador do Espírito Santo devem caracterizar a atitude e a vida do intérprete bíblico.

Textos de apoio: (Jó 38:1-41:34; Salmo 139:1-18; Isaías 55:8-9; Romanos 11: 33-36;
I Coríntios 2: 6–16)

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R. C. Sproul; Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones; Teologia Sistemática de George Eldon Ladd e Teologia Sistemática de Wayne Gruden)
Pastor Samuel Quimputo

A HUMANIDADE (OU POSTERIDADE) E O PECADO ORIGINAL

O problema humano não é, primariamente, ambiental; é sim, uma questão de natureza. Desde que os nossos primeiros pais pecaram, caindo do seu estado original de perfeição, a corrupção (deterioração moral e espiritual) tomou conta de toda a experiência da vida humana. A corrupção da sociedade é apenas o resultado da natureza pecaminosa de cada um dos seres humanos que vem a este mundo.
Os frutos pecaminosos evidenciados nos actos e nas atitudes dos seres humanos, são o resultado incontestável da “qualidade da árvore”, ou seja, do seu coração, do seu ser mais íntimo, que é essencialmente mau. E tudo isso porque os nossos originais ancestrais caíram em pecado.
A Queda “não é simplesmente uma questão de dedução racional. É uma parte da revelação divina” (R.C. Sproul). A doutrina da Queda do Homem é claramente ensinada nas Sagradas Escrituras.
O pecado original não se refere primariamente ao primeiro pecado cometido por Adão e Eva. Antes, refere-se ao resultado do primeiro pecado; refere-se ao início da corrupção da raça humana, à condição caída em que nascemos, antes mesmo de cometermos qualquer acto pecaminoso.
Por esta razão, não podemos perguntar: “Quando é que um ser humano se torna pecador?” A verdade bíblica afirma que o ser humano já vem à existência no estado de pecador (Salmo 51:5). Como descendente do primeiro Adão, o representante “federal” da raça humana, todo ser humano (excepto o Senhor Jesus) vem a este mundo com um natureza decaída, inclinada para o mal.
As consequências do pecado, como vimos, atingiram toda a criação, colocada sob a gerência do Homem. Por causa do pecado do seu “pai federativo”, a posteridade (ou descendência) humana ficou sujeita à corrupção (Romanos 5: 12- 14; 8: 20; I Cor. 15: 20-22). Assim, o pecado de Adão teve um efeito devastador sobre a sua posteridade, o que se traduz na evidente universalidade do pecado e da consequente morte, mesmo que alguns não o designem como tal. O facto é que todos são testemunhas da maldade proveniente do interior o ser humano, capaz de levá-lo a cometer actos contrários ao seu carácter moral.
Em maior ou menor proporção, a realidade dos efeitos do pecado em todos os homens é inegável, facto este que revela a desorientação moral e espiritual em que se encontram (Isaías 53: 6; Romanos 3: 10-12, 23, Tiago 3:2; I João 1: 8,10).
A realidade da universalidade do pecado leva-nos a indagar: Como é que pecado foi transmitido?
Em primeiro lugar, convém-nos lembrar que o pecado é um tipo de mal moral e ético. “É ausência de integridade, de autenticidade; é carência de rectidão, é o abandono do caminho designado” (M. Lloyd-Jones). É errar o alvo traçado por Deus, que é a Sua lei implantada na mente (isto é, no coração) do homem. Portanto, o pecado é também uma atitude de revolta e de rebeldia contra Deus; é uma recusa activa (positiva) de submissão à autoridade legal de Deus. “É a quebra deliberada de uma aliança” (M. Lloyd-Jones).
Ele envolve culpa, vaidade espiritual, perversão (ou distorção da natureza). O que significa que:
- O pecado é um tipo de mal (moral ou ético);
- O pecado possui um carácter absoluto (apropria-se do homem como um todo);
- O pecado é algo que se acha directamente relacionado com Deus, com a Sua vontade e a com
a Sua lei;
- O pecado é algo que está no coração dos homens e das mulheres, e não à superfície das
suas vidas; está no mais profundo do seu ser;
- O pecado não consiste apenas de acções, mas essencialmente é uma condição;
- O pecado é culpa e uma espécie de poluição.

Teorias de transmissão do pecado de Adão à Humanidade:

- A Teoria realística – Esta teoria afirma que a humanidade inteira estava em Adão; quando ele pecou e caiu, a natureza humana toda caiu com ele (com a base de que a alma é algo que herdamos dos nossos pais, uma espécie de identidade seminal; ex. Hebreus 7: 9, 10); Contudo, esta teoria tende a materializar a alma e entra num labirinto filosófico.
Uma outra dificuldade é o facto de que não somos responsabilizados por todos os pecados de Adão, e sim em apenas um (Romanos 5: 18),
- A Teoria do pacto – Por sua vez, esta teoria apoia o ponto de vista de que todos nós herdamos o pecado de Adão porque ele não é só o cabeça da raça humana, mas também porque Deus fez com ele um pacto, e designou-o como representante da raça. Segundo esta teoria, que tem muito a seu favor, Adão era uma espécie de representante federal da humanidade inteira. Portanto, tudo o que Adão fez teve consequências para todos que provieram dele.

Textos de apoio: Génesis 3: 1-24; Efésios 2: 1-3; 4: 17-19; I João 1:8-10

(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul, Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd, Teologia Sistemática de Wayne Gruden, Comentário de Génesis de Derek Kidner e A Terra…De Onde Veio de John C. Whitcomb).
Pastor Samuel Quimputo

A DOUTRINA DA QUEDA DO HOMEM

No nosso estudo anterior procurámos analisar, à luz da Bíblia, a doutrina do Homem, tal como foi criado por Deus, à Sua imagem e semelhança, e como foi colocado no Paraíso, numa relação de plena comunhão com o Senhor. Vimos que ele foi criado perfeito e em perfeito exercício das suas faculdades pessoais, e vivendo em pleno estado de felicidade, usufruindo da justiça, da rectidão, da moralidade e de um carácter correspondente ao de Deus. Tudo isso foi fruto da perfeita comunhão que partilhava com o Senhor, e da harmonia existente entre a vontade de Deus e a da Sua criação especial.
Contudo, quando contemplamos o Homem como ele é hoje, reconhecemos que algo difere do quadro traçado em Génesis, nos capítulos 1 e 2. Logo, surge uma pergunta inevitável: O que é que provocou tal mudança?
O estado e a condição moral e espiritual, juntamente com a sua degradação física e mental, são evidências claras de que algo inteiramente novo interferiu e afectou o estado e a condição iniciais.
Qual foi, então, o problema? O que é que aconteceu, de facto, para que o ser humano se tornasse tal e qual o conhecemos hoje?
A resposta bíblica é que, esse “algo” que mudou tudo é o Pecado. E sem a realidade do pecado é impossível compreendermos a profundidade das doutrinas tanto do Homem como da própria Salvação.

1. A Natureza do Pecado
O significado mais básico que a Bíblia atribui ao pecado é errar o alvo. Ainda, segundo a visão e o ensino bíblicos, o alvo que não foi atingido são as normas da Lei de Deus, que expressa a Sua justiça e representa o padrão supremo para o nosso comportamento. Quando falhamos em alcançar (ou cumprir) esse padrão, pecamos; erramos o alvo e ultrapassamos os limites estabelecidos pelo próprio Criador.
A outra realidade sobre a natureza do pecado é que, ele envolve uma atitude positiva de desobediência às orientações dadas e à vontade de Deus, assim como de desrespeito e de rebeldia em relação a própria pessoa de Deus.
No conceito do pecado existem duas dimensões cruciais:
A primeira é a dimensão da omissão, isto é, pecar é deixar de fazer o que Deus ordena, por livre e espontânea vontade ou da falta de conformidade com as normas justas de Deus.
A segunda é a dimensão da comissão, isto é, pecar é transgredir a lei estabelecida. Nesta dimensão, o pecador ultrapassa os limites estabelecidos e vai além. Pode-se dizer que, nesta dimensão, pecar é cometer a ilegalidade; é violar a lei estabelecida.
Várias teorias têm sido elaboradas na tentativa de explicar a incontornável situação do estado actual do homem e do mundo, em que nos encontramos. Entre elas destacam-se a teoria do dualismo. Esta teoria que remonta ao tempo antes da era cristã, afirma que existem dois princípios de vida igualmente grandes: o do bem e o do mal. Atesta esta teoria que o bem e o mal são de igual essência e são controlados por um deus que controla o bem, e pelo outro que controla o mal. Existem, porém, ramificações dentro dessa teoria.
A outra é a teoria da evolução, que afirma que afirma que o homem não passa de um animal que deu um “salto” no processo evolutivo, de tal modo que, o que testemunhamos na vida e no mundo nada mais é senão uma manifestação de certas qualidades e características que trazemos, como animais, que com “maturidade” intelectual e racional temos vindo a abandonar, tornando-nos mais humanos e menos irracionais.
Alguns são da opinião que o que a Bíblia chama de pecado não passa de uma espécie de resistência, isto é, de uma parte essencial da natureza humana, posta ali por Deus, a fim de que tenhamos “algo” que superar e que, ao superá-lo, possamos evoluir e nos desenvolvermos.
Outros, ainda, afirmam que o pecado é simplesmente a ausência de algumas qualidades positivas tais como: conhecimento e discernimento (por exemplo, em vez de dizermos que uma pessoa é má, temos que dizer que ela não é boa”).
Como podemos verificar, quando homens e mulheres são confrontados com a realidade do mal, há uma clara tendência para se evitar o conceito bíblico de pecado, como força activa e em profusa operação em cada aspecto da nossa vida.
O que nos convém fazer é, sem receio, voltarmos para o ensino das Escrituras e buscarmos o Seu ensino sobre a causa ou a origem da presente situação em o homem e o mundo se encontram. E para isso, o capítulo 3 de Génesis é fundamental.
A doutrina ensinada nas Escrituras acerca da origem do pecado, encontra a sua base do capítulo 3 de Génesis, e nos é apresentado como sendo um relato histórico, sem qualquer insinuação de uma pretensa alegoria. O relato deve ser aceite como um facto histórico, confirmado pelo Senhor Jesus e pelos inspirados apóstolos, cujo ensino serve de fundamento para a edificação da Igreja cristã (Efésios 2: 20).
A confirmação histórica do relato de Génesis encontra-se espalhada em todas as partes da Bíblia. Vejamos as seguintes passagens: Jó 31: 33; Oséias 6:7; Romanos 5: 12-21; 2 Coríntios 11:3; I Timóteo 2: 14, etc.
A tentativa subtil de considerar os primeiros 11 capítulos de Génesis como não históricos, mas como um conjunto de mitos, ou de considerar partes do seu relato não são históricos, é um confronto à autoridade das próprias Escrituras, que afirmam a historicidade desses relatos.
Fazer “jogos” de interpretação para tentar encaixar “verdades” científicas nos relatos bíblicos, leva, invariavelmente, à confusão exegética e à deturpação hermenêutica. O procedimento sábio é aquele que encara a Bíblia como um Livro que aborda questões de âmbito natural e sobrenatural.
Se o Deus em que cremos é Aquele que a Bíblia nos apresenta, se cremos na existência de seres sobrenaturais e espirituais, como Satanás e seus anjos, então, temos que esperar realidades sobrenaturais, que escapam a nossa capacidade de raciocínio e de compreensão.
Dito isto, podemos perguntar: quais são as verdades ensinadas no capítulo 3 de Génesis?

1º O mal, o pecado e a tentação vieram de fora; vieram de (e com) Satanás, fazendo uso da serpente. Isto quer dizer que, antes da queda, nada houve no próprio homem que tivesse produzido a queda; não houve nenhuma causa física ou mental. Ele possuía um perfeito livre arbítrio para decidir o que fazer com ele. O homem era perfeitamente equilibrado e todos os aspectos do seu ser.
Os passos foram os seguintes: a serpente atacou a mulher, e não o homem; ela começou por dar ouvidos às calúnias do diabo contra Deus; começou a ter dúvidas das palavras e do amor de Deus. Em seguida, começou a olhar aquilo que Deus havia proibido ao ponto de desejá-lo. Esse passo levou-a a um definitivo acto de desobediência. Deliberadamente ela quebrou o mandamento dado por Deus a ambos. Depois, partilhou o fruto com Adão e ambos caíram em transgressão, errando o alvo.
Diante disto, somos levados a fazer a seguinte pergunta: o que é que os fez agir dessa maneira? Honestamente, devemos afirmar que não sabemos. Contudo, podemos supor que “a constituição moral do homem – o ter sido feito à imagem de Deus e possuir livre arbítrio – de qualquer forma reteve a possibilidade da sua desobediência”. Para além desta possibilidade, é difícil encontrarmos uma resposta final.

2º O diabo insinuou dúvidas acerca do amor de Deus. Foi a recusa por parte de Adão e Eva de se submeterem à vontade de Deus e de O deixarem determinar o curso da sua vida. A sua escolha demonstrou o seu desejo de afastar Deus de suas vidas. Enfim, foi o desejo de se tornarem independentes do Criador. Foi o amor à criação (criatura) em substituição do amor ao Criador que os levou à ruína e ao desastre. A suposta liberdade transformou-se em escravidão e humilhação (I João 2: 15, 16). Aquele que se tinha apresentado como o melhor amigo de Adão e Eva, não passava do seu pior inimigo, determinado em destruir a harmonia que existia entre Deus e os pais da raça humana.
Concluímos, pois, que “o pecado só foi possível ao homem, no princípio, visto que ele possuía uma personalidade espiritual livre”. O pecado só se tornou possível, por causa da sua personalidade livre ou seja, por ser capaz de exercer o seu livre arbítrio.
Como resultado da queda:
1. Adão e Eva tomaram consciência da sua nudez (Génesis 3:7 vs. 2:25);
2. Tiveram sentimento de culpa (Génesis 3:8); perderam a sua comunhão com Deus;
3. Experimentaram a morte espiritual (Génesis 3:24);
4. Passaram a viver numa relação inteiramente nova com a natureza (Génesis 3: 17 -19);
5. Experimentaram uma perversão da sua natureza moral;
6. Experimentaram a morte física. A morte já não era uma possibilidade, mas sim, uma
realidade (Génesis 3:19 cf. Romanos 5:12).

Textos de apoio: Génesis 3: 1-21; Jeremias 17:9; Romanos 3:10 – 26; 5: 12-19; Tito 1: 15


(bases: Verdades Essenciais da Fé Cristã de R.C.Sproul, Grandes Doutrinas Bíblicas de Dr. Martyn Lloyd-Jones, Teologia Sistemática de George Eldon Ladd, Teologia Sistemática de Wayne Gruden, Comentário de Génesis de Derek Kidner e A Terra…De Onde Veio de John C. Whitcomb).

Pastor Samuel Quimputo